Aos 7 e aos 40 – João Anzanello Carrascoza

interlunio58-7e40A idade dos 7 aos 9 anos sempre me pareceu uma época da vida que é definitiva. Parece um tempo em que tudo se estabelece, as escolhas já foram feitas, os valores estão formatados e o aprendizado que se seguirá dificilmente nos atingirá no cerne, apenas naquilo que temos de mais maleável.

Em Aos 7 e aos 40 temos um vislumbre do quanto esse pedaço de infância pode nos deixar marcados e o quanto essa saudade do que foi pode ser um bálsamo para as feridas da vida adulta.

Dividido em dois tempos narrativos, este pequeno romance de Carrascoza fala da vida de um menino aos 7 anos – com um narrador em primeira pessoa – e o mesmo com sua idade atual, seus 40 anos – com um discurso em terceira pessoa, e em versos. O menino descreve suas brincadeiras, seus amigos de rua e escola, suas partidas de futebol com o irmão mais velho, o treinamento de salto em altura, os conselhos certeiros da mãe, as conversas no carro com o pai e o primeiro amor, sua prima Teresa. Esse narrador criança lembra muito os de José J. Veiga, meninos com muita doçura, encanto pela vida, inocência e vivacidade. Já o homem é descrito por suas perdas, a separação da esposa, a saudade do filho que só vê aos finais de semana, a lembrança de quando era apenas um menino e podia se sentir feliz.

Os capítulos são divididos em categorias contrárias, demarcando bem a diferença entre os dois períodos de vida: Depressa e Devagar, Leitura e Escritura, Nunca mais e Para sempre, Dia e Noite, Silêncio e Som, Fim e Recomeço. Enquanto o menino é “fiel ao seu instante”, existindo para o dia, isto é, cada dia serve para ser aproveitado, o homem vive seus anos, o que passou e o que ainda está por vir. Enquanto o menino é transparência, o homem é entrelinha. E nesse encontro de lembrança e realidade, o homem quer voltar ao começo para ver se consegue resgatar o que sentia, seja a sensação de ver pela primeira vez os olhos e o sorriso de Teresa, seja a emoção de ir com um amigo pegar um passarinho na arapuca.

“Às vezes, é preciso mesmo olhar pra trás se queremos ir em frente.”

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O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

interlunio56-inventarioDividido em duas partes, O inventário das coisas ausentes é um romance curto, de narrativa ligeira e com leves toques de humor e tem como tema principal o encontro amoroso, o momento em que as pessoas descobrem o que é o amor.

A primeira parte tem um enredo mais embaralhado e simula um caderno de anotações de um escritor que está coletando ideias para um romance. Dessa forma, esse escritor é o narrador e sua personagem principal é Nina, uma moça que conhece no período de faculdade. As histórias contadas aqui são quase todas relacionadas a ela e a sua família. São histórias entre homens e mulheres, casamentos que não deram certo, maridos que foram embora, mulheres que casaram por obrigação, mas aqui e ali alguém descobrindo sua própria definição do que é amor: “então isto é o amor” é a frase que se repete.

A segunda parte, intitulada Ficção, seria a história propriamente dita, a narrativa criada pelo personagem escritor. É a história de um pai e de um filho, o encontro deles depois de 23 anos, bem como sobre a relação desse filho com Nina. Em vez de falar sobre o amor, aqui se fala muito mais sobre não saber o que é o amor, ou não saber manifestá-lo da melhor forma.

É uma daquelas ficções contemporâneas que reflete sobre o fazer literário e o faz bem, mas pessoalmente senti falta de mais desenvolvimento dos personagens, até mesmo da própria Nina, que deveria ser o personagem mais marcante. Sob o véu da narrativa fragmentada, tudo é mais sugestão do que fala e, no fim, parece que nada causou mudanças, não houve movimento, tudo ficou como já estava.

Cristal – Wilson Bueno

interlunio50-cristalApesar de apresentado como romance, Cristal é um livro difícil de classificar como conto, novela, romance ou mesmo poema. A história curta, escrita de forma singular, com parágrafos grandes e repleta de substantivos, tem a força de um poema, é episódica como uma novela, tem a densidade de um romance e ao mesmo tempo tem um final típico dos contos, com um clímax impactante.

Mas esse caráter único não quer dizer que se trata de um texto árido, difícil de ler. Mesmo que a narrativa deixe algo aqui e ali suspenso, aberto a interpretações, Cristal tem um enredo simples e linear, com pouquíssimos personagens.

