Aspectos do Romance – E.M. Forster

Aspectos do Romance é um clássico livro de teoria literária de E.M. Forster, autor de romances como A Room with a View, Howards End e A Passage to India, todos bastante conhecidos por suas adaptações no cinema. Como foi baseado em uma série de conferências que o romancista apresentou na Universidade de Cambridge em 1927, o texto é relativamente fácil de ler e traz alguns toques de humor, especialmente quando dá suas alfinetadas em alguns escritores analisados. Farei aqui um resumo das principais categorias trabalhadas por Forster no livro, tanto para registrar minha leitura como para contribuir com quem tiver curiosidade sobre seu conteúdo.

O livro fala por si mesmo
Uma primeira consideração que Forster apresenta para começar a falar de literatura é a de que devemos ler os livros e não os escritores. É a velha crítica à ideia de que devemos conhecer a vida do autor para entender sua obra. Segundo Forster, antes de mais nada, os livros devem ser lidos como se todos os autores estivessem juntos numa enorme távola suspensa no tempo:

“É preciso ler os livros (o que é um infortúnio, porque isso leva tempo); é o único modo de descobrir o que eles contêm. Algumas tribos selvagens os comem, mas a leitura é o único método de assimilação deles conhecido no Ocidente. O leitor precisa se sentar, sozinho, e lutar com o escritor, coisa que o pseudo-erudito não faria. [Este] Prefere relacionar o livro à história do seu tempo, aos acontecimentos da vida do autor, aos acontecimentos que ele narra, e sobretudo a alguma tendência.”

Para provar seu argumento ele vai dispondo trechos de dois romances de autores diferentes, com características semelhantes e com distância histórica, demonstrando que a Arte sempre se ocupa das mesmas coisas, o que muda são apenas as técnicas de ficção. A Historiografia ou a Biografia, portanto, teriam pouca ou nenhuma relevância sobre a obra: o livro fala por si mesmo.

Essa questão é polêmica pois segundo outros teóricos, o ideal é que o leitor que deseja analisar uma obra observe o que o livro pede; é o livro que vai dizer o que de externo devo buscar: História, Psicanálise, Filosofia, Poesia e até Biografia, tudo vai depender da necessidade. O que não cabe, no entanto, é a tentação pela chamada “fofoca literária”, que pode ser divertida como passatempo à parte, mas não enquanto elemento para ser usado na análise, pois retira o foco do que é mais importante, que é a obra.

Estória e Enredo
Os aspectos escolhidos pelo autor para analisar o romance são: a Estória (história), as Pessoas (personagens), o Enredo, a Fantasia, a Profecia, o Padrão e o Ritmo. A Estória é a característica mais básica do romance: são os eventos que se sucedem no tempo. Para muitos leitores, essa é a única característica que interessa num livro porque ela responde ao instinto da curiosidade de querer saber o que vai acontecer depois. Já o aspecto do Enredo (também conhecido como trama ou plot), apesar de se referir à seqüência de eventos, obedece à causalidade e está intimamente ligado ao final. Um romance levado ao acaso, cheio de coincidências para justificar os eventos, contém apenas uma Estória e não um Enredo. Se a Estória requer curiosidade, o Enredo requer inteligência e memória; em um bom texto, diz o autor, nada é de graça, as coisas aparecem por um motivo e mesmo que algo pareça gratuito num primeiro momento, existirá uma função para isto no decorrer do romance.

“O mistério é essencial para um enredo, e não pode ser apreciado sem inteligência. Para o curioso, não passa de mais um “E depois?”. Apreciar um mistério requer que uma parte da mente seja posta de lado, ruminando os pensamentos, enquanto a outra segue adiante.”

