Joe Speedboat – Tommy Wieringa

interlunio60-speedboatNa pequena Lomark, uma cidade fictícia na Holanda, vive Fransje Herman, um garoto de 15 anos que, depois de um acidente que o deixou em coma por quase um ano, perde a fala e a maior parte dos movimentos. Em sua cadeira de rodas, Fransje leva tudo com um ótimo humor irônico, sem lugar para muita auto-piedade. Sua vida é cercada por máquinas: a família trabalha com desmanche de sucata e seu grande amigo é Joe Speedboat, um garoto genial que é fascinado em mexer em carros e construir bombas.

Juntamente com os amigos de escola Christof e Engel, Joe forma um grupo para construir um avião e aos poucos Fransje consegue fazer parte do projeto, ainda que como observador. Ele se aproveita de sua condição passiva para ser o cronista da vida não só desses meninos, mas da cidade inteira, e sobretudo de Joe. Ele quer deixar registrado tudo que vivencia em Lomark e preenche inúmeros cadernos com sua observações.

“Não participo de nada. Impossível. O que procuro fazer é me movimentar o tempo todo, uma hora estou aqui e outra acolá: o bandido de um só braço com olhos biônicos. Nada lhe escapa; seus olhos tudo veem. Engole o mundo como uma anaconda devora um porquinho. If you can’t join them, eat them, o que você acha? Sobe morro, desce morro, contra vento e contra chuva, espuma saindo da boca. De guarda no seu carro de guerra, um poncho para se proteger da chuva em dias de tempestade, um gorro na cabeça quando a tormenta investe contra as persianas ou uma camiseta do Havaí no sol quente. Não precisa ter medo. Os Olhos tudo veem.”

Com o tempo, o humor de Fransje vai se tornando um pouco mais melancólico, pois percebe que suas limitações afetarão sua relação com as mulheres, especialmente com PJ, a linda garota por quem é apaixonado. Afetarão também sua vida profissional, pois entende que, ao terminar o colégio, não vai poder ir muito longe na vida. Para que ele possa ter uma renda, seus pais instalam no quintal de casa uma pequena fábrica de briquetes de papel e Fransje então aceita que isso provavelmente será seu trabalho pelo resto da vida.

É aí que entra Joe, sempre chacoalhando a monotonia de Fransje. Quando percebe que seu braço direito, a única parte de Fransje que se movimenta, torna-se cada vez mais forte com a atividade de prensar os briquetes, sugere que eles façam uma sociedade em campeonatos de queda de braço. O livro se divide assim entre esses dois momentos, Pluma e Espada, o cronista e o lutador, em uma referência ao caminho do samurai, descrito por Miyamoto Musashi. Joe Speedboat é portanto, a via de escape para um mundo longe de Lomark, não só no sentido físico, mas também no sentido espiritual: não é à toa que o avião acabe virando uma simbologia do caráter de Joe. Fransje o vê não apenas como um amigo, mas como um verdadeiro ídolo, pois ele sempre comemora as vitórias de Joe como um golpe contra a própria cidade e a mediocridade.

“Mais que um cara excepcional, ele era uma força libertadora. Estar perto dele dava comichões – a energia se transformava em algo palpável em suas mãos; do nada, ele tirava das mangas bombas, motocicletas de corrida e aviões, e fazia com eles malabarismos como um mágico inconsequente.”

Wieringa teve muito sucesso ao fazer a voz de Fransje. Ainda que o personagem não fale, estamos o tempo todo acompanhando o que ele pensa e esses pensamentos têm uma voz única. Infelizmente ele não consegue o mesmo com Speedboat. Seus discursos sobre máquinas, entropia e outras categorias da física soam às vezes artificiais, revelando um pouco das possíveis pesquisas do autor, e deixando de lado a naturalidade com que um jovem, por mais brilhante que seja, falaria com outros jovens.

Outro passo em falso do autor é quando resolve desenvolver a personagem PJ apenas na parte final do livro e de uma forma nada confiável: através de um livro escrito por outro personagem que não participa diretamente da história. A partir daí a personagem é julgada até o fim do livro por um slogan machista e desnecessário. Em um livro que fala tanto sobre amizade e companheirismo, teria sido mais elegante ter mostrado PJ apenas como um ser humano, deixando o julgamento para o leitor.

