O escolhido foi você – Miranda July

interlunio55-escolhidoMiranda July é uma cineasta americana que, empacada com um roteiro em desenvolvimento, tenta encontrar outras formas de inspiração. Envolvida em perder um pouco de tempo na internet e folheando leituras aleatórias, ela acaba encontrando um ponto de partida ao ler um catálogo de anúncios de compra e venda, o Pennysaver. Um dos anúncios chama sua atenção: é alguém vendendo um casaco de couro por 10 dólares. Ela começa a se perguntar quem seria aquela pessoa, a história daquela jaqueta etc. então resolve ligar para ela e marcar um encontro, pagando-a pelo seu tempo. Ela descobre que o vendedor é Michael, um transexual idoso. A partir daí ela começa uma série de entrevistas com anunciantes do Pennysaver, tudo na missão de ajudá-la a compor sua história para o filme.

O escolhido foi você é um relato dessas entrevistas, ilustradas com as fotos dos participantes e dos objetos de venda. Mas mais do que isso, é sobre a própria Miranda July, sobre a escrita do roteiro do filme O futuro e sobre uma visão geral da vida profissional da autora. À medida que conta essas histórias, ela revela suas dificuldades com a escrita e outros momentos importantes de sua vida como escritora, como por exemplo, sua primeira peça, baseada na experiência de ter se correspondido, ainda adolescente, com um presidiário mais velho.

Miranda é muito autoconsciente de seus próprios privilégios e muito autocrítica, então ela mesma percebe o quanto essas entrevistas parecem tirá-la do seu ambiente mas ao mesmo tempo não vão fazê-la formar novas amizades, pois são pessoas com quem não tem nada em comum. E nem a intenção era essa, sua motivação é apenas coletar material humano para seu trabalho. O mais próximo que chega de uma real aproximação é o que tem com o último entrevistado (sem dúvida o entrevistado mais cativante), a ponto de ele acabar participando do seu filme.

Esse é um livro direto e honesto sobre encontros improváveis e o que se pode aprender com eles, mas infelizmente a autora não aprofundou suas conclusões ou reflexões sobre o que houve, e como a maioria das pessoas entrevistadas também não tinha muito a dizer, o leitor pode ficar com a sensação de que o que tem nas mãos é mais um álbum de figurinhas que um relato com conteúdo sobre composição artística.

Anúncios

O Circo do Dr. Lao – Charles G. Finney

interlunio53-circoEm pleno período da Grande Depressão americana, os habitantes da cidadezinha de Abalone, no Arizona, são despertados do tédio ao lerem, em sua tribuna matutina, o anúncio da chegada de um bizarro circo. O circo promete atrações incríveis, entre elas animais fantásticos, criaturas mitológicas, shows de erotismo, um adivinho e uma grande encenação apoteótica no final.

De início o autor vai apresentando os habitantes da cidade à medida que cada um vai reagindo ao anúncio e à parada de apresentação do circo. Um chinês, seguido de um unicórnio, um fauno, um cachorro verde, um homem muito velho, uma gaiola com um urso (ou seria um russo?), uma cobra gigantesca e outras criaturas fazem seu desfile curioso, mas nada animador: as pessoas estão procurando os truques por trás das atrações. Mesmo assim, a maioria está curiosa com o show e logo mais todos estarão seguindo para o terreno onde o circo está armado.

Em cada tenda o encontro de uma pessoa de Abalone com uma criatura nada aleatória, pois cada um ficará diante de seus piores defeitos. Uns vão engolir a arrogância, outros encontrarão a desilusão; uns vão encarar seu lado mais negro, outros vão se calar diante do inexplicável. No circo do Dr. Lao haverá grandes embates, disputas entre razão e fé, criação e morte, sexo e mortalidade, Ciência e outras formas de conhecimento. Sobretudo haverá o questionamento do império da Ciência, que não permite que haja coisas que não se pode explicar, exterminando o mistério, tão caro ao ser humano.

