Tia Júlia e o Escrevinhador – Mario Vargas Llosa

21_juliaEmbora os personagens deste romance não sejam os mais interessantes da história da Literatura – talvez até porque sejam baseados na vida real do autor – eu cheguei a ficar com saudade deles no final do livro. Senti como se tivesse viajado até o Peru e tivesse convivido com eles e suas histórias doces e banais. Nada banais, no entanto, são as historietas paralelas contadas ao longo do livro e que permeiam o romance, todas com um tom trágico e envolvente.

Mario é um jovem estudante de Direito, aspirante a escritor, que trabalha em uma rádio em Lima reciclando notícias do dia para sua transmissão de hora em hora. No livro ele narra uma passagem da sua vida, quando tinha apenas 18 anos, em que conheceu dois bolivianos que o fascinaram e o marcaram para sempre: Julia, um amor complicado pela diferença de idade e revolta da família; e Pedro Camacho, um excêntrico escritor de radionovelas. Enquanto ela irá estimular sua sexualidade e ânsia por maturidade, ele o fará refletir sobre o objetivo de ser escritor profissional.

O livro se divide então entre o cotidiano de Mario – lutando pelo direito de ficar com uma mulher mais velha e ao mesmo tempo tentando escrever e compreender o método e a personalidade do colega de rádio –, e vários capítulos de novelas de Pedro Camacho, como são transmitidos aos ouvintes da Rádio Central.

Essas radionovelas funcionam como contos com os quais a história principal de vez em quando dialoga, fazendo referências que comentam ou antecipam os acontecimentos. Seus protagonistas são sempre pessoas de 50 anos, geralmente homens, que guardam certas características em comum: “testa ampla, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade no espírito” (embora essa descrição seja alterada mais pra frente) e sua escrita curiosamente revela um estilo próprio, diferente do restante do livro, repleto de passagens melodramáticas e metáforas cafonas, próprias das radionovelas:

“A incerteza, margarida cujas pétalas não se termina jamais de desfolhar, foi agravando o alcoolismo de Joaquín Hinostroza Bellmont, a quem, por fim, via-se mais bêbado que sóbrio.”

Mais para o fim, essas histórias perdem um pouco o fôlego e vão desmoronando junto com o personagem Pedro Camacho e minha curiosidade restava apenas para o que iria acontecer com Mario e Julia. Muitos leitores reclamam do final do livro e eu até entendo, porque nada de muito extraordinário acontece, talvez, como já comentei, pelo compromisso que o autor tinha com a realidade. Ainda assim sua escrita é leve, bonita, simples e com ótimos toques de humor, o que me rendeu uma leitura mais do que agradável.

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Livros relacionados:

A Mulher que escreveu a Bíblia – Moacyr Scliar

Uma maneira de ver o Destino é como aquele conjunto de coisas das quais você não pode escapar: nascer mulher ou homem, em um determinado país, em uma determinada família, com uma determinada aparência – que irá ou não satisfazer o gosto da sociedade em seu momento histórico –, condição social favorável ou não, enfim, uma específica combinação de características que você não escolheu e que de certa forma servirão de funil para suas possibilidades de vida. Esse tipo de Destino, que aponta mais para o passado e o presente do que para o futuro, nos lança um desafio pra vida, tornando-a um jogo de escolha daquilo que você irá aceitar e daquilo que irá tentar transformar ou compensar.

Em A mulher que escreveu a Bíblia, Scliar constrói uma personagem cujo Destino foi bastante cruel: numa época em que o valor de uma mulher era medido somente pela beleza e fertilidade, ela nascera incrivelmente feia. Não ajudava muito ser filha de um mero pastor de cabras e ter uma bela irmã, mas pelo menos ela sabia ler e escrever e também era a primogênita, o que lhe rendeu ser uma das setecentas esposas do rei Salomão e acabar se tornando uma redatora da história dos judeus.

A narrativa, no entanto, é o relato de uma mulher dos dias de hoje contando como foi ser essa moça em uma vida passada, usando referências modernas e analisando as situações como se acontecessem no nosso tempo. O anacronismo na linguagem e o erotismo escrachado dão o tom de humor do livro, bem como as situações e pensamentos absurdos da personagem, com suas fantasias ingênuas de menina apaixonada, que ora incomodam, ora fazem rir. O texto inclusive foi adaptado para o teatro em 2007 e se tornou uma peça cômica.