Com uma escrita ágil e irônica, o autor trabalha diversos temas envolventes, como a adolescência como o momento ideal para se envolver em projetos que exigem imaginação e coragem, passando por uma leve crítica ao consumismo desenfreado, simbolizado pela quantidade absurda de sucata presente em vários momentos do livro. Mas é quando retrata a pequena cidade, com pessoas com sonhos que não lhe cabem, que o livro brilha. É um história sobre movimento, sobre as tentativas de sair do lugar, sob todas as formas, e ao mesmo tempo é sobre a constatação que mesmo em pequenos lugares você pode vivenciar momentos grandiosos, contanto que esteja com as pessoas certas.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

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Tirza – Arnon Grunberg

interlunio41-tirzaJörgen Hofmeester vive com sua filha caçula Tirza em uma bela casa na área nobre de Amsterdã. A filha mais velha, Ibi, vive na França, e a mãe delas deixou a família há alguns anos. Tirza também se prepara para sair de casa, pois vai fazer uma grande viagem pela África, já que acabou de terminar o colégio e quer viajar antes de iniciar a faculdade. Jörgen se depara com a realidade de ter que ficar sozinho no final da vida, especialmente por ficar longe de Tirza, sua filha preferida, sua “rainha do sol”.

Às vésperas da festa de comemoração de formatura de Tirza, a esposa de Jörgen resolve voltar para casa como se nada tivesse acontecido. A esposa é uma mulher completamente sem amarras com as filhas, que não se encontrou no papel de mãe e que se sente livre para fazer sempre o que quer. Ela não tem a menor intenção de se despedir da juventude, e os dois se odeiam. Preocupado com que as coisas sempre sejam perfeitas, ele aceita a presença da esposa e ao mesmo tempo se vê às voltas com os preparativos para a festa.

De início pensamos que essa história vai ser um drama familiar comum. No entanto, à medida que o personagem Jörgen se mostra mais e mais – o ponto de vista da narrativa é todo dele –, percebemos que não é tão simples assim. Este é um homem que quer fazer tudo da maneira mais correta e civilizada possível. Pelos preparativos da festa percebemos o quanto ele quer agradar, o quanto ele quer que tudo saia perfeito, o quanto ele se preocupa com o que as pessoas vão achar da sua vida, da sua casa, do seu sushi e dos drinks que ele prepara. A preocupação em agradar é tão doentia que ele é extremamente diplomático com quem mais odeia e o fere. No entanto, quanto mais ele tenta ser amável, menos as pessoas gostam dele. A festa de Tirza é quase uma alegoria da sua própria vida, a tentativa de fazer tudo da maneira mais perfeita e apresentável e no entanto falhar de todas as maneiras, pois sua verdade não está representada naquela casa luxuosa, mas no seu quartinho de ferramentas, o lugar para onde vai apenas quem quer se esconder da festa.

“Esta festa tem de ser perfeita, é preciso provar que os boatos que circulam sobre ele não são verdadeiros. O quanto é bem-sucedido, é isso o que quer dizer, é isso que quer mostrar a todos, o quanto foi bem-sucedido na vida, o quanto suas filhas são bem-sucedidas.”

As aparências são o que importa para Jörgen, mas se há uma palavra-chave que possa resumir esse livro – e que aparece por toda a narrativa–, ela poderia ser controle. Quando as coisas na vida não saem como se espera, o ser humano tende a procurar controle por outras vias, desde o mais inocente hobby, passando por manias e doenças, até as piores perversidades. E o que mais falta em Jörgen é controle, pois nada acontece como ele espera, e nem poderia, já que ele precisa desperadamente dos outros para ter o que deseja. E isso ocorre com todos os personagens do livro, em um ou outro momento de suas vidas. É uma história, portanto, sobre o que a falta de controle pode ocasionar, sob as mais variadas formas.

