O Mágico de Oz – L. Frank Baum [Breve comentário]

interlunio46-ozUma das grandes qualidades de O Mágico de Oz é a sensação que ele dá ao leitor de que se trata de uma história há muito contada, um conto de fadas que vem sendo passado de geração a geração inúmeras vezes, apesar de ser uma história publicada em 1900. E era o que o autor desejava: construir um conto de fadas moderno sem a violência extrema dos clássicos (ainda que haja sim certa violência em O Mágico de Oz).

Isso fica claro na estrutura do livro, com tantas repetições e ações de 3 passos: ela encontra 3 amigos no caminho, o chapéu mágico dá 3 desejos a quem o usa, etc. Além disso, como é típico dos contos de fada, a história começa com sua saída de casa para entrar em contato com o mundo, causar mudança por onde passa e assim retornar mais madura e valorizando o que havia deixado. Ainda por cima Baum tem o mérito de oferecer boas mensagens às crianças sutilmente, sem didatismos, com belas passagens simbólicas, a ponto de agradar adultos também.

A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

interlunio31-guerraÉ impressionante ler este livro do britânico H. G. Wells, lançado em 1898, e constatar como ele serve de base, direta ou indiretamente, para histórias de catástrofes, mundos pós-apocalípticos e invasões alienígenas até hoje.

A Guerra dos Mundos é uma grande especulação de como seria se seres vivos de outro planeta, superiores aos terráqueos em inteligência e tecnologia, pudessem nos observar e nos invadir, com o intuito de tomar nosso mundo.

Neste caso o planeta seria Marte, que aqui estaria envelhecendo e obrigando seus habitantes a procurar um novo lar. A Terra seria um bom substituto para os marcianos e eles iniciam uma invasão de início tímida, e em seguida, destruidora.

O narrador constrói uma grande tensão, anunciando as tragédias que se seguirão à chegada dos marcianos ao mesmo tempo que nos relata cada momento por que passa, entre medo, pavor e especulações científicas e filosóficas. A história é contada do ponto de vista dele, no interior da Inglaterra, e do ponto de vista do seu irmão, em Londres.

A grande reflexão da obra é sobre o abuso de poder de seres dominantes: Wells faz o leitor pensar sobre a maneira como tratamos os outros animais e até mesmo nossos semelhantes sobre os quais temos domínio. Que argumento relativo à sobrevivência nós teríamos se houvesse uma espécie mais desenvolvida intelectualmente que a nossa, e com mais recursos tecnológicos? Como nos sentiríamos se passássemos a ser alimento para uma espécie superior? Diante dos marcianos os humanos são, durante todo o livro, sempre comparados a pequenos animais – insetos, coelhos, ratos –, facilmente controlados.

“Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob o tacão dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.”

O narrador fica a maior parte do tempo sozinho e interage de verdade apenas com dois personagens-ideias: um padre e um artilheiro. O primeiro é o típico homem contraditório ao seus princípios, cheio de medo e desesperança. O segundo revela-se um homem prático e frio, aquele que se adequaria ao novo mundo, ainda que com uma moral duvidosa. Eles servem de contraponto ao narrador, aquele que tenta encontrar um equilíbrio diante de tanta tragédia, que busca tão somente a sobrevivência e o encontro com os seus.

A narrativa tem um ritmo tenso de ação na maior parte do tempo, o que a deixa um tanto cansativa. O autor traz poucos diálogos e momentos mais reflexivos, deixando-os mais para o final do livro. Comparando com outros livros do autor, como A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, as especulações e reflexões não foram tão desenvolvidas, e o ritmo de fuga do narrador, correndo para lá e para cá, bem que justifica a escolha de Tom Cruise – conhecido por estar sempre correndo nos filmes – em seu papel na adaptação cinematográfica mais atual da obra. Ainda assim trata-se de uma boa leitura, que impressiona pela grande imaginação de Wells, sua criação de referências e sua preocupação com os grandes desafios da humanidade moderna.

“Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?
– O que somos nós? – respondi, limpando a garganta.”

A hora dos ruminantes – José J. Veiga

interlunio17-ruminantesManarairema é uma cidade muito pequena, em algum lugar do Brasil, que ainda vive um momento sem energia elétrica e com poucos recursos de desenvolvimento. Um dia seus moradores se deparam com um acampamento misterioso para além do rio e começam a se perguntar o que isso poderia significar, se vantagem ou ameaça. Aos poucos vão chegando a uma conclusão: a cidade não será mais a mesma, e seus habitantes, que tanta certeza tinham das coisas, agora estão tendo que se adaptar a essas mudanças. Assim inicia A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, publicado em 1966 e considerada uma das poucas narrativas longas de realismo mágico brasileiro.

A novela divide-se em 3 partes: A chegada, quando o acampamento se instala e já se percebe o quanto alguns personagens já aceitam a nova situação; O dia dos cachorros, quando a cidade é inexplicavelmente invadida por um enorme número de cães e curiosamente o povo passa a cuidar com um certo carinho daqueles que o ameaçam; e O dia dos bois, quando a invasão é feita por tantos bois que as pessoas não conseguem nem mesmo sair de suas casas. Cada invasão representa um tipo de opressão sofrida pelos moradores de Manarairema, sendo a dos bois a mais extrema, pois ela acaba com qualquer tipo de liberdade e de coletividade, “a vida restante tinha de ser vivida dentro de cada um”.

A hora dos ruminantes pode ser visto como alegórico para diversas situações e apesar de ser geralmente considerado uma alegoria ao período de ditadura no Brasil, penso que pode ser visto como alegoria para qualquer tipo de opressão sobre uma comunidade, seja ela uma vila ou um país. Trata-se de um povo que se sente perdido por não entender por que e como as coisas acontecem e que apenas lida do jeito que pode com o medo de quem aparentemente tem mais poder. A ingenuidade perante o mistério gera medo e raiva, mas também admiração e respeito, e cada personagem dessa história vai reagir do seu jeito, exatamente como os seres humanos reagem em situações onde devem calcular o que pesa mais na balança, se a vida ou a justiça.

O texto de Veiga é leve e preciso e mistura discurso direto com indireto livre de uma forma que deixa a narrativa com muita intimidade entre leitor e personagens. O pensamento destes e sua linguagem, carregados de provérbios e dizeres populares, estão amarrados à narrativa e justificam suas ações e atitudes o tempo todo. A escolha de palavras é singular e certeira, mas ao mesmo tempo muito natural e lírica, o que deixa a leitura muito agradável.

Veiga oferece um final bonito, de esperança, mas também questionador: quando a opressão dá trégua, o que devemos fazer para que a situação não se repita? Que tipo de cercas devemos construir para que os bois não passem novamente?

“Mas os males ainda inéditos, o trabalho de passar a vida a limpo, as revisões, o desentulho… – saberiam eles aproveitar certo as lições?”

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Essa leitura faz parte do Desafio Livrada! 2015.