Uma leitura leve, mas que também questiona o papel da mulher na história, o quanto a beleza define esse papel e como a condição feminina atual ainda é atrelada ao mundo masculino. A moça feia vive em função da aceitação dos homens e ao mesmo tempo se descobre em seu processo de sublimação, transformando seu Destino de uma maneira não muito diferente do que muitas mulheres fariam hoje:

“Minha vida tinha agora um sentido, um significado: feia, eu era, contudo, capaz de criar beleza. Não a falsa beleza que os espelhos enganosamente refletem, mas a verdadeira e duradoura beleza dos textos que eu escrevia, dia após dia, semana após semana – como se estivesse num estado de permanente e deliciosa embriaguez.”

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Livro relacionado:

Um Copo de Cólera – Raduan Nassar

Há algum tempo me recrimino por não ter lido ainda Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. Foi por culpa então que acabei escolhendo Um Copo de Cólera como primeiro contemplado da Coleção Literatura Ibero-Americana. Trata-se de uma novela escrita na década de 70 que relata um dia na vida de um homem e uma mulher. A história se passa na chácara desse homem e descreve, através do pensamento dele enquanto narrador, os inúmeros rituais por que eles passam em seu cotidiano nada banal. Cada capítulo contém apenas um parágrafo (e um período gramatical), o que faz a leitura ficar fluida, mas também um pouco sufocante. Apesar de ser muito rico enquanto objeto de estudo literário, não é o tipo de livro que faça a minha cabeça, e apenas na segunda vez em que li pude apreciá-lo um pouco mais.

Os 5 primeiros capítulos nos apresentam a esse casal em seus momentos mais íntimos: A Chegada, Na Cama, O Levantar, O Banho e O Café-da-manhã. Tudo acontece como numa peça teatral, os movimentos de cada um ensaiados e repetidos para que ambos satisfaçam suas carências afetivas e sexuais. Ela, fetichista, masoquista e maternal ao mesmo tempo; ele, indiferente, autoritário e infantil, ambos revezando atitudes contraditórias, segundo a necessidade de cada momento.

Até que em O Esporro temos aparentemente uma quebra desse mundo ritualístico, quando ele descobre que sua cerca viva sofreu um ataque de formigas saúvas. Sua reação é extremamente dramática, e diante da calma e do deboche dela perante a situação ele acaba explodindo, com as formigas servindo de metáfora para a sua cólera, alimentada pelas provocações dela. A briga inicia um jogo de contrastes, em que ele é acusado de fascista e ela de engajada hipócrita, ele de agir com paixão somente em relação às plantas, ela de só agir com razão fora da cama, culminando numa épica lavagem de roupa suja – com uma linguagem ora solene, ora vulgar –, que para ele, acima de tudo, tinha um significado cênico.

“ela não fazia o gênero de quem fala e entra, ela pelo contrário era daquelas que só dão uma alfinetada na expectativa sôfrega de levar uma boa porretada, tanto assim que ela, na hora da picada, estava era de olho na gratificante madeira do meu fogo, de qualquer forma eu tinha sido atingido, ou então, ator, eu só fingia, a exemplo, a dor que realmente me doía”

Tanto é assim que no último capítulo, A Chegada, agora narrado por ela, percebemos que o círculo se fecha e a dinâmica do casal se completa, nos dando a certeza de que o esporro foi só mais um ritual dessas pessoas que estão sempre de copo cheio, esperando a gota d’água.

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Livro relacionado:

Coleção Folha Literatura Ibero-Americana

Finalmente chegou minha Coleção Folha Literatura Ibero-Americana. Essa foi uma dica da Michelle, do Resumo da Ópera e acabei me empolgando por comprar a coleção toda. Por mais que eu ache divertido o ritual de comprar toda semana na banca, optei por comprar tudo de uma vez. Mesmo com frete acabei pagando o que pagaria na banca, mas como eu soube que na minha região os livros iam custar mais caro, achei que valeria mais a pena. Fiquei com medo de não chegar porque na hora da compra não recebi nenhum código de pedido e nenhum e-mail da empresa confirmando nada. Ainda bem que chegou no último dia do prazo e me atenderam muito bem por e-mail quando achei que não fosse chegar.

A coleção é bacana, vale muito a pena comprar livros por esse preço (16,90 cada), ainda mais porque os títulos são muito bons. O único defeito pra mim são essas capas que gritam “sou livro de coleção de banca”, esse aspecto de apostila do ensino médio. As imagens das capas são bonitas, mas um visual mais sóbrio no design da coleção iria combinar melhor com o conteúdo. Mesmo assim estou satisfeita. Não tinha nenhum dos livros, a qualidade está boa e é uma oportunidade de entrar em contato com a obra de vários autores que não conheço ainda. São 5 brasileiros, 5 argentinos, 4 portugueses, 3 espanhóis, 2 chilenos, 2 uruguaios, 1 peruano, 1 cubano, 1 mexicano e 1 colombiano. Já comecei a ler um deles e em breve comento por aqui.
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Livros da coleção comentados: