Um episódio distante – Paul Bowles [Projeto Para ler como um escritor #3]

10_distanteEste livro reúne doze contos e uma novela do escritor e músico americano Paul Bowles. Por ter passado a maior parte de sua vida no Marrocos e no Sri Lanka, sua literatura contempla uma realidade que soaria “exótica” ao olhar ocidental do século XX. Muitas de suas histórias se passam no Norte da África, geralmente em cidades pequenas ou lugares isolados, em que o europeu ou o americano entra em contato com os nativos, numa relação que dificilmente escapa do sentimento de superioridade daqueles.

Das narrativas que evidenciam esse contraste, destaca-se o conto que dá nome à coletânea e a novela “Muito longe de casa”, que narra a temporada de uma americana numa localidade próxima a Timbuktu, na qual ela viverá uma experiência singular com um dos criados da casa. Mas também estão dentro do tema “Em Paso Rojo”, “Chá na montanha” e “O pastor Dowe em Tacaté”.

Alguns contos levam o leitor a situações absurdas: são histórias nubladas, com um tom de pesadelo, geralmente com elementos fantásticos, como “À beira da água”, em que um jovem chega a uma certa cidade e ao entrar numa casa de banhos se depara com um estranho personagem em forma de caranguejo; ou como “Ele da Assembleia”, que nos remete a um conto de fada, quando em determinado ponto um personagem procura se esconder num caldeirão de uma velha.

Algo que acontece com muitos personagens ao longo das narrativas é a sensação de estarem fazendo uma escolha estúpida, irracional e ainda assim não conseguir dizer não a ela, seja por educação, seja por curiosidade, tédio ou ignorância. É possível perceber isso em “A presa delicada”, por exemplo, em que 3 mercadores precisam atravessar o deserto e se deparam com um estranho viajante no meio do caminho, e em “No quarto vermelho”, em que uma família é conduzida a uma casa que guarda um mistério do passado do proprietário.

Os demais contos destacam problemas familiares, situações em que os relacionamentos não funcionam: “Parada em Corazón” segue a lua-de-mel de um casal cujo marido resolve comprar um macaco; “Páginas de Cold Point” é narrado como um diário de um pai que não sabe lidar com o comportamento de seu filho; “Allal” é um jovem órfão que procura amor e liberdade sob uma forma muito inusitada; e “O escorpião” relata a vida de uma velha senhora que foi abandonada pelos filhos numa caverna.

Como uma daquelas canções em que cada vez que você ouve percebe um elemento novo no arranjo, seus contos são desses que merecem ser lidos e relidos com muita atenção pois são os detalhes que contam uma história quase escondida nas sutilezas e em várias camadas: não à toa sua obra é citada por Francine Prose, comparando-a à pintura de um grande pintor, que devemos observar não só de longe, “mas também de muito perto, para ver as pinceladas”. É uma literatura para quem aprecia aspectos formais, para quem gosta de ir a fundo nas entrelinhas.

Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor. Prose indica uma coletânea mais completa de Bowles, que provavelmente não foi publicada no Brasil, mas através desta da Alfaguara é possível ter um bom primeiro contato com a obra do autor, de quem pretendo ler também O Céu que nos protege.  Segue um breve comentário (com spoilers) sobre o conto citado por Prose. 

11_bowlesO conto “Um episódio distante”
“Um episódio distante” conta a história de um linguista europeu que chega a uma cidade de cultura árabe com o propósito de catalogar dialetos locais e rever um amigo, o proprietário de um café que ele acaba descobrindo que já morreu. O homem que o atende nesse mesmo café, uma espécie de garçom, sente-se constantemente ofendido por algumas atitudes do linguista, mas se prontifica a ajudá-lo a encontrar suas desejadas caixas de úbere de camela. Nesse primeiro momento, Bowles nos mostra praticamente tudo que precisamos saber sobre esse personagem, denominado o Professor: um homem um tanto presunçoso, que não quer parecer turista, mas leva inúmeros mapas na mala; embora fale o idioma do lugar, ele pouco lhe serve, pois mais lhe serviria conhecer ou respeitar os costumes locais; e além disso, um homem carente de atenção, em busca de reviver alguma coisa de um passado que se perdeu. Já no primeiro parágrafo do conto – com suas belas descrições de clima, cores e cheiros – percebemos muita coisa sobre o personagem e sobre a história, como, por exemplo, a repetição do nome de Hassan Ramani, que soa quase como uma prece.

Em um segundo momento, o garçom o leva por um longo caminho escuro, até chegar a uma espécie de precipício, onde ele supostamente irá encontrar o que deseja. Durante esse trajeto, o leitor sente que ele está sendo conduzido a uma situação ruim e sente também que ele sabe que pode ser uma armadilha, mas sua arrogância não o deixa dar um passo para trás:

“Ocorreu-lhe que devia se perguntar por que estava fazendo aquela coisa irracional, mas era inteligente o bastante para saber que, uma vez que estava fazendo aquilo, naquele momento não era tão importante buscar explicações.”

Finalmente, depois de descer o precipício, ele é capturado pelos reguibat, uma tribo árabe de criminosos. Interessante perceber que até aqui ele ainda encara a situação com um ar de superioridade, mas depois que, ironicamente, cortam sua língua, e mais tarde o adornam de uma forma bizarra, o Professor passa a ser algo sem consciência, uma mistura de animal treinado com bobo da corte, de tal forma que o autor não nos relata mais seus pensamentos, acompanhamos apenas o que a tribo vai fazendo com ele. Até que no final, quando ele é vendido para um homem, ele de certa forma desperta: é “quando a dor começou a pulsar de novo em seu ser”, provavelmente provocada pelas palavras de um convidado de seu dono, que falava em árabe clássico e, mais tarde pela observação de palavras escritas em francês. O acesso à linguagem traz sua consciência de volta em algum grau, mas ao mesmo tempo o leva à loucura e ao desespero, que ele antes não tinha tido direito de sentir.

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2001: uma odisseia no espaço e Mundos perdidos de 2001 – Arthur C. Clarke [Fórum Entre Pontos e Vírgulas] [Projeto Kubrick]

59_2001Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

2001: uma odisseia no espaço é um livro que foi escrito com uma técnica singular, pois ao mesmo tempo que escrevia o roteiro para o filme que ia ser dirigido por Stanley Kubrick, Clarke ia expandindo suas idéias em forma de romance, tendo que lidar com constantes intervenções do diretor. O resultado desse processo que durou 4 anos são duas obras que se complementam, pois enquanto o livro de Clarke tem um caráter um tanto de ensaio, mais envolvido em oferecer respostas ao leitor, o filme de Kubrick tem um propósito mais preocupado com a estética e com a pergunta em si. Ele não facilita as coisas para quem assiste ao seu filme, haja visto que muitas pessoas têm dificuldade de entender algumas cenas, afinal sua intenção era trabalhar as emoções que despertam o inexplicável. No mais, o propósito dos dois artistas não era humilde: mostrar a evolução do homem, de onde viemos e para onde possivelmente vamos.

No início do livro, acompanhamos um grupo de homens-macacos que está prestes a entrar em extinção devido a constante seca, a falta de alimentos e a vulnerabilidade perante os animais ferozes. Embora fossem seres com uma inteligência superior a outros animais semelhantes, eles não possuíam nenhuma outra vantagem natural que pudessem ajudá-los a sobreviver. Sem garras, sem dentes afiados e com pouca destreza, perecer era o futuro mais provável.

Até que surge uma “nova rocha” em seu território, uma placa retangular transparente que causa certa curiosidade e que vai acabar modificando suas vidas para sempre. A placa emite ordens e emoções a esses seres, manipulando suas mentes para que desenvolvam desejos que não conheciam. Nasce a consciência da falta e com ela o despertar da violência, necessária para abater outros animais e facilitar a sobrevivência. Aprendem a usar ossos e pedras como armas e utensílios; entendem que, se não nasceram com uma qualidade, ela pode ser desenvolvida externamente. Nasce, portanto, a tecnologia, e com ela a salvação da espécie. Com o tempo, surge o Homem propriamente dito e com ele a Linguagem, a mais poderosa arma para a espécie permanecer no planeta, já que é através dela que o homem passa as informações adiante no tempo.

Temos um salto na história. A conquista do espaço é o estágio a que aquele ser primitivo chegou, depois de milhões de anos. A Terra mais uma vez se encontra numa situação crítica pois está superpopulosa, falta comida e os países estão numa tensão que os levará a uma grande guerra. O astronauta Heywood Floyd é chamado às pressas para uma viagem à Lua. Ao chegar, toma conhecimento da descoberta de uma placa retangular com idade mais antiga que os seres humanos, que estava enterrada na cratera de Tycho. Uma comprovação de que há ou que houve vida inteligente fora da Terra. No momento em que a luz do sol entra em contato com a placa, um sinal é emitido para o espaço.

Algum tempo depois, David Bowman e Frank Poole são astronautas a bordo da nave Discovery, que tem como missão uma exploração de Saturno. Além deles há mais 3 tripulantes hibernando, que devem ser acordados apenas ao chegar ao planeta, e o computador HAL 9000, o cérebro da nave. Somente HAL e os tripulantes que hibernam sabem o real motivo da missão. Em determinado momento, quando já estão próximos de Saturno, ocorre um suposto problema na antena da nave e Frank acaba morrendo, ao tentar consertá-la. Bowman desconfia que HAL esteja por trás disso e aos poucos vai percebendo que está à mercê de um assassino.

Enquanto toda a tripulação é executada pela dissimulada máquina, David consegue escapar por pouco e desliga HAL. Só então ele é orientado para a verdadeira missão da Discovery: encontrar o destino do sinal enviado pela AMT-1, a placa encontrada na Lua. David encontra uma nova placa, dessa vez em Jápeto, lua de Saturno. É o Portal das Estrelas, por onde David entra para ser engolido por um Espaço avesso. Ele viaja por esse túnel e é expelido para o que ele entende como espaço novamente, mas aparentemente em outro tempo/espaço, com um enorme Sol vermelho. No final de sua viagem ele se encontra repentinamente em uma sala semelhante a um quarto de hotel. Ao dormir, sua vida regride como um filme e suas lembranças são guardadas para serem armazenadas em outro lugar. Até que ele “nasce” novamente e se transforma em outro ser que não precisa de matéria, embora se visualize como um bebê. O Homem retorna como um novo ser, pronto para dar à Terra uma nova etapa da evolução humana.

09_2001filme
Com pequenas diferenças, o filme de Kubrick conta a mesma história, mas de uma forma mais misteriosa e simbólica. Ele não trabalha, por exemplo, os problemas de superpopulação e escassez de recursos na Terra, apontados por Clarke. O que foi ótimo, porque esse é um dos defeitos do livro. São problemas que ficaram soltos e sem propósito no romance como um todo, uma situação que não leva a lugar nenhum.

Um dos momentos mais emocionantes do livro e do filme, sobretudo do filme, é o da “morte” de HAL. Muitas vezes o computador parece mais humano que os tripulantes, com seu olho de lente vermelha e seus pigarros eletrônicos, mas isso serve para mostrar que essa diferença já está ficando mínima e que a tendência do homem é se tornar algo muito próximo à máquina e vice-versa, até que um dia o que entendemos por consciência nem mesmo precise de um invólucro.

Ao entrar no Portal das Estrelas, ou no buraco de minhoca, David viaja no tempo e no espaço de uma forma que explicaria como as jornadas dos seres extraterrestres se dariam sem levar milhares de anos. E é através desse atalho que ele chega ao local onde irá se preparar para a próxima etapa. Ele agora é um novo elo entre o que foi e o que virá, um novo ser que levará os humanos a uma nova aurora. Kubrick é genial ao usar a mesma música – Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss – nos dois momentos cruciais da evolução.

Como em muitas histórias de Ficção Científica, as idéias apresentadas são mais importantes que a vida pessoal dos personagens, o que pode desconectar o leitor comum, acostumado a se envolver com os problemas cotidianos da vida. Não gostamos de pensar em problemas grandiosos, na imensidão do Universo e coisas assim porque isso nos lembra o quanto somos insignificantes diante de tudo.

