Dois infantis de Neil Gaiman

Neil Gaiman é daqueles autores que mesmo quando faz um trabalho apenas razoável, ainda assim vale a pena. Não que seja o caso destes seus 2 livros infantis, que trazem deliciosas histórias cheias de humor e imaginatividade, passando longe do didatismo chato de muita coisa pra criança que vemos por aí.
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The Day I Swapped My Dad for Two Goldfish [O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados] é uma história engraçada sobre um garoto que, ao ver os peixinhos que o amigo acabou de ganhar, sugere-lhe uma troca bem inusitada: os peixes pelo indiferente pai, que tudo que faz é ler o jornal. Apesar dos conselhos da sábia irmãzinha, o garoto realiza a troca, mas em seguida terá que percorrer um longo caminho para reaver o pai. O resgate na companhia da irmã é muito divertido pois a cada momento o pai já foi trocado por outra coisa. O garoto é o narrador, e a história é contada como se ele a tivesse escrito, com seu próprio estilo e sua própria letra. As ilustrações de McKean, como sempre, são ótimas, mas desta vez, bem simples, acompanhando o texto como uma história em quadrinhos feita pelo narrador.
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Já em The Wolves in the Walls [Os Lobos dentro das Paredes] McKean fez algo bem mais especial para ilustrar a atmosfera um tanto assustadora criada por Gaiman. Assustadora porque lida com os medos de Lucy, que num momento de silêncio em casa, começa a ouvir um barulho vindo das paredes e tem certeza de que são lobos. Sua mãe lhe diz que não, seu pai lhe diz que não, e até seu irmão lhe diz que não, e todos têm uma explicação sobre a impossibilidade de haver lobos nas paredes, já que, segundo eles, se um dia os lobos começarem a sair das paredes, tudo estará acabado. Lucy é uma adorável menina questionadora, que não aceita argumentos genéricos só porque todos têm uma teoria lógica sobre o assunto. Tanto é que tinha razão: os lobos acabam mesmo saindo das paredes e sua família passa a morar no jardim. Enquanto todos estão pensando pra onde deverão ir, Lucy planeja voltar pra casa e enfrentar seus medos.

Dos dois livros, somente este último foi lançado aqui no Brasil, mas o primeiro tem uma linguagem bem simples e com certeza pode ser lido por uma criança que estuda inglês, especialmente com a ajuda dos pais.

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The Maxx – Sam Kieth

Talvez poucas pessoas lembrem, mas em meados dos anos 90 a MTV brasileira colocou no ar uma série de animação baseada nos quadrinhos The Maxx, de Sam Kieth. O vídeo chegou a ser lançado em fita VHS aqui no Brasil e tenho a minha guardada até hoje como lembrança, assim como uma action figure do Maxx pela qual tenho o maior carinho. A série contava a história de Julie Winters, uma assistente social envolvida em um relacionamento complicado com o vagabundo Maxx.

Devido a um acontecimento trágico por que passou, Julie construiu inconscien-temente um mundo paralelo, baseado em suas memórias suprimidas de infância, formado por uma savana australiana com criaturas inusitadas, em que ela seria a Rainha Leopardo, senhora da selva. Maxx em ambos os mundos é seu protetor e animal-espírito, ainda que ele não controle onde estará a cada instante: num momento ele pode estar lutando na cidade para defendê-la, em outro repentinamente adentrar na savana, tendo que lidar com outros perigos.
Na cidade, Maxx enfrenta Mr. Gone, um vilão que ataca mulheres e comanda os Iszes, seres que tomam a forma humana para cometer crimes. Somente Gone sabe o significado dos dois mundos, o que há por trás da máscara de Maxx e o que aconteceu com Julie no passado. Cobrindo 11 números dos quadrinhos – lançados pela Image Comics e posteriormente pela DC Comics –, a série constitui um primeiro arco de histórias, focado em Julie. Mesmo com um final diferente, a animação é bem fiel, praticamente uma filmagem dos quadros de Sam Kieth.

Já o segundo arco (que fecha a história na edição #35) apresenta o mundo paralelo de Sarah, a típica adolescente rejeitada e rebelde, e vai trazendo histórias cada vez mais pesadas, especialmente quando Kieth passa a escrever sozinho. Ele mergulha fundo em algumas situações até incômodas de ler, afinal seus personagens são sempre pessoas que foram de alguma forma abandonadas ou abusadas. Se a história de Gone, por exemplo, não for algo perturbador, não imagino o que pode ser. Por conta disso, prefiro os números em que Kieth faz parceria com Bill Messner-Loebs, pois este parece ter sido responsável por amenizar um pouco o drama, com seus diálogos sempre muito espirituosos e até engraçados.

