Laranja Mecânica – Anthony Burgess [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Fev/2013]

09_laranja01Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

Todos nós somos seres orgânicos que agem através de escolhas morais, mas nos tornamos máquinas quando somos condicionados, nos tornamos algo como uma laranja mecânica. Essa é a grande proposição do livro de Burgess, que defende o livre-arbítrio como uma condição essencial do ser humano.

E ele faz isso nos contando a história de Alex, um adolescente viciado em violência e música clássica, odioso e carismático ao mesmo tempo, que com sua gangue de druguis sai à noite para praticar todos os tipos de violência extrema, mas não sem antes tomar seu leite batizado com drogas. O grupo tem uma linguagem própria, o nadsat, e durante a leitura vamos nos familiarizando com esse vocabulário – muito embora às vezes o glossário no final do livro ajude em alguns termos.

Na primeira parte da obra somos testemunhas de alguns terríveis atos do grupo, até o ponto em que Alex é preso por assassinar uma senhora. É só então na segunda parte que começa a primeira fase de punição: sua vida na prisão. Sua amizade com o capelão do local traz valiosas discussões sobre o livre-arbítrio ao conversarem sobre a possibilidade de Alex ser usado numa técnica de reabilitação, a técnica Ludovico, que o impediria de praticar o mal novamente e garantiria sua liberdade. O capelão argumenta que o processo o impediria de tomar decisões morais e que, portanto o deixaria sem alma:

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Segundo ele, e é essa a defesa do autor, o mal existe em todos nós. O que nos define como uma pessoa boa ou má é a escolha ética que fazemos: escolhemos não praticar o mal, mas isso não quer dizer que somos bons. Ser impedido de fazer o mal também impede Alex de fazer o bem, pois anula o livre-arbítrio. O bem tem que ser uma escolha, e não um condicionamento que deixa o indivíduo programado para não cometer crimes:

“Ele será seu verdadeiro cristão – krikava o Dr. Brodsky –, pronto para dar a outra face, pronto para ser crucificado ao invés de crucificar, doente até a alma só de pensar em sequer matar uma mosca.”

A técnica usada em Alex, portanto, não teria a intenção primeira de torná-lo um sujeito bom, mas tão somente um sujeito controlado. Seria apenas uma manobra política, uma punição mais barata e eficiente que sustentá-lo na prisão, garantindo segurança à sociedade. Alex aceita participar da experiência porque no fundo ele não acredita que vai deixar de ser quem é e também porque está mais interessado em sua liberdade, mas no momento em que percebe que todas as coisas que lhe davam prazer não podem mais se realizar, descobre que se tornou um mecanismo, que perdeu sua humanidade:

“Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

A última parte do livro tem quase um tom de fábula porque Alex se reencontra com todo o seu passado e sofre sua segunda fase de punição, vinda de várias pessoas a quem fez mal, sem poder se defender. Nesse ponto fica claro que o autor defende que nenhuma maldade que Alex tenha feito pode ser pior do que a que ele sofre, já que ele teria sido castrado naquilo que o faz humano, que é a sua escolha, seu livre-arbítrio.

No final, também por motivos políticos, Alex volta a ser o que era e é claro que volta a praticar crimes, mas em determinado momento se vê cansado da vida que leva e passa a desejar uma vida mais adulta. Nesse ponto percebemos que Burgess acredita que a falta de maturidade de Alex (ou dos jovens, em geral) é que o levaria a cometer todos aqueles atos violentos e que chegando a determinado ponto de sua vida, esses atos passariam a não fazer mais sentido.

A única coisa que me incomodou nesse final foi que em nenhum momento anterior na história do personagem ele faz qualquer reflexão que ponha em questão seus atos: para ele a violência dá prazer e ele a pratica porque deseja. Talvez por isso o último capítulo tenha um tom muito diferente do resto do livro: a redenção de Alex através da música seria, apesar de mais óbvia, mais convincente para mim, afinal não são apenas adolescentes que praticam crimes. No entanto, comparando com a versão americana do livro e com o filme de Kubrick, que ignoram o último capítulo, é melhor que haja algum tipo de redenção que nenhuma, do contrário a proposta do autor de demonstrar que não somos bons nem maus, que nossas escolhas flutuam, não se aplicaria a Alex, e ele se tornaria a própria encarnação da maldade.