No entanto, em algumas versões do romance, Clarke teria trabalhado a reação das pessoas ao constatarem a existência de vida inteligente fora da Terra. A situação política mundial mudaria: o pavor de uma inteligência superior faria os homens se unirem, esquecerem as divisas e diferenças. Além disso, alguns personagens, especialmente Bowman, também teriam suas vidas e personalidades mais desenvolvidas nestas outras versões, mas acredito que nessa história Bowman precisava mesmo ser esse homem mais genérico, que representa a humanidade inteira, e nesse sentido a escolha por eliminar os detalhes de sua vida pessoal pode ter sido necessária.

08_2001mundosEssas e outras versões da história podem ser contempladas em Mundos Perdidos de 2001, um relato de Clarke sobre sua história com Kubrick e sobretudo capítulos descartados do romance. Muitas idéias para o livro e o filme foram aos poucos sendo descartadas ao longo dos anos que trabalharam juntos, especialmente por Kubrick, que não queria explicações demais e nem queria comprometer o filme, caso não houvesse recursos cinematográficos: enquanto na Literatura tudo é possível, o Cinema é limitado pelos efeitos disponíveis.

Ao mesmo tempo, Kubrick não queria que as duas obras tivessem uma validade curta, que é o que acontece com muitas narrativas que tentam prever o futuro.

“Tínhamos de antecipar o futuro. Uma forma de fazer isso era estar tão à frente do presente que não houvesse perigo de sermos superados pelos fatos. Por outro lado, se fôssemos muito longe correríamos o grave risco de perder o contato com o público.”

Entrar em contato com essas versões anteriores mostram que Kubrick estava certo. Alguns capítulos são muito didáticos; a versão final nos faz pensar mais e deixa tudo mais generalizado, pois o livro pode ser interpretado de várias formas.

Mas Mundos Perdidos de 2001 não deixa de ser um texto curioso para quem quer entender melhor as questões tratadas no romance, bem como pensar em outras: como seria um encontro mais direto dos seres humanos com alienígenas quando eles ainda nem sequer poderiam ser considerados humanos? E se Bowman se encontrasse com civilizações de outros planetas? Por que esses seres superiores que não aparecem deixaram um plano esquematizado para que os seres humanos evoluíssem?

Além disso, o livro também traz um pouco dos bastidores da concepção do roteiro e das filmagens, como por exemplo o momento em que Clarke telefona para Isaac Asimov para tirar dúvidas científicas. Por falar em Asimov, uma das cenas descartadas mostra o treinamento de HAL (que chegou a se chamar Sócrates e chegou a se chamar Athena, com uma voz feminina). Nela as Leis da Robótica são citadas, o que causaria um efeito bem irônico, considerando o que HAL acaba fazendo depois.

Às vezes parece absurdo projetar coisas tão distantes de nossa realidade e abrir tanto espaço para o mistério, mas não se pensarmos que hoje vamos ao espaço, enquanto há tempos atrás éramos homens-macacos tentando sobreviver até o próximo nascer do sol. Acredito que a força da obra de Clarke e Kubrick é justamente a de nos levar a pensar nessas grandes questões, a despeito de nossas vidas individuais, que são tão curtas e nas quais raramente lembramos que somos meros membros de uma espécie.

“Só uma cultura de viajantes espaciais pode verdadeiramente transcender seu meio ambiente e juntar-se a outras, dando sentido à criação.”

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*Desde que li Laranja Mecânica fiquei com vontade de ver, e em alguns casos rever, os filmes de Stanley Kubrick que são baseados em livros, o que acabou se transformando em um pequeno projeto meu de leitura: o Projeto Kubrick.

A balada do café triste e outras histórias – Carson McCullers

07_baladaA noveleta que dá título ao livro – de longe, a melhor história da coletânea, que inclui ainda mais seis contos –, relata a ciranda amorosa de três personagens numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos; conta como um amistoso café surgiu no lugar mais improvável: no armazém de Amélia Evans, uma mulher de modos grosseiros e masculinos, ensimesmada com uma vida voltada ao trabalho e sem nenhum interesse em fazer amigos.

