A hora dos ruminantes – José J. Veiga

interlunio17-ruminantesManarairema é uma cidade muito pequena, em algum lugar do Brasil, que ainda vive um momento sem energia elétrica e com poucos recursos de desenvolvimento. Um dia seus moradores se deparam com um acampamento misterioso para além do rio e começam a se perguntar o que isso poderia significar, se vantagem ou ameaça. Aos poucos vão chegando a uma conclusão: a cidade não será mais a mesma, e seus habitantes, que tanta certeza tinham das coisas, agora estão tendo que se adaptar a essas mudanças. Assim inicia A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, publicado em 1966 e considerada uma das poucas narrativas longas de realismo mágico brasileiro.

A novela divide-se em 3 partes: A chegada, quando o acampamento se instala e já se percebe o quanto alguns personagens já aceitam a nova situação; O dia dos cachorros, quando a cidade é inexplicavelmente invadida por um enorme número de cães e curiosamente o povo passa a cuidar com um certo carinho daqueles que o ameaçam; e O dia dos bois, quando a invasão é feita por tantos bois que as pessoas não conseguem nem mesmo sair de suas casas. Cada invasão representa um tipo de opressão sofrida pelos moradores de Manarairema, sendo a dos bois a mais extrema, pois ela acaba com qualquer tipo de liberdade e de coletividade, “a vida restante tinha de ser vivida dentro de cada um”.

A hora dos ruminantes pode ser visto como alegórico para diversas situações e apesar de ser geralmente considerado uma alegoria ao período de ditadura no Brasil, penso que pode ser visto como alegoria para qualquer tipo de opressão sobre uma comunidade, seja ela uma vila ou um país. Trata-se de um povo que se sente perdido por não entender por que e como as coisas acontecem e que apenas lida do jeito que pode com o medo de quem aparentemente tem mais poder. A ingenuidade perante o mistério gera medo e raiva, mas também admiração e respeito, e cada personagem dessa história vai reagir do seu jeito, exatamente como os seres humanos reagem em situações onde devem calcular o que pesa mais na balança, se a vida ou a justiça.

O texto de Veiga é leve e preciso e mistura discurso direto com indireto livre de uma forma que deixa a narrativa com muita intimidade entre leitor e personagens. O pensamento destes e sua linguagem, carregados de provérbios e dizeres populares, estão amarrados à narrativa e justificam suas ações e atitudes o tempo todo. A escolha de palavras é singular e certeira, mas ao mesmo tempo muito natural e lírica, o que deixa a leitura muito agradável.

Veiga oferece um final bonito, de esperança, mas também questionador: quando a opressão dá trégua, o que devemos fazer para que a situação não se repita? Que tipo de cercas devemos construir para que os bois não passem novamente?

“Mas os males ainda inéditos, o trabalho de passar a vida a limpo, as revisões, o desentulho… – saberiam eles aproveitar certo as lições?”

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Essa leitura faz parte do Desafio Livrada! 2015.

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Um episódio distante – Paul Bowles [Projeto Para ler como um escritor #3]

10_distanteEste livro reúne doze contos e uma novela do escritor e músico americano Paul Bowles. Por ter passado a maior parte de sua vida no Marrocos e no Sri Lanka, sua literatura contempla uma realidade que soaria “exótica” ao olhar ocidental do século XX. Muitas de suas histórias se passam no Norte da África, geralmente em cidades pequenas ou lugares isolados, em que o europeu ou o americano entra em contato com os nativos, numa relação que dificilmente escapa do sentimento de superioridade daqueles.

Das narrativas que evidenciam esse contraste, destaca-se o conto que dá nome à coletânea e a novela “Muito longe de casa”, que narra a temporada de uma americana numa localidade próxima a Timbuktu, na qual ela viverá uma experiência singular com um dos criados da casa. Mas também estão dentro do tema “Em Paso Rojo”, “Chá na montanha” e “O pastor Dowe em Tacaté”.

Alguns contos levam o leitor a situações absurdas: são histórias nubladas, com um tom de pesadelo, geralmente com elementos fantásticos, como “À beira da água”, em que um jovem chega a uma certa cidade e ao entrar numa casa de banhos se depara com um estranho personagem em forma de caranguejo; ou como “Ele da Assembleia”, que nos remete a um conto de fada, quando em determinado ponto um personagem procura se esconder num caldeirão de uma velha.

