Livro – José Luís Peixoto


Ler Literatura Portuguesa pra mim é como pegar um navio de volta pra casa, embora eu nunca tenha estado em Portugal e não saiba explicar bem o motivo de tal identificação. E este navio de José Luís Peixoto chamado Livro me proporcionou uma viagem muito agradável.

Em uma vila de Portugal, na década de 40, um menino de 6 anos passa uma noite numa fonte a esperar por sua mãe que não chega, na companhia de suas malas e um livro. Assim a história começa e Ilídio guardará esse livro dado pela mãe por muitos anos, até que ele sirva de presente à sua amada Adelaide e depois siga a história como um pedaço de Portugal que foi para a França. O que realmente significa o título do livro, só descobrimos na segunda parte da obra, mas o próprio objeto livro e a literatura em si fazem parte dessa surpresa:

“Os livros que tenho nas estantes formam um desenho de mim: o que quero lembrar e o que não quero esquecer.”

Entre as décadas de 50 e 70, muitos portugueses emigraram para a França fugindo da ditadura. Ilídio e Adelaide acabam no mesmo rumo, embora seus motivos sejam mais pessoais. A viagem que fazem até lá, os motivos que os levam, os desencontros e dificuldades por que passam são só uma parte dessa deliciosa saga de personagens encantadores. Em alguns momentos lembrei de Um Lugar ao Sol, de Érico Veríssimo, mas não sei dizer o porquê, já que li este há muito tempo.

No início pensei que seria uma daquelas leituras lentas, que se faz aos poucos, mas em um instante me vi chegando na metade do livro com pena de acabá-lo logo. Não que o livro não tenha suas dificuldades. O tempo na narrativa, por exemplo, pode confundir um leitor desatento por seu movimento em espiral: vai, faz um leve contorno de volta e depois segue em frente. Mas se por um lado o autor tem uma narrativa poética que pede pausa e reflexão, por outro ele alimenta nossa curiosidade em saber o que será dessas pessoas. Mesmo com o livro fechado eu ficava me perguntando o que ia acontecer com elas.

A segunda parte do livro já é quase um outro livro, mas passado o susto e uma certa relutância consegui apreciar e me identificar com tantas coisas que já coloquei a obra no rol das preferidas. Sempre que vejo por aí que este livro é sobre a emigração portuguesa fico pensando que li o livro errado, porque pra mim esse livro é sobre amor, amizade e sobrevivência. É também sobre outras coisas que prefiro deixar para quem tiver oportunidade de ler descobrir depois, mas a linda capa da edição brasileira já entrega e antecipa o quanto este livro é bonito.

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A Máquina do Tempo – H. G. Wells


Alguns livros do final do século XIX me dão a impressão de que o espírito da época era semelhante ao dos nossos dias, algo como uma sensação de que o futuro já chegou. A Máquina do Tempo, novela escrita em 1895 por H. G. Wells, é um desses casos em que vemos temas bem motivados pelas revoluções tecnológicas, fato que acabou inaugurando a chamada ficção-científica na literatura.

Nessa história temos O Viajante do Tempo, um cientista que constrói uma máquina capaz de se deslocar pela Quarta Dimensão. Durante um jantar em sua casa em que ele chega depois dos convidados, machucado e sujo, afirma que acaba de chegar do futuro e começa a descrever sua incrível aventura de oito dias no ano de 802701. Nesse momento da história, o Viajante encontra um mundo em ruínas e duas espécies de seres que parecem ter vindo de nossa espécie: os Elois e os Morlocks. Os primeiros são pessoas infantilizadas e bobas, pequenas e sem pelos, que se alimentam de frutas e vivem como animais pacatos. Os segundos são agressivos, têm aparência asquerosa, vivem sob a terra e temem a luz. Logo no início sua máquina é roubada e, com a companhia de Weena, o único ser com quem interage num nível mais íntimo, ele vai tentar recuperá-la e voltar para seu próprio tempo.

