Aos 7 e aos 40 – João Anzanello Carrascoza

interlunio58-7e40A idade dos 7 aos 9 anos sempre me pareceu uma época da vida que é definitiva. Parece um tempo em que tudo se estabelece, as escolhas já foram feitas, os valores estão formatados e o aprendizado que se seguirá dificilmente nos atingirá no cerne, apenas naquilo que temos de mais maleável.

Em Aos 7 e aos 40 temos um vislumbre do quanto esse pedaço de infância pode nos deixar marcados e o quanto essa saudade do que foi pode ser um bálsamo para as feridas da vida adulta.

Dividido em dois tempos narrativos, este pequeno romance de Carrascoza fala da vida de um menino aos 7 anos – com um narrador em primeira pessoa – e o mesmo com sua idade atual, seus 40 anos – com um discurso em terceira pessoa, e em versos. O menino descreve suas brincadeiras, seus amigos de rua e escola, suas partidas de futebol com o irmão mais velho, o treinamento de salto em altura, os conselhos certeiros da mãe, as conversas no carro com o pai e o primeiro amor, sua prima Teresa. Esse narrador criança lembra muito os de José J. Veiga, meninos com muita doçura, encanto pela vida, inocência e vivacidade. Já o homem é descrito por suas perdas, a separação da esposa, a saudade do filho que só vê aos finais de semana, a lembrança de quando era apenas um menino e podia se sentir feliz.

Os capítulos são divididos em categorias contrárias, demarcando bem a diferença entre os dois períodos de vida: Depressa e Devagar, Leitura e Escritura, Nunca mais e Para sempre, Dia e Noite, Silêncio e Som, Fim e Recomeço. Enquanto o menino é “fiel ao seu instante”, existindo para o dia, isto é, cada dia serve para ser aproveitado, o homem vive seus anos, o que passou e o que ainda está por vir. Enquanto o menino é transparência, o homem é entrelinha. E nesse encontro de lembrança e realidade, o homem quer voltar ao começo para ver se consegue resgatar o que sentia, seja a sensação de ver pela primeira vez os olhos e o sorriso de Teresa, seja a emoção de ir com um amigo pegar um passarinho na arapuca.

“Às vezes, é preciso mesmo olhar pra trás se queremos ir em frente.”

O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

interlunio56-inventarioDividido em duas partes, O inventário das coisas ausentes é um romance curto, de narrativa ligeira e com leves toques de humor e tem como tema principal o encontro amoroso, o momento em que as pessoas descobrem o que é o amor.

A primeira parte tem um enredo mais embaralhado e simula um caderno de anotações de um escritor que está coletando ideias para um romance. Dessa forma, esse escritor é o narrador e sua personagem principal é Nina, uma moça que conhece no período de faculdade. As histórias contadas aqui são quase todas relacionadas a ela e a sua família. São histórias entre homens e mulheres, casamentos que não deram certo, maridos que foram embora, mulheres que casaram por obrigação, mas aqui e ali alguém descobrindo sua própria definição do que é amor: “então isto é o amor” é a frase que se repete.

A segunda parte, intitulada Ficção, seria a história propriamente dita, a narrativa criada pelo personagem escritor. É a história de um pai e de um filho, o encontro deles depois de 23 anos, bem como sobre a relação desse filho com Nina. Em vez de falar sobre o amor, aqui se fala muito mais sobre não saber o que é o amor, ou não saber manifestá-lo da melhor forma.

É uma daquelas ficções contemporâneas que reflete sobre o fazer literário e o faz bem, mas pessoalmente senti falta de mais desenvolvimento dos personagens, até mesmo da própria Nina, que deveria ser o personagem mais marcante. Sob o véu da narrativa fragmentada, tudo é mais sugestão do que fala e, no fim, parece que nada causou mudanças, não houve movimento, tudo ficou como já estava.