Temos, assim, antes de mais nada, a Velha, uma costureira aposentada que observa a vida através da vidraça da janela. A Velha é misteriosa porque é um personagem sem memória ou que não quer lembrar do passado. Há poucas lembranças, e a maioria delas está guardada no Baú, recipiente de fotos e outros souvenires. Nas paredes há retratos com molduras ovais, fotos em sépia, pintadas em estranhos tons de laranja e roxo. Do que se lembra da juventude, apenas de uma filha que não sabe ao certo se existiu, um namoro que talvez não tenha vingado, e uma sessão de cinema inesquecível, das primeiras que houveram no mundo.

Tudo começa então quando ela vê, de sua janela, que um homem morto está sendo levado para a frente da igreja. Tratava-se de um alemão, um homem rico que estava sempre bêbado e morava afastado da cidade, num pequeno sítio. Ao entrarem na casa do sujeito, que havia se enforcado, descobrem que lá havia um recém-nascido e este acaba ficando aos cuidados da Velha, ela que sempre quis ter um filho.

“Isso tudo a Velha começou a ver, rente à persiana da sala, detrás do cristal da vidraça, naquela tarde de agosto de mil novecentos e setenta e seis.”

O pequeno Ananias cresce então com a Velha, que o veste como se fosse uma menina, pinta-o como se fosse um anjo ou um santo, enfeita-o como quem borda sobre um vestido. Isso quando não há ninguém por perto, e quase não há ninguém por perto, apenas o padre Anselmo, com suas vestes de corvo, e a vizinha Sirigaita, objeto de ódio da Velha.

É um texto muito poético, em que cada palavra é pensada, cada frase é lapidada, e cada personagem tem um tom simbólico de morte, de vida, de loucura, de fé. E a presença do cristal está não apenas na janela que turva a visão, mas nas gotas de chuva, nos caminhos com cacos que cortam os pés e sobretudo na dureza, de quem já tomou forma e não sabe mais ser maleável, mostrando que sonhos caducos talvez não devessem se realizar.

Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon

interlunio42-caubóisEm um bom livro de estrada geralmente se espera bons personagens, um percurso interessante, muitos personagens secundários memoráveis, pequenas aventuras nas cidades de pouso e um certo crescimento dos viajantes, que a partir do afastamento de casa devem lidar com seus fantasmas interiores para tentar resolver internamente o que deixaram para trás.

Todos nós adorávamos caubóis, com o perdão da piada infame, fica no meio do caminho em relação a essas características, mas se salva como um bom livro apenas pela escrita leve e envolvente da autora, bem como pelas ótimas referências a quem foi jovem no final do século passado e começo deste século.

Cora é a narradora dessa viagem de carro pelo interior do Rio Grande do Sul, um sonho que compartilha com sua amiga-quem-dera-namorada Julia, com quem não falava há alguns anos. As duas vão parando em pousadas de cidadezinhas e conversando sobre seus problemas familiares e o passado que tiveram juntas, antes de Cora ir morar em Paris e Julia morar em Montreal. A autora foi muito corajosa ao construir uma protagonista tão arrogante e egocêntrica, com problemas tão comuns a uma adolescente, e não a uma jovem adulta. Julia é um contraponto, mas não tem tutano suficiente para causar um impacto maior.

O que mais incomoda no livro (e para alguns leitores isso será uma qualidade) certamente é a sensação de que essa viagem poderia ser para qualquer lugar, ou ainda, para lugar nenhum, que elas apenas queriam acertar os ponteiros da relação e passar um tempo juntas. As duas viajantes – especialmente Cora – não querem conhecer ninguém no caminho, elas se julgam muito superiores às pessoas que moram naquelas cidades, elas não têm nada a aprender com elas. Todos os personagens que encontram são descritos como pessoas esquisitas, cenários humanos para a viagem.

O foco apenas no romance das duas e a falta de cuidado com a história, muito superficial, me fez lamentar a oportunidade de Bensimon de construir um grande livro. Ainda assim não há como negar que a autora escreve bem e foi uma leitura agradável na maior parte do tempo, especialmente na primeira metade do livro, quando ainda há grandes expectativas e as histórias delas anteriores à viagem são bem mais interessantes. Talvez para conversar e namorar não fosse necessário ter gastado tanta gasolina.

Zero – Ignácio de Loyola Brandão

interlunio37-zeroPublicado em 1974, primeiramente na Itália e só depois no Brasil, Zero é um romance que oferece um retrato pungente de sua época, pois foi escrito pela necessidade de grito diante da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), um período marcado pela censura cultural e o controle dos indivíduos no que eles tinham de mais íntimo, assim como a prisão, tortura e assassinato de pessoas que se opusessem de qualquer forma ao regime.