Com esse personagem é possível perceber o quanto é fácil racionalizar nossas loucuras, como os atos mais absurdos podem encontrar facilmente uma justificação, como o homem comum, com pensamentos semelhantes a qualquer um outro, pode ultrapassar limites. Não é à toa que a esposa de Jörgen não tenha um nome, afinal ela serve apenas como seu espelho, o seu lado oculto e sombrio, uma imagem dele mesmo que ele não quer ver. Com esse incrível personagem, construído de forma tão complexa e exata, se percebe como alguém culto e civilizado pode simplesmente tirar os sapatos e entender que a Arte e a Civilização não dão conta de tudo o que o homem é feito.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

Estação Atocha – Ben Lerner

interlunio24-atochaAdam Gordon é um jovem americano que está em Madri por conta de uma bolsa de estudos e que no seu cotidiano de estudante estrangeiro se divide entre leituras, uso de haxixe e passeios pela cidade. Apesar de ser poeta, ele questiona-se enquanto tal e refere-se à poesia como uma forma de arte arcaica, sem valor para o mundo atual, e age como se não acreditasse no que faz, mas segue fazendo, sem saber ao certo o motivo. Aliás, Adam questiona cada ato seu, cada mínimo movimento de sua vida é pensado, analisado e muitas vezes criticado, para logo em seguida ser justificado, numa série circular de ponderações que faz o leitor ora incomodar-se ora identificar-se com ele.

“Eu nunca tinha viajado de trem, um meio de transporte tão arcaico quanto a poesia, pensei.”

Ben Lerner, e talvez aqui haja elementos autobiográficos, já que o autor também é poeta e foi bolsista na Espanha, nos coloca na cabeça de Gordon, através de sua narração em primeira pessoa e de fluxos de consciência bastante claros, e podemos nos sentir como alguém percorrendo as ruas de Madri no início do século XXI e ao mesmo tempo, como o próprio personagem faz consigo mesmo, nos vemos de fora, como alguém que estivesse observando a história de longe, analisando esses passos. Especialmente no início do livro, Gordon se vê sempre como um outro que tem a capacidade de se ver de fora. Ao longo da narrativa, no entanto, o personagem vai se tornando cada vez melhor no espanhol e vai se tornando cada vez mais ele mesmo, à medida que diminui essa autorreflexão, própria de quem se sente sozinho em um lugar que não é seu. Nesse sentido, podemos ver Estação Atocha como um romance de formação, já que Adam caminha para um novo estágio.

Os grandes questionamentos de Adam são em relação ao próprio fazer artístico, mais especificamente o fazer poético, já que é difícil justificar para o mundo qual o papel da poesia nos dias de hoje. E enquanto poeta ele procura fugir da hipocrisia, da atitude arrogante dos que se julgam artistas. Apesar disso, o personagem cai em uma série de pequenas mentiras para conseguir se sair bem nas situações sociais e profissionais a que é obrigado a passar, justamente por ser considerado um artista. Para isso ele inventa fatos sobre sua família, se apropria de histórias alheias, finge se emocionar com suas próprias invenções, tudo para criar uma fachada interessante que ele acha que não tem naturalmente.

“Esforcei-me para pensar nos meus poemas, ou em qualquer poema, como máquinas capazes de fazer eventos acontecerem, de mudar os governos, a economia, ou apenas a sua linguagem, e o conjunto das suas funções sensoriais, mas não consegui imaginar isso nem me imaginar imaginando isso.”

O autor consegue dar ao personagem a exata medida de um adulto jovem, alguém que embora já esteja pronto para pensar o mundo no que ele tem de mais abstrato ou profundo, ainda está conectado às aventuras da juventude. Isso fica mais claro com as relações que ele estabelece com os amigos que faz na cidade: Isabel, uma estudante que acaba se tornando sua namorada provisória, e Teresa e Arturo, jovens ricos que vão ajudá-lo na tradução e publicação de seus poemas. Em contato com eles, Adam se sente sempre inseguro, a despeito de suas intensas reflexões sobre arte, que reverberam apenas em sua própria cabeça. O que é mais narrado em Estação Atocha não são as ações, mas as reações de Adam, os acontecimentos internos do personagem, tentando compreender uma língua que não domina, o que lhe dá uma profunda sensação de solidão. Não solidão em um sentido melancólico, mas apenas a sensação de não poder transmitir os próprios pensamentos.

