Duna – Frank Herbert

48_dunaSempre que imaginamos um futuro distante, a sensação é de que a humanidade estará cada vez mais conectada ao mundo digital e as máquinas tomarão conta do nosso cotidiano. No entanto também podemos considerar que esta realidade poderá não nos agradar muito quando ela ultrapassar um certo limite: o limite que tira o ser humano do centro e o torna dispensável. Existem muitas histórias de ficção-científica que retratam o perigo da inteligência artificial tomando o controle das coisas, mas curiosamente em Duna temos um futuro possível mais distante ainda, um momento em que se tomou tanta consciência desse perigo, que as “máquinas pensantes” se tornaram proibidas e há muito banidas do universo. Esse passo para trás na História, ou sob outro ponto de vista, esse movimento histórico circular que traz de volta um sistema semelhante ao feudalismo medieval, dá ao livro uma atmosfera de retorno a um mundo mais analógico, ainda que haja novas e diferentes tecnologias, que nos lembram que essa história se passa cerca de 20.000 anos depois de nossa época.

Publicado em 1965, Duna se apresenta diferente dos demais clássicos da ficção-científica que eu já tive oportunidade de ler, aproximando-se mais da fantasia, tanto pelos temas como por uma preocupação maior com aspectos literários, geralmente deixados um pouco de lado pelos visionários do futuro da humanidade. Apesar de ser um livro longo, cada capítulo parece ter sido minuciosamente pensado, cada personagem tem sua missão bem definida na história e cada passo deles nos deixa ansiosos pelo próximo. Frequentemente comparado com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, por ter construído um universo bem definido, com povos, línguas, religiões etc., Duna ainda abarca questões ecológicas e sociais e oferece um alto nível de entretenimento, com muito espaço para ação, sem esquecer de desenvolver muito bem os personagens, para que nos importemos com eles. Aliás, os dramas familiares, as batalhas políticas e o uso de poderes mentais – em um mundo sem computadores os homens de destaque têm que ser geniais – não deixam qualquer possibilidade para personagens vazios.

O protagonista dessa saga é o jovem Paul Atreides, filho do duque Leto e de sua concubina Lady Jéssica, nobres do planeta Caladan que, a pedido do imperador padixá, vão se instalar no planeta Arrakis para tomar conta da produção e distribuição do mélange, uma espécie de droga/especiaria valiosa. Essa posição era ocupada anteriormente pelos Harkonnen, e essa tomada de poder vai causar uma guerra entre as duas famílias. De um lado os Harkonnen vão agir segundo os interesses do próprio imperador e de outro os Atreides querem ter o apoio do povo nativo, os fremen.

Por ser um planeta desértico, a água em Arrakis é extremamente escassa e os fremen sobrevivem reciclando a água do próprio corpo. Incrivelmente organizados, aos poucos vamos descobrindo o poder desse povo, seus segredos e sua importância para o futuro do planeta. O contato de Paul com a especiaria e com os fremen, associado ao seu treinamento marcial e poder presciente vão indicá-lo a uma posição de salvador, um suposto ser superior que vem sendo aguardado pela humanidade. Aliás, um dos temas de maior força do livro é essa volta do homem para ele mesmo e a natureza. Embora desejemos a facilidade que as máquinas proporcionam, o ser humano corre o risco de perder o contato com seus próprios recursos físicos e mentais e Paul acaba sendo um símbolo do que um homem pode se tornar com muito esforço e muitas variáveis a seu favor.

Apesar de ser o início de uma série, Duna é um livro que pode ser lido sem a preocupação com as continuações e que causou um grande impacto na literatura e no cinema de entretenimento, influenciando diversas obras posteriores. Quem conhece a saga cinematográfica de Star Wars vai encontrar diversas semelhanças, entre elas a paisagem desértica, a construção de um herói que tem uma origem perturbadora, os poderes mentais, um império ambicioso e inúmeros detalhes percebidos pelos fãs das duas séries. Outro exemplo são As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que talvez tenha encontrado nos livros de Frank Herbert uma grande inspiração para suas intrigas políticas e religiosas, e até mesmo para um estilo narrativo que consegue dosar grandes momentos de ação com personagens bem construídos e diálogos afiados.

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