Extremamente experimental, Zero é um dos romances mais incomuns com que um leitor pode ser deparar na Literatura, pois ele intenta retratar o caos tanto no conteúdo quanto na forma e isso fica evidente pelos vários tipos de textos que se apresentam ao longo da narrativa: a simulação de recortes de jornal, propagandas, cartazes, inscrições de banheiro, letras de músicas e inúmeros outros tipos de texto vão criando uma paisagem do país e seu contexto histórico-social. A diagramação é inusitada, semelhante a de um almanaque, com diversas tipografias, para cada gênero de texto e para cada tipo de efeito. O autor queria ter utilizado até quadrinhos no corpo do livro, o que não foi possível na época de publicação. Além disso, as notas de rodapé oferecem um ponto de vista à parte, com o próprio autor (ou um narrador onisciente, como queira) conversando com a história e ironizando o que está sendo feito ou dito pelos personagens.

O protagonista de Zero é José Gonçalves, um homem comum, que mata ratos num cinema vagabundo. Ele conhece Rosa, sua futura esposa, através de uma agência matrimonial e vive uma relação de amor e ódio com ela, com inúmeros momentos tanto de intensas atividades sexuais como de enormes brigas. Ao longo do livro, José vai se tornando cada vez mais inconformado com o mundo e sua situação neste, até que torna-se um criminoso, e a partir daí o livro vai ficando cada vez mais caótico e violento. O personagem é um símbolo exagerado do inconformismo e do caos:

“Eu fico puto da gente ir aceitando assim, por aceitar, porque está pronto, não precisa mexer. Na verdade, não é bem puto, eu fico confuso, me atrapalha. Às vezes, para mim, uma coisa é quatro e não sete, como eles estão dizendo, mas eles não podem ver como eu posso, que ela é quatro. Eu sinto dentro de mim a linguagem das coisas me dizendo: eu não sou isso, sou aquilo. E tenho que acreditar nas coisas, sejam pedras, paus, plásticos, ferros, papel, flores, o que for.”

Enquanto ocorre a saga de José, acompanhamos outras pequenas sagas, e a partir delas o autor aproveita para fazer várias críticas à situação dos brasileiros. Um exemplo disso é a história de Carlos Lopes, que enfrenta uma burocracia esdrúxula e massacrante para que o filho doente seja atendido por um médico. Em outro momento ele põe em foco a falta de identidade dos conjuntos habitacionais, com a personagem Rosa perdida quando volta para sua casa pela primeira vez e não sabe localizar onde mora. Ele ironiza a sufocante padronização de tudo, a proibição do pensamento, do sexo, do prazer, sobretudo das mulheres.

Na edição comemorativa de 35 anos da Global Editora há um depoimento do autor chamado “E se eu não tivesse tido coragem de publicar o Zero naquele ano de 1974?” em que ele comenta como o livro foi se formando, a partir de vários textos que eram censurados no jornal Última Hora, local em que trabalhava na década de 60. Brandão imaginou que tudo aquilo poderia ser aproveitado, uma história que contasse aquilo que não poderia ser dito. Tudo é narrado da forma mais enxuta possível, pois o leitor já conhece a realidade do que lê. Não há necessidade de muitas descrições, daí o grande número de sugestões, com a enorme variedade de textos que compõem o romance. Não é exatamente um livro para apreciar a leitura: é um livro para pensar e para constatar que o passado não faz a menor falta.

Esta leitura faz parte do Projeto Lendo a Ditadura.

Selo_lendoaditadura.blogspot.com

Os cavalinhos de Platiplanto – José J. Veiga

interlunio23-cavalinhosA maioria dos autores do chamado realismo mágico costuma comentar que suas histórias nada têm de mágicas, que o que ocorre de estranho nelas ocorre no cotidiano das pessoas, que tudo depende do ponto de vista do que é considerado ou não verdade, e com José J. Veiga não era diferente. Fantástica ou apenas realista, não importa: a literatura mostra apenas o que é possível e esse possível quanto mais amplo, melhor. Quem pode dizer o que é ou não real?

Em Os cavalinhos de Platiplanto, publicado em 1959, o possível vem na forma de dois mundos. As histórias quase sempre têm dois planos, dois lugares distintos por onde os personagens transitam. Algumas vezes um dos planos representam o outro lado, o desconhecido, o sonho ou a imaginação. É o caso dos contos “Os cavalinhos de Platiplanto”, “A Invernada do Sossego”, “A espingarda do rei da Síria” e “Os do outro lado”. No primeiro um menino deseja ganhar um cavalo do seu avô mas depois que este fica doente a promessa fica sem ser cumprida da forma que ele esperava. No segundo também temos um menino e seu irmão, quando têm que lidar com a morte de seu cavalo de estimação. O terceiro mostra a fantasia de um homem que perdeu sua espingarda e consequentemente foi perdendo o respeito de todos à sua volta. E no quarto um rapaz entra em uma casa misteriosa, depois de seguir uma borboleta, e lá entra em contato com o mundo dos que já se foram.