Historicamente o personagem é localizado no livro, em determinado momento, pelos Atentados de 11 de março em Madri, em 2004. Mas mesmo com a história acontecendo lá fora, são ainda os pequenos problemas pessoais que parecem falar mais alto. Adam é alguém que está sempre passando pela tangente, ilustrado pelo momento em que ele se esvai das manifestações que ocorrem na cidade, com a desculpa de que ali não é seu país. Para além de qualquer conclusão que o leitor possa chegar sobre ele, não há dúvida de que Adam é incrivelmente humano e seu autor não teme vendê-lo dessa forma.

“Quem não desempenhava de maneira ilegítima um dos poucos papéis pré-fabricados postos à disposição pelo Capital, ou como quisermos chamá-lo, mentindo descaradamente cada vez que dizia ‘Eu’, quem não atuava, pelo menos como figurante, no comercial informativo, reprisado obsessivamente, sobre as injustiças da vida?”

Estação Atocha traz uma bem-humorada reflexão sobre literatura e leitura, sobre como os acontecimentos históricos realmente refletem em nossas vidas, sobre a relação entre o tempo na arte e o tempo real, tudo isso uma maneira despretensiosa, que brinca com o pensar intelectual, sem negá-lo. Mas também se detém nas relações pessoais, na forma como divagamos sobre o que os outros sentem por nós, e como procuramos, nos olhares e atitudes do outro, pequenas pistas para encontrarmos algum espelho que nos reflita.

“Felizes eram as épocas em que o céu estrelado representava o mapa de todos os caminhos possíveis, épocas caracterizadas por uma integração social tão perfeita que, para conectar o herói à totalidade, não eram necessárias as drogas.”

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

Os cavalinhos de Platiplanto – José J. Veiga

interlunio23-cavalinhosA maioria dos autores do chamado realismo mágico costuma comentar que suas histórias nada têm de mágicas, que o que ocorre de estranho nelas ocorre no cotidiano das pessoas, que tudo depende do ponto de vista do que é considerado ou não verdade, e com José J. Veiga não era diferente. Fantástica ou apenas realista, não importa: a literatura mostra apenas o que é possível e esse possível quanto mais amplo, melhor. Quem pode dizer o que é ou não real?

Em Os cavalinhos de Platiplanto, publicado em 1959, o possível vem na forma de dois mundos. As histórias quase sempre têm dois planos, dois lugares distintos por onde os personagens transitam. Algumas vezes um dos planos representam o outro lado, o desconhecido, o sonho ou a imaginação. É o caso dos contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, “A Invernada do Sossego”, “A espingarda do rei da Síria” e “Os do outro lado”. No primeiro um menino deseja ganhar um cavalo do seu avô mas depois que este fica doente a promessa fica sem ser cumprida da forma que ele esperava. No segundo também temos um menino e seu irmão, quando têm que lidar com a morte de seu cavalo de estimação. O terceiro mostra a fantasia de um homem que perdeu sua espingarda e consequentemente foi perdendo o respeito de todos à sua volta. E no quarto um rapaz entra em uma casa misteriosa, depois de seguir uma borboleta, e lá entra em contato com o mundo dos que já se foram.

Esse outro lado, portanto, pode ser um refúgio interno, um consolo pela perda. Mas em outras vezes um refúgio externo também, como em “A Ilha dos Gatos Pingados”, em que um grupo de meninos encontra uma ilha para brincar e ela se apresenta como um lugar de paz para um deles, que apanha constantemente do namorado da irmã. Este conto tem uma atmosfera bem semelhante às aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, e Silviano Santiago, no prefácio para essa edição da Companhia das Letras, comenta sobre sua semelhança com o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade e o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

A infância, inclusive, toma de conta das histórias, e a criança, especialmente a criança menino, se encontra em situações em que deve se tornar adulta ou responsável por coisas sérias, mesmo quando ainda é muito cedo para isso. É o que ocorre em “Fronteira”, por exemplo, sobre um menino que acompanha pessoas pelos caminhos para que se sintam seguras e em “Tia Zi rezando”, em que os tios de um menino órfão escondem um segredo e farão de tudo para que ele nunca descubra. Da mesma forma em “Roupa no coradouro”, o conto mais emocionante da coletânea, um menino tem que lidar com a falta do pai, que está viajando, e cuidar da mãe, que acaba ficando muito doente.