A teoria do personagem ao se deparar com esses seres é de que, num primeiro momento, a humanidade teria chegado a tal ponto de harmonia entre aqueles que produzem (que deram origem aos Morlocks) e aqueles que usufruem (que deram origem aos Elois), que qualquer possibilidade de guerra teria se extinguido, e portanto o ser humano viveria sem adversidades. O problema é que, segundo ele, são as adversidades da vida que tornaram o homem um ser inteligente, logo, à medida que a civilização caminhasse para a paz e a segurança, os seres humanos iriam aos poucos se tornando mais dóceis e menos inteligentes.

“Não existe inteligência onde não existe mudança ou necessidade de mudança. Os únicos animais que demonstram inteligência são aqueles que tiveram de enfrentar uma grande variedade de necessidades e de perigos”.

Enquanto conta sua história, o Viajante vai simultaneamente expondo suas impressões sobre esse novo mundo, já que tudo lhe é estranho e não há ninguém para explicar como as coisas são. Sendo assim, a narrativa ora é descritiva ora é filosófica, mas de uma maneira muito fluida, até porque o livro é bem curto. Não há nenhuma tentativa de explicação científica do funcionamento da máquina, pois a intenção era apenas demonstrar, de maneira especulativa, as possibilidades do futuro, como se a verdadeira máquina do tempo fosse a imaginação do autor. No entanto, Wells se utiliza das teorias científicas de seu tempo como argumento para as especulações de seu personagem, e em especial da teoria de Tempo enquanto Quarta Dimensão do Espaço: se é possível se movimentar nas três dimensões, também seria possível se movimentar numa quarta.

Um momento que achei muito divertido no livro foi quando o Viajante lamenta não ter lembrado de levar sua Kodak! Fiquei imaginando o que ele nos dias de hoje lamentaria não ter levado, talvez exatamente uma câmera, mas pelo menos ele colocou no bolso algo mais importante: fósforos. Se numa viagem espacial aprendemos que uma toalha pode ser muito útil, numa viagem no tempo o bom mesmo é levar uma caixa de fósforos.

Adaptações:
A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960) – George Pal

Nesta versão clássica de 1960, o Viajante se chama George e sua motivação em querer ver o futuro é por não ser satisfeito com a época em que vive. Aqui, antes de chegar a 802701, ele assiste às duas Grandes Guerras e em cada uma tem oportunidade de encontrar o filho de seu melhor amigo David, na juventude e na velhice. Muita coisa me incomodou neste filme, mas a principal foi o fato dos Elois falarem o mesmo inglês de George! No livro o personagem aprende alguma coisa da língua deles, mas no geral só tem sua inteligência como recurso para entender esse novo mundo, ao passo que aqui Weena lhe serve de guia, explicando como tudo funciona.
O filme me pareceu mais antiquado que o livro, e nem falo dos efeitos especiais limitados porque alguns até deram conta do recado, mas por algumas escolhas estranhas, como fazer de Weena um par romântico de George ou fazer os Elois de uma hora para outra se revoltarem contra os Warlocks, deixando George quase como um messias que irá salvar a humanidade no futuro. Confesso que o que achei mais legal no filme foi o design da máquina do tempo (feito por William Ferrari). Eu adoraria ter uma réplica dela na minha sala, como os meninos do The Big Bang Theory.


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A Máquina do Tempo (The Time Machine, 2002) – Simon Wells

Sendo o diretor bisneto do H. G. Wells, dá pra ter uma esperança de que o filme seja bom, mas não é o que acontece. O Viajante nesta versão se chama Alexander e é um professor universitário, com um laboratório cheio de invenções inovadoras e uma namorada com quem pretendia casar, mas que acaba morrendo. O que o leva a desenvolver a máquina é exatamente poder voltar no tempo para salvá-la. Apesar de tentar fazer algo diferente e explorar primeiro uma volta ao passado, esse filme não passa de um remake inferior da versão de 1960, sem nenhum compromisso em ser fiel ao livro. Enquanto H. G. Wells mostra um cientista interessado em conhecimento e em pensar para onde a humanidade poderia evoluir, este filme leva seu personagem ao futuro por uma curiosidade nada científica, apenas por uma obsessão pessoal. Simon Wells parece ter se preocupado mais em criar inúmeras referências ao filme de George Pal do que em homenagear de maneira digna seu parente. E elas são inúmeras, desde a inspiração do design da máquina, passando por detalhes de cenas e até a ideia do Viajante revolucionar o futuro. Apesar de ter bons efeitos especiais, o filme demonstra que a imaginação não é hereditária.