Um tanto diferente de sua famosa versão cinematográfica (7 Faces do Dr. Lao, de 1964), O Circo do Dr. Lao oferece um tom mais sombrio e menos ingênuo, menos político e mais filosófico, ainda que com uma linguagem muito simples e uma narrativa mais preocupada com as ideias do que com a trama. O filme tem algumas boas vantagens: a ótima atuação de Tony Randall, que faz os papéis de Dr. Lao, Merlin, Homem das Neves, Apolônio, Pã, Serpente e Medusa, isto é, suas sete faces, bem como o desenvolvimento da história e de alguns personagens, fazendo-os perder o caráter generalizado que têm no livro. No entanto, a obra escrita vai mais a fundo nas questões que propõe e tem o papel mais de provocar discussões que trazer esperança. O circo de Finney dificilmente perdoa, com seu caráter de arena do Juízo Final, onde todos os seus personagens estão prestes a acertar alguma grande conta.

interlunio53-circo2

A vida de Isak Dinesen – Judith Thurman

interlunio34-bioblixenEm 1982, a jornalista Judith Thurman, colunista da revista The New Yorker, publicaria a sua biografia de maior repercussão: A vida de Isak Dinesen (no original “Isak Dinesen: a vida de uma contadora de estórias”). Dividida em 4 livros, a biografia cobre desde a vida das duas famílias de onde Blixen se originou – os Dinesen e os Westenholz – até sua morte, em 1962.

Karen Blixen, o nome por que hoje é conhecida a autora de A Fazenda Africana, apesar de ter sido batizada como Karen Christentze, era chamada pela família de “Tanne”. Esse nome dá título ao Livro Um da biografia, o que conta sua infância e juventude na Dinamarca. Interessante o que faz Thurman ao dar bastante voz às pessoas que mais marcaram a vida de Blixen: as irmãs, o irmão, a mãe, a feminista tia Bess e sobretudo o pai, Wilhelm Dinesen, que cometeu suicídio quando ela tinha 10 anos.

A família da mãe tinha origem burguesa, eram pessoas práticas, religiosas, que vinham de cidades grandes e que acreditavam no fruto do próprio trabalho. Suas mulheres geralmente eram feministas. Já a família do pai vinha do campo, tinha vínculos com a aristocracia e eram mais espirituosos. Tanne se identificava mais com a família do pai e a ausência deste foi um dos grandes sofrimentos em sua vida, pois achava que apenas ele a entendia. Já com tia Bess, que morava com sua família, o relacionamento era contraditório. Tanne tinha carinho pela tia, admirava algumas de suas ideias, mas considerava-a uma tirana puritana. Sua mãe e seus irmãos eram amados, mas o que se sobressaía era que Blixen não se encontrava nessa família, sentia-se completamente deslocada.

As primeiras tentativas de distanciamento da família foram seus cursos de Belas Artes e suas primeiras histórias, que eram peças de teatro familiar. A Vingança da Verdade era sua peça mais significativa, que escreveu aos 19 anos. Em muitos momentos de sua vida Blixen iria resgatar e fazer pequenas apresentações dessa peça e ela acabou sendo encenada mais tarde, na década de 60, no Teatro Real de Copenhague e na televisão dinamarquesa. Era uma história que se passava numa estalagem, em que uma feiticeira roga uma praga em todos para que todas as mentiras ditas naquela noite fossem reveladas pela manhã.

Sua vida amorosa na juventude não teve grandes emoções até se apaixonar pelo primo Hans Blixen. No entanto, Hans não sentia o mesmo e por um bom tempo ela ficou alimentando esse amor não-correspondido, recusando os vários pedidos de casamento que recebia. Até que aceita se casar com o irmão gêmeo de Hans, o também barão Bror Blixen. Inicialmente eles cuidariam de uma fazenda de gado na Dinamarca depois do casamento, até que alguém lhes deu a ideia de ter uma fazenda na África, em Nairóbi. Nenhuma das famílias dos jovens era a favor, mas o espírito aventureiro de Bror e a vontade de Karen de viver uma vida diferente, independente da família, deixaram-nos determinados e foram enfim, patrocinados pelos familiares. Poucos anos depois Hans morreria em um acidente de avião.