Esse outro lado, portanto, pode ser um refúgio interno, um consolo pela perda. Mas em outras vezes um refúgio externo também, como em “A Ilha dos Gatos Pingados”, em que um grupo de meninos encontra uma ilha para brincar e ela se apresenta como um lugar de paz para um deles, que apanha constantemente do namorado da irmã. Este conto tem uma atmosfera bem semelhante às aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, e Silviano Santiago, no prefácio para essa edição da Companhia das Letras, comenta sobre sua semelhança com o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade e o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

A infância, inclusive, toma de conta das histórias, e a criança, especialmente a criança menino, se encontra em situações em que deve se tornar adulta ou responsável por coisas sérias, mesmo quando ainda é muito cedo para isso. É o que ocorre em “Fronteira”, por exemplo, sobre um menino que acompanha pessoas pelos caminhos para que se sintam seguras e em “Tia Zi rezando”, em que os tios de um menino órfão escondem um segredo e farão de tudo para que ele nunca descubra. Da mesma forma em “Roupa no coradouro”, o conto mais emocionante da coletânea, um menino tem que lidar com a falta do pai, que está viajando, e cuidar da mãe, que acaba ficando muito doente.

Narrado sempre em primeira pessoa, os personagens do livro são pessoas frágeis, crianças ou homens sem poder, que se deparam com um outro superior e opressor. Agem segundo o desespero de não saber o que se passa em suas próprias vidas, de não terem controle até mesmo de suas escolhas, de não acharem espaço para a justiça, pois esta é reservada para poucos.

Não à toa essas histórias acontecem no campo, em fazendas ou cidades pequenas, lugares que remetem a uma vida mais primitiva. “A usina atrás do morro” é um dos contos que mais deixa clara essa condição de ignorância, impotência e opressão. Tem uma narrativa muito semelhante ao romance A hora dos ruminantes, em que moradores de uma pequena cidade se vêem cercados por pessoas de fora, que com um suposto progresso vão causando danos à população. Em um nível mais pessoal, o conto “Professor Pulquério” mostra um homem obcecado pela possibilidade de que haja um tesouro na cidade e acaba sendo marcado pela desconfiança e pelo desprezo. Já no conto “Entre irmãos” o estranhamento que vem do outro se revela entre dois irmãos que não se conhecem e que tentam conversar pela primeira vez. Mas é em “Era só brincadeira” que observamos o extremo da injustiça e da violência: em uma situação um tanto kafkiana, um homem se vê enredado por uma acusação que ele desconhece e a coisa é tão absurda que ele acredita que só possa ser uma brincadeira.

Mágica ou não, a literatura de José J. Veiga é antes de mais nada, crítica e reflexiva. Se as situações vividas pelos personagens parecem estranhas é porque a própria vida pode parecer ainda mais bizarra, sobretudo por conta da injustiça, seja em um nível social, seja nas relações pessoais. O autor nos mostra que o absurdo está mais presente no cotidiano do que nas fugas que inventamos para escapar dele.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

A hora dos ruminantes – José J. Veiga

interlunio17-ruminantesManarairema é uma cidade muito pequena, em algum lugar do Brasil, que ainda vive um momento sem energia elétrica e com poucos recursos de desenvolvimento. Um dia seus moradores se deparam com um acampamento misterioso para além do rio e começam a se perguntar o que isso poderia significar, se vantagem ou ameaça. Aos poucos vão chegando a uma conclusão: a cidade não será mais a mesma, e seus habitantes, que tanta certeza tinham das coisas, agora estão tendo que se adaptar a essas mudanças. Assim inicia A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, publicado em 1966 e considerada uma das poucas narrativas longas de realismo mágico brasileiro.

A novela divide-se em 3 partes: A chegada, quando o acampamento se instala e já se percebe o quanto alguns personagens já aceitam a nova situação; O dia dos cachorros, quando a cidade é inexplicavelmente invadida por um enorme número de cães e curiosamente o povo passa a cuidar com um certo carinho daqueles que o ameaçam; e O dia dos bois, quando a invasão é feita por tantos bois que as pessoas não conseguem nem mesmo sair de suas casas. Cada invasão representa um tipo de opressão sofrida pelos moradores de Manarairema, sendo a dos bois a mais extrema, pois ela acaba com qualquer tipo de liberdade e de coletividade, “a vida restante tinha de ser vivida dentro de cada um”.