As avós – Doris Lessing

interlunio54-avosAs avós é uma novela de história simples, mas que carrega uma grande problemática moral. Roz e Lil são melhores amigas desde a infância e são tão ligadas uma à outra que todos as tratam como irmãs gêmeas. Tudo na vida fazem juntas, inclusive casar e engravidar. Apesar disso são diferentes, Lil é atleta, de humor mais sério e contida e Roz é leviana, extrovertida e trabalha com teatro. Moram na mesma rua, à beira-mar, e são muito felizes, apesar de indiferentes ao seus maridos. Uma se torna viúva e a outra se separa, o que as deixa ainda mais felizes, cuidando de seus dois lindos filhos, Tom e Ian, que se tornam também melhores amigos, como as mães. Até que cada menino, no início da juventude, torna-se amante da amiga da mãe, de uma forma que não causa desconforto a nenhum deles, pelo contrário, os quatro parecem mais felizes do que nunca, com seus almoços e banhos de mar, cada menino instalado na casa de sua amante correspondente.

Até que a vida lá fora chama e esses meninos, já homens, são questionados por aparentemente não terem vida afetiva. É a partir daí que haverá uma primeira quebra no universo dessa singular família. Interessante perceber como fica clara a atração dos garotos pelas mulheres, mas o contrário não é descrito com tanta ênfase (a adaptação cinematográfica parece ter uma abordagem bem diferente). Comentários sobre a sexualidade são restritos aos pensamentos deles, elas parecem mais preocupadas com a afetividade como um todo.

A novela tem um tom quase de fantasia, no sentido de trazer tantas situações coincidentes, tantos personagens espelhos um do outro: além de Roz e Lil, Tom e Ian, há ainda Mary e Hannah, futuras esposas deles, e as filhas, Alice e Shirley. Que importa a verossimilhança? Doris Lessing quer apenas contar uma história que cause reflexão e discussão, e consegue. As duas mulheres – interessante reparar que a autora escolheu denominá-las de avós, no título, talvez para salientar suas idades – têm uma forte ligação amorosa, mas sem sexo. No entanto passam a resolver isso através do filho uma da outra, que são de certa forma também espelhos de suas mães. Da mesma forma os meninos se relacionam com elas, espelhos uma da outra, o que poderia ser interpretado como uma forma de serem amantes das próprias mães. Tecnicamente são apenas homens e mulheres se relacionando sem nenhum parentesco, mas por que não parece tão simples assim? Talvez porque o conceito de família esteja muito mais ligado ao crescer junto do que aos laços de sangue. Cada leitor terá seu julgamento, mas o que importa é que As avós tem personagens marcantes, com imagens bem construídas e uma estilo narrativo bem singular, mesmo com um texto tão curto.

O Circo do Dr. Lao – Charles G. Finney

interlunio53-circoEm pleno período da Grande Depressão americana, os habitantes da cidadezinha de Abalone, no Arizona, são despertados do tédio ao lerem, em sua tribuna matutina, o anúncio da chegada de um bizarro circo. O circo promete atrações incríveis, entre elas animais fantásticos, criaturas mitológicas, shows de erotismo, um adivinho e uma grande encenação apoteótica no final.

De início o autor vai apresentando os habitantes da cidade à medida que cada um vai reagindo ao anúncio e à parada de apresentação do circo. Um chinês, seguido de um unicórnio, um fauno, um cachorro verde, um homem muito velho, uma gaiola com um urso (ou seria um russo?), uma cobra gigantesca e outras criaturas fazem seu desfile curioso, mas nada animador: as pessoas estão procurando os truques por trás das atrações. Mesmo assim, a maioria está curiosa com o show e logo mais todos estarão seguindo para o terreno onde o circo está armado.

Em cada tenda o encontro de uma pessoa de Abalone com uma criatura nada aleatória, pois cada um ficará diante de seus piores defeitos. Uns vão engolir a arrogância, outros encontrarão a desilusão; uns vão encarar seu lado mais negro, outros vão se calar diante do inexplicável. No circo do Dr. Lao haverá grandes embates, disputas entre razão e fé, criação e morte, sexo e mortalidade, Ciência e outras formas de conhecimento. Sobretudo haverá o questionamento do império da Ciência, que não permite que haja coisas que não se pode explicar, exterminando o mistério, tão caro ao ser humano.