Apesar de Maxx ter uma atitude e aparência de super-herói, o personagem funciona também como ironia ao universo de músculos e super poderes das histórias em quadrinhos tradicionais. Kieth chega a parodiar certos clichês usados nas histórias de super-heróis, o que acaba funcionando como uma crítica à romantização da violência e da morte, mas ao mesmo tempo sem abdicar desses elementos, talvez com a intenção de trazer consciência para eles. Através de categorias da psicanálise, num universo de mitologia primitiva, The Maxx trata de assuntos sérios como o feminismo e a violência contra a mulher de uma maneira bem particular, quase absurda e ao mesmo tempo divertida. Tudo sob a visão de personagens desajustados e marginais, que estão buscando algum tipo de fuga da realidade, afinal quando o mundo lá fora se torna muito perigoso, tudo que lhes resta é o mundo interior.


*É possível encontrar as edições encadernadas em sites como Amazon e Book Depository. A série foi lançada em dvd em 2009 e é bem fácil de achar. Há um tempo fiz legendas para os arquivos de vídeo, caso alguém se interesse, eu posso enviá-las por e-mail.

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Alta Fidelidade – Nick Hornby

Sempre tive uma relação do tipo nunca-te-li-sempre-te-amei com os livros de Nick Hornby, e depois de ler Alta Fidelidade posso dizer que era bem o que eu esperava. O romance conta a história de Rob, um londrino de 35 anos, dono de uma loja de discos, que descreve sua complicada relação com as mulheres e com a música. Para se identificar com Rob você tem que ter pelo menos uma dessas 5 características:
a) ter nascido entre os anos 60 e 80;
b) conhecer um pouco de cultura pop britânica e americana;
c) gostar de música e ter possuído (ou possuir) discos de vinil;
d) ter chegado aos 30 e não ter uma vida adulta padrão;
e) ter passado por rejeições amorosas durante a vida.

Através de listas parecidas com essa, Rob vai enumerando tudo aquilo que é importante pra ele: músicas, filmes, livros e até relacionamentos que deram errado. São as rejeições, inclusive, que conduzem a narrativa, começando pelos 5 mais inesquecíveis fins de relacionamento por que já passou, numa escala que vai da namoradinha de infância ao grande amor vivido nos tempos de faculdade. Segundo ele, essas situações moldaram suas escolhas de vida e depois que Laura, sua atual namorada, resolve deixá-lo, ele vai então entrar em contato com cada uma dessas mulheres, para tentar entender o que deu errado.

A escrita de Hornby é simples e elegante, e sempre soa como as letras de canções pop às quais faz referência, algo como música em forma de literatura (foi bom, aliás, ler no original porque tenho a impressão de que é o tipo de escrita que soa muito diferente em português). As listas Top Five que Rob e os funcionários de sua loja fazem o tempo todo são parte da diversão do livro e apesar de Rob ser um cara depressivo e cheio de auto-piedade, não tem como ler sem um sorriso no rosto, tamanho é o humor (britânico) com que ele trata suas teorias sobre relacionamentos, música e arte em geral. Há um momento, por exemplo, em que ele se pergunta se a arte não acabaria nos tornando pessoas com tendência à solidão ou à melancolia:

“O que veio primeiro – a música ou o sofrimento? Eu escutava música porque estava triste? Ou estava triste porque escutava música? Será que todos esses discos te tornam uma pessoa melancólica?”

Depois dos 30 é inevitável se tornar um pouco saudosista e o ambiente das lojas de discos, que eu tanto freqüentei nos anos 90, bem como as discussões musicais sobre bandas preferidas ou conviver com quem é colecionador de música ou o maravilhoso ritual de gravar coletâneas em fitas cassetes para os amigos, tudo contribuiu para que eu me sentisse em casa durante a leitura. Mas o livro não fica só nessa posição de retrato de uma geração ou mesmo de uma confidência masculina em relação ao sexo, ele também brinca com as infantilidades da vida adulta que raramente admitimos, mas que fazem todo sentido, especialmente quando passamos por uma fase ruim e tudo nos leva a agir como na adolescência, esse limbo onde tudo parece ser mil vezes pior do que realmente é.

Adaptação: Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000) – Stephen Frears
Um ponto baixo da versão cinematográfica é a troca de Londres por Chicago, o que significa perder muito do personagem e de seu humor, transformando Rob num cara menos irônico, menos loser e até com iniciativa profissional, talvez para que um público maior se identifique com ele. Uma das minhas questões preferidas no livro é a de ele ser um adulto inadequado, que não consegue resolver sua vida pelos padrões esperados e aqui sua inadequação é um mero desconforto. Mas gosto muito das cenas da loja de discos e é sempre bom ver personagens conversando sobre música envoltos numa ótima trilha sonora.