Algo que acontece com muitos personagens ao longo das narrativas é a sensação de estarem fazendo uma escolha estúpida, irracional e ainda assim não conseguir dizer não a ela, seja por educação, seja por curiosidade, tédio ou ignorância. É possível perceber isso em “A presa delicada”, por exemplo, em que 3 mercadores precisam atravessar o deserto e se deparam com um estranho viajante no meio do caminho, e em “No quarto vermelho”, em que uma família é conduzida a uma casa que guarda um mistério do passado do proprietário.

Os demais contos destacam problemas familiares, situações em que os relacionamentos não funcionam: “Parada em Corazón” segue a lua-de-mel de um casal cujo marido resolve comprar um macaco; “Páginas de Cold Point” é narrado como um diário de um pai que não sabe lidar com o comportamento de seu filho; “Allal” é um jovem órfão que procura amor e liberdade sob uma forma muito inusitada; e “O escorpião” relata a vida de uma velha senhora que foi abandonada pelos filhos numa caverna.

Como uma daquelas canções em que cada vez que você ouve percebe um elemento novo no arranjo, seus contos são desses que merecem ser lidos e relidos com muita atenção pois são os detalhes que contam uma história quase escondida nas sutilezas e em várias camadas: não à toa sua obra é citada por Francine Prose, comparando-a à pintura de um grande pintor, que devemos observar não só de longe, “mas também de muito perto, para ver as pinceladas”. É uma literatura para quem aprecia aspectos formais, para quem gosta de ir a fundo nas entrelinhas.

Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor. Prose indica uma coletânea mais completa de Bowles, que provavelmente não foi publicada no Brasil, mas através desta da Alfaguara é possível ter um bom primeiro contato com a obra do autor, de quem pretendo ler também O Céu que nos protege.  Segue um breve comentário (com spoilers) sobre o conto citado por Prose. 

11_bowlesO conto “Um episódio distante”
“Um episódio distante” conta a história de um linguista europeu que chega a uma cidade de cultura árabe com o propósito de catalogar dialetos locais e rever um amigo, o proprietário de um café que ele acaba descobrindo que já morreu. O homem que o atende nesse mesmo café, uma espécie de garçom, sente-se constantemente ofendido por algumas atitudes do linguista, mas se prontifica a ajudá-lo a encontrar suas desejadas caixas de úbere de camela. Nesse primeiro momento, Bowles nos mostra praticamente tudo que precisamos saber sobre esse personagem, denominado o Professor: um homem um tanto presunçoso, que não quer parecer turista, mas leva inúmeros mapas na mala; embora fale o idioma do lugar, ele pouco lhe serve, pois mais lhe serviria conhecer ou respeitar os costumes locais; e além disso, um homem carente de atenção, em busca de reviver alguma coisa de um passado que se perdeu. Já no primeiro parágrafo do conto – com suas belas descrições de clima, cores e cheiros – percebemos muita coisa sobre o personagem e sobre a história, como, por exemplo, a repetição do nome de Hassan Ramani, que soa quase como uma prece.

Em um segundo momento, o garçom o leva por um longo caminho escuro, até chegar a uma espécie de precipício, onde ele supostamente irá encontrar o que deseja. Durante esse trajeto, o leitor sente que ele está sendo conduzido a uma situação ruim e sente também que ele sabe que pode ser uma armadilha, mas sua arrogância não o deixa dar um passo para trás:

“Ocorreu-lhe que devia se perguntar por que estava fazendo aquela coisa irracional, mas era inteligente o bastante para saber que, uma vez que estava fazendo aquilo, naquele momento não era tão importante buscar explicações.”