Um tanto diferente de sua famosa versão cinematográfica (7 Faces do Dr. Lao, de 1964), O Circo do Dr. Lao oferece um tom mais sombrio e menos ingênuo, menos político e mais filosófico, ainda que com uma linguagem muito simples e uma narrativa mais preocupada com as ideias do que com a trama. O filme tem algumas boas vantagens: a ótima atuação de Tony Randall, que faz os papéis de Dr. Lao, Merlin, Homem das Neves, Apolônio, Pã, Serpente e Medusa, isto é, suas sete faces, bem como o desenvolvimento da história e de alguns personagens, fazendo-os perder o caráter generalizado que têm no livro. No entanto, a obra escrita vai mais a fundo nas questões que propõe e tem o papel mais de provocar discussões que trazer esperança. O circo de Finney dificilmente perdoa, com seu caráter de arena do Juízo Final, onde todos os seus personagens estão prestes a acertar alguma grande conta.

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Cristal – Wilson Bueno

interlunio50-cristalApesar de apresentado como romance, Cristal é um livro difícil de classificar como conto, novela, romance ou mesmo poema. A história curta, escrita de forma singular, com parágrafos grandes e repleta de substantivos, tem a força de um poema, é episódica como uma novela, tem a densidade de um romance e ao mesmo tempo tem um final típico dos contos, com um clímax impactante.

Mas esse caráter único não quer dizer que se trata de um texto árido, difícil de ler. Mesmo que a narrativa deixe algo aqui e ali suspenso, aberto a interpretações, Cristal tem um enredo simples e linear, com pouquíssimos personagens.

Temos, assim, antes de mais nada, a Velha, uma costureira aposentada que observa a vida através da vidraça da janela. A Velha é misteriosa porque é um personagem sem memória ou que não quer lembrar do passado. Há poucas lembranças, e a maioria delas está guardada no Baú, recipiente de fotos e outros souvenires. Nas paredes há retratos com molduras ovais, fotos em sépia, pintadas em estranhos tons de laranja e roxo. Do que se lembra da juventude, apenas de uma filha que não sabe ao certo se existiu, um namoro que talvez não tenha vingado, e uma sessão de cinema inesquecível, das primeiras que houveram no mundo.

Tudo começa então quando ela vê, de sua janela, que um homem morto está sendo levado para a frente da igreja. Tratava-se de um alemão, um homem rico que estava sempre bêbado e morava afastado da cidade, num pequeno sítio. Ao entrarem na casa do sujeito, que havia se enforcado, descobrem que lá havia um recém-nascido e este acaba ficando aos cuidados da Velha, ela que sempre quis ter um filho.

“Isso tudo a Velha começou a ver, rente à persiana da sala, detrás do cristal da vidraça, naquela tarde de agosto de mil novecentos e setenta e seis.”

O pequeno Ananias cresce então com a Velha, que o veste como se fosse uma menina, pinta-o como se fosse um anjo ou um santo, enfeita-o como quem borda sobre um vestido. Isso quando não há ninguém por perto, e quase não há ninguém por perto, apenas o padre Anselmo, com suas vestes de corvo, e a vizinha Sirigaita, objeto de ódio da Velha.

É um texto muito poético, em que cada palavra é pensada, cada frase é lapidada, e cada personagem tem um tom simbólico de morte, de vida, de loucura, de fé. E a presença do cristal está não apenas na janela que turva a visão, mas nas gotas de chuva, nos caminhos com cacos que cortam os pés e sobretudo na dureza, de quem já tomou forma e não sabe mais ser maleável, mostrando que sonhos caducos talvez não devessem se realizar.

Tartarin de Tarascon – Alphonse Daudet

interlunio49-tartarinSe alguém aí está procurando um livro leve, engraçado e com um pouco de aventura, pode ser que o encontre neste pequeno livro do francês Alphonse Daudet. Publicado em 1872, Tartarin de Tarascon tem um dos personagens mais divertidos da literatura, pois ele é uma mistura de Dom Quixote com Sancho Pança e sofre o tempo todo com essa dualidade, essa briga entre o Tartarin que quer explorar o mundo e caçar leões e o Tartarin corpulento que quer ficar em sua poltrona com seu chocolate quente.

