Obrigado, Jeeves – P. G. Wodehouse

interlunio51-jeevesObrigado, Jeeves faz parte de uma série de histórias do inglês P. G. Wodehouse com os personagens Bertram Wooster e seu mordomo Jeeves. Apesar dessa não ser a primeira história da dupla – há algumas histórias anteriores publicadas em revistas – é o primeiro romance com eles e foi publicado em 1934. Aqui Wooster se envolve com o possível casamento de seu amigo Chuffy e sua ex-noiva Pauline, atuando como um cupido extremamente atrapalhado.

A história começa com um impasse: Wooster gosta de praticar banjolele em seu apartamento em Londres, mas a vizinhança não está nem um pouco contente com isso e, para a surpresa dele, nem o pobre Jeeves aguenta mais o barulho. O mordomo pede demissão e, para poder tocar em paz o instrumento, Wooster vai morar por uns tempos num chalé da propriedade de seu amigo Chuffy. Essa propriedade será o cenário de todas as situações que se seguem pois Jeeves irá trabalhar para Chuffy, Pauline estará com o pai em um iate na costa do lugar e seu inimigo Glossop estará envolvido na venda da mansão de Chuffy, que precisa desesperadamente de dinheiro para pedir Pauline em casamento.

Mesmo não sendo mais seu criado, Jeeves continua seu amigo e o salva das mais estranhas situações, pois o pai de Pauline pensa que ela ainda gosta de Wooster e acredita que os dois andam se encontrando escondido. Na verdade Pauline e Chuffy é que estão apaixonados, mas uma série de mal-entendidos vão separar o casal e sobra para Bertie e Jeeves resolver o problema de todo mundo.

Trata-se, portanto, de uma típica comédia de costumes, cheia de mal-entendidos, amores impossíveis e disputas por dinheiro. É um retrato da decadência da aristocracia britânica, repleto de situações cômicas, inclusive situações físicas, que mostram que a dignidade cabe apenas ao bondoso e brilhante mordomo Jeeves, que está sempre resolvendo os problemas de seus senhores, esbanjando sabedoria e cultura.

O que é mais impressionante no livro – apesar de possuir uma história um tanto previsível – é como o autor, especialmente ao se aproximar do final, consegue costurar tudo e ligar todos os pontos da história, de forma que todos os elementos apresentados, personagens e situações, tenham um grande valor e sejam muito bem aproveitados. O leitor até sabe o que vai acontecer, mas o como acontece rende boas risadas.

Howards End – E.M. Forster

20_howardsend_bookHowards End é a história de duas irmãs, Margaret e Helen Schlegel, inglesas de origem alemã, e sua relação com a família Wilcox, típica família inglesa abastada, no ínicio do século XX.

As irmãs têm uma vida intelectual rica, facilitada pela renda de sua herança. Durante os chás e jantares com amigos, as mais variadas discussões ocorrem, desde a questão do feminismo até o tema do dinheiro – Margaret defende o dinheiro como um grande educador, indispensável para se ter o conforto que proporciona o pensamento livre. Tomando como exemplo Leonard Bast, um jovem e pobre escriturário que elas conhecem por acaso, Margaret acredita que ajudá-lo, ajudar uma única pessoa ou poucos, no capitalismo, seria a única forma possível de fazer algum bem:

“Fazer bem à humanidade era inútil: os multicoloridos esforços para isso esparramavam-se pela vasta área como névoa e resultavam num cinzento universal. Fazer o bem para um só, ou, neste caso, para uns poucos, era o máximo a que podia ousar aspirar.”

Já os Wilcox são uma família prática, voltada para os negócios, que jamais se preocuparia com pessoas como Leonard e que ainda assim atraem a curiosidade das irmãs. Helen chega a ter um breve relacionamento com Paul, o filho mais novo, mas a relação entre os dois grupos se inicia realmente através da amizade de Margaret e a Sra. Ruth Wilcox. O grande amor da vida de Ruth é sua casa em Howards End, uma propriedade rural, e Margaret fica intrigada com as descrições apaixonadas que ela faz do lugar.