Inicia-se uma nova fase da futura escritora, aquela em que foi mais feliz: sua vida na África. O Livro Dois chama-se “Tania”, que era como os africanos a chamavam. Para quem leu A Fazenda Africana essa parte da biografia traz o lado mais realista, mais documental da história contada por Karen Blixen. Seu relacionamento com Bror, as caçadas, a infidelidade do marido, a sífilis contraída dele, que será o grande tormento em sua vida, os péssimos resultados financeiros da fazenda, tudo aqui é mostrado de forma mais dura, afinal o grande livro de Blixen não é sobre mostrar os fatos exatamente como aconteceram, mas como ela queria se lembrar deles.

Destaca-se nesse livro ainda seu romance com Denys Finch Hatton, quase abençoado pelo marido Bror, de quem se separa em 1925. Essa parte da história serviu de base para o filme de 1985, Entre Dois Amores, de Sydney Pollack, estrelado por Meryl Streep e Robert Redford. O relacionamento sofria altos e baixos pois Hatton não queria ter uma esposa e Blixen esperava mais presença e compromisso. O que se sobressaía era, contudo, a grande amizade entre os dois, suas caçadas, suas conversas sobre arte e seus jantares ao som de música alta. Infelizmente, logo após a falência da fazenda, Hatton, que era aviador, sofre um desastre em 1931, deixando Blixen completamente desconsolada. Agora ela teria que enfrentar seu maior pesadelo: voltar para a Dinamarca definitivamente.

Karen Blixen

No entanto, é voltando para o seu país que Karen Blixen consegue o distanciamento para se tornar a escritora Isak Dinesen, nome que escolhe para publicar seu trabalho, que também dá título ao terceiro livro da biografia. Nessa fase de saudade da África e de sofrimento com a piora da doença, ela coleta as várias histórias que havia delineado por anos e publica Sete Narrativas Góticas, primeiramente por uma edição americana. Só depois do grande sucesso do livro ele seria publicado na Dinamarca.

Foi apenas depois de algum tempo que Blixen teve coragem de contar sua experiência como fazendeira no Quênia, e o resultado foi sua grande obra, A Fazenda Africana. Em seguida publicaria Histórias de Inverno, sob o peso da ocupação alemã na Dinamarca. Nessa época sua casa virou um ponto de fuga para os judeus dinamarqueses que procuravam refúgio na Suécia e ela então teve seu papel no movimento de resistência que salvou mais de 7000 pessoas.

Chegou ainda a escrever, sob pseudônimo, um fraco livro de suspense, apenas por questões financeiras e nunca admitiu formalmente sua autoria. Já nessa época contava com a ajuda de sua secretária Clara Svendsen, uma espécie de fã da autora que fez de tudo para trabalhar para ela. As duas tinham um relacionamento de amor e ódio e no final da vida de Blixen, quando já não conseguia escrever, Clara tornou-se sua copista. Outro relacionamento estranho, no final da década de 40 e começo dos 50, foi o que teve com o escritor Thorkild Bjørnvig. Ela era uma espécie de mestre místico para ele e para desenvolver o seu dom e ter paz para o trabalho, ele era mantido na enorme casa de Blixen, longe da esposa. Karen queria ter muito controle sobre Bjørnvig e eles acabaram rompendo.

O quarto e último livro é chamado de “Pellegrina”, uma referência a Pellegrina Leoni, a cantora de seu conto “Os Sonhadores”. Judith Thurman a toda hora faz referência a esse conto para comentar como Pellegrina é uma representação de Isak Dinesen, no sentido de que a personagem é alguém que está sempre se reinventando, sempre morrendo e renascendo como alguém novo. Aliás, durante todo o livro a autora analisa os contos de Blixen comparando-os com momentos de sua vida.

