Quatro histórias ao modo quase clássico – Harold Brodkey [Breve comentário]

Inspirada pelos VEDAs no YouTube e pela iniciativa DEDO da Cláudia, resolvi fazer, no mês de outubro, uma postagem por dia no blog. Não costumo me preocupar com a quantidade de atualizações por aqui, mas achei que seria bom registrar leituras que acabam não virando texto ou mesmo responder alguma tag, além dos textos de sempre. No geral serão brevíssimos comentários e vou começar falando de uma leitura que fiz nesse mês de setembro.

interlunio38-brodkeyQuatro histórias ao modo quase clássico – Harold Brodkey
Essa foi uma leitura para o Projeto Para ler como um escritor. São quatro contos, sendo um deles um relato auto-biográfico bastante extenso (os demais parecem ser auto-biográficos também, mas não tenho certeza). São histórias que remetem a um processo de descoberta, de passagem da infância para o início da vida adulta, mas narrado de uma forma bem crua, detalhista e dura. Não é o tipo de escrita que me agrada e a abordagem dos temas não me provocou compaixão. Sabe quando alguém fala de si mesmo e de seus problemas de uma forma chata, que não faz diferença a quem está em volta? De qualquer forma o autor é muito aclamado e provavelmente eu não consegui captar suas qualidades, ainda mais sabendo que a edição original tem bem mais contos que a versão brasileira.

Os cavalinhos de Platiplanto – José J. Veiga

interlunio23-cavalinhosA maioria dos autores do chamado realismo mágico costuma comentar que suas histórias nada têm de mágicas, que o que ocorre de estranho nelas ocorre no cotidiano das pessoas, que tudo depende do ponto de vista do que é considerado ou não verdade, e com José J. Veiga não era diferente. Fantástica ou apenas realista, não importa: a literatura mostra apenas o que é possível e esse possível quanto mais amplo, melhor. Quem pode dizer o que é ou não real?

Em Os cavalinhos de Platiplanto, publicado em 1959, o possível vem na forma de dois mundos. As histórias quase sempre têm dois planos, dois lugares distintos por onde os personagens transitam. Algumas vezes um dos planos representam o outro lado, o desconhecido, o sonho ou a imaginação. É o caso dos contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, “A Invernada do Sossego”, “A espingarda do rei da Síria” e “Os do outro lado”. No primeiro um menino deseja ganhar um cavalo do seu avô mas depois que este fica doente a promessa fica sem ser cumprida da forma que ele esperava. No segundo também temos um menino e seu irmão, quando têm que lidar com a morte de seu cavalo de estimação. O terceiro mostra a fantasia de um homem que perdeu sua espingarda e consequentemente foi perdendo o respeito de todos à sua volta. E no quarto um rapaz entra em uma casa misteriosa, depois de seguir uma borboleta, e lá entra em contato com o mundo dos que já se foram.

Esse outro lado, portanto, pode ser um refúgio interno, um consolo pela perda. Mas em outras vezes um refúgio externo também, como em “A Ilha dos Gatos Pingados”, em que um grupo de meninos encontra uma ilha para brincar e ela se apresenta como um lugar de paz para um deles, que apanha constantemente do namorado da irmã. Este conto tem uma atmosfera bem semelhante às aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, e Silviano Santiago, no prefácio para essa edição da Companhia das Letras, comenta sobre sua semelhança com o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade e o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

A infância, inclusive, toma de conta das histórias, e a criança, especialmente a criança menino, se encontra em situações em que deve se tornar adulta ou responsável por coisas sérias, mesmo quando ainda é muito cedo para isso. É o que ocorre em “Fronteira”, por exemplo, sobre um menino que acompanha pessoas pelos caminhos para que se sintam seguras e em “Tia Zi rezando”, em que os tios de um menino órfão escondem um segredo e farão de tudo para que ele nunca descubra. Da mesma forma em “Roupa no coradouro”, o conto mais emocionante da coletânea, um menino tem que lidar com a falta do pai, que está viajando, e cuidar da mãe, que acaba ficando muito doente.

Narrado sempre em primeira pessoa, os personagens do livro são pessoas frágeis, crianças ou homens sem poder, que se deparam com um outro superior e opressor. Agem segundo o desespero de não saber o que se passa em suas próprias vidas, de não terem controle até mesmo de suas escolhas, de não acharem espaço para a justiça, pois esta é reservada para poucos.

Não à toa essas histórias acontecem no campo, em fazendas ou cidades pequenas, lugares que remetem a uma vida mais primitiva. “A usina atrás do morro” é um dos contos que mais deixa clara essa condição de ignorância, impotência e opressão. Tem uma narrativa muito semelhante ao romance A hora dos ruminantes, em que moradores de uma pequena cidade se vêem cercados por pessoas de fora, que com um suposto progresso vão causando danos à população. Em um nível mais pessoal, o conto “Professor Pulquério” mostra um homem obcecado pela possibilidade de que haja um tesouro na cidade e acaba sendo marcado pela desconfiança e pelo desprezo. Já no conto “Entre irmãos” o estranhamento que vem do outro se revela entre dois irmãos que não se conhecem e que tentam conversar pela primeira vez. Mas é em “Era só brincadeira” que observamos o extremo da injustiça e da violência: em uma situação um tanto kafkiana, um homem se vê enredado por uma acusação que ele desconhece e a coisa é tão absurda que ele acredita que só possa ser uma brincadeira.