Margaret e Helen se dividem então nessa preocupação em ajudar Leonard Bast e na intenção de captar o espírito prático dos Wilcox. Mas elas possuem atitudes e abordagens diferentes, e suas personalidades lembram um pouco as das irmãs Elinor e Marianne, de Razão e Sensibilidade: uma mais contida, diplomática e racional, outra mais selvagem, impulsiva.

É um romance em que os personagens servem muito mais como representantes de ideias contrárias num grande debate sobre a vida do que pessoas com uma vida interessante, pelo menos externamente. Curioso notar também que os lugares – as cidades, as casas, os prédios – são quase personagens também, com personalidades que moldam o humor de seus habitantes. Não à toa o título do livro é o nome de uma casa e muitas interpretações sobre ele falam de Howards End simbolizar a própria Inglaterra e de como as classes sociais ali representadas deverão compartilhar o país.

Forster cria ambientes aconchegantes e conversas agradáveis, no entanto essas conversas nunca se elevam o suficiente, e o clima, mesmo quando desconfortável, não parece incomodar de verdade. A personagem Helen é a que exala mais vida, mas ela pouco está presente, já que a narrativa é focada mais em Margaret. É somente no final do livro que as emoções finalmente afloram, que dramas mais profundos acontecem e que todo o enredo se justifica, o que faz com que a leitura de boa parte do livro seja um pouco enfadonha.

A adaptação cinematográfica de 1992, dirigida por James Ivory, revela muito bem o espírito do livro e lhe é extremamente fiel. Como o enredo construído por Forster é simples e muito entremeado com passagens em que tanto o narrador quanto os personagens refletem sobre o que está acontecendo – o que faz com que muito material não constitua história propriamente dita –, a obra é muito convidativa a adaptações e assim deve ser com todos os seus livros, já que vários foram adaptados para o cinema, como Maurice (1987), Uma janela para o amor (1985), ambos também dirigidos por James Ivory, e Passagem para a Índia (1984), de David Lean.

Autor de Aspectos do Romance, Forster era muito consciente da estrutura narrativa do gênero e talvez por isso mesmo o livro traga um tom artificial em alguns momentos. Isso pode ser um defeito ou uma qualidade, dependendo do nível de consciência da construção da obra que o leitor deseja ter durante a leitura. Mas ainda assim o autor foi capaz de me prender em sua bem estruturada teia, mesmo que por um tempo eu não conseguisse prever que desenhos ele iria formar no fim.

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A Ilha – Aldous Huxley

Quando comentei sobre Admirável Mundo Novo eu falei sobre o que mais me chamava atenção no livro, que era a questão da felicidade, de como seria a vida humana se todos fossem felizes. Em A Ilha a questão é basicamente a mesma, e apesar de soar mais como utopia que distopia nesse caso, os métodos para alcançar a felicidade de alguma forma guardam uma relação com os utilizados no romance da década de 30, já que partem do argumento que não existe igualdade e felicidade coletivas sem controle do individual.

Publicado em 1962, o último livro de Aldous Huxley apresenta Pala, uma ilha proibida que sustenta uma sociedade isolada do mundo, quase auto-suficiente, que escapou de ser colônia dos países imperialistas por sua condição geográfica. Através do controle dos seus habitantes pela combinação de misticismo baseado em religiões orientais e ciência ocidental, a vida em Pala garante pessoas livres de neuroses e completamente integradas com a natureza. Conhecemos o local pelos olhos de Will, um jornalista que chega até a ilha um pouco por acaso e que tem a responsabilidade de mediar um acordo político que pode modificar para sempre a realidade desse paraíso.

Basicamente o livro é uma enorme entrevista que Will, enquanto espécie de representante do mundo ocidental, faz aos moradores da ilha, procurando entender como vivem e se relacionam. Cada resposta é uma crítica ao mundo lá fora e ao mesmo tempo uma proposta de vida alternativa transformadora pois ele não encontra ninguém que esteja infeliz, exceto a rainha de Pala e seu filho, futuro Rajá. Convivendo com a família McPhail ele observa como eles educam as crianças com um tipo de transdisciplinaridade, como resolvem os complexos com terapias, como eliminam a possibilidade de conflitos pelo trabalho braçal, como lidam com o sexo de forma livre, como enfrentam as dores e a morte com resignação, enfim, como aliam ciência e religião para garantir a felicidade plena:

“…o caminho da biologia aplicada, da natalidade controlada, da produção limitada e da industrialização seletiva (que só é possível quando se controla a natalidade). É o caminho que leva à felicidade e que vem de dentro de nós, por meio da saúde, do conhecimento e da mudança de atitude em face do mundo. Não é aquela miragem de felicidade exterior e que é adquirida à custa dos brinquedos, das pílulas e das intermináveis distrações.”