Nessa parte destaca-se sua ida aos Estados Unidos, onde foi tratada como uma rainha e conheceu inúmeros escritores e celebridades; a publicação de seus últimos livros – Últimas histórias Anedotas do destino – e sua morte, já com o corpo extremamente frágil por conta da doença.

A biografia revela um trabalho de pesquisa minucioso e Thurman não se limita a descrever os fatos da vida da escritora dinamarquesa. Além de analisar inúmeras de suas obras a fundo, ela também analisa a própria vida de Blixen, seja com categorias filosóficas, seja com categorias da Psicanálise, e traz para o leitor ótimas reflexões, ideais para quem busca uma biografia com um algo a mais.

Karen Blixen era uma contradição ambulante. Ora defendia o feminismo, ora o criticava; ora defendia o socialismo, ora era a favor da aristocracia, ostentando seu título de baronesa. Era generosa e egoísta ao mesmo tempo, tinha muito amor por seus empregados, mas podia ofendê-los gravemente. Era sobretudo uma mulher sofredora, solitária, que acreditava que a vida teria feito um pacto com ela: o amor em troca de boas histórias.

O Mágico de Oz – L. Frank Baum [Breve comentário]

interlunio46-ozUma das grandes qualidades de O Mágico de Oz é a sensação que ele dá ao leitor de que se trata de uma história há muito contada, um conto de fadas que vem sendo passado de geração a geração inúmeras vezes, apesar de ser uma história publicada em 1900. E era o que o autor desejava: construir um conto de fadas moderno sem a violência extrema dos clássicos (ainda que haja sim certa violência em O Mágico de Oz).

Isso fica claro na estrutura do livro, com tantas repetições e ações de 3 passos: ela encontra 3 amigos no caminho, o chapéu mágico dá 3 desejos a quem o usa, etc. Além disso, como é típico dos contos de fada, a história começa com sua saída de casa para entrar em contato com o mundo, causar mudança por onde passa e assim retornar mais madura e valorizando o que havia deixado. Ainda por cima Baum tem o mérito de oferecer boas mensagens às crianças sutilmente, sem didatismos, com belas passagens simbólicas, a ponto de agradar adultos também.

Quatro histórias ao modo quase clássico – Harold Brodkey [Breve comentário]

Inspirada pelos VEDAs no YouTube e pela iniciativa DEDO da Cláudia, resolvi fazer, no mês de outubro, uma postagem por dia no blog. Não costumo me preocupar com a quantidade de atualizações por aqui, mas achei que seria bom registrar leituras que acabam não virando texto ou mesmo responder alguma tag, além dos textos de sempre. No geral serão brevíssimos comentários e vou começar falando de uma leitura que fiz nesse mês de setembro.

interlunio38-brodkeyQuatro histórias ao modo quase clássico – Harold Brodkey
Essa foi uma leitura para o Projeto Para ler como um escritor. São quatro contos, sendo um deles um relato auto-biográfico bastante extenso (os demais parecem ser auto-biográficos também, mas não tenho certeza). São histórias que remetem a um processo de descoberta, de passagem da infância para o início da vida adulta, mas narrado de uma forma bem crua, detalhista e dura. Não é o tipo de escrita que me agrada e a abordagem dos temas não me provocou compaixão. Sabe quando alguém fala de si mesmo e de seus problemas de uma forma chata, que não faz diferença a quem está em volta? De qualquer forma o autor é muito aclamado e provavelmente eu não consegui captar suas qualidades, ainda mais sabendo que a edição original tem bem mais contos que a versão brasileira.

Estação Atocha – Ben Lerner

interlunio24-atochaAdam Gordon é um jovem americano que está em Madri por conta de uma bolsa de estudos e que no seu cotidiano de estudante estrangeiro se divide entre leituras, uso de haxixe e passeios pela cidade. Apesar de ser poeta, ele questiona-se enquanto tal e refere-se à poesia como uma forma de arte arcaica, sem valor para o mundo atual, e age como se não acreditasse no que faz, mas segue fazendo, sem saber ao certo o motivo. Aliás, Adam questiona cada ato seu, cada mínimo movimento de sua vida é pensado, analisado e muitas vezes criticado, para logo em seguida ser justificado, numa série circular de ponderações que faz o leitor ora incomodar-se ora identificar-se com ele.