Isso não tira o mérito da adaptação cinematográfica que, com exceção do final, foi extremamente fiel ao livro e encontrou soluções geniais para deixar a história ainda mais simbólica e angustiante. Apesar de ter vida própria enquanto filme, não deveria dispensar este incrível livro em que foi baseado.
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Serena – Ian McEwan

08_serenaConfesso que uma das coisas que me levaram a querer ler Serena foi ter ouvido falar que o final do romance era muito surpreendente, e o fato de se passar na década de 70 também me atraiu. O que me fez gostar da leitura, no entanto, não foi uma coisa nem outra, mas tão somente as questões sobre livros e literatura que atravessam o texto, que para mim foram colocadas de uma maneira interessante e simples, ao contrário do que fazem alguns autores contemporâneos, que carregam no eruditismo e deixam o leitor no escuro*.

A personagem Serena também me envolveu nas poucas coisas que eu senti ter em comum com ela, embora às vezes ela dê a impressão de não ter caldo suficiente para a sopa: os outros personagens parecem sempre ter mais substância que ela. Talvez o mais curioso de sua personalidade seja a característica contraditória de querer satisfazer seus mentores/amantes – dando a entender que entende mais das coisas do que realmente entende – e ao mesmo tempo não se envergonhar do prazer de suas leituras rasas:

“Eu era a mais simples das leitoras. Só queria o meu mundo, comigo dentro, devolvido para mim de maneiras artísticas e de uma maneira acessível.”

O problema do livro para mim foi o próprio enredo, que alimentou expectativas que não foram concretizadas. A leitura é prazerosa tanto pela escrita do McEwan quanto pela curiosidade em desvendar o que pode haver por trás de tudo (afinal é uma história que envolve espionagem!), mas o que surge no final, embora possa ser algo inesperado, é quase um não-final, e mesmo fazendo sentido e tornando o livro original, não me satisfez como leitora, pois desmorona todo o castelo de cartas construído. É claro que isso é apenas uma experiência pessoal baseada no que eu esperava do livro, pois muita gente leu e achou o final genial e eu mesma acho que é um livro recomendável, mas ficou o sentimento de leve decepção, pois assim como Serena, pelo menos nesse caso, eu esperava mesmo era uma boa reviravolta no enredo que atendesse a meus anseios superficiais.

*A Luara comentou melhor sobre essa questão, apesar dela ter achado que o autor não fez o bastante.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

06_avalon_allO que será que há nas lendas medievais que atraem tanto as pessoas, especialmente os mais jovens? Será porque passam a idéia de uma vida aparentemente mais simples, em que havia um contato mais direto com a natureza, ou porque revelariam uma fantasia do homem forte e destemido que deve enfrentar suas batalhas e a donzela frágil que espera ser salva apenas por sua beleza e bondade – o que faz até hoje meninas se vestirem de princesa e meninos brincarem com espadas? Talvez seja porque essas histórias permitem um enorme espaço para o desconhecido, seja através da magia ou da religião, oferecendo a possibilidade de soluções rápidas para os problemas ou porque valores como honra e compromisso são levados a sério, oferecendo uma certa segurança ou conforto.

Não sei o que seria, mas na adolescência as histórias medievais me chamavam muito a atenção e mesmo assim eu nunca havia lido As Brumas de Avalon, livro devorado por muitos amigos meus na época. Até cheguei a assistir ao filme televisivo de 2001, mas somente ano passado adquiri os livros da saga e reacendi a curiosidade com essa lenda arturiana recontada sob o olhar de seus personagens femininos.

Principalmente a partir do segundo livro percebe-se que o romance se trata basicamente de um embate entre paganismo e cristianismo, força feminina e força masculina, natureza e espírito, terra e céu: elementos representados respectivamente por Morgana e Gwenhwyfar (também conhecida por Guinevere). Os personagens em geral são bem humanos, nem bons nem maus, e a maior parte deles muito cativantes e bem construídos, especialmente Morgana – o leitor torce por ela até quando está errada. Acredito que a única personagem insuportável do livro seja Gwenhwyfar, não necessariamente pelo seu fanatismo religioso e superficialidade, mas pela sua pouca capacidade de evolução, tornando-a muito repetitiva na história, um verdadeiro disco arranhado.