O responsável pelo surgimento do estabelecimento na verdade é um estranho forasteiro que aparece de repente na residência de Amélia, um anão corcunda que diz ser seu primo, e que ganha seu coração, para surpresa de todos. Esse amor faz nascer o café, uma cozinha que servia de cômodo para a cidade inteira, aquecendo seus habitantes com uísque e boa companhia:

“Tomavam banho antes de ir para o estabelecimento da srta. Amélia, limpavam os sapatos e pareciam muito dignos quando entravam no café. E lá, por algumas horas, era possível esquecer esse profundo e amargo sentimento de não valer grande coisa no mundo.”

No entanto, em determinado momento, alguém do passado vai retornar para assombrar Amélia e é aí que assistiremos a uma possibilidade de que tudo desmorone.

A autora tem uma narrativa bem pausada, com frases curtas, o que faz o leitor prestar mais atenção aos detalhes descritos e que o obriga a ler mais devagar. McCullers também usa um recurso interessante de mudar a perspectiva em que se olha o ambiente, como se estivéssemos assistindo a um filme, em que o diretor nos conduz o olhar, muitas vezes através dos olhos de um personagem específico, em vez de uma visão geral da cena.

As qualidades da novela, no entanto, não podem ser atribuídas também aos contos que a seguem. São histórias fracas, um tanto despropositadas, algumas um pouco melhores, como “Uma árvore, uma rocha, uma nuvem”, mas no geral um desfile de promessas não-cumpridas, e nem chegam perto de realizar o que o tradutor Caio Fernando Abreu anuncia em sua nota. A tradução, aliás, me incomodou em alguns momentos, com a escolha de palavras que não soam naturais em português.

Ainda assim, A balada do café triste vale pelo livro todo e mesmo que as demais histórias não sejam boas, elas têm bons personagens, geralmente pessoas que lidam com grandes perdas. Foi o suficiente para querer ler algo mais da escritora, mas claro que não com a mesma empolgação sentida por Flannery O’Connor, sua conterrânea. Talvez Carson McCullers seja melhor em narrativas longas, e espero encarar um romance seu algum dia e me surpreender.

Projeto Para ler como um escritor #2 [Munro e Tolstaya]

No final do livro Para ler como um escritor, de Francine Prose, ela recomenda a leitura imediata de uma lista de livros – cerca de 120, basicamente os livros sobre os quais ela comenta ao longo dos capítulos. Dentre eles, já havia lido uns 15, e alguns – são poucos – ainda estou em dúvida se lerei. Uns porque acho que não vou gostar e outros porque quero lê-los em outro momento. De qualquer forma é um projeto longo, não tenho intenção de terminá-lo esse ano. Além disso, a edição brasileira traz também uma lista de livros nacionais que não me animei muito em seguir, mas devo encarar algumas sugestões.

Por ora, enquanto não leio uma obra completa da lista, vou comentar (com spoilers) mais dois contos contemplados por Francine Prose no capítulo “Palavras”.

05_dulse“Dulse” é um conto de Alice Munro que pode ser encontrado no livro Selected Stories* e narra um ou dois dias da vida de Lydia, na ocasião em que ela se hospeda em uma ilha na região de New Brunswick, no Canadá. Ao longo do conto vamos conhecendo mais sobre o personagem, mas de início entendemos que ela parece estar tentando fugir de sua realidade atual, conjecturando como seria morar naquele lugar distante e conseguir um trabalho e uma vida mais simples.

Através dela, pois a narrativa é em terceira pessoa mas se confunde com os pensamentos do personagem, conhecemos as pessoas que ela encontra na pousada e, como uma bala que ricocheteia, conhecemos Lydia, tanto pelo julgamento que faz dessas pessoas, como por suas lembranças que vão aparecendo aqui e ali. Ela está no lugar como observadora e nos apresenta Mr. Stanley, um senhor muito idoso que é obcecado por uma escritora que morou na ilha; o casal que dirige a pousada, que logo a desanimam em seus supostos planos de uma nova profissão; e o trio da equipe de telefonia: Lawrence, o chefe, Eugene, o mais jovem, e Vincent, o mais velho, que é viciado em dulse, uma alga vermelha, comum em regiões costeiras do hemisfério norte.