“Eu nunca tinha viajado de trem, um meio de transporte tão arcaico quanto a poesia, pensei.”

Ben Lerner, e talvez aqui haja elementos autobiográficos, já que o autor também é poeta e foi bolsista na Espanha, nos coloca na cabeça de Gordon, através de sua narração em primeira pessoa e de fluxos de consciência bastante claros, e podemos nos sentir como alguém percorrendo as ruas de Madri no início do século XXI e ao mesmo tempo, como o próprio personagem faz consigo mesmo, nos vemos de fora, como alguém que estivesse observando a história de longe, analisando esses passos. Especialmente no início do livro, Gordon se vê sempre como um outro que tem a capacidade de se ver de fora. Ao longo da narrativa, no entanto, o personagem vai se tornando cada vez melhor no espanhol e vai se tornando cada vez mais ele mesmo, à medida que diminui essa autorreflexão, própria de quem se sente sozinho em um lugar que não é seu. Nesse sentido, podemos ver Estação Atocha como um romance de formação, já que Adam caminha para um novo estágio.

Os grandes questionamentos de Adam são em relação ao próprio fazer artístico, mais especificamente o fazer poético, já que é difícil justificar para o mundo qual o papel da poesia nos dias de hoje. E enquanto poeta ele procura fugir da hipocrisia, da atitude arrogante dos que se julgam artistas. Apesar disso, o personagem cai em uma série de pequenas mentiras para conseguir se sair bem nas situações sociais e profissionais a que é obrigado a passar, justamente por ser considerado um artista. Para isso ele inventa fatos sobre sua família, se apropria de histórias alheias, finge se emocionar com suas próprias invenções, tudo para criar uma fachada interessante que ele acha que não tem naturalmente.

“Esforcei-me para pensar nos meus poemas, ou em qualquer poema, como máquinas capazes de fazer eventos acontecerem, de mudar os governos, a economia, ou apenas a sua linguagem, e o conjunto das suas funções sensoriais, mas não consegui imaginar isso nem me imaginar imaginando isso.”

O autor consegue dar ao personagem a exata medida de um adulto jovem, alguém que embora já esteja pronto para pensar o mundo no que ele tem de mais abstrato ou profundo, ainda está conectado às aventuras da juventude. Isso fica mais claro com as relações que ele estabelece com os amigos que faz na cidade: Isabel, uma estudante que acaba se tornando sua namorada provisória, e Teresa e Arturo, jovens ricos que vão ajudá-lo na tradução e publicação de seus poemas. Em contato com eles, Adam se sente sempre inseguro, a despeito de suas intensas reflexões sobre arte, que reverberam apenas em sua própria cabeça. O que é mais narrado em Estação Atocha não são as ações, mas as reações de Adam, os acontecimentos internos do personagem, tentando compreender uma língua que não domina, o que lhe dá uma profunda sensação de solidão. Não solidão em um sentido melancólico, mas apenas a sensação de não poder transmitir os próprios pensamentos.

Historicamente o personagem é localizado no livro, em determinado momento, pelos Atentados de 11 de março em Madri, em 2004. Mas mesmo com a história acontecendo lá fora, são ainda os pequenos problemas pessoais que parecem falar mais alto. Adam é alguém que está sempre passando pela tangente, ilustrado pelo momento em que ele se esvai das manifestações que ocorrem na cidade, com a desculpa de que ali não é seu país. Para além de qualquer conclusão que o leitor possa chegar sobre ele, não há dúvida de que Adam é incrivelmente humano e seu autor não teme vendê-lo dessa forma.

“Quem não desempenhava de maneira ilegítima um dos poucos papéis pré-fabricados postos à disposição pelo Capital, ou como quisermos chamá-lo, mentindo descaradamente cada vez que dizia ‘Eu’, quem não atuava, pelo menos como figurante, no comercial informativo, reprisado obsessivamente, sobre as injustiças da vida?”