Mágica ou não, a literatura de José J. Veiga é antes de mais nada, crítica e reflexiva. Se as situações vividas pelos personagens parecem estranhas é porque a própria vida pode parecer ainda mais bizarra, sobretudo por conta da injustiça, seja em um nível social, seja nas relações pessoais. O autor nos mostra que o absurdo está mais presente no cotidiano do que nas fugas que inventamos para escapar dele.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

Sete narrativas góticas – Karen Blixen

interlunio08-goticasDepois de algum tempo que retornou involuntariamente da África, a dinamarquesa Karen Blixen parece ter encontrado na escrita o ânimo que precisava para amenizar sua saudade. O Sete Narrativas Góticas foi seu primeiro livro publicado, em 1934, e consiste em contos ou novelas fantásticas, com histórias que já contava oralmente para seus amigos, naquele continente que considerava sua verdadeira casa.

As histórias têm uma estrutura semelhante aos contos de fadas, cheias de peripécias e com algumas narrativas menores internas, histórias dentro de histórias, que às vezes são mais importantes ou envolventes que a história principal. São como um labirinto circular, em que depois que se chega ao meio só resta ir desenrolando o caminho de volta até fechar a trama.

O termo gótico não poderia ser mais preciso: a autora traz o mundo medieval para personagens do século XIX e ambienta suas vidas em castelos, mosteiros, florestas sombrias. As paisagens são soturnas e os personagens são simbólicos, parecem não ser de carne e osso, mas apenas representações de ideias ou ideais. Os valores parecem ser contraditórios e muitas vezes o negativo é apresentado como positivo: a morte traz luz, a noite reserva esperança… Acima de tudo é criada uma atmosfera poderosa de sombras, em que desfila a loucura e o sobrenatural.

Um tema que está muito presente é o da manipulação. Um personagem com um certo poder ou talento irá tratar os outros como suas marionetes. Isso ocorre sobretudo em “O dilúvio em Nordeney”, “O macaco” e “O poeta”. Na primeira novela temos personagens com muita improbabilidade de se encontrar reunidos em um celeiro, contando suas vidas em volta do fogo de uma lamparina. Esperam a morte ou a possibilidade de salvação, caso sejam resgatados de uma enchente. Na segunda, que tem um mosteiro como cenário, uma prioresa possui um macaco por quem é muito devotada. O animal terá um curioso papel no destino do jovem sobrinho da prioresa e a moça com quem ele quer casar. Já na terceira história há um triângulo amoroso marcado pela tragédia: um velho irá manipular um jovem casal para que tudo ocorra conforme seus objetivos, separando-os por amor à Poesia e a Beleza.

As mulheres são geralmente retratadas como a Mulher enquanto ideia e muitas vezes apresentadas como inatingíveis. Em “O velho cavalheiro” o narrador nos conta duas histórias amorosas: de quando se apaixonou por uma mulher casada e a sua noite de amor com uma jovem que encontrou bêbada nas ruas de Paris. Aqui temos dois exemplos de mulheres no pedestal: a dama poderosa e superior, e a jovem misteriosa, que responde a todas as fantasias. “Os sonhadores” também traz essa mulher envolta em mistério, mas aqui ela é quase uma deusa imortal, encantadora de homens.

Talvez a história mais fraca seja ”Os caminhos em torno de Pisa”, que nos apresenta a um conde dinamarquês que está na Itália para fugir de sua esposa ciumenta. Ele vem a conhecer uma senhora que quer ver a neta antes de morrer e pede a ele que a ajude. Provavelmente esta seja a novela com menos elementos fantásticos. Por outro lado, “A ceia em Elsinore” tem um forte elemento sobrenatural. Trata de uma família vivendo em Elsinore, que conta com duas irmãs espirituosas e melancólicas e seu irmão Morten, jovem destemido e vaidoso que acaba se tornando corsário, apresando vários navios para o seu país durante as guerras napoleônicas. Quando o corso é proibido, ele some no mundo e torna-se pirata, mas volta depois como fantasma para se encontrar com suas irmãs.

Ninguém consegue criar imagens que funcionam como pinturas literárias como Karen Blixen. Embora essas narrativas góticas possam soar ingênuas e seus temas e reflexões possam ser vistos como ultrapassados, a autora constrói uma atmosfera onírica que pode marcar muito a imaginação do leitor. São histórias que remetem a um tempo em que as narrativas orais em volta do fogo eram o único entretenimento possível e tinham o poder de deixar quem as ouvia rememorando seus trechos mágicos antes de dormir.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Afogado – Junot Díaz

interlunio06-afogadoLivro de estréia do escritor dominicano Junot Díaz, Afogado é uma coleção de contos interligados pela temática da imigração de dominicanos para o Estados Unidos. A maioria dos contos é narrada pelo personagem Yunior e acompanha a história de vida de sua família, desde momentos de sua infância pobre na República Dominicana, quando foram abandonados pelo pai, até quando já vivem nos Estados Unidos, numa situação mais razoável. Alguns contos não deixam claro se foram ou não narrados pelo mesmo personagem (na minha interpretação não foram) mas de qualquer forma estes também referem-se a rapazes dominicanos em situações muito semelhantes a de Yunior, meninos sem pai, criados por uma mãe que trabalha muito e envolvidos com um universo marginalizado e violento.