Finalmente, depois de descer o precipício, ele é capturado pelos reguibat, uma tribo árabe de criminosos. Interessante perceber que até aqui ele ainda encara a situação com um ar de superioridade, mas depois que, ironicamente, cortam sua língua, e mais tarde o adornam de uma forma bizarra, o Professor passa a ser algo sem consciência, uma mistura de animal treinado com bobo da corte, de tal forma que o autor não nos relata mais seus pensamentos, acompanhamos apenas o que a tribo vai fazendo com ele. Até que no final, quando ele é vendido para um homem, ele de certa forma desperta: é “quando a dor começou a pulsar de novo em seu ser”, provavelmente provocada pelas palavras de um convidado de seu dono, que falava em árabe clássico e, mais tarde pela observação de palavras escritas em francês. O acesso à linguagem traz sua consciência de volta em algum grau, mas ao mesmo tempo o leva à loucura e ao desespero, que ele antes não tinha tido direito de sentir.

O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

30_oceanoEu não costumo ter muita pressa para ler lançamentos, mas fiquei muito intrigada com esse mais recente livro do Gaiman. Embora eu seja leitora do autor há mais de 12 anos, ainda tenho alguns de seus livros mais antigos guardados para ler, esperando sei lá eu o quê, a tal hora certa. Mas esse não podia esperar, e mesmo com uma certa expectativa, não me decepcionei porque primeiro: eu já sei o que esperar dele, inclusive o fato de que seus livros não costumam surpreender muito (o que é bom, porque parece que tudo que se lê hoje em dia tem que ter uma reviravolta), e segundo: a escrita dele é confortável como um pijama velho.

Talvez eu tenha ficado um pouco desapontada por ser uma história curta. Eu esperava algo no estilo Deuses Americanos. Mas o livro é o que é: a lembrança de um breve, porém importante momento da infância. Lembrei-me então do mito do Rei Pescador, aquele que fala do instante em que o menino se queima ao tentar pegar um peixe na fogueira. É nesse comecinho da vida que ele perde a ilusão de que a vida é apenas felicidade, que ele percebe que o mundo pode ser injusto e duro.

E como pode ser injusto! E no caso do personagem de Gaiman, que tem apenas 7 anos, assustador, pois até mesmo sua casa e sua família deixam de ser terreno seguro. Segurança mesmo só na casa das Hempstock, um mundo materno e acolhedor, com comida que acalenta a alma e costuras que moldam o tempo. Mais uma vez Gaiman usa uma versão da figura das 3 mulheres – uma velha, uma adulta e uma jovem, conhecidas como Moiras na mitologia grega – como condutoras dos mistérios da vida, e são elas que fazem essa história ser tão envolvente. Talvez elas, mais que a criança narradora, sejam as responsáveis por nos levar de volta à infância ao longo da leitura.

Ainda que essa história tenha um fim, fica a sensação de que esse momento em que nos queimamos fica voltando o tempo todo durante a vida, não importa a idade que temos, e que tudo que precisamos para amenizar essa dor é ter alguém pra segurar forte nossa mão e dizer que tudo ficará bem.

“Uma história só é relevante, suponho, na medida em que as pessoas na história mudam. Mas eu tinha sete anos quando todas essas coisas aconteceram, e no fim de tudo era a mesma pessoa que era no início, não era? Todos os outros também. Deviam ser. As pessoas não mudam.”

Dois romances curtos mexicanos

Festa no Covil – Juan Pablo Villalobos
Logo depois da minha leitura de O Apanhador no Campo de Centeio eu acabei coincidentemente lendo outro romance de formação com linguagem skaz, desta vez na voz de uma criança, o Tochtli, de Festa no Covil. Ele é um menino com idade indefinida, mas com ingenuidade evidente, pois percebemos que ele ainda não é capaz de entender muito bem o que observa em sua casa, ou melhor, em seu “palácio”. Filho de um chefe do narcotráfico, Tochtli não freqüenta a escola – tem um professor particular – e vive isolado do mundo, contando nos dedos as pessoas que conhece, que são os empregados da casa ou os parceiros de seu pai.

Para compensar sua solidão, o pai atende a todos os seus desejos de consumo, tornando Tochtli um tanto fetichista – ele atribui muito poder aos chapéus que usa, por exemplo – e elitista, pois para ele as coisas materiais são medidas apenas pelo seu valor qualitativo e nunca pelo seu valor afetivo. Mas essa compensação não resolve muito seu enorme tédio e o fato de ter que encarar a rotina de violência da casa, muitas vezes para demonstrar que é “macho” para seu pai e que a infância acabou.

