Coração das Trevas – Joseph Conrad

32_trevasSe Coração das Trevas fosse um filme ou uma fotografia, ele provavelmente seria em preto e branco, com todas as suas imagens cheias de luzes e sombras. Curiosamente, no entanto, o livro inicia com uma descrição muito bonita de um final de tarde colorido no rio Tâmisa, narrado por alguém a bordo de um iole, embora quem realmente vá contar essa história seja o personagem Charlie Marlow, posto na popa da embarcação com uma simbólica posição de “ídolo”. Ao lembrar a todos que a Inglaterra já fora um lugar selvagem dominado pelos romanos, Marlow ironiza a colonização inglesa na África e resolve contar sobre sua experiência como capitão de um barco a vapor.

Com um fascínio antigo pelo continente, Marlow vai em busca de ser contratado por uma companhia que realizava comércio através do rio Congo. O que antes ele considerava como um espaço em branco no mapa já se tornara “um lugar escuro, tomado pelas trevas”, e esse sinistro resultado da colonização era algo que ele queria ver de perto. Sua missão era resgatar o notável Sr. Kurtz de um posto de troca localizado nas profundezas da selva africana, um homem que adiciona mais mistério ainda em sua aventura.

A primeira metade do livro tem uma atmosfera que julguei muito semelhante à de A Ilha do Dr. Moreau: o mistério, a antecipação que envolve a figura de Kurtz deixa o personagem Marlow tão curioso e assombrado quanto o narrador do livro de Wells com o que vê na ilha. A diferença é que Marlow parece querer adentrar o mistério porque se identifica com Kurtz; quer entendê-lo, pois tem consciência de que qualquer ser humano pode se perder no coração das trevas, afinal todos os civilizados têm uma porção selvagem adormecida. Olhar o homem primitivo como algo diferente de si é negar sua própria constituição humana:

“Você, se for homem bastante, reconhece intimamente no fundo de si […] uma suspeita vaga de que haja ali um significado que você – você, tão distante da noite das primeiras eras – talvez seja capaz de compreender. E por que não? O espírito do homem tudo pode – porque tudo está contido nele, tanto a totalidade do passado como o futuro inteiro.”

Essa atmosfera de segredos, sombras na selva, dominação e violência a favor do progresso que o livro de Wells também traz, é mostrada por Conrad, poucos anos depois, sob uma forma mais realista, segundo Braulio Tavares em seu prefácio para A Ilha do Dr. Moreau. Ele aponta essa semelhança com Coração das Trevas, demonstrando que a selvageria dos colonizadores europeus, em vez de demonstrar sua suposta superioridade, coloca todos no mesmo patamar:

“O coração das trevas é uma versão realista da alegoria mostrada em A Ilha do Dr. Moreau. O choque entre civilizados e primitivos, em vez de civilizar estes últimos (em vez de transformar ‘animais’ em ‘homens’), gera um atrito espantosamente cruel que acaba por animalizar a todos. É da natureza do colonialismo usar por um lado um discurso missionário e civilizatório (‘estamos aqui para transformá-los em criaturas superiores, iguais a nós’) e por outro uma prática que acaba por desumanizar os próprios civilizados.”

Ao questionar o processo de colonização, portanto, Conrad faz perguntas cada vez mais profundas sobre a própria natureza humana, ou seja, sobre o que nos faz humanos. Será que a domesticação do homem civilizado apagaria seus instintos mais primitivos? O que acontece a um homem que retorna à selva, que penetra num mundo longe da moralidade e a ele é permitido ser selvagem novamente?

“Vocês não conseguem entender? E como poderiam – com um calçamento de pedra debaixo de seus pés, cercados por vizinhos prontos a acudi-los ou lhes pedir algum favor […] – como podem vocês imaginar a qual região particular das eras primevas os pés desimpedidos de um homem podem levá-lo quando ele se depara com a solidão.”

As belas descrições de Conrad e seus efeitos de luz e escuridão, tanto na paisagem como em todas as oposições feitas no livro, garantem uma leitura muito rica, mesmo em um livro tão curto, pois o autor deixa vários elementos da narrativa implícitos. É como se o autor pintasse um quadro cheio de detalhes sugestivos e deixasse ao leitor a tarefa de observá-los com cuidado, imaginando o que haveria por trás da floresta fechada e do coração dos homens.