Estação Atocha traz uma bem-humorada reflexão sobre literatura e leitura, sobre como os acontecimentos históricos realmente refletem em nossas vidas, sobre a relação entre o tempo na arte e o tempo real, tudo isso uma maneira despretensiosa, que brinca com o pensar intelectual, sem negá-lo. Mas também se detém nas relações pessoais, na forma como divagamos sobre o que os outros sentem por nós, e como procuramos, nos olhares e atitudes do outro, pequenas pistas para encontrarmos algum espelho que nos reflita.

“Felizes eram as épocas em que o céu estrelado representava o mapa de todos os caminhos possíveis, épocas caracterizadas por uma integração social tão perfeita que, para conectar o herói à totalidade, não eram necessárias as drogas.”

________
Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

Stoner – John Williams

interlunio18-stonerEm um ou outro ponto da vida temos a chance de nos perceber no mundo como realmente somos, ouvimos um chamado e descobrimos que é um caminho por onde queremos ir, um caminho sem chance para desvios, pois o sentido pode estar nele. Para William Stoner, que inicia essa história como um simples rapaz criado numa fazenda, com poucas chances de escolha, esse chamado se dá em uma aula de Literatura, quando tem oportunidade de ir à Universidade e descobre sua paixão pelo ensino de Letras. Sua vida se confunde então com o espaço da Universidade, onde pela primeira vez se sente em casa. É através dela que faz seus poucos amigos, que conhece o amor e que reconhece seus limites, pois nunca consegue se distanciar deste mundo.

Se por um lado Stoner é um homem que se deixa levar pelo destino, que tem dificuldade em tomar decisões e se entrega ao movimento da vida, por outro ele carrega uma força extrema diante dos problemas que surgem, tomando como certo o que ele é, um professor apaixonado pelo ensino e pelo conhecimento. Desde o início do livro sabemos que estamos diante da vida de alguém comum, que passa por um casamento, por uma modesta evolução acadêmica, o nascimento e crescimento de uma filha… mas ao longo da leitura percebemos como a vida de uma pessoa comum pode ser grandiosa e extraordinária quando a observamos com uma lente de aumento, quando acompanhamos seus passos, como se fossem os nossos. É a grandiosidade dos pequenos momentos da vida que experimentamos e geralmente guardamos para nós mesmos, por julgarmos ínfimos demais ou, e ao mesmo tempo, grandes demais para compartilhar.

John Williams é o que se pode chamar de um autor de prosa elegante, pois temos a sensação de cada frase ter sido extremamente pensada, ainda que estas frases sejam claras e cheias de emoção. Neste livro ele realiza um movimento de mostrar e esconder os pensamentos do personagem, para que aqui e ali possamos nos surpreender com o que irá acontecer, já que ele resume sua história nos primeiros parágrafos. Stoner é uma espécie de David Copperfield americano do século XX, atravessando momentos históricos importantes e se envolvendo em pequenas batalhas pessoais, vencendo a pobreza e a falta de jeito, descobrindo o amor depois de se perder um pouco no caminho e enfrentando inimigos da maneira que pode, com dignidade e justiça. Como o personagem de Dickens, Stoner tem uma vida dura e comete seus erros e é no amor que revela seu lado mais bonito.

“[o amor] como uma parte do devir humano, uma condição inventada e modificada momento a momento e dia após dia, pela vontade, pela inteligência e pelo coração.”

________
Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

Middlesex – Jeffrey Eugenides

51_middleMiddlesex é um romance que abarca tantas categorias e discussões que fica difícil começar a apontar todas. Mistura de romance de formação com saga familiar, é um livro que retrata a descoberta da identidade de Cal ou Calíope – primeiro como menina, depois como homem, mas sendo biologicamente os dois ao mesmo tempo – não sem antes contar em detalhes a história da sua família, os Stephanides, começando por seus avós gregos, nascidos na Turquia, que fogem para os Estados Unidos após o grande incêndio de Esmirna, em 1922. A partir daí acompanhamos vários fatos do século XX do ponto de vista destes avós, e depois de seus pais, que vão encontrar em Detroit um novo lar, ainda que não consigam se distanciar muito de suas raízes. Somente na segunda parte do livro o protagonista vira realmente protagonista e toma a atenção para a questão da sua intersexualidade:

“Sou a oração subordinada final de uma longa sentença que começa há muito tempo, em outra língua, e vocês precisarão lê-la desde o início para chegar ao fim, que é quando entro na história.”

