Solanin – Inio Asano

interlunio57-solaninMeiko e Taneda são um jovem casal de namorados vivendo juntos na cidade de Tóquio. Eles terminaram a faculdade e trabalham, mas não estão satisfeitos com o rumo que suas vidas tomaram. Meiko decide pedir demissão e como ela praticamente sustenta a casa, Taneda fica um pouco desesperado. É que ela acha que a vida pode ser mais do que assumir o chamado cotidiano de pessoas adultas. “Será que eu não deveria estar fazendo outra coisa?” Eis a pergunta tão comum às pessoas de 20 e poucos anos.

A decisão de Meiko vai transformar mais a vida das pessoas que a rodeiam que a dela mesma, pelo menos em um primeiro momento. Seus amigos também vão se questionar e Taneda é o mais atingido. Agora ele pensa que deve levar a sua banda de rock de final de semana mais a sério. E então tudo começa, dá-se a largada pela busca dos sonhos. O problema é que após alguns dias a realidade cai na cabeça de todos e Meiko percebe que não vai poder viver a vida inteira com o que ela tem na poupança. E quando parece que tudo vai ficar bem, que a solução vai aparecer de alguma forma, uma tragédia acontece e todos na turma ficam sem chão.

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Solanin é o nome de uma canção escrita por Taneda e é a partir dessa música que Meiko vai tentar encontrar seu caminho para uma nova vida, uma vida com a tão esperada liberdade. É um mangá com uma bela história, especialmente para aqueles que não encontraram seu talento no mundo. Solanin é para aqueles que valorizam a amizade, a lealdade, e para aqueles que sabem que estar perdido no mundo é menos duro quando há companhia.

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Peanuts Completo: 1950-1952 – Charles M. Schulz

interlunio40-peanuts01Conhecendo a turma de Peanuts através das animações e das tirinhas mais clássicas, eu não imaginava que nos primeiros anos da obra os personagens e algumas situações eram um tanto diferentes. As tirinhas dos anos de 1950 a 1952 mostram momentos da turma do Charlie Brown mais voltados para a infância propriamente dita e o seu caráter universal ainda não estava completamente delineado. Alguns personagens ainda estão por desenvolver-se e outros vão ser descartados mais tarde.

A primeira tirinha
A primeira tirinha

É o caso de Shermy e sua namoradinha Patty Kieffer. Eles estão na primeira tirinha de Peanuts e tinham uma importância de protagonistas, junto com Charlie Brown, Snoopy e Violet, formando assim a primeira turminha.

Patty ou Lucy?
Patty, ou a primeira Lucy.
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Violet foi a primeira a segurar a bola

Aos poucos Shermy vai perdendo espaço e, como qualquer fã da série sabe, ele será eliminado das tirinhas no futuro, fazendo apenas um ou outra aparição. Por outro lado, três personagens importantes surgem como bebês. Primeiro é Schroeder e, logo em seguida, Lucy.

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Schroeder e seu piano
Lucy ainda pequenina
Lucy ainda pequenina

Os dois muito rapidamente ficam grandes o bastante para brincar com os outros mas ainda são crianças menores. Bem depois aparece o Linus, irmão da Lucy, e aqui ele ainda não fala, mal consegue ficar sentado.

Linus bebezinho
Linus bebezinho

Engraçado acompanhar o desenvolvimento da personalidade de cada um. Percebe-se que a Lucy irá se tornar um misto de Patty, que é um tanto violenta com os meninos, e Violet, criativa e vaidosa. Charlie Brown já possui todas suas características mas aqui ele também tem seus momentos de brincadeirinhas ofensivas com outras crianças. Shroeder já nasce fã de Beethoven e Snoopy já é completamente humanizado mas não parece necessariamente ter dono ainda.

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Apesar de Schulz retratar a década de 50 e seus valores, bem como os costumes americanos – esportes, datas comemorativas, brincadeiras – Peanuts é uma obra que já nasce acessível a todos, com seus cenários enxutos e diálogos inteligentes. Agora é continuar a leitura dos próximos anos e ir descobrindo como Charlie Brown e sua turma se tornaram o fenômeno que são.

Os melhores de 2012

Ultimamente não tenho conseguido atualizar o blog, mesmo porque minhas leituras estão um tanto suspensas. Nos últimos meses li apenas 2 livros: 20 Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne e A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells. Os dois livros coincidentemente têm em comum o fato de seus narradores serem náufragos que acabam prisioneiros de um cientista lunático. Ótimas leituras para quem gosta de ficção científica do século XIX.