É uma história em que a ação é muito mais interna e por isso mesmo podemos contemplar bem o que o personagem sente. Lydia lamenta não possuir mais um homem em sua vida e se sente estranha perante as pessoas porque perdeu um status que aparentemente julga necessário para ser aceita ou bem vista. Logo no início ela já afirma que as pessoas não se interessam mais por ela e a culpa é provavelmente da sua nova condição. Ela é alguém vivendo a perda de alguém, o que sempre significa uma perda de si, uma busca para uma nova configuração.

Ao final, ela pensa que, assim como um doente desenganado, ela “vai indo”, meio lá e meio cá, e ao ver que Vincent deixa pra ela um pouco de dulse, o presente a conforta: ela está começando a se acostumar com seu sabor; ela está começando a se acostumar com as novas possibilidades de vida.

*Esse livro deverá ser lançado no Brasil pela Globo Livros ainda esse ano. O conto foi publicado originalmente em The Moons of Jupiter.

06_flameEm “Chama celeste”, de Tatiana Tolstaya, o personagem Korobeinikov sofre de um problema de úlcera e está se tratando em um sanatório no campo, próximo a Moscou. Lá ele faz amizade com uma família que mora perto e está sempre os visitando no final da tarde. Olga e seu marido sempre são muito carinhosos com ele e suas visitas trazem felicidade a todos, pois Korobeinikov é um agradável contador de histórias de mistérios e de alienígenas. Fossem elas verdadeiras ou não, não importava, essas histórias deixavam todos devidamente entretidos. No entanto, Dmitry, um novo freqüentador da casa, interessado em conquistar Olga, inventa uma mentira sobre Korobeinikov, o que suja sua imagem perante a família. A partir daí ele passa a ser tratado com uma mórbida frieza, mesmo quando descobrem que tudo não passava de uma “brincadeira”.

A narrativa é pontuada pelas belas descrições da natureza ao redor dos personagens, o clima de outono, as luzes e a escuridão determinadas pela vida no campo e, de início, como tudo isso emoldura a amizade entre todos. Korobeinikov faz parte do cotidiano da família de Olga e, ao ir embora na escuridão, com sua pequena lanterna, todas as noites, percebemos como é querido, ao afirmarem que ele segue seu caminho carregado por uma estrela. Korobeinikov, por sua vez, precisa muito dessas visitas à Olga e seu marido. A convivência com eles é o único remédio que o livra de suas dores, estas que aumentam quando a escuridão surge. O mal maior de Korobeinikov não é a úlcera, é a solidão.

Quando passa a ser tratado com indiferença, não compreende o que está acontecendo e busca mais e mais histórias em sua memória, com o intuito de agradar. Comenta então como um dia uma chama celeste caiu sobre a cidade de Petrozavodsk e Olga fica indignada, a ponto de pensar que a verdadeira chama celeste é a que caiu sobre ele, isto é, a doença que o corrói, um castigo por ter sido injusto com Dmitry. Mas mesmo depois que Dmitry se desmente, não há mais espaço para o pobre Korobeinikov. Sua presença lembra a Olga o quanto ela foi injusta e seu ódio só cresce. Ao deixar a casa de Olga pela última vez, ela deseja com todas as forças que ele morra, e Korobeinikov caminha na escuridão até ser consumido por sua chama celeste, concluindo a afirmação que já havia sido anunciada no primeiro parágrafo do conto, a de que as pessoas geralmente morrem por doenças muito diferentes daquelas que os médicos lhes atribuem.

Pelo jogo entre verdade e mentira, pelas belas imagens descritas e pela humanidade – para o bem e para o mal – dos personagens, fiquei bastante interessada em conhecer melhor a literatura de Tatiana Tolstaya. Infelizmente o livro do qual este conto faz parte, Sleepwalker in a fog, não foi lançado no Brasil, mas devo ler no lugar dele o No Degrau de Ouro, e só então partir para outras obras, esperando que sejam tão boas quanto este maravilhoso conto promete.