O primeiro e terceiro livros foram os melhores, na minha opinião, e apesar de ter sentido uma queda na qualidade da narrativa lendo o último livro, no geral a leitura foi o que eu esperava: envolvente e leve, até mesmo quando traz breves discussões teológicas, e com o ótimo mérito de dar voz e poder às mulheres diante de uma lenda tão masculina.

Sobre a adaptação (com spoilers)
07_avalonJá havia assistido a esse filme (ou mini-série) em 2001, mas não lembrava de absolutamente nada. Como costumo dizer, não procuro fidelidade de enredo em adaptações, mas espero que elas sejam fiéis ao espírito do livro e esta está bem longe disso. Mesmo não entendendo muito de Paganismo, dá pra perceber que aqui ele é retratado como mera bruxaria e o seu embate com o Cristianismo foi praticamente sufocado, ou distorcido. Além disso, no livro todos os personagens são ambíguos, moralmente falando, e aqui eles ou são bonzinhos ou são malvados, criando um maniqueísmo que destrói completamente a força dos personagens criados pela autora. E como se não bastasse, até espada colocam na mão de Morgana, enquanto a idéia de poder da mulher proposta por Bradley não era a de se apropriar do mundo masculino, mas tão somente utilizar seus próprios recursos femininos.

Fórum Literário e o mês de Janeiro

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O Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas é uma espécie de clube de leitura criado pela querida Denise Mercedes, em que a cada mês um livro é escolhido para ser lido e discutido por qualquer pessoa que tiver interesse em participar, inicialmente através de vídeos, posts ou comentários.
A Denise me convidou para ajudá-la na construção e administração do blog e agora todas as contribuições estão organizadas por lá, com o adicional de um fórum para que todos possam participar com suas impressões de leitura e promover quaisquer outras discussões sobre livros.
O livro de fevereiro já foi escolhido, mas a votação para o livro de março está aberta até o dia 15 de fevereiro.
separadorEste mês assisti a muitos vídeos legais no you tube, como sempre. Além dos vídeos sobre leituras e compras que sempre adoro ver dos meus canais preferidos, lembro de ter achado alguns bem interessantes:

Kindle x Kobo: qual escolher?, do canal A Capitu já leu.
Descobri esse delicioso canal recentemente e o primeiro vídeo deles é bem útil para quem está considerando comprar um e-reader nas lojas brasileiras. Para completar tem outro ensinando a fazer um case engana-ladrão com livros velhos para guardar seu e-reader.

Esse romance é bom?, de Claire Scorzi.
Adoro os vídeos da Claire e nesse ela questiona rapidamente o que faz a gente gostar ou não de um livro.

9 dicas para ler poesia, da Juliana Gervason.
Gosto muito de poesia, mas não tenho lido muito ultimamente. Então, além de ser um vídeo com sugestões para quem ainda não tem o hábito de ler o gênero, serviu para que eu lembrasse que ando deixando os versos de lado.

Para ler quadrinhos… #1: Craig Thompson, do canal Espanadores.
Ando com muita vontade de ler Craig Thompson e esse ótimo vídeo já passa de um convite, é quase uma intimação!

Pergunte-me sobre 2012, no canal da Juliana Gervason.
As três fofas Denise, Luara e Juliana respondem a um questionário sobre suas leituras de 2012.
separadorE nos blogs também li várias resenhas e textos bacanas, entre eles, estes aqui:

Do blog Universo Fantástico: Por que, afinal, a Literatura Brasileira não vende? E por que venderia?

Do blog Ebook BR: O e-reader é efêmero, o livro é imortal.

Do blog da Companhia: Me joga na parede e me chama de literatura.

Do blog No país das entrelinhas: Livros reconfortantes.

Do blog 365 escritores: A Bula de Benedetti, Robert Crumb: o gênio dos quadrinhos underground e Pegando carona com Jack Kerouac.

separadorPor fim, minhas aquisições do mês:
07_compras01Como comprei muita coisa no ano passado, não tinha intenção de adquirir novos livros tão cedo, mas além de alguns livros de uma entrega atrasada chegarem, uma livraria na cidade estava fechando as portas e vendendo tudo pela metade do preço (ótima dica da Lulu) e acabei trazendo alguma coisa pra casa. Alguns não eram prioridade, mas não deu pra resistir ao preço.