Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino


A narrativa fantástica é aquela que encerra um fato insólito em sua lógica interna: num mundo com regras estabelecidas, surge algo surpreendente, inesperado, inexplicável. Não deve ser confundida com a narrativa maravilhosa, que trabalha com uma lógica paralela, como é o caso das histórias de fantasia, como O Senhor dos Anéis. Tudo que acontece na história maravilhosa é esperado: um mago realiza mágicas, um dragão cospe fogo… mas ninguém irá ver um carro cortando a floresta. Já o fantástico apresenta um mundo semelhante ao nosso real, mas com a diferença de trazer um acontecimento que causa estranhamento, que pode ser desde uma aparição de um fantasma até uma epidemia de cegueira na humanidade.

Os contos fantásticos do século XIX, no entanto, são de um tipo específico, que é aquele que gera certa dúvida se o fato estranho aconteceu ou não, simplesmente porque são narrados em primeira pessoa, e geralmente são narrados pela vítima do acontecimento, de forma bastante emocional, às vezes por cartas ou diários. Nesta coletânea selecionada por Italo Calvino, apenas o último conto, escrito já no final do século, é narrado em terceira pessoa. Dispostos em ordem cronológica, Calvino separa as histórias do livro em duas categorias: o fantástico visionário, aquele em que surgem aparições, e o fantástico cotidiano ou psicológico, em que o extraordinário ocorre mentalmente, isto é, ao invés de ser visto, é sentido.

As histórias têm em comum um herói atormentado pelas circunstâncias, geralmente um homem bom e pacato que se vê capturado pelas forças do mal e por elas é marcado ou condenado. O fantástico aparece através de bruxaria, alquimia, folclore, lendas, entidades, fantasmas, mundos paralelos e até partes do corpo com vida própria. É comum que eles manifestem sutilmente uma moralidade puritana ou religiosa.

Os que mais apreciei do fantástico visionário foram O Homem de Areia (uma história genial sobre a loucura e o medo), de E. T. A. Hoffmann, e A Vênus de Ille (principalmente pela forma de narrar), de Mérimée. Do fantástico cotidiano obviamente se destacou o famoso O coração denunciador, de Poe, O sinaleiro, de Dickens (que me lembrou algo que já vi ou li, mas que não consigo identificar), O sonho, de Turguêniev (adorei a atmosfera onírica), O demônio da garrafa, de Stevenson (também pela narrativa), Os amigos dos amigos, de Henry James (única vez em que a narradora é uma mulher) e Em terra de cego, de Wells, que juntamente com Poe e Hoffmann já pagam o livro (ainda que o meu tenha sido presente). Eu dispensaria totalmente da coletânea Os construtores de ponte, O espanta-diabo (bocejei cada segundo lendo estes), É de confundir! (também fiquei confusa com a presença desse conto), Chickamauga (não acho que seja um conto fantástico) e A noite (já li muita coisa melhor de Maupassant).

O único problema do conto fantástico oitocentista é que eles já foram tão referenciados e copiados pelo cinema e pela tv que alguns efeitos se perderam. Mesmo assim, eles possuem um sabor único a quem se deixa levar pelo inusitado e falam diretamente ao nosso inconsciente, deixando-nos a maravilhosa sensação de que a realidade pode ser bem mais interessante do que é rotineiramente.

Contos:
História do demoníaco Pacheco – Jan Potocki
Um oficial francês dorme numa hospedaria assombrada onde ele irá realizar seus desejos mais profundos.

Sortilégio de outono – Joseph Von Einchendorff
Um eremita atormentado por ter vivido num mundo espelhado ao seu.

O Homem de Areia – Ernst Theodor Amadeus Hoffmann
A história de Natanael, da infância à idade adulta perseguido pela presença do Homem de Areia, o ser que pune as crianças que não querem dormir.

A história de Willie, o vagabundo – Walter Scott
Para provar que resolveu sua dívida com o cruel cavaleiro Sir Robert, o gaiteiro Steenie terá que ir ao inferno buscar o recibo.

O elixir da longa vida – Honoré de Balzac
Uma poção mágica capaz de devolver a vida aos mortos passará de pai para filho.

O olho sem pálpebra – Philarète Chasles
Conto de Halloween em que amigos se reúnem para celebrar e realizar simpatias de casamento.

A mão encantada – Gérard de Nerval
Um cigano enfeitiça a mão de um comerciante para que ele se saia bem em um duelo, mas a mão passa a ter vontade própria.

O jovem Goodman Brown – Nathaniel Hawthorne
Brown mora num vilarejo cristão e ao longo de uma estrada luta contra tentações diabólicas.

O nariz – Nikolai Vassilievitch Gogol
A história do nariz do major Kovalióv, que sai de seu corpo e passa a ter vida própria.