Travessuras da menina má – Mario Vargas Llosa

04_meninaJá reparei que tenho fácil afeição por personagens que são mais observadores que atuantes, desses que narram mais a vida dos amigos que a sua própria, geralmente porque esta não é lá muito interessante. Ricardo Somocurcio é desses personagens que têm muito a contar sobre a vida das pessoas que o rodeiam: apesar de Travessuras da menina má ser um livro que conta a sua própria história de amor com uma complicada mulher, são seus queridos coadjuvantes que roubam a cena, sendo os meus preferidos os Gravoski e Juan Barreto. Não à toa os títulos dos capítulos se referem a essas pessoas que passam por sua vida e que não só estão relacionadas a sua amada, como também geralmente têm um significado especial por si mesmas.

Ricardo muitas vezes se julga um fantasma. Seu único sonho é poder morar em Paris e para isso inicia uma carreira de tradutor e intérprete, profissão que o deixa num constante estado intermediário. Também sofre o mal de quem mora muito tempo longe de sua terra natal. Não se considera mais peruano, mas também tampouco é francês – mais uma vez em estado intermediário, fantasma que se esvaece diante da vida. Vive em função da Menina Má, de encontrá-la, de conquistá-la, de amá-la mas nem por isso deixa de ser um personagem que conquista o leitor logo de início, talvez por ser alguém cuja amizade qualquer um gostaria de ter.

O que mais me agradou no livro foi a maneira de Llosa narrar, especialmente no início dos capítulos, em que ele nos deixa ansiosos por novidades, pois começa sempre com um momento mais à frente, falando de novos personagens como se já os conhecêssemos, deixando que o leitor vá descobrindo somente depois a próxima fase de sua história com a Menina Má. Esse recurso funciona até o capítulo final, mas infelizmente o personagem deste momento não é tão bem desenvolvido como os anteriores, ou talvez não seja tão envolvente, o fato é que, ao contrário dos outros, este não acrescenta muito à história e não tem relação com a Menina Má. Além disso, observando de uma maneira fria, pode parecer que o romance tem mais coincidências do que seria suportável no que diz respeito a verossimilhança, mas Llosa faz isso de uma forma que não compromete a história, pelo contrário, as coincidências são profundamente necessárias para que tudo fique mais interessante.

Ler o Travessuras da menina má é como fazer uma deliciosa viagem junto com Ricardito por Londres, Tóquio, Madri e Paris e  é como crescer junto com ele dos anos 50 aos anos 80, comprovando que a história, a política e os homens não necessariamente vão melhorando ao longo do tempo e nem porque estamos ficando mais velhos estamos ficando mais sábios.

Projeto Para ler como um escritor #1 e Romances Setecentistas

63_crusoeProjeto Romances Ingleses Setecentistas
Sempre que leio um livro que se refere a outros livros fico curiosa para conhecê-los e isso acontece muito com livros de teoria ou análise literária. Há alguns meses tenho lido A Ascensão do Romance, de Ian Watt, e me propus a ler os 5 romances de que o autor trata: Robinson Crusoé e Moll Flanders, de Daniel Defoe; Pamela e Clarissa, de Samuel Richardson e Tom Jones, de Henry Fielding. Assim eu poderia conhecer aqueles que são considerados por muitos os primeiros representantes do gênero romance. Com Daniel Defoe foi tranqüilo: apesar de Moll Flanders ter uma história episódica demais, consegui ler sem maiores problemas. Robinson Crusoé foi uma surpresa, o autor consegue prender o leitor para o cotidiano do personagem, mesmo que haja pouca ação. É um livro mais de reflexão sobre a vida, solidão e ambição do que de aventuras, como eu julgava que fosse.

Pamela, de Richardson, foi um exercício de paciência. É um romance epistolar sobre uma garota que tenta fugir das investidas do patrão e desabafa através de cartas para seus pais. Como eu comentei no Goodreads, é uma espécie de A Bela e a Fera do século XVIII e acabei desistindo da leitura, coisa que detesto fazer. Por conta disso, não devo ler Clarissa também, pois apesar de ser considerado bem melhor que Pamela, não estou querendo encarar suas centenas de páginas em inglês (acredito que não há edição brasileira), ainda mais sabendo que a história é semelhante à de Pamela. Agora só falta Tom Jones, do Fielding, que irei ler assim que conseguir uma cópia.