Os contos em que a história se passa na República Dominicana têm um tom de nostalgia e desencanto. Um dos contos mais bonitos, “Aguantando”, narra um primeiro momento na infância de Yunior, morando com a mãe, o avô e o irmão Rafa. A ausência do pai, que foi para os EUA e não voltou para buscá-los, é praticamente uma presença, um fantasma para a família. Em “Ysrael” os dois irmãos estão passando um verão na casa dos tios, no campo, e se deparam com um menino que perdeu parte do rosto e tem que usar máscara. Esse personagem volta em “Sem cara”, onde ele está esperando ser enviado para uma operação no Canadá.

Em “Negócios” temos a visão do que aconteceu com o pai depois que foi embora: como foi sua chegada aos Estados Unidos, como conseguiu a cidadania e todo o rol de empregos por que passou até chegar a pensar em buscar sua família. No conto “Fiesta, 1980” já vemos a família reunida e eles fazem uma pequena viagem em sua kombi para a casa de parentes, onde haverá uma festa.

Sem dúvida a vida destes personagens gira em torno da figura do pai de Yunior, e este demonstra um grande esforço em tentar entender e perdoar o abandono e a indiferença que sofre:

“Já que não conseguia me lembrar de nenhum momento com ele, eu o perdoava por todos os nove anos da minha vida. Nos dias em que eu tinha de imaginá-lo – raramente, pois a Mami já não falava tanto – ele era o soldado da foto. Ele era uma nuvem de fumaça de cigarro, cujos traços ainda estavam nos uniformes que tinha deixado pra trás. Ele era pedaços dos pais dos meus amigos, dos jogadores de dominó na esquina, pedaços da Mami e do Abuelo. Eu absolutamente não o conhecia. Não sabia que ele tinha nos abandonado.”

Dois contos narram o cotidiano de jovens traficantes de maconha – que podem ou não ser Yunior, podem ou não ser a mesma pessoa, não fica claro. “Aurora” mostra seu relacionamento com uma garota viciada em drogas e o tipo de vida amorosa possível entre eles e em “Afogado” um jovem vive com a mãe e relata um fato que acontece com ele e seu melhor amigo que os fazem se distanciar. Agora seu amigo está indo para a Universidade enquanto ele sabe que seu futuro será bem diferente.

Os demais contos são essencialmente crônicas de encontros amorosos. Tanto “Como sair com uma garota mulata, crioula, branca ou mestiça”, que cataloga os tipos de menina com quem o narrador sai, quanto “Namorado”, que é sobre um cara observando os movimentos de sua vizinha de cima, as histórias não vão muito além disso, mas “Edison, New Jersey”, que traz um personagem entregador/montador de mesas de sinuca de luxo, já se aprofunda mais na cultura dos dominicanos que moram nos Estados Unidos, no que eles mantêm e no que eles descartaram dela depois de anos como imigrantes. Quando o personagem passa dirigindo por Washington Heights, bairro de Nova York em que a maioria dos habitantes são dominicanos, ele percebe de maneira específica o que resta desta cultura.

Logo na epígrafe do livro o autor, que é radicado nos Estados Unidos, pede desculpas por contar essas histórias em inglês pois isso “já deturpa o que eu queria lhe dizer”. Aquele velho sentimento de já não pertencer mais ao país de origem, tampouco se sentir que pertence ao lugar onde mora fica bem evidente desde o princípio. Mas a força do livro reside sobretudo na construção dos personagens, no quanto o leitor acredita que eles existem e que são inúmeros.

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Essa leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor.

Contos – Katherine Mansfield

02_mansfEsta coletânea de contos de Katherine Mansfield cobre textos de vários momentos de sua vida como escritora e nela é possível perceber uma certa diferença entre os primeiros e os últimos, já que a autora parece se preocupar mais e mais com a linguagem e com o mundo interior dos seus personagens.

Nos primeiros contos, existe uma tendência em retratar viagens, situações em cafés, hotéis e trens, ambientes com pessoas desconhecidas, estrangeiras. São momentos em que o personagem está muito atento ao seu redor, pois tudo é novo e estranho. As pessoas são inéditas e as circunstâncias, mesmo corriqueiras para quem é do local, são curiosas para quem é forasteiro. Em “Alemães comendo”, uma mulher inglesa, durante uma refeição num café ou pousada, se vê diante de uma atitude de superioridade de alguns alemães, pouco antes da Primeira Guerra. Já durante a guerra, temos “Uma viagem indiscreta”, um conto com atmosfera um tanto onírica, que inicia com uma viagem de trem e culmina em outro café: uma mulher se utiliza de alguns disfarces para encontrar-se com um jovem cabo.

“A pequena governanta” também se passa em grande parte durante uma viagem de trem, ainda que aqui essa viagem tenha uma importância maior, pois ela não serve apenas como um meio de chegar a um lugar, ela representa todas as mudanças que irão ocorrer na vida da personagem. É um conto cheio de símbolos e assinala bem o medo de uma mulher diante de um mundo governado pelos homens, mas também a esperança, a busca pela felicidade nas coisas simples. Com uma carga semelhante de ingenuidade à da pequena governanta, mas sem a desculpa da juventude, a “Srta. Brill” também busca ser feliz com as pequenas coisas, mas aqui ela se limita a observar a vida em vez de vivê-la. Uma triste história sobre solidão, assim como “Je ne parle pas français”, em que um jovem parisiense, supostamente escritor, conta sua história malfadada com um casal inglês.