O mais interessante no livro é observar como existem duas histórias sendo contadas: uma sob o olhar inocente de Tochtli, com sua maneira de interpretar o que vê; e outra revelada ao leitor, escondida naquilo que a inocência dele não pode perceber. Numa primeira leitura, quando o livro acabou, fiquei um pouco decepcionada com o romance pois esperava um pouco mais de carga dramática, mas como o livro é muito curto, resolvi ler novamente e foi bem melhor, especialmente porque reparei em detalhes de como o autor amarrou tudo de maneira tão criativa. Ainda assim, fiquei com a sensação de que faltou alguma coisa.

Pedro Páramo – Juan Rulfo
Ainda que seja curto, o romance Pedro Páramo é denso e poético, não dá para deixar passar uma só palavra em branco, sob pena do leitor se perder um pouco na prosa de Juan Rulfo – que se limita apenas ao essencial –, mas também porque se trata de uma bela escrita, que deve ser apreciada com calma.

O livro conta a história de Comala, mas em dois momentos diferentes: um de quando esta era uma cidade cheia de vida e outro de quando se apresenta como uma cidade morta, e a figura de Pedro Páramo, o maior dono de terras da região, está diretamente ligada ao destino desta cidade e seus habitantes. Afinal ele não só possui terras como possui pessoas: ele domina a Igreja, na figura do padre Rentería, e domina a lei, através de seu advogado Trujillo e da violência de seus capangas. Seu poder inicia ao herdar as terras do pai e ao casar com Dolores Preciado, pelo simples interesse em fugir das dívidas da família e assim ampliar seu império, a Media Luna. Dolores acaba abandonando-o, apenas para perceber depois que ela é que foi abandonada. Em revezamento com essa história, marcada por sinais naturais como a chuva, que nunca pára de cair, temos uma outra narrativa, esta agora assinalada pelo calor, o agouro dos pássaros e a decadência, em que Juan Preciado, o filho de Pedro e Dolores, volta a Comala para exigir de volta o que seria seu. Mas ele chega à cidade tarde demais, pois vai percebendo aos poucos que todos os habitantes que vai encontrando já morreram.

Este não é um livro fácil de descrever em poucas linhas porque todos seus inúmeros personagens têm densidade e importância para a história, como se fosse um romance russo que se passa no México (ou em qualquer lugar da América Latina). A relação morte e vida é complexa aqui porque a diferença entre quem está morto e quem está vivo é mínima e Comala é quase um retrato do Purgatório, um lugar que não está aqui nem lá, mas algo no meio do caminho, numa possível e bela alegoria à condição dos países latino-americanos.

Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Imagine um velho baú onde são guardados lindos vestidos de festa esperando serem usados para uma ocasião especial. Às vezes minha relação com a literatura é semelhante. Eu guardo livros para depois, imaginando que ainda não chegou a hora de lê-los. Como essa história de guardar não combina com minha visão sobre as demais coisas da vida, nos últimos tempos resolvi começar a tirar a poeira desse baú, e um dos livros guardados era Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.

Este livro conta a história de 7 gerações dos Buendía, uma família que inicia com o casamento de dois primos, José Arcádio e Úrsula, e que, juntamente com outras famílias, fundam uma aldeia chamada Macondo, às margens de um rio. Quando José Arcádio, cujo nome já entrega sua vida simples e idílica, encontra-se com Melquíades, o cigano que traz magia e ciência para a aldeia, os homens da família Buendía não têm mais como escapar de suas jornadas marcadas pela curiosidade, ainda que com uma grande tendência ao resguardo e à introspecção quando a vida se torna difícil. Úrsula, de espírito forte e prático, será a grande mãe de todas as gerações, lutando para oferecer alguma sanidade ao que ela chama de casa de loucos. Ao longo da narrativa observamos que os dramas da família vão se repetindo através das gerações e isso é marcado pelos nomes dos personagens, que são sempre os mesmos, levando com eles suas sinas.

“Na longa história da família, a tenaz repetição dos nomes tinha permitido que ela chegasse a conclusões que lhe pareciam definitivas. Enquanto os Aurelianos eram retraídos, mas de mentalidade lúcida, os José Arcádio eram impulsivos e empreendedores, mas estavam marcados por um destino trágico.”