01_escritorProjeto Para ler como um escritor
Outro livro que está me servindo de guia de leitura é o Para ler como um escritor, de Francine Prose. Estou pegando carona num projeto pessoal da Juliana Brina e aos poucos vou comentando por aqui o que eu for conseguindo ler de suas indicações. Serão comentários breves e não irei falar sobre o livro em si porque a Juliana já está fazendo ótimos vídeos sobre o livro e as obras contempladas nele. Basta dizer que é um livro sobre leitura atenta, uma guia para leitores e aspirantes a escritores prestarem atenção em detalhes dos textos literários. Para minha grande surpresa, o livro já me jogou para uma direção bem bacana, que é a leitura de contos, gênero que tendo a torcer o nariz. Comentarei em seguida alguns dos que já li, avisando de antemão que haverá spoilers.

03_flannPara começar, um dos que mais me deixou encantada: “Um homem bom é difícil de encontrar”, de Flannery O’Connor. É a história de uma família que sai de férias em direção à Flórida e no meio do caminho, por uma intervenção equivocada da avó da família, acabam sofrendo um acidente que os levam a uma tragédia ainda maior: o encontro com um psicopata que está a solta. Você percebe, ao ler o conto, que a autora pensa em cada detalhe, como ela é cuidadosa e consciente do que está fazendo e como são bonitas as antecipações que ela dá ao leitor do que vai acontecer. É interessante perceber como a personagem da avó prepara toda a situação, como se ela fosse realmente a fonte de toda a desgraça que vai cair sobre aquela família: ela evoca a existência do psicopata mostrando a notícia sobre ele no jornal; ela concorda em fazer a viagem, mesmo sendo contra; ela coloca violetas no peito para o caso de acidente pensarem que ela é distinta; ela leva o gato escondido; ela leva a família a um lugar inexistente e não tem coragem de dizer que estava enganada…

A impressão que tive, logo quando a família pega a estrada errada, foi a de que é como se estivéssemos dentro de uma fantasia da avó, uma fantasia daquelas que as pessoas têm de que aconteça uma desgraça só para que elas provem que estavam certas. É emblemático ela ser a última personagem a morrer, ou mesmo a visão do carro preto do assassino chegando ao longe, com a aparência de um carro fúnebre, como se a própria morte chegasse para levá-los. Pode-se pensar também em destino, um destino implacável, um castigo que mostra que “ser bom” não é algo tão simples ou superficial como pensa a avó, não é apenas rezar e parecer uma senhora distinta. Mais simbólico ainda é ela ser julgada pelo Desajustado no final, que comenta que ela seria realmente uma pessoa muito boa se estivesse o tempo todo sob a mira de uma arma. E essa dicotomia do ser humano, ser bom ou ser mau, bem como o que é justo ou injusto, é resumida numa fala dele e lhe serve de justificativa para as coisas que ele faz: “não consigo encaixar as coisas para que tudo que eu fiz de errado corresponda a tudo que sofri de castigo”. A avó e a família também não, por mais que fossem pessoas egoístas e hipócritas, talvez não merecessem o que lhes acontece, mas é justamente essa a ironia do Desajustado e essa é a genialidade da O’Connor, que eu espero encontrar em seus outros contos.

02_mansfOutro conto indicado pela Prose é o “As filhas do falecido coronel”, da Katherine Mansfield, que conta a dificuldade de duas irmãs ao se depararem com a morte do pai, já que elas não sabem o que fazer com a liberdade conquistada. As personagens são duas solteironas que vivem como se fossem duas crianças. Em sua maneira de falar e em cada atitude cotidiana elas demonstram o medo que sentem do pai – mesmo depois que ele morre –, o medo da empregada, o medo da vida. Muito sutilmente a autora nos revela o quanto esse pai era tirano e o quanto as irmãs estão perdidas, como o tempo passou e o que restou para elas é pouco. Senti uma leve semelhança com os contos da Lygia Fagundes Telles, talvez pelo clima que ela constrói, por essas sutilezas que vão demonstrando as características dos personagens mais pelo que escondem do que pelo que mostram.

Na próxima devo comentar sobre “Dulse”, de Alice Munro, “Os mortos”, de James Joyce e “Chama celeste”, de Tatyana Tolstaya.