Metade da narrativa, portanto, contempla as origens de Cal: vemos como seus avós, Desdêmona e Esquerdinha, tiveram que lidar com um segredo que vai afetar a vida de todos mais tarde; vemos seus pais, Milton e Tessie, se apaixonarem e repetirem uma tendência familiar de casar entre parentes; vemos todos os dramas, cômicos ou trágicos, de uma família estrangeira tentando se adaptar a uma nova realidade e vemos a infância e o início da adolescência de Cal como menina, de certa forma não muito diferente da de qualquer uma outra.

Assim como Desdêmona e Esquerdinha, que ao chegarem na América interpretavam as novidades com correspondentes na mitologia e na cultura grega, o autor trespassa a narrativa com essas referências, a começar por uma Invocação da Musa, típica do início das obras épicas gregas, em que o escritor pedia por inspiração. Passa também por mitos como Terésias e o Minotauro, criaturas duplas que representam a figura de Calíope (ela própria a musa da poesia épica). A duplicidade, aliás, está por todo o livro: masculino/feminino, tradição/ciência, natureza/criação, Velho Mundo/Novo Mundo, enfim, é uma história repleta de quimeras.

51_middle2
★★★★★ | Companhia das Letras, 2014

Cal é então esse personagem com aura mítica, essa quimera capaz de assustar mas com o poder de ter a experiência dos dois gêneros. Ele tem a consciência real de ser uma mulher para depois descobrir-se homem e se ver praticamente liberto das amarras femininas. E sua experiência nos traz velhas e grandes perguntas: o que exatamente significa ser homem ou mulher? Qual o papel cultural e qual o papel dos órgãos genitais na formação de nossa atitude perante o mundo? O que é destino e o que é livre-arbítrio na sexualidade? Para Cal, inevitavelmente seu gene recessivo do quinto cromossomo definiu o que sua vida ia ser, dentro do mundo em que ele nasceu, mas não só isso, afinal essa é uma história de herança não apenas genética, mas também de como levamos para frente os costumes de nossos ascendentes.

“Viver conduz a gente não ao futuro, mas ao passado, à infância e a antes do nascimento, até, enfim, a comunhão com os mortos. A gente envelhece, sobe as escadas ofegante, entra no corpo do pai. Dali, é só um pulinho até os avós, e então, antes que se dê conta, está viajando no tempo. Avançamos para trás nesta vida.”

Acima de todas as discussões que traz, e não à toa vencedor do Pulitzer de 2003, Middlesex é um livro envolvente e divertido, com algumas situações quase inverossímeis, que beiram o realismo mágico, e que dão à narrativa um tom cômico e leve. Jeffrey Eugenides tem uma escrita clara, mas ao mesmo tempo rica e bonita, e consegue grandes efeitos com suas mudanças de ponto de vista entre primeira e terceira pessoa, especialmente quando coloca o narrador Cal quase como onisciente, na mente de seus pais e avós antes mesmo de ter nascido. Com suas descrições perfeitas e seu enredo genialmente entrelaçado, é possível ouvir os sons, as vozes dos personagens, visualizar o tempo indo e voltando em flashbacks e flashforwards, sentir os cheiros das espeluncas frequentadas por Esquerdinha e sentir o sabor da fina massa de galactobourekos de Desdêmona estalando no céu da boca.

