Dois livros de Marçal Aquino

Considerando que as narrativas curtas não costumam me agradar, tive uma boa surpresa com estes dois livros de Marçal Aquino. O autor ganhou minha atenção com sua narrativa simples e direta, sem ornamentos, mas ainda assim com uma certa poesia embaixo do tapete, escondida pelos cantos.

36_cabeçaCabeça a prêmio
Essa é a história de Brito, um matador profissional que, com seu parceiro Albano, estão de tocaia, esperando o momento certo para o próximo alvo. Enquanto esperam, vamos conhecendo seu passado e seu futuro, numa narrativa que nos faz ir e voltar no tempo, tanto em momentos pessoais quanto em momentos profissionais. É a história também de Dênis, um piloto de avião que trabalha para um grande traficante e que acaba se apaixonando por Elaine, a filha do patrão.

Brito é daqueles homens que se deixaram levar pela vida, que vão tomando de conta das coisas conforme elas lhes aparecem. Sente-se superior (ou inferior?) à humanidade, se identificando mais com os animais. A figura de Marlene é que o humaniza e o deixa mais vulnerável. Já Dênis é um personagem bem menos desenvolvido que Brito e encontra seu sentido maior na relação que estabelece com Elaine.

Os romances desta novela servem como elemento atenuante de uma história de crimes e vinganças, mas o que irá instigar a leitura dessa narrativa será o seu enredo bem amarrado e envolvente, e não necessariamente uma simpatia pelos personagens; é a edição cinematográfica do texto, que dá a impressão ao leitor de que está assistindo a um filme de ação; é o quebra-cabeças feito por Aquino, que nos faz encaixar cada peça uma com a outra, deixando formar um típico quadro de faroeste urbano.

37_familiasFamílias terrivelmente felizes
Com uma prosa um pouco mais delicada que no livro anterior, aqui o autor nos conta histórias tocantes – às vezes banais, às vezes trágicas –, com uma certa poesia de quem vê a jóia incrustada nas pequenas coisas do cotidiano. As breves descrições de determinados objetos espalhados nas cenas denunciam o que os personagens são: brasileiros de vida modesta, pessoas comuns, e muitas vezes seres bem à margem, criminosos, prostitutas.

Boa parte dos contos têm um personagem-narrador que parece ser o mesmo, um homem divorciado, solitário, freqüentador de bares e da noite. Fugindo à regra, um ou outro são narrados em terceira pessoa, mas no geral entramos de maneira pessoal no drama dos personagens. O conto que fez o livro me conquistar foi Visita, mas há vários que senti prazer em ler, como Santa Lúcia e Matadores, este dividido em mini-capítulos, lembrando o esquema usado em Cabeça a prêmio.

Em um primeiro momento as relações familiares comentadas no título não aparecem de forma explícita, mas isso vai mudando ao longo do livro e vamos descobrindo que família é um termo que serve não só para quem compartilha o sangue, mas também para quem está sempre junto. Não obstante, estes contos falam muito mais da solidão que dos relacionamentos, falam muito mais de quem já não tem família, de alguém que perdeu tudo que valia a pena.

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