A comunidade de Tarascon, no Sul da França, tem costumes bem peculiares, com suas cantigas tradicionais e sua paixão pela caça. O problema é que não há nada para caçar na cidade, então a caça para eles é na verdade um bom almoço no campo, coroado com tiros nas próprias boinas. Aquele que tem a boina mais destruída é o vencedor, e esse sempre é Tartarin. Sua fama de herói é corroborada pela grande quantidade de armas expostas em sua casa e seus livros sobre guerra, mas a verdade é que Tartarin nunca saiu da cidade e seus inimigos são apenas imaginários, por quem ele está sempre esperando a cada esquina. Ele é um contador de histórias, histórias que nunca viveu, mas que leu, histórias de outros que acabaram tornando-se suas à medida que as narra continuamente, de forma tão dramática.

“O homem do Sul não mente; ele se engana. Não diz a verdade todo o tempo, mas acredita que sim… Suas mentiras não são bem mentiras, são uma espécie de miragem…”

Um dia um circo chega à cidade e Tartarin se depara frente a frente com um leão. A partir desse momento ele encontra uma missão de vida: irá para a África caçar leões! Depois de muita relutância de seu lado Sancho e da pressão dos tarasconeses, Tartarin seguirá para a Argélia com toda a sua parafernália de caçador, e vai se deparar com muitas aventuras, mas não exatamente as que esperava viver.

O narrador dessa história – um observador de todos os passos do herói – é a verdadeira fonte do humor do livro, com suas tiradas irônicas e retratos cômicos de cada trapalhada de Tartarin. Além disso, o autor aproveita para alfinetar a França em relação à colonização da Argélia e para destruir as ilusões do estrangeiro que pensa a África em seus estereótipos de lugar ermo, com habitantes selvagens; um erro que ele mesmo cometeu, quando visitou a Argélia ainda jovem. Mas as ilusões e a ingenuidade de Tartarin causam-nos mais riso que pena justamente porque ele precisa aprender, precisa tirar o véu da vaidade extrema e ver além do seu pequeno universo tarasconês, que ele leva para onde vai.

Oscar e a Senhora Rosa [Trilogia do Invisível, parte 3] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio45-oscarOscar e a Senhora Rosa
Nessa última parte da Trilogia (o autor ainda tem mais 3 obras que tratam de religiões) encontramos mais uma vez a amizade de uma criança com uma pessoa mais velha que não é da família. Oscar tem 10 anos e acabou de passar por um transplante de medula óssea, mas a cirurgia não deu resultado. Como os pais não estão sabendo lidar com sua doença, ele conta com a ajuda de uma simpática senhora que é voluntária no hospital. Por causa da cor rosa usada pelos voluntários, ele a chama de Vovó-Rosa.

Vovó-Rosa é uma senhora muito bem-humorada e está sempre contando para Oscar suas estripulias da juventude, quando era lutadora de catch. É com essas histórias e com sua sinceridade que ela o ajuda na difícil situação de saber que ele vai morrer em breve: ao que parece Oscar tem cerca de 12 dias de vida. Então ela sugere duas maneiras de lidar com o inevitável: escrever cartas a Deus e viver cada dia como se fossem 10 anos.

A narrativa é constituída por essas cartas de Oscar a Deus e nelas ele conta sobre sua rotina no hospital, seus amigos – outras crianças doentes – e sua namoradinha, Peggy Blue. A cada dia, fingindo ser mais velho 10 anos, Oscar se despede da vida vivendo-a o mais intensamente que pode. Apesar do tom melodramático da história – afinal é sobre a possível morte de uma criança – o autor soube construir personagens marcantes e possibilitou momentos de muito humor. Dessa vez o autor não foi tão específico em relação à religião evocada mas o Cristianismo aqui parece ser o Católico, e as categorias trabalhadas são a fé e o desenvolvimento da espiritualidade.

“A vida é um presente estranho. No início, superestimamos esse presente: imaginamos ter ganhado a vida eterna. Depois subestimamos, achamos uma porcaria, curto demais, até seríamos capazes de jogá-lo fora. Enfim nos damos conta de que não era um presente, mas sim um empréstimo. Então procuramos merecê-lo.”