“Prelúdio”, “Na Baía”, e “A Casa de Bonecas” compõem uma trilogia de contos ou noveletas baseadas na infância da autora na Nova Zelândia. Basicamente apresentam pequenos momentos familiares dos Fairfields: o casal Linda e Stanley Burnell, seus filhos, a mãe de Linda, a Sra. Fairfield, a irmã Beryl e os funcionários da casa. No primeiro acompanhamos a mudança deles da cidade para o campo. No segundo, um dos mais belos contos do livro, vemos o dia nascer e morrer na praia, quando a família está em alguma casa de veraneio. A narrativa guarda um tema que se repete: a vida das mulheres (e crianças) sem os homens, a liberdade feminina. E no último, o foco é nas crianças, o mundo infantil como espelho do mundo adulto: a revolução que causa a chegada de uma linda casa de bonecas para as meninas. Estes contos são marcados pelos problemas femininos da época que retrata, que não são tão diferentes dos de hoje: mulheres que têm filhos mas que não apreciam ser mães, mulheres que vivem a serviço de um “chefe de família”, mulheres que acreditam que só terão valor quando casarem.

O casamento, inclusive, também é tema em “Marriage à la mode” e “Conto de homem casado”. Ambos falam sobre máscaras na vida conjugal, e enquanto em um não sabemos o que é máscara e o que é verdadeiro, pois há uma personagem que acha mais importante alimentar sua vaidade que dar atenção ao marido que ama, em outro a máscara está bem clara, pois trata-se de um relato de alguém que vê muito claramente que seu casamento é apenas uma farsa. Infelizmente este conto é incompleto e assim como “A Mosca”, que conta da angústia de um pai que perdeu seu filho para a guerra, o leitor não tem como saber a que fim as histórias iriam chegar.

Por fim, um conto que já comentei aqui, “As filhas do falecido coronel”, que conta as reações de duas irmãs ao se depararem com a morte do pai, já que elas não sabem o que fazer com a liberdade conquistada. Assim como em vários outros contos da coletânea, o que mais percebemos é que aquilo que é mais importante nunca é dito, é sempre sugerido, subentendido. O essencial está sempre escondido nos pequenos gestos e Mansfield se mostra uma sábia ilusionista que mostra com uma mão enquanto esconde com a outra.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor e o Projeto Mulheres Modernistas. Também faz parte de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

28 contos de John Cheever [Projeto Para ler como um escritor #6]

40_cheeverEsta é uma seleção de Mario Sergio Conti de uma coletânea clássica de contos do autor norte-americano John Cheever: The Stories of John Cheever. Apesar de conter apenas 28 contos, podemos ter uma boa visão de que tipos de história Cheever contava e que tipos de pessoa retratava do período do pós-guerra.

São sobretudo dramas familiares, pequenas tragédias que desequilibram a família comum, seja através de um elemento externo, seja através dos desafios internos do grupo. São histórias banais, que podem acontecer com qualquer pessoa, e como retrata os Estados Unidos em crise, com seus cidadãos desiludidos com o sonho americano, pode suscitar um certo vínculo com alguns leitores brasileiros de hoje, ainda que muitos valores retratados estejam obviamente em decadência.

Exemplo disso são os contos que trazem personagens ingênuos, cheios de sonhos, que buscam vencer na vida através do trabalho, mas que acabam sendo engolidos pela grande cidade de Nova York, como é o caso das famílias em “Ó cidade dos sonhos falidos” e “O pote de ouro”. Outras histórias mostram como as pessoas agem em relação ao dinheiro, o que são capazes de fazer em épocas de crise diante de outros que não têm com o que se preocupar. “O Natal é uma época triste para os pobres” e “Só mais uma vez” apresentam visões bem diferentes sobre o assunto.

Temos também as histórias de subúrbio, que parecem constituir o cenário da maioria dos contos: casais com filhos pequenos, apresentados com doçura, como se tudo fosse perfeito, mas que encontram um conflito que põe em xeque o aparente paraíso. Curioso perceber que o nome de alguns subúrbios e de algumas famílias se repetem, nos dando a impressão de que os personagens de vários contos moram todos na mesma vizinhança. Dentre estes merecem destaque “Os males do gim”, “O invasor de Shady Hill”, “O caminhão de mudanças vermelho” e “O general de brigada e a viúva do golfe”. Mas é sobretudo em “O nadador” que Cheever dá um passo maior e cria uma grande história, extremamente simbólica, uma curtíssima epopéia de um homem que quer voltar para casa. É também um dos contos mais bem escritos, em que as descrições são prazerosas, daquelas que podemos sentir os cheiros, percebemos a luz e as cores do ambiente e também o que os personagens experimentam e sentem.

“De repente, começou a escurecer: era aquele instante em que os passarinhos organizam seus cantos num reconhecimento agudo e facilmente compreensível de que a tempestade está para chegar. Ouviu então o som delicioso de água caindo da fronde de um carvalho às suas costas, como se uma torneira houvesse sido aberta. E, logo depois, das copas de todas as altas árvores veio aquele ruído de fontes jorrando. Por que ele gostava tanto das tempestades, qual o significado de sua excitação quando a porta era aberta por uma lufada e o vento de chuva subia com violência pelas escadas, por que a simples tarefa de fechar as janelas de uma velha casa lhe pareceu correta e urgente, por que as primeiras notas molhadas de uma ventania soavam para ele, de forma inconfundível, como o prenúncio de notícias boas e alegres?”

