The Maxx – Sam Kieth

Talvez poucas pessoas lembrem, mas em meados dos anos 90 a MTV brasileira colocou no ar uma série de animação baseada nos quadrinhos The Maxx, de Sam Kieth. O vídeo chegou a ser lançado em fita VHS aqui no Brasil e tenho a minha guardada até hoje como lembrança, assim como uma action figure do Maxx pela qual tenho o maior carinho. A série contava a história de Julie Winters, uma assistente social envolvida em um relacionamento complicado com o vagabundo Maxx.

Devido a um acontecimento trágico por que passou, Julie construiu inconscien-temente um mundo paralelo, baseado em suas memórias suprimidas de infância, formado por uma savana australiana com criaturas inusitadas, em que ela seria a Rainha Leopardo, senhora da selva. Maxx em ambos os mundos é seu protetor e animal-espírito, ainda que ele não controle onde estará a cada instante: num momento ele pode estar lutando na cidade para defendê-la, em outro repentinamente adentrar na savana, tendo que lidar com outros perigos.
Na cidade, Maxx enfrenta Mr. Gone, um vilão que ataca mulheres e comanda os Iszes, seres que tomam a forma humana para cometer crimes. Somente Gone sabe o significado dos dois mundos, o que há por trás da máscara de Maxx e o que aconteceu com Julie no passado. Cobrindo 11 números dos quadrinhos – lançados pela Image Comics e posteriormente pela DC Comics –, a série constitui um primeiro arco de histórias, focado em Julie. Mesmo com um final diferente, a animação é bem fiel, praticamente uma filmagem dos quadros de Sam Kieth.

Já o segundo arco (que fecha a história na edição #35) apresenta o mundo paralelo de Sarah, a típica adolescente rejeitada e rebelde, e vai trazendo histórias cada vez mais pesadas, especialmente quando Kieth passa a escrever sozinho. Ele mergulha fundo em algumas situações até incômodas de ler, afinal seus personagens são sempre pessoas que foram de alguma forma abandonadas ou abusadas. Se a história de Gone, por exemplo, não for algo perturbador, não imagino o que pode ser. Por conta disso, prefiro os números em que Kieth faz parceria com Bill Messner-Loebs, pois este parece ter sido responsável por amenizar um pouco o drama, com seus diálogos sempre muito espirituosos e até engraçados.

Apesar de Maxx ter uma atitude e aparência de super-herói, o personagem funciona também como ironia ao universo de músculos e super poderes das histórias em quadrinhos tradicionais. Kieth chega a parodiar certos clichês usados nas histórias de super-heróis, o que acaba funcionando como uma crítica à romantização da violência e da morte, mas ao mesmo tempo sem abdicar desses elementos, talvez com a intenção de trazer consciência para eles. Através de categorias da psicanálise, num universo de mitologia primitiva, The Maxx trata de assuntos sérios como o feminismo e a violência contra a mulher de uma maneira bem particular, quase absurda e ao mesmo tempo divertida. Tudo sob a visão de personagens desajustados e marginais, que estão buscando algum tipo de fuga da realidade, afinal quando o mundo lá fora se torna muito perigoso, tudo que lhes resta é o mundo interior.


*É possível encontrar as edições encadernadas em sites como Amazon e Book Depository. A série foi lançada em dvd em 2009 e é bem fácil de achar. Há um tempo fiz legendas para os arquivos de vídeo, caso alguém se interesse, eu posso enviá-las por e-mail.

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The Lost Thing (2010) – Andrew Ruhemann e Shaun Tan

Prestes a terminar de ler Contos de Lugares Distantes, do Shaun Tan, eu paro para olhar a pequena biografia do autor no final do livro e vejo que ele foi responsável pela concepção de arte em Wall-E e co-diretor de The Lost Thing, oscar de melhor curta de animação do ano passado que eu estava por assistir há meses e que foi baseado num livro seu de mesmo nome.

É um lindo filme, que começa com o encontro de um jovem e uma criatura meio máquina, meio animal. O jovem percebe que ela é uma Coisa Perdida, algo que não parece fazer parte do seu mundo e cuja importância ninguém reconhece. Você vê então um grande contraste entre essa Coisa cheia de vida e de cor e as pessoas cinzentas deste mundo que estão preocupadas com questões mais importantes e sérias do cotidiano. Na tentativa de encontrar um lugar para ela, ele irá se deparar com algumas soluções, entre elas a opção de que a Coisa Perdida se encaixe neste esquema cinzento.

Este filme me fez pensar não só em amizade, em abandono e em convivência com o diferente, mas também em como as pessoas podem ser mais frias e automatizadas que as próprias máquinas quando se importam apenas com a mera reprodução da vida cotidiana.