O romance praticamente não tem ação, é constituído dessas longas conversas sobre como as coisas funcionam em Pala e as terríveis memórias de Will sobre seu casamento e seu pai. Nesse sentido o livro se torna pesado de ler pois uma das coisas mais legais em um romance é o fato de você aprender algo de forma sutil através da ação dos personagens e de como reagem diante do que se passa com eles. Quando os personagens explicam demais e vivem de menos, a história perde fôlego e passa a se tornar quase um livro de não-ficção, e é o que acontece com A Ilha. Talvez fosse mais interessante se Will vivesse profundamente o cotidiano de Pala ou se se relacionasse de verdade com algum nativo, em vez de ser um mero observador.

Há inúmeras discussões relevantes no livro referentes a educação, religião, saúde, política etc., mas elas estão tão condensadas que podem causar um certo cansaço em quem não está preparado ou quem espera uma seqüência de Admirável Mundo Novo. Em comum com este, somente a ditadura do coletivo e a melancolia de mundos ideais despedaçados.

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Livro relacionado:

Aspectos do Romance – E.M. Forster

Aspectos do Romance é um clássico livro de teoria literária de E.M. Forster, autor de romances como A Room with a View, Howards End e A Passage to India, todos bastante conhecidos por suas adaptações no cinema. Como foi baseado em uma série de conferências que o romancista apresentou na Universidade de Cambridge em 1927, o texto é relativamente fácil de ler e traz alguns toques de humor, especialmente quando dá suas alfinetadas em alguns escritores analisados. Farei aqui um resumo das principais categorias trabalhadas por Forster no livro, tanto para registrar minha leitura como para contribuir com quem tiver curiosidade sobre seu conteúdo.

O livro fala por si mesmo
Uma primeira consideração que Forster apresenta para começar a falar de literatura é a de que devemos ler os livros e não os escritores. É a velha crítica à ideia de que devemos conhecer a vida do autor para entender sua obra. Segundo Forster, antes de mais nada, os livros devem ser lidos como se todos os autores estivessem juntos numa enorme távola suspensa no tempo:

“É preciso ler os livros (o que é um infortúnio, porque isso leva tempo); é o único modo de descobrir o que eles contêm. Algumas tribos selvagens os comem, mas a leitura é o único método de assimilação deles conhecido no Ocidente. O leitor precisa se sentar, sozinho, e lutar com o escritor, coisa que o pseudo-erudito não faria. [Este] Prefere relacionar o livro à história do seu tempo, aos acontecimentos da vida do autor, aos acontecimentos que ele narra, e sobretudo a alguma tendência.”

Para provar seu argumento ele vai dispondo trechos de dois romances de autores diferentes, com características semelhantes e com distância histórica, demonstrando que a Arte sempre se ocupa das mesmas coisas, o que muda são apenas as técnicas de ficção. A Historiografia ou a Biografia, portanto, teriam pouca ou nenhuma relevância sobre a obra: o livro fala por si mesmo.

Essa questão é polêmica pois segundo outros teóricos, o ideal é que o leitor que deseja analisar uma obra observe o que o livro pede; é o livro que vai dizer o que de externo devo buscar: História, Psicanálise, Filosofia, Poesia e até Biografia, tudo vai depender da necessidade. O que não cabe, no entanto, é a tentação pela chamada “fofoca literária”, que pode ser divertida como passatempo à parte, mas não enquanto elemento para ser usado na análise, pois retira o foco do que é mais importante, que é a obra.