A Trilogia do Invisível tem um apelo bem popular com sua linguagem simples e narrativas curtíssimas, permeadas de frases tocantes. Ela tem um sentido mais completo ao ser lida como um todo, mas cada livro é independente, e apesar de tocarem muito superficialmente nas questões religiosas, os livros podem interessar a quem aprecia histórias que envolvem espiritualidade, independentemente de suas crenças pessoais.

Seu Ibrahim e as Flores do Corão [Trilogia do Invisível, parte 2] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio44-coraoSeu Ibrahim e as Flores do Corão
Nesta segunda narrativa o autor consegue dar bem mais corpo à história, que aqui nesse caso irá sintetizar o Islamismo, mais especificamente o Sufismo. Moisés, ou Momô, é um jovem judeu parisiense de 12 anos que, abandonado pela mãe e completamente desprezado e ignorado pelo pai, tem que se virar para encontrar algum carinho com as prostitutas da rua Paraíso e com as conversas com o árabe da rua Azul, Seu Ibrahim.

E é nessa amizade com Seu Ibrahim, que na verdade não é árabe, mas muçulmano, que Momô vai encontrar seu verdadeiro lar. Uma amizade que começa com a visita de Brigitte Bardot à mercearia de Ibrahim e desemboca em uma viagem de carro rumo à sua cidade natal. O livro é quase uma coleção de pérolas de sabedoria soltas por Ibrahim, baseadas na filosofia sufi, que acredita que a relação do homem com Deus deve ser direta e íntima e que a verdade é adquirida por êxtase mediante certas práticas.

Mesmo com pouquíssimas páginas, o autor consegue dar aos personagens Moisés e Ibrahim um desenho muito satisfatório, causando empatia no leitor que entende a simplicidade do livro. Muita coisa acontece, mas são as conversas entre os dois que dão um tom de beleza e humor à história, de tal maneira que a amizade, ou o amor, se sobressai de tal maneira que a religião aparece apenas nas entrelinhas.

“Seu amor por ela é seu. Pertence a você. Mesmo que o recuse, ela não pode modificar isso. Ela não o aproveitará, é só. O que você dá, Momô, é seu para sempre; o que você guarda, está perdido para sempre!”

Milarepa [Trilogia do Invisível, parte 1] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio43-milarepaMilarepa
Simon é um parisiense que sofre de um pesadelo recorrente: em um local montanhoso, estranho e lúgubre ele procura por um homem que odeia, a fim de matá-lo. Um dia ele encontra uma mulher misteriosa que afirma que ele é a encarnação de Svastika e o homem que odeia é Jetsün Milarepa, o grande iogue tibetano, que fora discípulo de Marpa Lotsawa. A única maneira de Simon se libertar é contar sua história com Milarepa centenas e centenas de vezes. Interessante perceber que, ao narrar tantas vezes a mesma história, Svastika ora conta tudo sob seu ponto de vista, ora toma o lugar de Milarepa, fazendo com que os dois se tornem um só, de certa forma.

Svastika era tio de Milarepa e quando o pai deste morre ele resolve ficar com toda a herança e tornar seu sobrinho um criado. Quando adulto, Milarepa resolve se vingar e, mais tarde, arrependido de ter praticado tantos atos ruins, procura o mestre Marpa para se tornar um discípulo e assim irá passar por muitas provas até se tornar um mestre também.

“Tinha percebido também que meu corpo é uma embarcação frágil: se o abarroto de crimes, ele naufraga; se alivio seu peso praticando o desapego, a generosidade, o altruísmo, ela me leva a um bom porto.”

As narrativas da trilogia parecem ter uma intenção de simplificar as ideias gerais de cada religião, e no caso de Milarepa se sobressaem o valor da meditação e a busca pela libertação dos desejos, que são a causa do sofrimento humano, segundo o budismo. É uma história que funciona como uma introdução ao credo e tem um apelo bem popular, o que é compreensível pela temática. Mas talvez por ser tão breve e tão simbólico Milarepa não dê conta de algo tão amplo, funcionando mais como parte do todo que é a trilogia do que como um livro com força própria.