A Fúria dos Reis – George R.R. Martin | Game of Thrones – HBO (Season 2)

Entre abril e maio li A Fúria dos Reis, segundo volume da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, mas dessa vez optei pelo original em inglês, versão ebook. A segunda temporada já havia começado, mas pelo menos consegui terminar a leitura bem antes que a série acabasse. Para aqueles que não leram o livro ou não viram a segunda temporada da série, fica avisado que aqui haverá spoilers.

Neste livro temos a mesma divisão de capítulos por personagens específicos – não se trata de um relato em primeira pessoa, mas um foco em cada um deles. São praticamente os mesmos do primeiro livro, acrescentando dois personagens relacionados ao mar: Theon Greyjoy (secundário no livro anterior) e Davos Seaworth. Com Eddard fora do baralho, continuamos a ver a trama sob o olhar de Arya, Sansa, Tyrion, Bran, Jon, Catelyn e Daenerys. Para retomar a história, o autor usa a aparição de um cometa vermelho. Aos poucos vamos vendo como cada personagem interpreta esse evento segundo suas próprias convicções e interesses, e como as reações são diferentes. Para alguns ele simboliza o reino dividido pela guerra, anunciando morte e sofrimento, para outros ele ressalta a volta dos dragões, ou a intervenção religiosa da sacerdotisa vermelha ou mesmo o poder da casa Lannister. Na verdade ele antecipa tudo isso, preparando o leitor para o que virá.

Ao contrário do livro anterior, que era mais homogêneo, A Fúria dos Reis reveza capítulos muito bons e outros razoáveis. Os de Daenerys, por exemplo, considerei bem enfadonhos, mas gostei de um ou dois, especialmente aquele em que seu grupo passa um tempo numa cidade fantasma e Jorah conta sua história. A saga de Theon também me deixou entediada. Ele é um bom personagem, um jovem que não consegue se encaixar em nenhum lugar, nenhuma família e mais perdido que Daenerys na Casa dos Imortais. Porém Theon pode despertar no leitor sentimentos conflitantes e a casa Greyjoy e seus valores não me causaram admiração ou interesse. Tyrion continua como um dos melhores personagens da série, finalmente com oportunidade de brilhar com suas estratégias para o jogo político e a guerra, mas aqui ele fica em segundo em comparação com Arya. Era a história dela que eu mais ficava ansiosa para ler. De Porto Real a Harrenhal ela não descansa um segundo, sua interação com Jaqen H’ghar e outros personagens paga o livro inteiro e a reza que faz antes de dormir é antológica. Se os capítulos de Sansa são mais bonitos no que diz respeito à escrita do autor, os de Arya são mais instigantes e surpreendentes. Ao norte da Muralha, Jon e a A Patrulha da Noite passam por algumas aventuras bacanas, mas achei que para o grupo as coisas ficam mais interessantes com a aproximação do final do livro.

Em relação ao seriado, as diferenças ficaram bem menos sutis. Considerei a segunda temporada um pouco confusa para quem não leu o livro, mas ainda assim algumas escolhas foram necessárias. Arya nunca chega nem perto de Tywin no livro, mas apesar de parecer um pouco forçado um lorde fazer amizade com uma copeira, vi isso como uma solução inteligente tanto para causar tensão como para resumir o que acontece em Harrenhal. Outro exemplo é a Batalha de Água Negra que, filmada à noite, proporcionou um efeito bonito com a ação do fogovivo e causou um impacto maior visualmente, com o uso do barco vazio. Já a morte de Bran e seu irmão, infelizmente, não foi muito explorada no seriado. Ela funciona muito bem no livro, mas na série fica bem óbvio que não foram eles que morreram. A constatação de que estão vivos, no final, é uma surpresa que coroa a história. Na TV, a surpresa final foi outra e admito que ela foi mais do que adequada para a versão em vídeo. O que me causou estranhamento mesmo foram alguns personagens e situações que não aparecem no livro, mas talvez eles tenham antecipado algo do terceiro volume. Assim como o livro, a série teve seus altos e baixos, mas no geral teve episódios incríveis.

Esse livro foi minha primeira compra de ebook e primeira leitura (completa) no Kindle. A experiência foi ótima; como é um livro que não tenho intenção de guardar, saiu muito mais barato e mais prático lê-lo nesse formato. Sem falar do auxílio do dicionário, que define a palavra que você seleciona, sem sair da página de leitura. Devo adquirir os próximos livros da série também dessa forma. Mas isso só quando o inverno, isto é, a terceira temporada estiver chegando.

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