A repetição de cenário e de tema, no entanto, pode cansar um pouco a leitura, mas alguns contos trazem elementos diferentes, que talvez marquem a tentativa do autor em experimentar coisas novas. “O enorme rádio” traz um elemento do fantástico, “A cura” tem uma atmosfera de suspense, “O Natal é uma época triste para os pobres” tem uma estrutura de conto de fada, com as repetições de discurso da personagem principal e o desfecho da história inusitado e “O mundo das maçãs” é um bonito conto sobre o final da vida e sobre a importância da arte. Já em contos como “Miscelânea de personagens que ficarão de fora” ou “Três histórias” ou “As joias da sra. Cabot” as experiências não me pareceram bem sucedidas, no sentido de que não trazem aquela epifania tão necessária ao gênero.

Juntamente com “O mundo das maçãs” e “O nadador”, o conto “Adeus, meu irmão”, que fala das dificuldades de se relacionar com parentes de que não gostamos, e que talvez seja o conto mais famoso de Cheever, remete a um mundo mitológico ou a uma tragédia moderna, e são em exemplos como esse que o autor atinge um nível mais alto, não apenas nas temáticas como na preocupação com a escrita. O que não tira o mérito de narrativas mais singelas, que adentram os cantos mais escuros dos lares e retratam o mais comum dos homens em seu mais puro cotidiano.

Contos:
Adeus, meu irmão
Depois de um tempo afastado da mãe e dos irmãos, Lawrence volta para encontrá-los na casa de verão da família.

O enorme rádio
Um casal compra um rádio e percebe que ele sintoniza a conversa dos vizinhos do prédio. A mulher começa a se sentir perturbada com o que passa a ouvir da intimidade alheia.

Ó cidade dos sonhos falidos
Um casal e sua filha vão a Nova York para que o pai tente a sorte como dramaturgo e a inocência da família vai fazer com que caiam em algumas armadilhas da grande cidade.

Os Hartley
Casal e filhinha de 7 anos vão a uma pousada no inverno para esquiar, um lugar que haviam visitado antes. A carência da criança e a tristeza da mulher parecem demonstrar que esta família não está bem.

O camponês de verão
Paul passa seus fins de semana de verão em sua fazenda e em um desses dias ele e a esposa estão levando coelhos para os filhos. Lá ele tem que lidar com um funcionário russo de visão política diferente da sua.

Lamento amoroso
Jack e Joan são dois amigos que vão se encontrando esporadicamente ao longo da vida. Jack percebe que sempre que a encontra, Joan está com um homem diferente, todos com grandes problemas.

O pote de ouro
Casal pobre que luta com todas as forças para vencer na vida e as circunstâncias sempre lhes dão uma rasteira.

O Natal é uma época triste para os pobres
Ascensorista de um prédio de luxo passa o dia de Natal trabalhando. De tanto reclamar de sua situação para quem passa pelo elevador, ele acaba conseguindo o que deseja.

A temporada do divórcio
Homem é incomodado por um amigo que se apaixona por sua mulher.

A cura
Homem briga com sua mulher e ela vai embora com os filhos. A vida sem eles acaba sendo bem assustadora.

Os males do gim
Uma menina descobrindo através dos pais e dos funcionários da casa como a bebida pode tomar conta das pessoas.

Oh, juventude e beleza!
Homem que é considerado a alma das festas no subúrbio onde vive de repente se deprime com a chegada da velhice e com a perda da capacidade física de atleta que possuía.

Só mais uma vez
História de um casal que tinha sido milionário no passado e que se apega ainda ao estilo de vida aristocrático.

O invasor de Shady Hill
Homem perde o emprego e, num ato de desespero, decide invadir a casa de um amigo rico para roubá-lo.

O bicho da maçã
O narrador procura onde estaria o problema de uma família tão extremamente feliz como são os Crutchman.

O caminhão de mudanças vermelho
Um casal novo chega na cidade e seus vizinhos o recebem simpaticamente. O novo vizinho, no entanto, tem problemas com bebida e não vai responder da mesma forma.

Só quero saber quem foi
Um homem mais velho casado com uma jovem mulher se vê tomado pelo ciúme através de comentários dos vizinhos.

A cômoda
Dois irmãos disputam uma cômoda, herança de família. Um deles parece interessado demais no móvel, talvez porque ele tenha o poder de trazer um passado que o conforta.

Miscelânea de personagens que ficarão de fora
Uma simples listagem de personagens que ficaram de fora das histórias do autor.

O general de brigada e a viúva do golfe
Homem adúltero tem um abrigo antibombas no quintal e sua amante quer fazer parte da salvação.

Uma visão do mundo
Um homem precisa se isolar do mundo depois que passa a ter sonhos estranhos em que uma frase se repete.

Reencontro
História bem curta em que um filho empolgado por rever o pai depois de muito tempo descobre que ele não tem muito a lhe oferecer.

Mene, Mene, Tekel, Upharsin
Americano morando na Europa visita seu país depois de um tempo e se comove com várias inscrições nas paredes dos banheiros públicos por onde passa.

