Frankenstein ou O Prometeu moderno – Mary Shelley

interlunio59-frankensteinPublicado em 1818, Frankenstein não apenas se tornou uma das maiores histórias de horror de todos os tempos, como também é considerado o primeiro romance de ficção-científica. Além disso, a história de sua concepção é tão famosa quanto sua narrativa, talvez até mais: Mary Shelley imaginou a história depois de um pesadelo que teve, fruto das discussões com seu marido Percy Shelley, o poeta Lord Byron e outros amigos, sobre a possibilidade do homem de criar vida. Havia entre eles um desafio de cada um escrever uma história de terror e o pesadelo foi então a chave para a jovem escritora, que tinha apenas 19 anos.

A estrutura de Frankenstein é inusitada, com uma narrativa dentro da outra e com várias mudanças de ponto de vista. A primeira camada, que inicia e termina o livro, é constituída por cartas de um cientista inglês chamado Robert Walton para sua irmã Margaret. Walton está viajando pelos mares gelados do norte do planeta em busca de descobertas científicas que o glorifiquem. Um dia ele avista, ao longe, um homem de grande estatura em um trenó puxado por cães. Logo em seguida ele salva outro homem, em outro trenó, que sofrera um acidente. É Victor Frankenstein, um suíço com enorme magnetismo, porém doente e devastado pela dor. Quando Victor percebe que Walton é uma versão do que ele foi, resolve contar-lhe sua história, com a esperança que ele perca a atitude arrogante que ele tinha de colocar a Ciência acima de todas as coisas.

Começa assim a narrativa principal, contada por Frankenstein. Ele inicia relatando como sua infância foi feliz, com pais amorosos e a companhia de seu grande amigo Henry e de sua amada Elizabeth, uma órfã adotada por sua família. Desde cedo, Victor se mostra um entusiasta exagerado da Ciência e seu principal objetivo é realizar grandes feitos à humanidade. E é o objetivo de gerar vida que será tanto sua grande obra quanto sua ruína. E ele consegue isso depois de alguns anos de estudo na Alemanha, longe da família.

A partir de um processo que não é mostrado em detalhes – fica subentendido que Frankenstein usa material humano, mas não explica de que forma –, ele cria um ser e lhe dá a vida. O problema é que apenas quando o ser se move ele percebe o quanto a criatura que ele mesmo fez é grotesca na aparência. Semelhante ao homem, mas de uma outra espécie, muito mais ágil e forte, o monstro é uma criatura gigantesca e de feições desagradáveis ao olho humano, com deformidades, longos cabelos negros e pele amarela. Sem conseguir suportar sua criação ele foge e a criatura some.

Por um tempo Victor Frankenstein vive assombrado com o que fez, mal sabendo que o monstro será responsável por uma série de tragédias em sua vida, sendo a primeira a morte de seu irmãozinho William. Agora ele irá pagar por ser um pai que rejeitou o próprio filho e não soube lhe dar amparo, direcionamento ou compaixão. Quando eles finalmente se encontram, inicia-se uma nova narrativa, dessa vez sob o ponto de vista do monstro. É aqui que se dá um momento grandioso do livro, a conversa franca entre criatura e criador, a tragédia de um e de outro, especialmente do monstro, que à semelhança de Adão, quer entender porque recebeu o sopro de vida e depois foi abandonado. Mas ao contrário deste, e até mesmo de Lúcifer, como ele próprio exemplifica, não chegou a receber amor de seu criador, não pôde contar com a ajuda de ninguém e por ser único no mundo sua desgraça maior é a solidão.

“O anjo caído se transforma num demônio maligno. No entanto, até esse inimigo de Deus e dos homens teve amigos e cúmplices em sua desolação; eu estou sozinho.”