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O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

30_oceanoEu não costumo ter muita pressa para ler lançamentos, mas fiquei muito intrigada com esse mais recente livro do Gaiman. Embora eu seja leitora do autor há mais de 12 anos, ainda tenho alguns de seus livros mais antigos guardados para ler, esperando sei lá eu o quê, a tal hora certa. Mas esse não podia esperar, e mesmo com uma certa expectativa, não me decepcionei porque primeiro: eu já sei o que esperar dele, inclusive o fato de que seus livros não costumam surpreender muito (o que é bom, porque parece que tudo que se lê hoje em dia tem que ter uma reviravolta), e segundo: a escrita dele é confortável como um pijama velho.

Talvez eu tenha ficado um pouco desapontada por ser uma história curta. Eu esperava algo no estilo Deuses Americanos. Mas o livro é o que é: a lembrança de um breve, porém importante momento da infância. Lembrei-me então do mito do Rei Pescador, aquele que fala do instante em que o menino se queima ao tentar pegar um peixe na fogueira. É nesse comecinho da vida que ele perde a ilusão de que a vida é apenas felicidade, que ele percebe que o mundo pode ser injusto e duro.

E como pode ser injusto! E no caso do personagem de Gaiman, que tem apenas 7 anos, assustador, pois até mesmo sua casa e sua família deixam de ser terreno seguro. Segurança mesmo só na casa das Hempstock, um mundo materno e acolhedor, com comida que acalenta a alma e costuras que moldam o tempo. Mais uma vez Gaiman usa uma versão da figura das 3 mulheres – uma velha, uma adulta e uma jovem, conhecidas como Moiras na mitologia grega – como condutoras dos mistérios da vida, e são elas que fazem essa história ser tão envolvente. Talvez elas, mais que a criança narradora, sejam as responsáveis por nos levar de volta à infância ao longo da leitura.

Ainda que essa história tenha um fim, fica a sensação de que esse momento em que nos queimamos fica voltando o tempo todo durante a vida, não importa a idade que temos, e que tudo que precisamos para amenizar essa dor é ter alguém pra segurar forte nossa mão e dizer que tudo ficará bem.

“Uma história só é relevante, suponho, na medida em que as pessoas na história mudam. Mas eu tinha sete anos quando todas essas coisas aconteceram, e no fim de tudo era a mesma pessoa que era no início, não era? Todos os outros também. Deviam ser. As pessoas não mudam.”

Ciranda de Pedra – Lygia Fagundes Telles

29_cirandaUma das coisas que percebi logo ao iniciar essa leitura foi que a autora parece ter tido muito cuidado e dedicação na escrita de seu primeiro romance, mas o que mais salta aos olhos no estilo da Lygia Fagundes Telles para mim é a sensibilidade em demonstrar a alma dos personagens e suas relações uns com os outros. Virgínia, principalmente enquanto criança, é tão verdadeira (ou verossímil) que é possível sentir suas dores junto com ela.

Talvez porque eu tenha me identificado: eu também tive minhas próprias cirandas de pedra. Lidar com a indiferença é um caminho difícil porque embora seja uma situação que machuque, para quem vê de fora não é nada grave. Virgínia se sente isolada, sem lugar em todos os lugares, solitária em qualquer grupo; ou nunca faz parte, ou quando faz se sente diminuída.

“Todos eles eram assim, às vezes pareciam amigos e de uma hora para outra, sem se saber por quê, mudava tudo, ‘Não sei lidar com eles, não sei!'”

Para ela, o que mais dói é não encontrar seu espaço no mundo, é nunca entrar na ciranda, e por conta disso idealizar quem faz parte dela. Os demais personagens – suas irmãs e os vizinhos – são retratados como seres perfeitos, que nunca fazem nada errado, que têm a aparência impecável, ao contrário de Virgínia, que é o tempo todo avisada de seus defeitos.

Não há dúvidas que os afetos e desafetos recebidos na infância deixam-nos marcados pra sempre, a ponto de não conseguirmos esquecer as situações que, aparentemente, já nem damos mais importância. E é assim que, mesmo adulta, Virgínia lamenta perceber que vive em função dessas pessoas que idolatra, quando já achava que tinha superado seus traumas.

“Nunca conseguira na hora certa o que mais desejara. Ou vinha tudo com atraso enorme ou então não vinha nunca.”

O romance é repleto de simbologias, que é algo que gosto muito na autora. Objetos, animais (geralmente insetos) e elementos da natureza em geral aparecem o tempo todo para chamar a atenção de algum ponto psicológico dos personagens. As frases que marcam Virgínia, e que ela repete o tempo todo em suas lembranças durante a narrativa, parecem até formar uma canção que embala essa ciranda, o que dá ao livro todo um ar de estranheza, ingenuidade e loucura.