Marito in città
Homem fica sozinho em casa enquanto esposa viaja e acaba se envolvendo com outra mulher.

O nadador
Um homem resolve voltar para casa percorrendo um trajeto a nado, pelas piscinas da vizinhança e aos poucos vai percebendo que parece ter esquecido fatos importantes de sua vida.

O mundo das maçãs
Velho poeta americano vivendo na Itália está em momento de questionar a vida e sua obra quando faz duas pequenas viagens: uma que o perturba e outra que pode salvá-lo.

Três histórias
A primeira história é sobre a vida de um homem contada por sua barriga. A segunda é sobre tragédias que ocorrem em uma determinada estrada e que estão relacionadas a uma mulher. A terceira é uma viagem de avião em que um homem tenta conversar com uma mulher que não lhe dá atenção.

As joias da sra. Cabot
Uma relato em primeira pessoa sobre alguns momentos da vida pessoal do narrador e sua relação com a estranha família Cabot.

No degrau de ouro – Tatiana Tolstaya [Projeto Para ler como um escritor #4]

13_degrauLer os contos de No degrau de ouro é algo semelhante a abrir uma caixa velha cheia de cartas, bilhetes, recortes de jornal, letras de música, fotografias… Um mundo de lembranças da infância, da juventude, dos amores conquistados e perdidos, das oportunidades desperdiçadas. São sobre momentos em que somos deixados por alguém, ou momentos que não vivemos e que viraram fantasia, momentos de desencanto com o mundo, todos eles se repetindo dentro de nós como a cena de um filme, por toda a vida.

Essas ocasiões vividas pelos personagens refletem no leitor porque, além de serem universais, a despeito de retratar uma cultura não muito familiar aos brasileiros, são descritas de forma muito íntima pela autora russa, misturando as vozes narrativas de uma forma bem peculiar – chega até a usar a incomum primeira pessoa do plural – e utilizando também, aqui e ali, o recurso do fluxo de consciência, ainda que de forma moderada, especialmente quando deseja mostrar a imaginação de seus personagens crianças.

Isso ocorre, por exemplo, em “Bem me quer – mal me quer”, em que duas meninas convivem com duas babás – uma amada e outra odiada – que as conduzem, através de fábulas ou canções folclóricas, para um mundo de fantasia alegre ou aterrorizante. Já no conto que dá nome ao livro temos uma linda descrição de uma infância livre, com aventuras nos jardins da vizinhança, em que tudo é grandioso e valioso. São crianças que idolatram a casa e as coisas do tio, mas o que parece tão dourado e precioso na infância pode não ter o mesmo valor com o tempo. E em “Encontro com o pássaro”, Petia é um menino com uma imaginação incrível, alimentada por suas leituras e pelas histórias de Tamila, uma mulher que ele acredita que será sua esposa um dia. No início do conto ele constrói toda uma aventura mitológica apenas observando o seu prato de comida no jantar. Tamila é seu único refúgio para escapar da solidão e de seus medos, especialmente do medo de que seu vovô doente morra. Foi o meu conto preferido da coletânea, os personagens e o clima sombrio criado pelas figuras dos pássaros foram perfeitamente construídos.

Além das crianças, Tolstaya apresenta também personagens com idade avançada, pessoas que já estão num momento de reflexão ou de lembranças doloridas. Em “O círculo”, um homem de sessenta anos, ao esperar sua mulher num salão de beleza, visualiza todo o caminho da sua vida, as amantes que teve e a inusitada maneira como as conheceu, e a sensação de que nada de especial aconteceu e nem acontecerá. Já em “Shura querida” temos uma velhinha cuja vida se encontra suspensa, dedicada aos álbuns de fotografia empoeirados e às lembranças dos amores que viveu, mas sobretudo a um amor que não viveu, que ficou esperando por ela. Aqui é especial a maneira como a autora trabalha o desejo de Shura de voltar no tempo: parece que aquelas pessoas que não vemos mais ficam paradas no lugar onde as vimos pela última vez.

Estes dois contos poderiam também ser classificados entre aqueles que mostram pessoas desencantadas com a realidade, em contraste com todas as expectativas que tiveram, juntamente com “Sônia” e “Rio Okervil”. No primeiro uma mulher considerada burra é enganada por muitos anos através de falsas cartas de amor. O irônico é que a pessoa que as manda, como uma brincadeira às suas custas, acaba se tornando um pouco o personagem que inventou. Destaque para os primeiros parágrafos, com uma linda descrição da tentativa de lembrar de momentos e pessoas há muito esquecidos. No segundo também temos uma história de ilusão, em que um homem apaixonado por uma cantora decadente tem dúvidas se deve ou não ir conhecê-la, se deve ou não ultrapassar a fronteira entre o que idealiza e a realidade. Ainda nessa mesma categoria temos “Caçada ao mamute”, com uma mulher obcecada pelas inúmeras estratégias para obter um casamento com um homem que não suporta e “Uma folha em branco”, com um homem completamente insatisfeito com a vida, que resolve enfrentar uma cirurgia para extrair sua angústia.