Um bom exemplo que vejo para essa diferença pode ser encontrado fora da literatura, quando observamos seriados de TV. Muitas vezes trabalham com uma ideia inicial a ser desenvolvida, completamente desgarrados de um final fechado, porquanto não é possível calcular quantas temporadas irá durar. As coisas vão acontecendo e alguns elementos que pareciam fazer parte de uma motivação futura se revelam como pontas soltas em relação ao todo, e servem apenas para deixar o espectador com curiosidade para o próximo episódio. Alguns romances, assim como os seriados de TV, não conversam com o final e o enredo acaba não existindo ou se tornando um monstro de 7 cabeças. Muitos romances mais modernos também não possuem enredo, mas em outro sentido: o leitor é que constrói o enredo através da reflexão dramática dos personagens e Forster trata estes romances com certa ironia.

Personagens e Ponto de Vista
Outro aspecto importante para o romance são os personagens, as Pessoas. Qual seria a diferença entre as pessoas da vida real e as pessoas dos livros? Para isso existem duas respostas: a resposta estética, segundo a qual os personagens seguem leis próprias dentro da obra de arte, e a resposta psicológica, que afirma que enquanto nossa vida secreta é invisível (não é possível conhecermos inteiramente nem a nós mesmos), a vida secreta dos personagens é visível. Nossos relacionamentos reais são confusos porque nunca conhecemos o âmago daqueles que nos são mais íntimos e é por isso que a ficção se torna mais impactante e real que a própria vida, afinal é mais fácil se emocionar lendo um livro que lendo o jornal do dia:

“Isso que chamamos de intimidade não passa de uma improvisação; o conhecimento perfeito é uma ilusão. Nos romances, porém, conseguimos conhecer as pessoas perfeitamente, e, além do prazer normal da leitura, podemos encontrar aqui uma compensação pela falta de clareza da vida. Neste sentido, a ficção é mais verdadeira do que a História, porque ultrapassa as evidências, e todos nós sabemos por experiência própria que existe algo além das evidências.”

Ainda falando de personagens, Forster lança um conceito muito utilizado nos manuais de teoria literária até hoje, que é o de personagem plano x personagem redondo, referindo-se a que nível de profundidade um personagem pode chegar e qual o papel de cada um nos romances. O personagem plano pode ser resumido numa única frase ou ideia, e uma vez apresentado ao leitor, este já o entende e sabe o que pode esperar dele. O personagem redondo é aquele que sempre nos surpreende e cuja definição está sempre sendo construída. Ambos têm sua função nos romances: os planos tendem a trazer humor, os redondos tendem a trazer drama e Forster dá vários exemplos de como eles são usados por autores como Jane Austen (que usa os dois tipos), Charles Dickens (que usa apenas os planos) e os romancistas russos (que usam apenas os redondos).

Já o ponto de vista da narrativa, para Forster, não deve seguir fórmulas, como acreditam alguns teóricos. Ele deve seguir os efeitos que o autor quer passar para o leitor, isto é, a relação da Estória com o narrador pouco importa e o ponto de vista pode mudar sempre que a Estória pedir. Forster critica, portanto, o recurso da metaficção, que é trazer para o leitor uma análise do próprio processo criativo do escritor, sob pena de perder o efeito ficcional:

“O romancista que mostra interesse exagerado por seu próprio método nunca pode ser mais do que interessante; deixou de lado a criação de personagens e nos solicita que o ajudemos a analisar sua própria mente, com a consequentemente forte queda da nossa temperatura emocional.”

Fantasia e Profecia; Padrão e Ritmo
A Fantasia e a Profecia são aspectos que perpassam a obra literária e têm um caráter transcendente, por assim dizer. A Fantasia é aquilo que não pode acontecer na vida real; o leitor tem que se entregar à impossibilidade da história como se ela fosse possível e não são todos que se sentem dispostos a isso. Curiosamente ele aponta Ulysses, de James Joyce, como um exemplo de livro fantasista. Já a Profecia refere-se ao “tom de voz” do romancista e tem a ver com sua visão de mundo implícita em seu texto, não como uma reflexão, mas como o que ele chama de canção: o que fica nas entrelinhas tem mais força do que é o que é dito de forma explícita. Como exemplo de autores proféticos ele cita Dostoievski, D. H. Lawrence, Melville e Emily Brontë.