A casa dos Buendía é o espaço que vai refletindo a alma da família, com seus cômodos povoados de fantasmas e lembranças; cheia de luz e vida com a mão de Úrsula, sombria e abafada com a presença de Fernanda. Curiosamente um primeiro título do livro seria “La Casa”, pois toda a história é contada a partir de quem está morando nela, e ela parece não só espelhar os personagens como também interferir em seus cotidianos de forma mágica. Em um de seus quartos, por exemplo, é sempre uma segunda-feira de março:

“José Arcádio Segundo não estava tão louco como dizia a família, e era o único que dispunha de lucidez suficiente para vislumbrar a verdade de que o tempo também sofria tropeços e acidentes, e portanto podia se estilhaçar e deixar num quarto uma fração eternizada.”

Macondo é a extensão da casa dos Buendía e também sofre transformações conforme o destino da família. Ela passa de aldeia livre e quase pagã a uma cidade puritana e tradicional com a chegada das instituições, até que chegue a seu ponto máximo de desenvolvimento, rechaçado por uma intervenção da natureza, que a levará ao seu declínio. Assim como a família, Macondo não pode sobreviver muito tempo com as irrupções estrangeiras: não por acaso seu primeiro morto era de fora, e ele trouxe a morte e os mortos para um lugar em que ninguém havia morrido ainda.

“Macondo era um povoado desconhecido para os mortos até que chegou Melquíades e apontou um pontinho negro nos coloridos mapas da morte.”

Nesta história, no entanto, muitos mortos têm mais vida que alguns vivos e suas presenças na casa, assim como todos os elementos fantásticos do livro, não trazem assombro ou temor, pois a morte e a vida, a imaginação e o real são uma coisa só. Os membros da família também parecem constituir uma unidade, rodando uma mesma ciranda dramática, ainda que vivam tantos episódios diferentes. Sem querer reduzir os incríveis personagens do livro, os inúmeros Arcádios e Aurelianos, Amarantas e Remédios parecem formar manifestações de um grande personagem Buendía, marcado pela tragédia, a loucura e a solidão, destinos previstos nas cartas de Pilar e nos escritos de Melquíades.

Sempre ouvi alguns comentários de que Cem Anos de Solidão não era uma leitura fácil. Para mim foi uma das leituras mais deliciosas de todos os tempos, daquelas para saborear cada palavra, cada página, e ao mesmo tempo sentir urgência por não querer parar de ler. Difícil mesmo é registrar a leitura de um livro tão grandioso e poético lendo-o apenas uma vez. Perdi tempo, eu sei. Esse não é um livro que precise ser guardado; pelo contrário, é daqueles que devem ser relidos quantas vezes a vida permita.

Dois infantis de Neil Gaiman

Neil Gaiman é daqueles autores que mesmo quando faz um trabalho apenas razoável, ainda assim vale a pena. Não que seja o caso destes seus 2 livros infantis, que trazem deliciosas histórias cheias de humor e imaginatividade, passando longe do didatismo chato de muita coisa pra criança que vemos por aí.
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The Day I Swapped My Dad for Two Goldfish [O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados] é uma história engraçada sobre um garoto que, ao ver os peixinhos que o amigo acabou de ganhar, sugere-lhe uma troca bem inusitada: os peixes pelo indiferente pai, que tudo que faz é ler o jornal. Apesar dos conselhos da sábia irmãzinha, o garoto realiza a troca, mas em seguida terá que percorrer um longo caminho para reaver o pai. O resgate na companhia da irmã é muito divertido pois a cada momento o pai já foi trocado por outra coisa. O garoto é o narrador, e a história é contada como se ele a tivesse escrito, com seu próprio estilo e sua própria letra. As ilustrações de McKean, como sempre, são ótimas, mas desta vez, bem simples, acompanhando o texto como uma história em quadrinhos feita pelo narrador.
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Já em The Wolves in the Walls [Os Lobos dentro das Paredes] McKean fez algo bem mais especial para ilustrar a atmosfera um tanto assustadora criada por Gaiman. Assustadora porque lida com os medos de Lucy, que num momento de silêncio em casa, começa a ouvir um barulho vindo das paredes e tem certeza de que são lobos. Sua mãe lhe diz que não, seu pai lhe diz que não, e até seu irmão lhe diz que não, e todos têm uma explicação sobre a impossibilidade de haver lobos nas paredes, já que, segundo eles, se um dia os lobos começarem a sair das paredes, tudo estará acabado. Lucy é uma adorável menina questionadora, que não aceita argumentos genéricos só porque todos têm uma teoria lógica sobre o assunto. Tanto é que tinha razão: os lobos acabam mesmo saindo das paredes e sua família passa a morar no jardim. Enquanto todos estão pensando pra onde deverão ir, Lucy planeja voltar pra casa e enfrentar seus medos.