Tolstaya deixa bem demarcadas as diferenças de idade e de gênero, e é possível delinear dois movimentos em relação a homens e mulheres na sua narrativa: homens marcados pela infância, ainda presos a ela, e mulheres com uma vida à espera; homens presos ao passado, mulheres presas ao futuro. Tanto em “Durma bem, filhinho” como em “Peters” os personagens principais são homens com uma infância perdida, órfãos procurando um lar. O primeiro consegue, de certa forma, encontrar o que procura, mas o segundo é de tal forma rejeitado que não consegue atingir maturidade para enfrentar a vida adulta. É desse conto um dos trechos mais belos e tristes que li no livro:

“Peters tirou um guardanapo de cartão áspero do copo de plástico, enxugou a boca. A vida passou ventando, contornou-o e voou embora, como uma torrente impetuosa que contorna um pesado monte de pedras no chão.”

Quanto às mulheres, em “Fogo e poeira” é possível observar o contraste entre Rima e Pipka, aquela casada, com filhos, frustrada por as coisas não acontecerem como esperava e esta misteriosa e de reputação duvidosa, com mil histórias inacreditáveis para contar. Tudo que Rima deseja não depende dela, o que vai deixando-a cada vez mais desencantada com a vida. Gália é uma personagem muito parecida com Rima, em “O faquir”: também é uma mulher que vai ficando desiludida ao perceber que sua realidade de suburbana não vai mudar com suas tentativas de impressionar o rico Filin.

As histórias, portanto, são de pessoas aprisionadas a um destino cruel, marcadas por sonhos esfacelados ou por um futuro que aguarda a mesmice do presente. São pessoas que não estão lá nem cá, muitas estão no começo ou no final da vida e, por isso mesmo, mais perto deste “degrau”, ou varanda, ou soleira, tantas vezes usado de forma simbólica ao longo dos contos. Essa espécie de indicador de passagem é o lugar que não é casa nem é rua, não é dentro nem é fora, não é vida e nem é morte, mas também pode ser um lugar reconfortante, um limbo onde é possível aguardar que a chuva passe.

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Essa leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor. O livro de Tatiana Tolstaya indicado por Francine Prose, Sleepwalker in a fog, não tem tradução para o português e a edição americana está fora de catálogo, daí a minha substituição para a única obra da autora lançada no Brasil. Contudo, consegui ler o conto contemplado do livro, “Chama Celeste”, pois foi publicado na revista The New Yorker. Comentário sobre esse conto aqui.

Um episódio distante – Paul Bowles [Projeto Para ler como um escritor #3]

10_distanteEste livro reúne doze contos e uma novela do escritor e músico americano Paul Bowles. Por ter passado a maior parte de sua vida no Marrocos e no Sri Lanka, sua literatura contempla uma realidade que soaria “exótica” ao olhar ocidental do século XX. Muitas de suas histórias se passam no Norte da África, geralmente em cidades pequenas ou lugares isolados, em que o europeu ou o americano entra em contato com os nativos, numa relação que dificilmente escapa do sentimento de superioridade daqueles.

Das narrativas que evidenciam esse contraste, destaca-se o conto que dá nome à coletânea e a novela “Muito longe de casa”, que narra a temporada de uma americana numa localidade próxima a Timbuktu, na qual ela viverá uma experiência singular com um dos criados da casa. Mas também estão dentro do tema “Em Paso Rojo”, “Chá na montanha” e “O pastor Dowe em Tacaté”.

Alguns contos levam o leitor a situações absurdas: são histórias nubladas, com um tom de pesadelo, geralmente com elementos fantásticos, como “À beira da água”, em que um jovem chega a uma certa cidade e ao entrar numa casa de banhos se depara com um estranho personagem em forma de caranguejo; ou como “Ele da Assembleia”, que nos remete a um conto de fada, quando em determinado ponto um personagem procura se esconder num caldeirão de uma velha.

Algo que acontece com muitos personagens ao longo das narrativas é a sensação de estarem fazendo uma escolha estúpida, irracional e ainda assim não conseguir dizer não a ela, seja por educação, seja por curiosidade, tédio ou ignorância. É possível perceber isso em “A presa delicada”, por exemplo, em que 3 mercadores precisam atravessar o deserto e se deparam com um estranho viajante no meio do caminho, e em “No quarto vermelho”, em que uma família é conduzida a uma casa que guarda um mistério do passado do proprietário.

Os demais contos destacam problemas familiares, situações em que os relacionamentos não funcionam: “Parada em Corazón” segue a lua-de-mel de um casal cujo marido resolve comprar um macaco; “Páginas de Cold Point” é narrado como um diário de um pai que não sabe lidar com o comportamento de seu filho; “Allal” é um jovem órfão que procura amor e liberdade sob uma forma muito inusitada; e “O escorpião” relata a vida de uma velha senhora que foi abandonada pelos filhos numa caverna.

Como uma daquelas canções em que cada vez que você ouve percebe um elemento novo no arranjo, seus contos são desses que merecem ser lidos e relidos com muita atenção pois são os detalhes que contam uma história quase escondida nas sutilezas e em várias camadas: não à toa sua obra é citada por Francine Prose, comparando-a à pintura de um grande pintor, que devemos observar não só de longe, “mas também de muito perto, para ver as pinceladas”. É uma literatura para quem aprecia aspectos formais, para quem gosta de ir a fundo nas entrelinhas.

Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor. Prose indica uma coletânea mais completa de Bowles, que provavelmente não foi publicada no Brasil, mas através desta da Alfaguara é possível ter um bom primeiro contato com a obra do autor, de quem pretendo ler também O Céu que nos protege.  Segue um breve comentário (com spoilers) sobre o conto citado por Prose. 

