A letra escarlate – Nathaniel Hawthorne

26_letraNa cidade de Salém, nos Estados Unidos do século XVII, Hester Prynne é uma mulher que comete adultério e é condenada a usar uma letra A escarlate bordada no peito, como uma marca perpétua de seu pecado perante a comunidade puritana. Quem seria seu marido, supostamente desaparecido, e quem seria seu amante ela não revela, mas cedo na história os conhecemos como Roger Chillingworth e Arthur Dimmesdale. Chillingworth é médico e se aproveita disso para se aproximar do pastor Dimmesdale, que sofre de alguma doença séria. Os dois iniciam uma amizade que vai se tornando, aos poucos, um meio de vingança.

Marginalizada pelo povo e com uma filha ilegítima para criar, Hester passa a morar em um chalé abandonado nos limites da cidade. Em um local no qual os cidadãos são rígidos em seus preceitos religiosos e a floresta é palco para rituais malignos, ela escolhe viver justamente nesta linha intermediária, como alguém que não encontra mais lugar no mundo. A filha Pearl lhe serve tanto de bênção como de maldição, já que ela não consegue compreender as atitudes selvagens de uma criança criada em isolamento e completa solidão.

A letra escarlate pode ser vista como uma história sem história, ou melhor, uma narrativa que constrói uma tensão principal e se concentra em desenvolver personagens, de forma que mesmo avançando na leitura podemos ter a sensação de que nada está acontecendo. Em alguns momentos podemos pensar que estamos lendo um romance histórico, em outros podemos ver elementos de um conto de fadas. O mundo particular de Hester e Pearl está tão à parte de tudo e todos, que filha e mãe acabam sendo vistas como entidades de outra dimensão: Hester vai assumindo ironicamente um posto quase de santa e Pearl é constantemente chamada de fada pelo narrador e vários elementos simbólicos perpassam a narrativa, dando a ela esse tom “encantado”.

Um exemplo disso é quando Hester veste Pearl com as mesmas cores da letra, escarlate e dourado, e constatamos que a menina é a verdadeira letra, o símbolo real do pecado de Hester, o que poderia até dispensar o bordado de sua roupa. Ela também pode ser vista como um reflexo da mãe. Os constantes questionamentos de Pearl – por que seu pai não as assume? – podem ser interpretados como questionamentos íntimos de Hester, que ela não tem coragem de fazer; podemos ver Pearl como uma faceta sua que ela não quer ter que lidar, chegando ao ponto de descrever sua filha como um ser assustador, talvez por achar que está a se olhar em um espelho. Mas no fundo ambas são representações da natureza, selvagens e ao mesmo tempo à frente do seu tempo.

O pecado é o tema que se sobressai e, curiosamente, Hester aceita sua punição mesmo sabendo que ela não faz sentido, talvez porque saiba que não há como fugir do momento histórico em que vive. Como é marginalizada, ela tem uma vantagem sobre as outras mulheres: ela pensa sobre a situação delas e percebe que há algo de injusto sobre isso:

“…com relação a todas as mulheres. Valia a pena aceitar a existência como era, mesmo para a mais feliz delas? (…) Como primeiro passo, teria de pôr abaixo todo o sistema social e reconstruí-lo do zero. Depois, a própria natureza do sexo oposto ou um longo hábito hereditário tornado como que sua natureza precisaria ser essencialmente mudada para que a mulher pudesse assumir o que parece ser uma posição mais justa e conveniente.”

Hawthorne se sai bem ao demonstrar o caráter de cada personagem, seus objetivos e dramas pessoais. No entanto, como só temos acesso a eles de uma maneira externa, como se o narrador fosse uma câmera registrando o que se passa, é um pouco difícil nos relacionarmos com estes personagens. Some-se a isso o fato do enredo em si ser curto – daria um conto – e temos um livro enfadonho, repleto de cenas de desenvolvimento dos personagens, com muito poucos momentos mais emocionantes.

Apesar disso, é interessante perceber como o autor transforma os próprios símbolos que cria, como o meteoro que surge nos céus, interpretado de inúmeras maneiras, ou mesmo a letra escarlate, que passa a significar outra coisa com o tempo, com as virtudes de Hester voltadas à comunidade, confirmando que não é o símbolo em si que determina o significado, mas um novo significado pode passar a determinar o símbolo. Infelizmente o enredo não tem força suficiente para sustentar um leitor que gosta de se envolver com a leitura e o romance acaba atraindo mais por esses aspectos formais. Seu mérito, então, parece estar mais relacionado aos simbolismos, a uma breve discussão feminista e ao clima sombrio construído – aproximando-se de um conto de fadas moderno – do que mesmo por uma história cativante.

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Esta leitura participa da discussão do Fórum Entre Pontos e Vírgulas de maio de 2014.

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