Estória e Enredo
Os aspectos escolhidos pelo autor para analisar o romance são: a Estória (história), as Pessoas (personagens), o Enredo, a Fantasia, a Profecia, o Padrão e o Ritmo. A Estória é a característica mais básica do romance: são os eventos que se sucedem no tempo. Para muitos leitores, essa é a única característica que interessa num livro porque ela responde ao instinto da curiosidade de querer saber o que vai acontecer depois. Já o aspecto do Enredo (também conhecido como trama ou plot), apesar de se referir à seqüência de eventos, obedece à causalidade e está intimamente ligado ao final. Um romance levado ao acaso, cheio de coincidências para justificar os eventos, contém apenas uma Estória e não um Enredo. Se a Estória requer curiosidade, o Enredo requer inteligência e memória; em um bom texto, diz o autor, nada é de graça, as coisas aparecem por um motivo e mesmo que algo pareça gratuito num primeiro momento, existirá uma função para isto no decorrer do romance.

“O mistério é essencial para um enredo, e não pode ser apreciado sem inteligência. Para o curioso, não passa de mais um “E depois?”. Apreciar um mistério requer que uma parte da mente seja posta de lado, ruminando os pensamentos, enquanto a outra segue adiante.”

Um bom exemplo que vejo para essa diferença pode ser encontrado fora da literatura, quando observamos seriados de TV. Muitas vezes trabalham com uma ideia inicial a ser desenvolvida, completamente desgarrados de um final fechado, porquanto não é possível calcular quantas temporadas irá durar. As coisas vão acontecendo e alguns elementos que pareciam fazer parte de uma motivação futura se revelam como pontas soltas em relação ao todo, e servem apenas para deixar o espectador com curiosidade para o próximo episódio. Alguns romances, assim como os seriados de TV, não conversam com o final e o enredo acaba não existindo ou se tornando um monstro de 7 cabeças. Muitos romances mais modernos também não possuem enredo, mas em outro sentido: o leitor é que constrói o enredo através da reflexão dramática dos personagens e Forster trata estes romances com certa ironia.

Personagens e Ponto de Vista
Outro aspecto importante para o romance são os personagens, as Pessoas. Qual seria a diferença entre as pessoas da vida real e as pessoas dos livros? Para isso existem duas respostas: a resposta estética, segundo a qual os personagens seguem leis próprias dentro da obra de arte, e a resposta psicológica, que afirma que enquanto nossa vida secreta é invisível (não é possível conhecermos inteiramente nem a nós mesmos), a vida secreta dos personagens é visível. Nossos relacionamentos reais são confusos porque nunca conhecemos o âmago daqueles que nos são mais íntimos e é por isso que a ficção se torna mais impactante e real que a própria vida, afinal é mais fácil se emocionar lendo um livro que lendo o jornal do dia:

“Isso que chamamos de intimidade não passa de uma improvisação; o conhecimento perfeito é uma ilusão. Nos romances, porém, conseguimos conhecer as pessoas perfeitamente, e, além do prazer normal da leitura, podemos encontrar aqui uma compensação pela falta de clareza da vida. Neste sentido, a ficção é mais verdadeira do que a História, porque ultrapassa as evidências, e todos nós sabemos por experiência própria que existe algo além das evidências.”

Ainda falando de personagens, Forster lança um conceito muito utilizado nos manuais de teoria literária até hoje, que é o de personagem plano x personagem redondo, referindo-se a que nível de profundidade um personagem pode chegar e qual o papel de cada um nos romances. O personagem plano pode ser resumido numa única frase ou ideia, e uma vez apresentado ao leitor, este já o entende e sabe o que pode esperar dele. O personagem redondo é aquele que sempre nos surpreende e cuja definição está sempre sendo construída. Ambos têm sua função nos romances: os planos tendem a trazer humor, os redondos tendem a trazer drama e Forster dá vários exemplos de como eles são usados por autores como Jane Austen (que usa os dois tipos), Charles Dickens (que usa apenas os planos) e os romancistas russos (que usam apenas os redondos).

Já o ponto de vista da narrativa, para Forster, não deve seguir fórmulas, como acreditam alguns teóricos. Ele deve seguir os efeitos que o autor quer passar para o leitor, isto é, a relação da Estória com o narrador pouco importa e o ponto de vista pode mudar sempre que a Estória pedir. Forster critica, portanto, o recurso da metaficção, que é trazer para o leitor uma análise do próprio processo criativo do escritor, sob pena de perder o efeito ficcional:

“O romancista que mostra interesse exagerado por seu próprio método nunca pode ser mais do que interessante; deixou de lado a criação de personagens e nos solicita que o ajudemos a analisar sua própria mente, com a consequentemente forte queda da nossa temperatura emocional.”

Fantasia e Profecia; Padrão e Ritmo
A Fantasia e a Profecia são aspectos que perpassam a obra literária e têm um caráter transcendente, por assim dizer. A Fantasia é aquilo que não pode acontecer na vida real; o leitor tem que se entregar à impossibilidade da história como se ela fosse possível e não são todos que se sentem dispostos a isso. Curiosamente ele aponta Ulysses, de James Joyce, como um exemplo de livro fantasista. Já a Profecia refere-se ao “tom de voz” do romancista e tem a ver com sua visão de mundo implícita em seu texto, não como uma reflexão, mas como o que ele chama de canção: o que fica nas entrelinhas tem mais força do que é o que é dito de forma explícita. Como exemplo de autores proféticos ele cita Dostoievski, D. H. Lawrence, Melville e Emily Brontë.

Por fim, os aspectos de Padrão e Ritmo. O Padrão seria o desenho geral da história e tem relação íntima com o Enredo. Muitas vezes é fácil perceber que alguns autores costumam se utilizar sempre de um mesmo padrão em todos os seus livros. Quanto mais um padrão é definido e perfeito, mais o romance se afasta da realidade, o que pode ocasionar uma obra com grande beleza estética mas muito distante da vida. O Ritmo também contribui para a estética da obra e diz respeito a como o autor conjuga repetição e variação em sua escrita, com uma característica semelhante ao que acontece na música.

Forster conclui o livro fazendo uma reflexão sobre o futuro do romance. Assim como considerou no início que a História não tem lugar quando se fala de Arte porque esta nunca muda, também considera que no futuro as coisas continuem as mesmas, a menos que a natureza humana mude e com ela o processo criativo:

“Se a natureza humana de fato se alterar, será porque os indivíduos terão conseguido olhar-se uns aos outros de um modo novo. Aqui e ali há algumas pessoas que estão tentando fazer isso – são muito poucas, mas entre elas há alguns romancistas. (…) Seja como for – esse caminho traz movimento e combustível para o romance, porque, se o romancista se vê diferentemente, também vê diferentemente seus personagens, e daí resulta um sistema de iluminação novo.”

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Livro relacionado:

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury


Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury mostra ao leitor um mundo bem parecido com o nosso atual, com a essencial diferença de que os livros são proibidos, tanto a propriedade quanto a leitura, e para controlar esta proibição os bombeiros são responsáveis por queimá-los – daí o título do livro, que seria a temperatura em que eles queimam.

Guy Montag é um bombeiro que claramente sente prazer em queimar livros, instigado pelo seu chefe Beatty, um homem culto, que um dia amou os livros mas agora prefere queimá-los. Ele é casado com Mildred, uma mulher que passa o dia interagindo com uma espécie de conjunto de televisões na parede e que parece ser uma pessoa vazia, ou esvaziada. Um dia ele encontra a espirituosa Clarisse, sua vizinha adolescente que o faz pensar e questionar a própria vida. A partir de seus encontros com ela é que ele desperta a curiosidade em relação aos livros e vai, durante a história, seguir um percurso de informação, rebeldia e transformação.

Algumas coisas me incomodaram nesta obra. Considero fraco o argumento de que o desaparecimento dos livros se deu porque todos os livros eram “perigosos” ou faziam as pessoas pensarem, até porque nem todo livro tem essa qualidade. Eu acreditaria mais numa destruição de alguns títulos (exemplos históricos reais não faltam) ou mesmo que as pessoas foram trocando os livros por outras mídias mais fáceis, coisa que até o autor deixou clara no livro. Mas tudo bem, posso concordar que o livro enquanto objeto carrega, além de seu conteúdo, uma aura meio de misticidade que poderia incomodar os governos a ponto de serem alvo do fogo. No entanto, fiz careta para um certo didatismo, quase infanto-juvenil, que permeia o livro, especialmente quando surge Faber, o personagem que vai ser praticamente um professor para Montag. Ele é responsável por explicar a Montag e ao leitor a importância da causa, ainda que deixe claro que o buraco é mais embaixo:

“Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. […] Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós, a partir de retalhos do universo.”

De certa forma eu tentei ver a história do livro mais como uma alegoria, em que os livros seriam apenas um símbolo da decadência do pensamento livre e das manifestações artísticas. Nesse sentido, Fahrenheit 451 se assemelha um pouco a Admirável Mundo Novo, no sentido que enfoca a importância da arte para o ser humano. A teoria é que o ser humano, por mais feliz que fosse, não conseguiria viver sem manifestações artísticas, sem questionamentos sobre a vida e até mesmo sem tristeza. Os indivíduos da sociedade criada por Bradbury, simbolizados pela personagem Mildred, são parecidos com aqueles da obra de Huxley. São pessoas anestesiadas pelos prazeres, a diversão e o entretenimento. Porém, como em toda distopia, sempre há um grupo marginal que constitui a esperança e Montag segue em direção a esse caminho.

Apesar de tudo, é um livro com qualidades. Uma das partes mais bacanas é quando o autor meio que profetiza os reality shows nas cenas de perseguição a Montag. Algumas imagens na narrativa são belas e me fizeram querer ler outras obras do autor. E o tom meio didático do livro, que me chateou um pouco, pode ser uma vantagem na educação de jovens. E é assim que vejo esse livro, como um livro para jovens, eu mesma teria amado este livro nos meus tempos de Clarisse.

Leia aqui sobre o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut.
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Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley


A primeira vez que li Admirável Mundo Novo, há uns bons 15 anos, imediatamente ele se tornou um livro favorito. Não sei se por nostalgia ou porque me faça pensar em tantas questões, a segunda leitura me provou que eu continuo amando essa narrativa que prevê um futuro tão assustadoramente perfeito.

Em tudo que leio sobre o livro, o foco é geralmente na questão que resume o panorama da história: seres humanos sendo cultivados em laboratórios, num esquema semelhante à produção de carros e “preparados” de forma a cumprir as funções sociais específicas de sua casta. No entanto, o que mais me comove na história é como as relações humanas seriam se todos fossem felizes.

Nesta Londres de 632 d.F. (depois de Ford), em que “cada um pertence a todos”, ninguém é nada de ninguém. Não há mais pais, mães, irmãos e é de bom tom que se tenha amantes diferentes toda semana. Ora, se não há laços, boa parte do sofrimento humano se resolve. Outra parte resolvida é que você já nasce sabendo qual sua missão na sociedade, pois cada casta é feita para tarefas específicas e cada ser humano é condicionado a abraçar com alegria sua servidão: não há indivíduos essenciais, só a comunidade importa.

“O segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer.”

Dentro de toda essa perfeição, temos 3 personagens que não estão satisfeitos e dentre eles John, que é um rapaz que foi criado praticamente como um selvagem numa reserva indígena. John passou a vida inteira lendo um único livro, as Obras Completas de Shakespeare, como se fosse uma bíblia com respostas para a vida. Em determinado momento ele é levado para viver na civilização e fica cada vez mais horrorizado com esse mundo asséptico.

Depois de perceber que a civilização não era o que ele esperava, John começa a defender o direito que cada um de nós tem de ser triste, de ficar sozinho, de chorar, de se desesperar, de sofrer. Num mundo onde a felicidade é obrigatória, esse direito não existe. Num mundo onde se é diferente, você estará sempre sozinho.

“- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
– Em suma – disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.”

Também não há mais intimidade. Há um momento em que a personagem Lenita argumenta que fazer as coisas de maneira íntima seria como não fazer nada, o que me lembrou muito o que vivemos hoje com as redes sociais: se não foi compartilhado, o acontecimento não foi vivido. E este é apenas um exemplo de previsões que se tornaram semelhantes ao que vivemos hoje neste livro escrito em 1932.

Talvez exatamente por isso, por tantas previsões serem realidade ou serem extremamente possíveis hoje, o impacto do livro não é tão forte como poderia ser em outras distopias. O próprio Huxley aponta algumas escolhas equivocadas na história, principalmente sobre o destino de John, mas como isso não é o mais significativo pra mim enquanto leitora, a riqueza e beleza do livro permanece, é uma obra pela qual tenho muito carinho.

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