Por fim, os aspectos de Padrão e Ritmo. O Padrão seria o desenho geral da história e tem relação íntima com o Enredo. Muitas vezes é fácil perceber que alguns autores costumam se utilizar sempre de um mesmo padrão em todos os seus livros. Quanto mais um padrão é definido e perfeito, mais o romance se afasta da realidade, o que pode ocasionar uma obra com grande beleza estética mas muito distante da vida. O Ritmo também contribui para a estética da obra e diz respeito a como o autor conjuga repetição e variação em sua escrita, com uma característica semelhante ao que acontece na música.

Forster conclui o livro fazendo uma reflexão sobre o futuro do romance. Assim como considerou no início que a História não tem lugar quando se fala de Arte porque esta nunca muda, também considera que no futuro as coisas continuem as mesmas, a menos que a natureza humana mude e com ela o processo criativo:

“Se a natureza humana de fato se alterar, será porque os indivíduos terão conseguido olhar-se uns aos outros de um modo novo. Aqui e ali há algumas pessoas que estão tentando fazer isso – são muito poucas, mas entre elas há alguns romancistas. (…) Seja como for – esse caminho traz movimento e combustível para o romance, porque, se o romancista se vê diferentemente, também vê diferentemente seus personagens, e daí resulta um sistema de iluminação novo.”

__
Livro relacionado:

Anúncios

A Arte da Ficção – David Lodge


A Arte da Ficção é um pequeno livro de David Lodge para iniciantes no estudo da Literatura, que foi lançado aqui no Brasil pela L&PM. Como foi escrito originalmente sob forma de artigos para jornal, endereçados ao leitor comum, o texto é simples e didático e bem gostoso de ler. São 50 capítulos curtos, cada um tratando de uma característica própria do gênero romance. O autor inicia com um trecho de uma obra e a partir do exemplo analisa brevemente aquele romance através do assunto em questão.

Os tópicos são os mais diversos, de tipos de romance a recursos estilísticos, e abarcam muitas questões, tanto clássicas quanto modernas (o livro é de 1992), tais como: Ponto de vista, Ambientação, Simbolismo, Motivação, Metaficção, Realismo mágico, O leitor no texto, O futuro imaginado etc. No primeiro parágrafo sobre metaficção, por exemplo, ele comenta sobre essa febre da literatura contemporânea:

“Metaficção é a ficção que versa sobre a si mesma: romances e contos que chamam a atenção para o status ficcional e o método usado em sua escritura. O avô de todos os romances metaficcionais foi Tristram Shandy, cujos diálogos entre o narrador e os leitores imaginários são apenas um dos inúmeros recursos que Sterne usou para realçar a lacuna existente entre a vida e a arte, que o realismo tradicional tenta ocultar. A metaficção não é, portanto, uma invenção moderna, mas uma forma que muitos escritores contemporâneos julgam interessante, porque se sentem sufocados por seus antecedentes literários, oprimidos pelo medo de que tudo o que tenham a dizer já tenha sido dito antes e condenados pelo ambiente cultural moderno a ter essa consciência.”

Enquanto ex-professor, Lodge acaba dando, em cada capítulo, uma pequena aula sobre a narrativa romanesca, mas aqui e ali também fala de sua experiência como escritor e descreve alguns processos de escrita utilizados por ele e pelos autores referidos no livro, o que pode ser interessante para escritores iniciantes. O livro pode ser visto também como um bom guia de leitura, pois me deixou interessada em vários livros citados. No entanto, vejo A Arte da Ficção mais útil para estudantes ou aquele leitor comum que quer ir além do enredo dos livros que lê e que procura entender melhor como os efeitos literários de um texto são boa parte de uma experiência rica de leitura.