11_bowlesO conto “Um episódio distante”
“Um episódio distante” conta a história de um linguista europeu que chega a uma cidade de cultura árabe com o propósito de catalogar dialetos locais e rever um amigo, o proprietário de um café que ele acaba descobrindo que já morreu. O homem que o atende nesse mesmo café, uma espécie de garçom, sente-se constantemente ofendido por algumas atitudes do linguista, mas se prontifica a ajudá-lo a encontrar suas desejadas caixas de úbere de camela. Nesse primeiro momento, Bowles nos mostra praticamente tudo que precisamos saber sobre esse personagem, denominado o Professor: um homem um tanto presunçoso, que não quer parecer turista, mas leva inúmeros mapas na mala; embora fale o idioma do lugar, ele pouco lhe serve, pois mais lhe serviria conhecer ou respeitar os costumes locais; e além disso, um homem carente de atenção, em busca de reviver alguma coisa de um passado que se perdeu. Já no primeiro parágrafo do conto – com suas belas descrições de clima, cores e cheiros – percebemos muita coisa sobre o personagem e sobre a história, como, por exemplo, a repetição do nome de Hassan Ramani, que soa quase como uma prece.

Em um segundo momento, o garçom o leva por um longo caminho escuro, até chegar a uma espécie de precipício, onde ele supostamente irá encontrar o que deseja. Durante esse trajeto, o leitor sente que ele está sendo conduzido a uma situação ruim e sente também que ele sabe que pode ser uma armadilha, mas sua arrogância não o deixa dar um passo para trás:

“Ocorreu-lhe que devia se perguntar por que estava fazendo aquela coisa irracional, mas era inteligente o bastante para saber que, uma vez que estava fazendo aquilo, naquele momento não era tão importante buscar explicações.”

Finalmente, depois de descer o precipício, ele é capturado pelos reguibat, uma tribo árabe de criminosos. Interessante perceber que até aqui ele ainda encara a situação com um ar de superioridade, mas depois que, ironicamente, cortam sua língua, e mais tarde o adornam de uma forma bizarra, o Professor passa a ser algo sem consciência, uma mistura de animal treinado com bobo da corte, de tal forma que o autor não nos relata mais seus pensamentos, acompanhamos apenas o que a tribo vai fazendo com ele. Até que no final, quando ele é vendido para um homem, ele de certa forma desperta: é “quando a dor começou a pulsar de novo em seu ser”, provavelmente provocada pelas palavras de um convidado de seu dono, que falava em árabe clássico e, mais tarde pela observação de palavras escritas em francês. O acesso à linguagem traz sua consciência de volta em algum grau, mas ao mesmo tempo o leva à loucura e ao desespero, que ele antes não tinha tido direito de sentir.

A balada do café triste e outras histórias – Carson McCullers

07_baladaA noveleta que dá título ao livro – de longe, a melhor história da coletânea, que inclui ainda mais seis contos –, relata a ciranda amorosa de três personagens numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos; conta como um amistoso café surgiu no lugar mais improvável: no armazém de Amélia Evans, uma mulher de modos grosseiros e masculinos, ensimesmada com uma vida voltada ao trabalho e sem nenhum interesse em fazer amigos.

O responsável pelo surgimento do estabelecimento na verdade é um estranho forasteiro que aparece de repente na residência de Amélia, um anão corcunda que diz ser seu primo, e que ganha seu coração, para surpresa de todos. Esse amor faz nascer o café, uma cozinha que servia de cômodo para a cidade inteira, aquecendo seus habitantes com uísque e boa companhia:

“Tomavam banho antes de ir para o estabelecimento da srta. Amélia, limpavam os sapatos e pareciam muito dignos quando entravam no café. E lá, por algumas horas, era possível esquecer esse profundo e amargo sentimento de não valer grande coisa no mundo.”

No entanto, em determinado momento, alguém do passado vai retornar para assombrar Amélia e é aí que assistiremos a uma possibilidade de que tudo desmorone.

A autora tem uma narrativa bem pausada, com frases curtas, o que faz o leitor prestar mais atenção aos detalhes descritos e que o obriga a ler mais devagar. McCullers também usa um recurso interessante de mudar a perspectiva em que se olha o ambiente, como se estivéssemos assistindo a um filme, em que o diretor nos conduz o olhar, muitas vezes através dos olhos de um personagem específico, em vez de uma visão geral da cena.

As qualidades da novela, no entanto, não podem ser atribuídas também aos contos que a seguem. São histórias fracas, um tanto despropositadas, algumas um pouco melhores, como “Uma árvore, uma rocha, uma nuvem”, mas no geral um desfile de promessas não-cumpridas, e nem chegam perto de realizar o que o tradutor Caio Fernando Abreu anuncia em sua nota. A tradução, aliás, me incomodou em alguns momentos, com a escolha de palavras que não soam naturais em português.

Ainda assim, A balada do café triste vale pelo livro todo e mesmo que as demais histórias não sejam boas, elas têm bons personagens, geralmente pessoas que lidam com grandes perdas. Foi o suficiente para querer ler algo mais da escritora, mas claro que não com a mesma empolgação sentida por Flannery O’Connor, sua conterrânea. Talvez Carson McCullers seja melhor em narrativas longas, e espero encarar um romance seu algum dia e me surpreender.