Narrado sempre em primeira pessoa, os personagens do livro são pessoas frágeis, crianças ou homens sem poder, que se deparam com um outro superior e opressor. Agem segundo o desespero de não saber o que se passa em suas próprias vidas, de não terem controle até mesmo de suas escolhas, de não acharem espaço para a justiça, pois esta é reservada para poucos.

Não à toa essas histórias acontecem no campo, em fazendas ou cidades pequenas, lugares que remetem a uma vida mais primitiva. “A usina atrás do morro” é um dos contos que mais deixa clara essa condição de ignorância, impotência e opressão. Tem uma narrativa muito semelhante ao romance A hora dos ruminantes, em que moradores de uma pequena cidade se vêem cercados por pessoas de fora, que com um suposto progresso vão causando danos à população. Em um nível mais pessoal, o conto “Professor Pulquério” mostra um homem obcecado pela possibilidade de que haja um tesouro na cidade e acaba sendo marcado pela desconfiança e pelo desprezo. Já no conto “Entre irmãos” o estranhamento que vem do outro se revela entre dois irmãos que não se conhecem e que tentam conversar pela primeira vez. Mas é em “Era só brincadeira” que observamos o extremo da injustiça e da violência: em uma situação um tanto kafkiana, um homem se vê enredado por uma acusação que ele desconhece e a coisa é tão absurda que ele acredita que só possa ser uma brincadeira.

Mágica ou não, a literatura de José J. Veiga é antes de mais nada, crítica e reflexiva. Se as situações vividas pelos personagens parecem estranhas é porque a própria vida pode parecer ainda mais bizarra, sobretudo por conta da injustiça, seja em um nível social, seja nas relações pessoais. O autor nos mostra que o absurdo está mais presente no cotidiano do que nas fugas que inventamos para escapar dele.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

Stoner – John Williams

interlunio18-stonerEm um ou outro ponto da vida temos a chance de nos perceber no mundo como realmente somos, ouvimos um chamado e descobrimos que é um caminho por onde queremos ir, um caminho sem chance para desvios, pois o sentido pode estar nele. Para William Stoner, que inicia essa história como um simples rapaz criado numa fazenda, com poucas chances de escolha, esse chamado se dá em uma aula de Literatura, quando tem oportunidade de ir à Universidade e descobre sua paixão pelo ensino de Letras. Sua vida se confunde então com o espaço da Universidade, onde pela primeira vez se sente em casa. É através dela que faz seus poucos amigos, que conhece o amor e que reconhece seus limites, pois nunca consegue se distanciar deste mundo.

Se por um lado Stoner é um homem que se deixa levar pelo destino, que tem dificuldade em tomar decisões e se entrega ao movimento da vida, por outro ele carrega uma força extrema diante dos problemas que surgem, tomando como certo o que ele é, um professor apaixonado pelo ensino e pelo conhecimento. Desde o início do livro sabemos que estamos diante da vida de alguém comum, que passa por um casamento, por uma modesta evolução acadêmica, o nascimento e crescimento de uma filha… mas ao longo da leitura percebemos como a vida de uma pessoa comum pode ser grandiosa e extraordinária quando a observamos com uma lente de aumento, quando acompanhamos seus passos, como se fossem os nossos. É a grandiosidade dos pequenos momentos da vida que experimentamos e geralmente guardamos para nós mesmos, por julgarmos ínfimos demais ou, e ao mesmo tempo, grandes demais para compartilhar.

John Williams é o que se pode chamar de um autor de prosa elegante, pois temos a sensação de cada frase ter sido extremamente pensada, ainda que estas frases sejam claras e cheias de emoção. Neste livro ele realiza um movimento de mostrar e esconder os pensamentos do personagem, para que aqui e ali possamos nos surpreender com o que irá acontecer, já que ele resume sua história nos primeiros parágrafos. Stoner é uma espécie de David Copperfield americano do século XX, atravessando momentos históricos importantes e se envolvendo em pequenas batalhas pessoais, vencendo a pobreza e a falta de jeito, descobrindo o amor depois de se perder um pouco no caminho e enfrentando inimigos da maneira que pode, com dignidade e justiça. Como o personagem de Dickens, Stoner tem uma vida dura e comete seus erros e é no amor que revela seu lado mais bonito.

“[o amor] como uma parte do devir humano, uma condição inventada e modificada momento a momento e dia após dia, pela vontade, pela inteligência e pelo coração.”