Como já imagino que lerei muito pouco até o final do mês, comecei a pensar quais seriam os livros que mais me marcaram este ano, sem contar releituras, é claro. São aqueles que por um motivo ou outro falaram comigo mais pessoalmente.

Livro – José Luís Peixoto

Livro foi uma surpresa porque eu não esperava muito da leitura. E apesar da segunda parte do livro fazer parte daquela tendência contemporânea de “escritores que escrevem para escritores”, que eu geralmente acho cansativa, algumas questões bateram tanto com minhas próprias questões pessoais na época em que li, que foi inevitável colocá-lo como um favorito do ano. Comentário sobre este livro aqui.

Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez

Este não é apenas um dos melhores do ano, mas um dos melhores de todos os tempos. Se existe algo como leituras obrigatórias, definitivamente esta obra deve estar na lista. Aqueles que já tenham morado numa cidade pequena ou que tenha tido uma infância cercada de lugares misteriosos devem apreciar ainda mais a casa dos Buendía. Comentário sobre este livro aqui.

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Alta Fidelidade – Nick Hornby

Apesar de já conhecer a história do livro por ter visto o filme, a leitura de Alta Fidelidade foi deliciosa e além de me transportar diretamente para os anos 90 também me trouxe identificação pessoal nas questões sobre maturidade. Comentário sobre este livro aqui.

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Contos de Lugares Distantes – Shaun Tan

Este é o tipo de livro a que você retorna várias vezes, de tão lindo que é, imagens e textos. Daqueles que você não sabe se foi feito realmente para o público juvenil, já que hoje em dia os adultos não escondem mais seu lado criança. Comentário sobre este livro aqui.

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Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Sem dúvida o quadrinho do ano para mim. Foi uma leitura tão tocante que eu tive que parar pela metade para continuar depois. Talvez em outro momento não tivesse sido tão pungente, mas parece que certas obras chegam até nós na hora certa para nos emocionar. Comentário sobre este quadrinho aqui.

Três Sombras – Cyril Pedrosa

Embora a gente não pense o tempo todo sobre isso, lutamos pela vida a cada instante e todos os nossos momentos são feitos para escapar da morte, seja nos alimentando, seja lendo um livro, seja abraçando quem amamos. E não lutamos apenas pela nossa vida, mas também por quem faz parte dela. Três Sombras é sobre essa dolorosa briga contra aquilo que mais julgamos injusto: a morte de um ente querido.

Morando no campo, distante de todos os perigos, Louis e Lise são um casal que vive, com seu filho Joachim, a alegria de um cotidiano simples e amoroso. Isolados em seu mundo de felicidade bucólica, com abundância de harmonia familiar e natureza, não imaginavam que um dia as coisas não seriam mais como antes.

Certo dia, ao longe, nas colinas, surgem três sombras misteriosas que passam a rondar a casa da família – e quem conhece mitologia grega já imagina quem sejam. Ao que parece, elas querem levar Joachim, e a família passa então a ficar tomada pelo medo. A mãe aceita o destino do filho, mas Louis decide partir com ele para o mais longe que puder, a fim de escapar do que ele não pode suportar. Eles passarão por algumas aventuras com as sombras em seu encalço, até que o pai tenha que fazer uma escolha que poderá ajudar a salvar o filho.

O desenho do francês (de origem portuguesa) Cyril Pedrosa é de uma sensibilidade tocante, muito expressivo e bonito, variando um pouco o estilo conforme a carga das emoções dos personagens. Cada detalhe da história é cheio de simbolismo para quem estiver atento à leitura. É uma linda alegoria sobre família, perdas, excesso de proteção e sobre a importância de aproveitar cada momento da vida porque “o verão nunca dura tempo suficiente”.

The Maxx – Sam Kieth

Talvez poucas pessoas lembrem, mas em meados dos anos 90 a MTV brasileira colocou no ar uma série de animação baseada nos quadrinhos The Maxx, de Sam Kieth. O vídeo chegou a ser lançado em fita VHS aqui no Brasil e tenho a minha guardada até hoje como lembrança, assim como uma action figure do Maxx pela qual tenho o maior carinho. A série contava a história de Julie Winters, uma assistente social envolvida em um relacionamento complicado com o vagabundo Maxx.