Dos dois livros, somente este último foi lançado aqui no Brasil, mas o primeiro tem uma linguagem bem simples e com certeza pode ser lido por uma criança que estuda inglês, especialmente com a ajuda dos pais.

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Livros relacionados:

Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino


A narrativa fantástica é aquela que encerra um fato insólito em sua lógica interna: num mundo com regras estabelecidas, surge algo surpreendente, inesperado, inexplicável. Não deve ser confundida com a narrativa maravilhosa, que trabalha com uma lógica paralela, como é o caso das histórias de fantasia, como O Senhor dos Anéis. Tudo que acontece na história maravilhosa é esperado: um mago realiza mágicas, um dragão cospe fogo… mas ninguém irá ver um carro cortando a floresta. Já o fantástico apresenta um mundo semelhante ao nosso real, mas com a diferença de trazer um acontecimento que causa estranhamento, que pode ser desde uma aparição de um fantasma até uma epidemia de cegueira na humanidade.

Os contos fantásticos do século XIX, no entanto, são de um tipo específico, que é aquele que gera certa dúvida se o fato estranho aconteceu ou não, simplesmente porque são narrados em primeira pessoa, e geralmente são narrados pela vítima do acontecimento, de forma bastante emocional, às vezes por cartas ou diários. Nesta coletânea selecionada por Italo Calvino, apenas o último conto, escrito já no final do século, é narrado em terceira pessoa. Dispostos em ordem cronológica, Calvino separa as histórias do livro em duas categorias: o fantástico visionário, aquele em que surgem aparições, e o fantástico cotidiano ou psicológico, em que o extraordinário ocorre mentalmente, isto é, ao invés de ser visto, é sentido.

As histórias têm em comum um herói atormentado pelas circunstâncias, geralmente um homem bom e pacato que se vê capturado pelas forças do mal e por elas é marcado ou condenado. O fantástico aparece através de bruxaria, alquimia, folclore, lendas, entidades, fantasmas, mundos paralelos e até partes do corpo com vida própria. É comum que eles manifestem sutilmente uma moralidade puritana ou religiosa.

Os que mais apreciei do fantástico visionário foram O Homem de Areia (uma história genial sobre a loucura e o medo), de E. T. A. Hoffmann, e A Vênus de Ille (principalmente pela forma de narrar), de Mérimée. Do fantástico cotidiano obviamente se destacou o famoso O coração denunciador, de Poe, O sinaleiro, de Dickens (que me lembrou algo que já vi ou li, mas que não consigo identificar), O sonho, de Turguêniev (adorei a atmosfera onírica), O demônio da garrafa, de Stevenson (também pela narrativa), Os amigos dos amigos, de Henry James (única vez em que a narradora é uma mulher) e Em terra de cego, de Wells, que juntamente com Poe e Hoffmann já pagam o livro (ainda que o meu tenha sido presente). Eu dispensaria totalmente da coletânea Os construtores de ponte, O espanta-diabo (bocejei cada segundo lendo estes), É de confundir! (também fiquei confusa com a presença desse conto), Chickamauga (não acho que seja um conto fantástico) e A noite (já li muita coisa melhor de Maupassant).

O único problema do conto fantástico oitocentista é que eles já foram tão referenciados e copiados pelo cinema e pela tv que alguns efeitos se perderam. Mesmo assim, eles possuem um sabor único a quem se deixa levar pelo inusitado e falam diretamente ao nosso inconsciente, deixando-nos a maravilhosa sensação de que a realidade pode ser bem mais interessante do que é rotineiramente.