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Medianeras (2011) – Gustavo Taretto

Falar que uma história é sobre duas pessoas, feitas uma para a outra, e que nunca se conhecem (mesmo morando em prédios vizinhos) poderia acabar soando como o mais básico dos clichês, se esta história não fosse Medianeras, filme argentino lançado no Brasil ano passado. Mostrando o cotidiano urbano de Mariana e Martín, o diretor oferece uma reflexão sobre as atuais formas de relacionamento proporcionadas pelas novas mídias, que nos aproximam e nos afastam uns dos outros, e ao mesmo tempo demonstra como a Arquitetura, assim como o clima ou a música, pode definir e condicionar os nossos estados de espírito. Mas ainda que traga todas essas questões, é um filme muito leve, engraçado e romântico, daqueles que conseguem nos fazer sorrir a todo momento.

Mostrando uma Buenos Aires que poderia ser qualquer grande cidade do mundo e personagens que poderiam ser eu ou você, é um filme de instantânea identificação, e embora em alguns momentos haja uma narração reflexiva – característica que acho dispensável na maioria dos filmes – ela serve bem ao propósito, exatamente porque os personagens são solitários e é através de seus pensamentos que os conhecemos e os acompanhamos. Mariana é uma arquiteta que trabalha como vitrinista e está frustrada por seu relacionamento de 4 anos ter acabado. Martín é um webdesigner que quase não sai de casa com medo de mais um ataque de pânico. Na busca de encontrar algo verdadeiro, vão se relacionar com alguém aqui, outro ali, revelando como a solidão pode nos levar a situações e pessoas das quais preferíamos fugir mas que acabamos abraçando, tudo porque é da nossa natureza não conseguirmos ficar sozinhos. Mas no fim eles irão, imitando as plantas que crescem no asfalto, abrir caminho em direção à luz com um belo buraco numa parede cega.

“Contra toda a opressão de viver em apartamentos minúsculos, existe uma saída, uma rota de fuga. Ilegal, como toda rota de fuga. Em clara desobediência às normas de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que alguns milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos.”

A Trilogia dos Dólares – Sergio Leone

Quando criança eu adorava assistir a filmes western com meu pai de madrugada. Era acordar com um barulho de tiros ao longe e correr para a sala acompanhada do lençol. Claro que a minha lembrança é afetiva, não lembro exatamente quais filmes vi na época, mas ficou o gosto pelo gênero e de vez em quando procuro ver/rever alguns clássicos. O que mais me fascina nesse tipo de filme é o quanto eles são cinematográficos: eles contam uma história através de muita ação e de elementos simbólicos do bem e do mal, quase sem precisar de diálogos.

Minha mais recente escolha foram três clássicos do western spaghetti que compõem a chamada Trilogia dos Dólares. Trata-se de uma série de filmes de Sergio Leone, diretor italiano que inaugura um faroeste único, onde não há necessariamente mocinhos e bandidos. Eles têm em comum a figura de um certo pistoleiro solitário capaz de fazer quase tudo por uns trocados: um charmoso anti-herói vivido por Clint Eastwood. Claro que torcemos por ele não só pelo carisma e sua incrível habilidade com a arma (ele é especialista em matar pelo menos 3 ao mesmo tempo) mas também pelo seu senso de justiça, a despeito de ser um fora-da-lei no oeste americano. Há controvérsias se se trata do mesmo personagem em todos os filmes – já que nenhum deles têm realmente um nome – mas o poncho usado por ele dá uma boa pista.

No primeiro filme, Por um Punhado de Dólares, esse sujeito sem nome chega a um vilarejo tão decadente que o único negócio que ainda funciona é a funerária. A única maneira de ganhar dinheiro na cidade é com a morte, seja matando, seja enterrando. Dois grupos rivais tomam conta do lugar e é jogando lenha nessa fogueira que ele se aproveita da situação para conseguir tirar dinheiro deles. Geralmente consideram este o mais fraco da trilogia, talvez por ser uma cópia de Yojimbo, do Kurosawa, mas pra mim é um dos mais divertidos e talvez o mais coeso dos três.

