O filho de mil homens – Valter Hugo Mãe

50_filhoQue romance bonito! Uma história em que acontece pouco por fora e muito por dentro dos personagens. Um texto para ser saboreado a cada palavra, pois parece que o autor escolheu cada vírgula a dedo, sem sobras, sem faltas e com muita poesia.

Numa aldeia de valores ultrapassados surgem pessoas que não se entregam ao mesmo, que se saem bem com seu jeito diferente, ainda que depois de muito sofrer: Crisóstomo, um homem que quer ter um filho e faz um boneco de pano; Isaura, a enjeitada pelos homens; Camilo, filho de 15 homens e uma anã; Antonino, o homem maricas; Matilde, a mãe que acha que errou com o filho, e muitos outros que se encontram pela metade na vida. Essas pessoas todas são marcadas pela falta de um pedaço que não encontram em si. São tão humanas quanto poderiam ser enquanto personagens. Podem ser perversas em um momento para depois se mostrarem as mais amorosas, conforme o que a vida vai lhes oferecendo.

A solidão aparece sob diversas formas. A solidão de quem se acha pela metade, a solidão de dois que precisam ser três, a solidão de quem perdeu os pais, a solidão de quem perdeu a maternidade, a solidão de quem não encontra aceitação no mundo, a solidão que é o medo de ficar sozinho. Mas somos todos sozinhos mesmo ou apenas não enxergamos que temos a humanidade toda para amar e cuidar? Essa parece ser uma pergunta do livro.

“O Crisóstomo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer se pensar, por outra pessoa.”

Essa busca infinita pelo outro, essa vontade de se completar resulta bem desde o começo do livro, pois esses são seres cheios de esperança, cheios de desejos francos. Numa espécie de oração esses desejos são jogados ao vento e o vento mesmo, como no movimento do mar, traz de volta suas realizações. É o eterno anseio de viver e ser feliz, mas aqui com liberdade, com riscos, sendo sincero aos desejos mais profundos.

“Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.”