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.

Minotauro – Benjamin Tammuz

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Um homem de 41 anos vê uma moça num ônibus e a reconhece como alguém por quem esperou a vida inteira. Ela passa a receber cartas anônimas dele e algum tempo depois tem oportunidades de respondê-lo. A correspondência dura vários anos, e ele não tem intenção de se identificar, ainda que esteja claro que os dois se amem. Que mistérios esse homem guarda que não podem ser revelados à mulher amada para que possam, enfim, se encontrar? Como um amor idealizado se sustenta diante da vida real que perpassa esses dois personagens?

A resposta é guardada por Alexander Abramov, o grande personagem do livro, filho de dois amantes da música que acabam escolhendo morar na Palestina. Nascido no início do século XX, ele atravessa seus anos sempre em volta de alguma guerra e é através da participação direta nestas guerras que foge do seu mundo pessoal, já que por inúmeros motivos não pode viver o que deseja, pois em um primeiro momento não encontra seu sentido para a vida. É uma figura grandiosa, mesmo quando ainda menino, e romantiza cada momento da existência. Por esperar apenas a perfeição daquilo com que se importa, prefere não viver de qualquer jeito. Para ele a felicidade não é possível porque a vida não permitiu que as coisas fossem perfeitas. A vida só tem sentido enquanto experiência estética absoluta, e portanto é necessário fugir do mundano, do perecível. Então, mesmo um dia encontrando Téa, o motivo pelo qual estava procurando, as circunstâncias que dificultam uma convivência com ela têm o enorme poder de distanciá-los.

Téa é uma jovem inglesa de cabelos acobreados e olhos castanhos e representa, como seu próprio nome revela, uma divindade para os homens de sua vida, a mulher idealizada e idolatrada, capaz de conferir sentido e conforto. Talvez o amor de Téa por um estranho que nunca viu soe inverossímil para alguns leitores, mas há que se considerar que aqui nesta história o mais importante são os símbolos que ela evoca, o amor pelo impossível, pela beleza, pelo ideal acima de qualquer coisa. Eles se conectam através desse mundo sonhado, perfeito, estabelecido pelas cartas. E embora ela se envolva com outros homens, e todos eles a vejam como uma deusa inatingível e sejam igualmente vítimas desse amor idealizado, Téa está presa a Alexander, a essa história cheia de possibilidades que não se concretizam, esse abismo da qual ela não consegue cair nem sair de sua beirada.

O escritor israelense Benjamin Tammuz constrói em Minotauro uma estrutura inusitada e bem montada, com uma escrita simples mas muito apurada nas passagens de reflexão do protagonista, sobretudo na última parte do livro, em que as descrições são mais cuidadosas e há um esmero maior com as imagens que vão sendo criadas. O livro passa por diversos gêneros, iniciando como romance epistolar e terminando como romance de espionagem. Tendo lido recentemente O espião que saiu do frio, de John Le Carré, não pude deixar de identificar a figura clássica do agente secreto amargurado, o tipo psicológico atormentado que escolhe essa profissão para fugir das dores da realidade insuportável.

É daqueles livros que quando termina você deseja voltar ao começo e retomar o fio. Uma leitura envolvente, que ata o leitor a um labirinto em que cada passagem pelo caminho faz com que ele descubra mais sobre a história e veja os mesmos muros diversas vezes até encontrar a saída.

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A Imortalidade – Milan Kundera

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★★★★☆ | Companhia das Letras, 2015

Diante de tantos grandes nomes que estão e ainda ficarão gravados na pedra da História por muitos séculos, a imortalidade, enquanto marca deixada para a posteridade, parece um grande atrativo, uma forma única de driblar a morte. Mas ela é realmente desejada por todos que supostamente a merecem? O mundo de hoje ainda precisa imortalizar os gênios? E o homem comum, terá direito apenas à imortalidade provisória de viver na memória das pessoas que o amam? Esse é o grande tema de A Imortalidade, romance filosófico do checo-francês Milan Kundera. Mas como não poderia ser diferente, o que já é uma característica de suas obras, neste livro o autor passeia por inúmeros outros assuntos, como o poder atual do jornalismo e da publicidade na política, o amor sentimental versus o amor físico, a obra do artista versus sua biografia, a aparência vencendo a realidade, enfim, algumas questões bem pertinentes ao nosso início de século, a despeito de ter sido publicado em 1990.