Devido a um acontecimento trágico por que passou, Julie construiu inconscien-temente um mundo paralelo, baseado em suas memórias suprimidas de infância, formado por uma savana australiana com criaturas inusitadas, em que ela seria a Rainha Leopardo, senhora da selva. Maxx em ambos os mundos é seu protetor e animal-espírito, ainda que ele não controle onde estará a cada instante: num momento ele pode estar lutando na cidade para defendê-la, em outro repentinamente adentrar na savana, tendo que lidar com outros perigos.
Na cidade, Maxx enfrenta Mr. Gone, um vilão que ataca mulheres e comanda os Iszes, seres que tomam a forma humana para cometer crimes. Somente Gone sabe o significado dos dois mundos, o que há por trás da máscara de Maxx e o que aconteceu com Julie no passado. Cobrindo 11 números dos quadrinhos – lançados pela Image Comics e posteriormente pela DC Comics –, a série constitui um primeiro arco de histórias, focado em Julie. Mesmo com um final diferente, a animação é bem fiel, praticamente uma filmagem dos quadros de Sam Kieth.

Já o segundo arco (que fecha a história na edição #35) apresenta o mundo paralelo de Sarah, a típica adolescente rejeitada e rebelde, e vai trazendo histórias cada vez mais pesadas, especialmente quando Kieth passa a escrever sozinho. Ele mergulha fundo em algumas situações até incômodas de ler, afinal seus personagens são sempre pessoas que foram de alguma forma abandonadas ou abusadas. Se a história de Gone, por exemplo, não for algo perturbador, não imagino o que pode ser. Por conta disso, prefiro os números em que Kieth faz parceria com Bill Messner-Loebs, pois este parece ter sido responsável por amenizar um pouco o drama, com seus diálogos sempre muito espirituosos e até engraçados.

Apesar de Maxx ter uma atitude e aparência de super-herói, o personagem funciona também como ironia ao universo de músculos e super poderes das histórias em quadrinhos tradicionais. Kieth chega a parodiar certos clichês usados nas histórias de super-heróis, o que acaba funcionando como uma crítica à romantização da violência e da morte, mas ao mesmo tempo sem abdicar desses elementos, talvez com a intenção de trazer consciência para eles. Através de categorias da psicanálise, num universo de mitologia primitiva, The Maxx trata de assuntos sérios como o feminismo e a violência contra a mulher de uma maneira bem particular, quase absurda e ao mesmo tempo divertida. Tudo sob a visão de personagens desajustados e marginais, que estão buscando algum tipo de fuga da realidade, afinal quando o mundo lá fora se torna muito perigoso, tudo que lhes resta é o mundo interior.


*É possível encontrar as edições encadernadas em sites como Amazon e Book Depository. A série foi lançada em dvd em 2009 e é bem fácil de achar. Há um tempo fiz legendas para os arquivos de vídeo, caso alguém se interesse, eu posso enviá-las por e-mail.

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Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá


Às vezes uma leitura pode ser muito pesada ou muito leve, depende muito de como você está se sentindo no momento ou do que seu inconsciente pode estar guardando. A leitura de Daytripper me deixou emocionada como há muito tempo eu não me sentia lendo uma obra. Tanto que na metade tive que parar e só continuar no dia seguinte. Outra pessoa pode ler tranquilamente de uma tacada só, mas a menos que você seja uma pedra, este é um daqueles textos com tantas camadas que vai acabar te atingindo de um jeito ou de outro.

Não há muito como falar de Brás porque a história dele é a história de todo mundo, com todas as possibilidades de vida e de morte, de escolhas, de amores, família e amigos. Com o apelido de Milagrinho ele representa qualquer um de nós, milagres ambulantes numa estrada que guarda surpresas a cada momento. E como essas surpresas podem ser irônicas!

Todo dia pessoas morrem, mas a vida continua em outras pessoas, a vida não tem fim. Cada capítulo de nossa história pode ser o último, mas é o preço que pagamos pela beleza e intensidade da vida. Daytripper constrói um lindo mosaico em que tudo o que vivemos, as pessoas que nos cercam, os lugares para onde vamos, são todos pedrinhas coloridas formando nosso desenho incerto.

Escolhi este livro por acaso na seção de quadrinhos da livraria, talvez pela sua capa branca se destacar das outras ou pela pergunta estampada na capa: “Quais são os dias mais importantes da sua vida?”. Foi intuitivo, mas depois que li lembrei que já havia visto uma resenha da Luara sobre ele. Li a edição brasileira (é estranho ler a tradução de um livro feito por dois brasileiros), e achei nossa versão mais bem cuidada, com papel melhor e capa dura (comparando com a versão americana que tinha disponível na livraria quando comprei). Até agora, sem dúvida, a minha leitura do ano.

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