Léxico Familiar – Natalia Ginzburg

interlunio61-lexicoExistem livros que são capazes de atingir uma camada mais profunda do leitor: histórias que falam com nossas histórias, pessoas ou personagens que revelam o que não conseguimos expressar. Léxico Familiar é um destes livros que nos tomam pela mão e nos levam a rever fragmentos de nossas vidas, como se fossem um dos espectros que surgem para Scrooge no Natal.

Com uma linguagem direta mas ao mesmo tempo afetuosa, a autora italiana Natalia Ginzburg tece um bordado de memórias – para usar uma metáfora do posfácio da edição – relativas à sua vida familiar, da infância à vida adulta. O foco está longe de ser ela mesma: não há quase menção sobre suas descobertas de menina, sobre o seu casamento com Leone Ginzburg ou sobre ser mãe de três filhos. A família aqui é a família que temos enquanto filhos, a que convivemos com as pessoas que não escolhemos: os pais, os irmãos, os parentes e amigos dos pais. E ela constrói esse bordado tomando como fio as frases, anedotas, expressões usadas pela família que vão se repetindo ao longo da narrativa, como não poderia ser diferente em qualquer convivência familiar.

As frases familiares e as piadas internas nos causam uma sensação de conforto, como se fizéssemos parte dessa família ou comparássemos com a nossa. Expressões como “surge um novo astro”, “as sobras de Virginia” e “não reconheço mais a minha Alemanha” causam-nos gargalhadas, pois nos sentimos incluídos nessa história e nos lembramos do que um avô ou uma tia costumava repetir em nossa infância e que virou um bordão em várias situações.

Ainda que ela mostre o pai como um homem duro e intransigente, acabamos por rir muito com esta figura, com sua falta de paciência e seus despertares durante a noite, preocupado com que rumo os filhos iam tomar. Sua mãe é retratada como uma figura um tanto passiva mas de um espírito livre, feliz e tranquilo, com uma sabedoria poética diante da vida. A família Levi, que conta ainda com os irmãos Gino, Mario, Alberto e Paola, vive com muito bom humor, mas ao mesmo tempo com a grande sombra do fascismo na Itália e da Segunda Guerra, que levam muitos amigos e familiares ao exílio e à morte.

Cada família constrói o seu próprio léxico familiar, mas não há dúvida de que o léxico da família de Natalia Ginzburg é especial e cheio de referências artísticas interessantes, nos envolvendo naquele afeto misterioso que as famílias têm, que se apresentam até mesmo nas brigas e discussões acaloradas. Uma leitura deliciosa, com todos os elementos que uma vida guarda: sonhos, perdas, melancolia, alegria, sonhos e desilusão, com humor e beleza, e um final que nos leva a querer voltar ao começo.

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Joe Speedboat – Tommy Wieringa

interlunio60-speedboatNa pequena Lomark, uma cidade fictícia na Holanda, vive Fransje Herman, um garoto de 15 anos que, depois de um acidente que o deixou em coma por quase um ano, perde a fala e a maior parte dos movimentos. Em sua cadeira de rodas, Fransje leva tudo com um ótimo humor irônico, sem lugar para muita auto-piedade. Sua vida é cercada por máquinas: a família trabalha com desmanche de sucata e seu grande amigo é Joe Speedboat, um garoto genial que é fascinado em mexer em carros e construir bombas.

Juntamente com os amigos de escola Christof e Engel, Joe forma um grupo para construir um avião e aos poucos Fransje consegue fazer parte do projeto, ainda que como observador. Ele se aproveita de sua condição passiva para ser o cronista da vida não só desses meninos, mas da cidade inteira, e sobretudo de Joe. Ele quer deixar registrado tudo que vivencia em Lomark e preenche inúmeros cadernos com sua observações.

“Não participo de nada. Impossível. O que procuro fazer é me movimentar o tempo todo, uma hora estou aqui e outra acolá: o bandido de um só braço com olhos biônicos. Nada lhe escapa; seus olhos tudo veem. Engole o mundo como uma anaconda devora um porquinho. If you can’t join them, eat them, o que você acha? Sobe morro, desce morro, contra vento e contra chuva, espuma saindo da boca. De guarda no seu carro de guerra, um poncho para se proteger da chuva em dias de tempestade, um gorro na cabeça quando a tormenta investe contra as persianas ou uma camiseta do Havaí no sol quente. Não precisa ter medo. Os Olhos tudo veem.”

Com o tempo, o humor de Fransje vai se tornando um pouco mais melancólico, pois percebe que suas limitações afetarão sua relação com as mulheres, especialmente com PJ, a linda garota por quem é apaixonado. Afetarão também sua vida profissional, pois entende que, ao terminar o colégio, não vai poder ir muito longe na vida. Para que ele possa ter uma renda, seus pais instalam no quintal de casa uma pequena fábrica de briquetes de papel e Fransje então aceita que isso provavelmente será seu trabalho pelo resto da vida.

É aí que entra Joe, sempre chacoalhando a monotonia de Fransje. Quando percebe que seu braço direito, a única parte de Fransje que se movimenta, torna-se cada vez mais forte com a atividade de prensar os briquetes, sugere que eles façam uma sociedade em campeonatos de queda de braço. O livro se divide assim entre esses dois momentos, Pluma e Espada, o cronista e o lutador, em uma referência ao caminho do samurai, descrito por Miyamoto Musashi. Joe Speedboat é portanto, a via de escape para um mundo longe de Lomark, não só no sentido físico, mas também no sentido espiritual: não é à toa que o avião acabe virando uma simbologia do caráter de Joe. Fransje o vê não apenas como um amigo, mas como um verdadeiro ídolo, pois ele sempre comemora as vitórias de Joe como um golpe contra a própria cidade e a mediocridade.

“Mais que um cara excepcional, ele era uma força libertadora. Estar perto dele dava comichões – a energia se transformava em algo palpável em suas mãos; do nada, ele tirava das mangas bombas, motocicletas de corrida e aviões, e fazia com eles malabarismos como um mágico inconsequente.”

Wieringa teve muito sucesso ao fazer a voz de Fransje. Ainda que o personagem não fale, estamos o tempo todo acompanhando o que ele pensa e esses pensamentos têm uma voz única. Infelizmente ele não consegue o mesmo com Speedboat. Seus discursos sobre máquinas, entropia e outras categorias da física soam às vezes artificiais, revelando um pouco das possíveis pesquisas do autor, e deixando de lado a naturalidade com que um jovem, por mais brilhante que seja, falaria com outros jovens.

Outro passo em falso do autor é quando resolve desenvolver a personagem PJ apenas na parte final do livro e de uma forma nada confiável: através de um livro escrito por outro personagem que não participa diretamente da história. A partir daí a personagem é julgada até o fim do livro por um slogan machista e desnecessário. Em um livro que fala tanto sobre amizade e companheirismo, teria sido mais elegante ter mostrado PJ apenas como um ser humano, deixando o julgamento para o leitor.

Com uma escrita ágil e irônica, o autor trabalha diversos temas envolventes, como a adolescência como o momento ideal para se envolver em projetos que exigem imaginação e coragem, passando por uma leve crítica ao consumismo desenfreado, simbolizado pela quantidade absurda de sucata presente em vários momentos do livro. Mas é quando retrata a pequena cidade, com pessoas com sonhos que não lhe cabem, que o livro brilha. É um história sobre movimento, sobre as tentativas de sair do lugar, sob todas as formas, e ao mesmo tempo é sobre a constatação que mesmo em pequenos lugares você pode vivenciar momentos grandiosos, contanto que esteja com as pessoas certas.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.