O romance traz vários planos de narrativa e o principal se concentra na personagem Agnès, uma mulher que se sente à parte do resto do mundo, com um profundo desejo de solidão. Ela é casada com Paul, um jornalista que combate a cultura de idealização dos imortais, e juntos eles têm uma filha, Brigitte. O principal contraponto de Agnès é sua irmã Laura, uma mulher extremamente dramática e intensa, e seu único refúgio são as lembranças que tem do pai, com quem se identificava.

Outro plano importante é a história dos personagens históricos Johann Wolfgang von Goethe e Bettina Brentano. Bettina, apesar de ter deixado sua própria obra, era uma espécie de groupie de Goethe, Beethoven e outros artistas de sua época, alguém que buscava ou até mesmo forçava-lhes uma intimidade para, digamos assim, beber de sua genialidade e imortalidade. Goethe também aparece em outro nível da narrativa: em uma espécie de limbo dos imortais, em que tem curiosas conversas com Ernest Hemingway sobre o peso do legado que deixaram.

Já em outro plano acompanhamos o próprio autor, como narrador-personagem, explicitando como pensa e planeja a história que está sendo contada. E ela é iniciada com a observação de um gesto: o gesto de uma senhora que, cheio de jovialidade, o inspira a compor Agnès e toda a sua história. A partir daí Kundera estabelece também uma reflexão sobre os gestos humanos, de como eles se repetem, de como algumas situações evocam outras parecidas, com pessoas diversas e distantes no tempo e no espaço, pois apesar de o número de humanos já existentes ser grande, o repertório de gestos é limitado. É através de gestos que ele costura as diversas histórias narradas no livro: um gesto de Bettina será reproduzido por Laura, um gesto de Goethe será repetido por outro personagem e assim ele vai demonstrando que a essência de cada ser humano não reside num gesto específico, eles nos falam apenas do que temos em comum, afinal só os gestos são imortais:

“São os gestos que se servem de nós; somos seus instrumentos, suas marionetes, suas encarnações.”

Com o tempo percebemos que esta esfera da narrativa em que o autor aparece pode não ser tão diferente do de seus personagens, já que estes começam a surgir nos mesmos cenários por onde o autor transita. Suas conversas com um certo Professor Avenarius criam um canal com o leitor e estabelecem o que o autor intenciona ao escrever um romance de tal forma que não possa ser resumido, contado – provavelmente justificando sua insatisfação com a adaptação cinematográfica de seu livro anterior, A Insustentável Leveza do Ser:

“Hoje em dia as pessoas vão em cima de tudo o que foi escrito para transformar em filme, em drama de televisão ou em desenho animado. Já que o essencial no romance é aquilo que não pode ser dito senão por um romance, em toda adaptação só fica o que não é essencial. Quem quer que seja suficientemente louco para hoje ainda escrever romances, deve, se quiser protegê-los com segurança, escrevê-los de maneira tal que não possam ser adaptados, em outras palavras, que não possam ser contados.”

O personagem Paul defende que a humanidade deveria parar de idolatrar os homens que carregam a aura da imortalidade. Que suas biografias, com todas as suas dores, perdas, quedas e glórias, seriam mais importantes que sua herança artística ou política, pois os aproximam do homem comum. Mas não são os grandes feitos que nos chamam a atenção para o imortal, em primeiro lugar? Seria possível deixar de enaltecer obras e autores que permanecem por séculos, ou o ser humano precisa de seus ídolos? O Hemingway de Kundera concordaria com Paul, pois mesmo depois da morte não pôde fugir da maldição de não ter mais controle sobre seu próprio eu:

“Quando me deram o prêmio Nobel, recusei-me a ir a Estocolmo. Estava pouco ligando para a imortalidade, e direi ainda mais: o dia em que constatei que ela me abraçava, o horror que senti foi pior do que o horror da morte. O homem pode pôr fim à sua vida; mas não pode pôr fim à sua imortalidade.”

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

Essa leitura faz parte do meu Projeto Kundera.