_________

*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

Duna – Frank Herbert

48_dunaSempre que imaginamos um futuro distante, a sensação é de que a humanidade estará cada vez mais conectada ao mundo digital e as máquinas tomarão conta do nosso cotidiano. No entanto também podemos considerar que esta realidade poderá não nos agradar muito quando ela ultrapassar um certo limite: o limite que tira o ser humano do centro e o torna dispensável. Existem muitas histórias de ficção-científica que retratam o perigo da inteligência artificial tomando o controle das coisas, mas curiosamente em Duna temos um futuro possível mais distante ainda, um momento em que se tomou tanta consciência desse perigo, que as “máquinas pensantes” se tornaram proibidas e há muito banidas do universo. Esse passo para trás na História, ou sob outro ponto de vista, esse movimento histórico circular que traz de volta um sistema semelhante ao feudalismo medieval, dá ao livro uma atmosfera de retorno a um mundo mais analógico, ainda que haja novas e diferentes tecnologias, que nos lembram que essa história se passa cerca de 20.000 anos depois de nossa época.

Publicado em 1965, Duna se apresenta diferente dos demais clássicos da ficção-científica que eu já tive oportunidade de ler, aproximando-se mais da fantasia, tanto pelos temas como por uma preocupação maior com aspectos literários, geralmente deixados um pouco de lado pelos visionários do futuro da humanidade. Apesar de ser um livro longo, cada capítulo parece ter sido minuciosamente pensado, cada personagem tem sua missão bem definida na história e cada passo deles nos deixa ansiosos pelo próximo. Frequentemente comparado com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, por ter construído um universo bem definido, com povos, línguas, religiões etc., Duna ainda abarca questões ecológicas e sociais e oferece um alto nível de entretenimento, com muito espaço para ação, sem esquecer de desenvolver muito bem os personagens, para que nos importemos com eles. Aliás, os dramas familiares, as batalhas políticas e o uso de poderes mentais – em um mundo sem computadores os homens de destaque têm que ser geniais – não deixam qualquer possibilidade para personagens vazios.

O protagonista dessa saga é o jovem Paul Atreides, filho do duque Leto e de sua concubina Lady Jéssica, nobres do planeta Caladan que, a pedido do imperador padixá, vão se instalar no planeta Arrakis para tomar conta da produção e distribuição do mélange, uma espécie de droga/especiaria valiosa. Essa posição era ocupada anteriormente pelos Harkonnen, e essa tomada de poder vai causar uma guerra entre as duas famílias. De um lado os Harkonnen vão agir segundo os interesses do próprio imperador e de outro os Atreides querem ter o apoio do povo nativo, os fremen.

Por ser um planeta desértico, a água em Arrakis é extremamente escassa e os fremen sobrevivem reciclando a água do próprio corpo. Incrivelmente organizados, aos poucos vamos descobrindo o poder desse povo, seus segredos e sua importância para o futuro do planeta. O contato de Paul com a especiaria e com os fremen, associado ao seu treinamento marcial e poder presciente vão indicá-lo a uma posição de salvador, um suposto ser superior que vem sendo aguardado pela humanidade. Aliás, um dos temas de maior força do livro é essa volta do homem para ele mesmo e a natureza. Embora desejemos a facilidade que as máquinas proporcionam, o ser humano corre o risco de perder o contato com seus próprios recursos físicos e mentais e Paul acaba sendo um símbolo do que um homem pode se tornar com muito esforço e muitas variáveis a seu favor.

Apesar de ser o início de uma série, Duna é um livro que pode ser lido sem a preocupação com as continuações e que causou um grande impacto na literatura e no cinema de entretenimento, influenciando diversas obras posteriores. Quem conhece a saga cinematográfica de Star Wars vai encontrar diversas semelhanças, entre elas a paisagem desértica, a construção de um herói que tem uma origem perturbadora, os poderes mentais, um império ambicioso e inúmeros detalhes percebidos pelos fãs das duas séries. Outro exemplo são As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que talvez tenha encontrado nos livros de Frank Herbert uma grande inspiração para suas intrigas políticas e religiosas, e até mesmo para um estilo narrativo que consegue dosar grandes momentos de ação com personagens bem construídos e diálogos afiados.