Ciro Colares, A Crônica Paixão por Fortaleza – Lucíola Limaverde


Eu sei que o fato deste livro ter sido escrito por uma prima querida me faz bastante suspeita para falar sobre ele, mas não poderia deixar de comentar este belo texto que originalmente foi uma monografia de final de curso e se transformou em livro, ao ganhar o prêmio Braga Montenegro, em 2010.

A proposta geral é demonstrar como a crônica, gênero que se acha entre o jornalismo e a literatura, pode encontrar uma vida após jornal e mais especificamente, como o cronista cearense Ciro Colares (1923-2002) conseguiu esse feito aproximando suas crônicas da poesia. Através de uma análise de textos do livro Fortalezamada, Lucíola Limaverde demonstra como era a relação deste jornalista com a cidade de Fortaleza e como seu olhar poético para as coisas simples do cotidiano elevava seus textos diários. Seria mais um trabalho acadêmico se não fosse a própria autora dialogar com essa ideia e levar a escrita de sua monografia para um nível também literário. O que temos então é um bonito texto acadêmico que vale a pena ser lido não só pelo seu tema como por suas linhas carregadas de poesia e paixão pelo cronista Colares. Tanto é assim que a introdução e a conclusão do livro são cartas pessoais ao jornalista, demonstrando como sua obra marcou a autora e como é possível aplicar um pouco de emoção a trabalhos sérios sem sair do rigor que eles demandam.

Num primeiro momento, somos introduzidos às relações entre jornalismo e literatura, entre prosa e poesia, e conhecemos um pouco da história de Ciro Colares, que trabalhou em vários jornais de Fortaleza e que tinha como inspiração maior sua cidade, seu bairro, seu beco. Ciro tinha alma boêmia, aqui entendida quase como um sinônimo a um estado de ser atento à poesia do mundo, como ele próprio define:

“Ser boêmio é um estado d’alma. Às vezes não há nenhum boêmio dentre os homens que num boteco, altas noites, bebem e tocam sambinhas em caixas de fósforos beija-flor. Às vezes, os mais autênticos dormem as noites todas e de manhã cedo vão dar milho às galinhas, apanhar rosas e borboletas.”

Lucíola vai demonstrando então de que forma Ciro conseguia revelar o cotidiano de sua cidade, do seu beco e dos bares que frequentava de forma singular, ultrapassando as regras de objetividade do jornal, buscando trazer permanência ao que é descartável:

“A literatura, como arte, se quer permanente e universal. E o jornalista, inclusive o também escritor, assiste a uma morte por dia: é o jornal quase recém-escrito, já substituído. O fim do jornal, de alguma forma, é o fim de quem o escreve, as folhas carcomidas servindo de embrulho ou de forro – embora haja sempre a esperança de que ela acabe por limpar janelas, aclarando ambientes.”

A cidade, enquanto grande protagonista de seus textos, serve não para regionalizar as crônicas, mas antes as torna universais, pois todo leitor possui lugares que lhes são caros, o que gera identificação. No entanto, neste caso, isso pode ser mais forte ainda para o próprio fortalezense, que através das crônicas-poemas pode resgatar um pouco uma cidade que quase não existe mais, uma Fortaleza cuja transformação foi sendo aos poucos relatada e lamentada por Ciro, já que ela foi se afastando cada vez mais de sua experiência de infância, numa época em que as cadeiras eram postas na calçada e todos se conheciam pelo nome:

“Bem que a cidade pequena devia ter sido amarrada
na linha de minha pipa ou na fieira do meu pião,
só assim ela parava, que era para esperar a gente crescer
e entendê-la melhor,
mas todo mundo foi que parou
e a cidade embalou tomando a frente de todo mundo.”

O trabalho de Lucíola é uma bela homenagem não só a Ciro Colares como a Fortaleza e nos faz olhar diferente para a cidade, para que seja amada com todos os seus defeitos e encantos, vendo poesia na lama dos becos, nos calçamentos de pedra, ou nas avenidas de asfalto.

__
Livros relacionados: