Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley


A primeira vez que li Admirável Mundo Novo, há uns bons 15 anos, imediatamente ele se tornou um livro favorito. Não sei se por nostalgia ou porque me faça pensar em tantas questões, a segunda leitura me provou que eu continuo amando essa narrativa que prevê um futuro tão assustadoramente perfeito.

Em tudo que leio sobre o livro, o foco é geralmente na questão que resume o panorama da história: seres humanos sendo cultivados em laboratórios, num esquema semelhante à produção de carros e “preparados” de forma a cumprir as funções sociais específicas de sua casta. No entanto, o que mais me comove na história é como as relações humanas seriam se todos fossem felizes.

Nesta Londres de 632 d.F. (depois de Ford), em que “cada um pertence a todos”, ninguém é nada de ninguém. Não há mais pais, mães, irmãos e é de bom tom que se tenha amantes diferentes toda semana. Ora, se não há laços, boa parte do sofrimento humano se resolve. Outra parte resolvida é que você já nasce sabendo qual sua missão na sociedade, pois cada casta é feita para tarefas específicas e cada ser humano é condicionado a abraçar com alegria sua servidão: não há indivíduos essenciais, só a comunidade importa.

“O segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer.”

Dentro de toda essa perfeição, temos 3 personagens que não estão satisfeitos e dentre eles John, que é um rapaz que foi criado praticamente como um selvagem numa reserva indígena. John passou a vida inteira lendo um único livro, as Obras Completas de Shakespeare, como se fosse uma bíblia com respostas para a vida. Em determinado momento ele é levado para viver na civilização e fica cada vez mais horrorizado com esse mundo asséptico.

Depois de perceber que a civilização não era o que ele esperava, John começa a defender o direito que cada um de nós tem de ser triste, de ficar sozinho, de chorar, de se desesperar, de sofrer. Num mundo onde a felicidade é obrigatória, esse direito não existe. Num mundo onde se é diferente, você estará sempre sozinho.

“- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
– Em suma – disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.”

Também não há mais intimidade. Há um momento em que a personagem Lenita argumenta que fazer as coisas de maneira íntima seria como não fazer nada, o que me lembrou muito o que vivemos hoje com as redes sociais: se não foi compartilhado, o acontecimento não foi vivido. E este é apenas um exemplo de previsões que se tornaram semelhantes ao que vivemos hoje neste livro escrito em 1932.

Talvez exatamente por isso, por tantas previsões serem realidade ou serem extremamente possíveis hoje, o impacto do livro não é tão forte como poderia ser em outras distopias. O próprio Huxley aponta algumas escolhas equivocadas na história, principalmente sobre o destino de John, mas como isso não é o mais significativo pra mim enquanto leitora, a riqueza e beleza do livro permanece, é uma obra pela qual tenho muito carinho.

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Sou uma apaixonada por histórias em diversos formatos: livros, filmes, quadrinhos, desenhos, seriados, o que for. Este blog tem a intenção de registrar minhas leituras e comentar um pouco as coisas que leio e assisto. Os textos não têm a mínima pretensão de serem resenhas, são apenas observações pessoais sobre o que tiver me chamado mais atenção nas obras. Geralmente spoilers são muito pessoais, então não posso prometer que eles não apareçam, mas vou procurar não entregar nada de mais importante.
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