Contos:
História do demoníaco Pacheco – Jan Potocki
Um oficial francês dorme numa hospedaria assombrada onde ele irá realizar seus desejos mais profundos.

Sortilégio de outono – Joseph Von Einchendorff
Um eremita atormentado por ter vivido num mundo espelhado ao seu.

O Homem de Areia – Ernst Theodor Amadeus Hoffmann
A história de Natanael, da infância à idade adulta perseguido pela presença do Homem de Areia, o ser que pune as crianças que não querem dormir.

A história de Willie, o vagabundo – Walter Scott
Para provar que resolveu sua dívida com o cruel cavaleiro Sir Robert, o gaiteiro Steenie terá que ir ao inferno buscar o recibo.

O elixir da longa vida – Honoré de Balzac
Uma poção mágica capaz de devolver a vida aos mortos passará de pai para filho.

O olho sem pálpebra – Philarète Chasles
Conto de Halloween em que amigos se reúnem para celebrar e realizar simpatias de casamento.

A mão encantada – Gérard de Nerval
Um cigano enfeitiça a mão de um comerciante para que ele se saia bem em um duelo, mas a mão passa a ter vontade própria.

O jovem Goodman Brown – Nathaniel Hawthorne
Brown mora num vilarejo cristão e ao longo de uma estrada luta contra tentações diabólicas.

O nariz – Nikolai Vassilievitch Gogol
A história do nariz do major Kovalióv, que sai de seu corpo e passa a ter vida própria.

A morte amorosa – Théophile Gautier
Romuald é um padre que, no dia de sua ordenação, se apaixona por uma vampira.

A Vênus de Ille – Prosper Mérimée
No dia de seu casamento, para que pudesse jogar um pouco com os amigos, um jovem coloca o anel de noivado no dedo de uma antiga estátua de Vênus, que não quer mais devolvê-lo.

O fantasma e o consertador de ossos – Joseph Sheridan Le Fanu
Um consertador de ossos tem que passar a noite num castelo que é assombrado por um fantasma com um osso para consertar.

O coração denunciador – Edgar Allan Poe
Um dos mais conhecidos de Poe, a história de um assassino torturado pelas batidas do coração de sua vítima.

A sombra – Hans Christian Andersen
Um homem deixa sua sombra escapar de si e a reencontra tempos depois como um sujeito rico e poderoso com uma proposta perigosa.

O sinaleiro – Charles Dickens
Um sinaleiro de trem sofre de visões perturbadoras em sua estação de trabalho, seguidas sempre de algum acidente nos trilhos.

O sonho – Ivan Sergueievitch Turguêniev
Através de um sonho, um rapaz irá encontrar seu verdadeiro pai e o passado de sua mãe.

O espanta-diabo – Nikolai Semionovitch Leskov
Durante o dia que passa junto ao seu tio, homem presencia estranhos rituais.

É de confundir! – Auguste Villiers de L’Isle-Adam
Um homem faz duas visitas mórbidas.

A noite – Guy de Maupassant
Um passeio por Paris feito por um amante da noite que, aos poucos, vai sendo engolido por ela.

Amour dure – Vernon Lee (Violetta Paget)
Em forma de diário, conta como o professor Spiridion se apaixonou por Medea da Carpi, uma espécie de viúva negra há séculos morta.

Chickamauga – Ambrose Bierce
Uma criança perdida na mata encontra estranhos homens.

Os buracos da máscara – Jean Lorrain
Um bizarro baile de máscaras com tom de pesadelo.

O demônio da garrafa – Robert Louis Stevenson
Um marinheiro arranja uma garrafa com um demônio dentro, capaz de realizar todos os desejos de quem a possui.

Os amigos dos amigos – Henry James
Um homem e uma mulher, que passaram por uma situação misteriosa parecida, nunca conseguem se ver, ainda que os amigos em comum tentem arranjar o encontro.

Os construtores de pontes – Rudyard Kipling
Durante a construção de uma ponte na Índia ocorre uma enchente e dois homens presenciam uma reunião dos deuses hindus.

Em terra de cego – Herbert George Wells
Um homem cai num local isolado onde todas as pessoas são cegas e supõe que por isso irá dominá-las.

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