Por conta da clássica associação de que a feiúra é sinal de maldade, ele sabe que nunca vai poder se relacionar com a humanidade, pois todas suas tentativas foram um fracasso. E é aí que ele, desesperadamente, pede a Victor que lhe fabrique uma companhia da mesma espécie. Nesse momento não há como não sentir compaixão pelo monstro. Ele conta tudo por que passou, o descobrimento das primeiras coisas, do fogo, da linguagem, da consciência dos sentimentos e sensações. Inclusive aqui há mais uma narrativa interna sobre uma família francesa desgraçada pela pobreza e que serve como fonte de educação a ele, ainda que apenas como observador. Ele pede para ser amado, aceito. Ele argumenta que o desprezo de todos o fez revoltado e malvado. Mas Victor o perdoará por todos os crimes que já cometeu?

É aqui que se desenrola o grande dilema do romance pois Victor é responsável por tudo que sua criatura faz e não só pagará por rejeitar o “filho”, como também por ter ousado brincar com um ato que é divino. Esse Prometeu Moderno, que faz o homem do barro ou lhe dá o fogo, desafiando os deuses, será punido até o último momento com o fardo pesado da culpa por todas as mortes causadas pelo monstro. Essa responsabilidade de Victor não seria uma manifestação do seu próprio monstro interior?

O estilo de Shelley é dramático, nitidamente manifestado pelo desespero de Frankenstein, um homem que sente tudo de maneira muito profunda e que é marcado por uma tragédia atrás da outra. Há muitos elementos góticos, o medo e o suspense em que vive o protagonista, os belíssimos cenários naturais da Europa, castelos em ruínas e à beira de abismos, e as muitas contemplações dessas paisagens, geralmente nas viagens mostradas, que são sempre uma espécie de intermezzo entre as ações.

Ao contrário das adaptações cinematográficas, com suas descargas de eletricidade vinda de raios, não há uma explicação para o princípio da vida descoberto por Frankenstein. Mas todas as narrativas inspiradas nessa obra mostram o perigo da ciência sem ética, as consequências de fazer algo apenas pelo poder de fazê-lo. Roubar o fogo para dá-lo aos homens é tarefa fácil, difícil é perceber que o fogo que aquece também destrói e que manipular a natureza exige uma grande coragem e discernimento, qualidades que o jovem Victor Frankenstein estava longe de possuir.

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Essa foi uma leitura para o Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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7 comentários sobre “Frankenstein ou O Prometeu moderno – Mary Shelley

  1. “Roubar o fogo para dá-lo aos homens é tarefa fácil, difícil é perceber que o fogo que aquece também destrói e que manipular a natureza exige uma grande coragem e discernimento, qualidades que o jovem Victor Frankenstein estava longe de possuir”. Resumiu perfeitamente, Lua! Eu estava morrendo de medo de reler a história depois de anos e me decepcionar, mas não… passei a gostar mais ainda dela. Não é um clássico à toa, né?
    bjo

    1. Michelle, saudade!
      Menina eu também, se bem que estou em dúvida até agora se eu li realmente esse livro na adolescência, eu acho que li apenas uma parte pois do meio pro fim não lembrava de nada. Acho que eu só sabia mais ou menos o final por causa do filme de 94. De qualquer forma é um livro muito forte, né? Estou vendo aqui que você fez resenha, vou lá ler. =)
      Beijinhos!!!

  2. Essa parte que a Criatura se compara a Lúcifer é muito tocante e impactante. No mais, Frankenstein não é um clássico à toa. Livro maravilhoso! Amei! ❤ Beijos, Lua!

  3. Eu li esse livro na adolescência, eu não conhecia a história do livro, conhecia um pouco do que já tinha ouvido, e fiquei extremamente surpreso quando li, a história é bem diferente do que imaginei, e a primeira metade do livro eu adorei, a segunda parte não gostei muito, mas imagino o quão b om o conjunto seria se tivesse sido escrito hoje.

    1. Você acha, Rodrigo? Eu já acho que o livro é o que é muito pela época em que foi escrito e como ele deve ter sido marcante para os leitores daquele tempo, já que continua um ótimo livro até hoje. =)

Deixe um comentário e eu responderei aqui mesmo. Obrigada pela visita!

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