Middlesex – Jeffrey Eugenides

51_middleMiddlesex é um romance que abarca tantas categorias e discussões que fica difícil começar a apontar todas. Mistura de romance de formação com saga familiar, é um livro que retrata a descoberta da identidade de Cal ou Calíope – primeiro como menina, depois como homem, mas sendo biologicamente os dois ao mesmo tempo – não sem antes contar em detalhes a história da sua família, os Stephanides, começando por seus avós gregos, nascidos na Turquia, que fogem para os Estados Unidos após o grande incêndio de Esmirna, em 1922. A partir daí acompanhamos vários fatos do século XX do ponto de vista destes avós, e depois de seus pais, que vão encontrar em Detroit um novo lar, ainda que não consigam se distanciar muito de suas raízes. Somente na segunda parte do livro o protagonista vira realmente protagonista e toma a atenção para a questão da sua intersexualidade:

“Sou a oração subordinada final de uma longa sentença que começa há muito tempo, em outra língua, e vocês precisarão lê-la desde o início para chegar ao fim, que é quando entro na história.”

Metade da narrativa, portanto, contempla as origens de Cal: vemos como seus avós, Desdêmona e Esquerdinha, tiveram que lidar com um segredo que vai afetar a vida de todos mais tarde; vemos seus pais, Milton e Tessie, se apaixonarem e repetirem uma tendência familiar de casar entre parentes; vemos todos os dramas, cômicos ou trágicos, de uma família estrangeira tentando se adaptar a uma nova realidade e vemos a infância e o início da adolescência de Cal como menina, de certa forma não muito diferente da de qualquer uma outra.

Assim como Desdêmona e Esquerdinha, que ao chegarem na América interpretavam as novidades com correspondentes na mitologia e na cultura grega, o autor trespassa a narrativa com essas referências, a começar por uma Invocação da Musa, típica do início das obras épicas gregas, em que o escritor pedia por inspiração. Passa também por mitos como Terésias e o Minotauro, criaturas duplas que representam a figura de Calíope (ela própria a musa da poesia épica). A duplicidade, aliás, está por todo o livro: masculino/feminino, tradição/ciência, natureza/criação, Velho Mundo/Novo Mundo, enfim, é uma história repleta de quimeras.

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★★★★★ | Companhia das Letras, 2014

Cal é então esse personagem com aura mítica, essa quimera capaz de assustar mas com o poder de ter a experiência dos dois gêneros. Ele tem a consciência real de ser uma mulher para depois descobrir-se homem e se ver praticamente liberto das amarras femininas. E sua experiência nos traz velhas e grandes perguntas: o que exatamente significa ser homem ou mulher? Qual o papel cultural e qual o papel dos órgãos genitais na formação de nossa atitude perante o mundo? O que é destino e o que é livre-arbítrio na sexualidade? Para Cal, inevitavelmente seu gene recessivo do quinto cromossomo definiu o que sua vida ia ser, dentro do mundo em que ele nasceu, mas não só isso, afinal essa é uma história de herança não apenas genética, mas também de como levamos para frente os costumes de nossos ascendentes.

“Viver conduz a gente não ao futuro, mas ao passado, à infância e a antes do nascimento, até, enfim, a comunhão com os mortos. A gente envelhece, sobe as escadas ofegante, entra no corpo do pai. Dali, é só um pulinho até os avós, e então, antes que se dê conta, está viajando no tempo. Avançamos para trás nesta vida.”

Acima de todas as discussões que traz, e não à toa vencedor do Pulitzer de 2003, Middlesex é um livro envolvente e divertido, com algumas situações quase inverossímeis, que beiram o realismo mágico, e que dão à narrativa um tom cômico e leve. Jeffrey Eugenides tem uma escrita clara, mas ao mesmo tempo rica e bonita, e consegue grandes efeitos com suas mudanças de ponto de vista entre primeira e terceira pessoa, especialmente quando coloca o narrador Cal quase como onisciente, na mente de seus pais e avós antes mesmo de ter nascido. Com suas descrições perfeitas e seu enredo genialmente entrelaçado, é possível ouvir os sons, as vozes dos personagens, visualizar o tempo indo e voltando em flashbacks e flashforwards, sentir os cheiros das espeluncas frequentadas por Esquerdinha e sentir o sabor da fina massa de galactobourekos de Desdêmona estalando no céu da boca.

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*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.