Em Por uns doláres a mais, nosso amigo fica um pouco em segundo plano por conta da história de Mortimer, um amargurado caçador de recompensas que está tentando achar um bandido que vale 10 mil dólares. O personagem de Clint também está de olho no prêmio gordo e ora eles competem, ora se ajudam, mas o foco é na história pessoal de Mortimer e sua relação com o valioso vilão, que está planejando com sua quadrilha um assalto ao banco da cidade. O filme tem uma das melhores cenas da trilogia (a cena dos chapéus) e apesar de ter ótimos momentos talvez seja o que menos gostei.

Por fim, o grande clássico Três homens em conflito, também conhecido por “O Bom, o Mau e o Feio”. Aqui Clint faz o Bom, mais uma vez caçando recompensas, desta vez em sociedade com o bandido caçado. Cada vez que Tuco (o Feio) está prestes a ser enforcado é salvo pelo próprio e assim eles vão dividindo o dinheiro, num esquema que obviamente não dura muito tempo, já que o Bom não é tão bonzinho assim. A sociedade é refeita quando eles descobrem a localização de uma grande fortuna em ouro, que já está sendo procurada por Angel Eyes (o Mau). Para chegarem no local onde o ouro está enterrado precisam cruzar caminho com a Guerra Civil e com Angel Eyes e a cena final com os três é daquelas que não deixam dúvidas dos motivos pelos quais cinema vale a pena. A única coisa ruim do filme pra mim é o excesso de cenas focadas na guerra, pois retiram o foco da história e não acrescentam muito. O melhor, no entanto, é o personagem Tuco, extremamente engraçado e peculiar, especialmente em sua relação com Blondie (apelido que ele dá ao Bom). Editando algumas cenas, esse filme seria perfeito.

Se você puder abstrair a dublagem em inglês (a maioria do elenco atua em italiano) e tiver um gosto por boa direção e boas histórias, sugiro a trilogia mesmo para quem não costuma gostar de western. Mas não espere ver mocinhos e mocinhas: aqui temos apenas sujeitos gananciosos que estão tentando sobreviver num mundo em que o que resta é matar ou morrer.

Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá


Às vezes uma leitura pode ser muito pesada ou muito leve, depende muito de como você está se sentindo no momento ou do que seu inconsciente pode estar guardando. A leitura de Daytripper me deixou emocionada como há muito tempo eu não me sentia lendo uma obra. Tanto que na metade tive que parar e só continuar no dia seguinte. Outra pessoa pode ler tranquilamente de uma tacada só, mas a menos que você seja uma pedra, este é um daqueles textos com tantas camadas que vai acabar te atingindo de um jeito ou de outro.

Não há muito como falar de Brás porque a história dele é a história de todo mundo, com todas as possibilidades de vida e de morte, de escolhas, de amores, família e amigos. Com o apelido de Milagrinho ele representa qualquer um de nós, milagres ambulantes numa estrada que guarda surpresas a cada momento. E como essas surpresas podem ser irônicas!

Todo dia pessoas morrem, mas a vida continua em outras pessoas, a vida não tem fim. Cada capítulo de nossa história pode ser o último, mas é o preço que pagamos pela beleza e intensidade da vida. Daytripper constrói um lindo mosaico em que tudo o que vivemos, as pessoas que nos cercam, os lugares para onde vamos, são todos pedrinhas coloridas formando nosso desenho incerto.

Escolhi este livro por acaso na seção de quadrinhos da livraria, talvez pela sua capa branca se destacar das outras ou pela pergunta estampada na capa: “Quais são os dias mais importantes da sua vida?”. Foi intuitivo, mas depois que li lembrei que já havia visto uma resenha da Luara sobre ele. Li a edição brasileira (é estranho ler a tradução de um livro feito por dois brasileiros), e achei nossa versão mais bem cuidada, com papel melhor e capa dura (comparando com a versão americana que tinha disponível na livraria quando comprei). Até agora, sem dúvida, a minha leitura do ano.

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