A morte amorosa – Théophile Gautier
Romuald é um padre que, no dia de sua ordenação, se apaixona por uma vampira.

A Vênus de Ille – Prosper Mérimée
No dia de seu casamento, para que pudesse jogar um pouco com os amigos, um jovem coloca o anel de noivado no dedo de uma antiga estátua de Vênus, que não quer mais devolvê-lo.

O fantasma e o consertador de ossos – Joseph Sheridan Le Fanu
Um consertador de ossos tem que passar a noite num castelo que é assombrado por um fantasma com um osso para consertar.

O coração denunciador – Edgar Allan Poe
Um dos mais conhecidos de Poe, a história de um assassino torturado pelas batidas do coração de sua vítima.

A sombra – Hans Christian Andersen
Um homem deixa sua sombra escapar de si e a reencontra tempos depois como um sujeito rico e poderoso com uma proposta perigosa.

O sinaleiro – Charles Dickens
Um sinaleiro de trem sofre de visões perturbadoras em sua estação de trabalho, seguidas sempre de algum acidente nos trilhos.

O sonho – Ivan Sergueievitch Turguêniev
Através de um sonho, um rapaz irá encontrar seu verdadeiro pai e o passado de sua mãe.

O espanta-diabo – Nikolai Semionovitch Leskov
Durante o dia que passa junto ao seu tio, homem presencia estranhos rituais.

É de confundir! – Auguste Villiers de L’Isle-Adam
Um homem faz duas visitas mórbidas.

A noite – Guy de Maupassant
Um passeio por Paris feito por um amante da noite que, aos poucos, vai sendo engolido por ela.

Amour dure – Vernon Lee (Violetta Paget)
Em forma de diário, conta como o professor Spiridion se apaixonou por Medea da Carpi, uma espécie de viúva negra há séculos morta.

Chickamauga – Ambrose Bierce
Uma criança perdida na mata encontra estranhos homens.

Os buracos da máscara – Jean Lorrain
Um bizarro baile de máscaras com tom de pesadelo.

O demônio da garrafa – Robert Louis Stevenson
Um marinheiro arranja uma garrafa com um demônio dentro, capaz de realizar todos os desejos de quem a possui.

Os amigos dos amigos – Henry James
Um homem e uma mulher, que passaram por uma situação misteriosa parecida, nunca conseguem se ver, ainda que os amigos em comum tentem arranjar o encontro.

Os construtores de pontes – Rudyard Kipling
Durante a construção de uma ponte na Índia ocorre uma enchente e dois homens presenciam uma reunião dos deuses hindus.

Em terra de cego – Herbert George Wells
Um homem cai num local isolado onde todas as pessoas são cegas e supõe que por isso irá dominá-las.

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As Cidades Invisíveis – Italo Calvino


Neste livro de Italo Calvino, o explorador veneziano Marco Polo vai descrevendo para o grande imperador Kublai Khan toda a extensão de seu império, isto é, as cidades que ele possui mas não conhece. Num primeiro momento a descrição se dá através de sinais, gestos e jogos, mas aos poucos ele vai dominando a língua local – o que não quer dizer que a expressão fique melhor, já que Kublai acaba se acostumando a essa linguagem simbólica que eles constroem para interagir.

A cada capítulo, uma cidade diferente (todas com nomes de mulher) e a cada parte do livro, as reflexões dos dois sobre elas, sobre a existência, sobre a verdade, sobre o tempo. Entre as cidades, algumas possuem categorias em comum, como a memória, o desejo, as trocas, a continuidade… mas todas carregam a marca do invisível.

É o tipo de livro que recebe sua cor através do leitor, como se fossem aqueles livros de criança para colorir: o leitor preenche as metáforas do livro segundo sua própria experiência. Se por um lado podemos ver nestas cidades todas as cidades possíveis – e de certa maneira até identifiquei a cidade em que moro como Maurília, a cidade metrópole que o tempo inteiro se compara à sua versão anterior provinciana – por outro elas não se resumem a cidades propriamente ditas, pois a arquitetura de cada uma serve apenas como reflexo para a existência, dando a sensação de que o que está sendo descrito não são cidades, mas o próprio ser humano.

Não é possível ler o livro de uma vez só, ainda que ele seja curto, pois os textos de Calvino têm a propriedade poética de dizer muito com pouco. Cada cidade faz você parar para apreciar a paisagem e durante a leitura você é obrigado a pensar, a imaginar e, o que é melhor, a criar e a colorir as formas desenhadas pelo autor.

“Como é realmente a cidade sob esse carregado invólucro de símbolos, o que contém e o que esconde, ao se sair de Tamara é impossível saber. Do lado de fora, a terra estende-se vazia até o horizonte, abre-se o céu onde correm as nuvens. Nas formas que o acaso e o vento dão às nuvens, o homem se propõe a reconhecer figuras: veleiro, mão, elefante…”

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