A hora dos ruminantes pode ser visto como alegórico para diversas situações e apesar de ser geralmente considerado uma alegoria ao período de ditadura no Brasil, penso que pode ser visto como alegoria para qualquer tipo de opressão sobre uma comunidade, seja ela uma vila ou um país. Trata-se de um povo que se sente perdido por não entender por que e como as coisas acontecem e que apenas lida do jeito que pode com o medo de quem aparentemente tem mais poder. A ingenuidade perante o mistério gera medo e raiva, mas também admiração e respeito, e cada personagem dessa história vai reagir do seu jeito, exatamente como os seres humanos reagem em situações onde devem calcular o que pesa mais na balança, se a vida ou a justiça.

O texto de Veiga é leve e preciso e mistura discurso direto com indireto livre de uma forma que deixa a narrativa com muita intimidade entre leitor e personagens. O pensamento destes e sua linguagem, carregados de provérbios e dizeres populares, estão amarrados à narrativa e justificam suas ações e atitudes o tempo todo. A escolha de palavras é singular e certeira, mas ao mesmo tempo muito natural e lírica, o que deixa a leitura muito agradável.

Veiga oferece um final bonito, de esperança, mas também questionador: quando a opressão dá trégua, o que devemos fazer para que a situação não se repita? Que tipo de cercas devemos construir para que os bois não passem novamente?

“Mas os males ainda inéditos, o trabalho de passar a vida a limpo, as revisões, o desentulho… – saberiam eles aproveitar certo as lições?”

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Essa leitura faz parte do Desafio Livrada! 2015.

Dois Irmãos – Milton Hatoum

interlunio-doisirmaos_02Uma famosa parábola bíblica [Lucas 15:11-32] conta que um filho volta à casa arrependido depois de ter desperdiçado sua herança, exigida antes mesmo do pai morrer. O irmão mais velho, que sempre ajudou o pai, fica ressentido por vê-lo perdoar e receber o irmão mais novo com festas. O pai argumenta que o amor vence todas as coisas. Ao iniciar a história de Yaqub e Omar, podemos pensar em um primeiro momento que Dois irmãos quer recontar a parábola do filho pródigo, mas o romance de Hatoum vai muito mais longe que isso, pois leva essa dualidade mérito e justiça versus amor e perdão às últimas consequências.

Zana e Halim são libaneses morando em Manaus na década de 40. Com uma história de amor iniciada por causa de um poema, acabam casando e tendo 3 filhos, os gêmeos Yaqub e Omar, e uma menina chamada Rânia. Com eles mora Domingas, uma órfã índia que lhes serve de empregada e cujo filho, de pai desconhecido, também acaba trabalhando na casa. Este filho é o narrador da história, que conhece os segredos da família através da mãe e dos desabafos de Halim. Algumas vezes o mesmo episódio é contado de maneira diferente pois ele conta as diversas versões que ouviu.

“Muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final.”

O filho de Domingas deixa bem marcado todo o antagonismo entre os irmãos gêmeos e a sua rivalidade, nascida da preferência de Zana por Omar e da indiferença de Halim, que não desejava ter filhos. Ele mostra o quanto são opostos, um mais tímido, outro mais atirado; um mais sério, outro mais aventureiro, num jogo de espelhos em que cada um é o torto do outro. Um vive para provar ao outro que é superior, que pode fazer o que o outro não pode.

Por Yaqub Zana parece sentir apenas orgulho, por Omar, um amor doentio. Não à toa Yaqub é praticamente criado por Domingas e, depois de uma briga entre os dois irmãos, é Yaqub que é enviado ao Líbano com 13 anos de idade, o que o deixa com uma marca perene de filho enjeitado. Com o tempo, Yaqub já no Brasil torna-se engenheiro e vai morar em São Paulo. E assim ele encontra sua força: ele permanece na família como um retrato na parede da sala, sempre perfeito. A sua ausência o transforma num ídolo. Enquanto Omar segue sua vida de farrista, sem trabalhar, mimado pelas mulheres da casa e ainda assim o mais amado pela mãe, o que causa o distanciamento de Zana e Halim.

“Naquela época, Yaqub e o Brasil inteiro pareciam ter um futuro promissor.”

Passeando pela história dessa família também entramos em contato com um pouco da história do país, a interferência do regime militar no cotidiano e sobretudo com a história e a geografia de Manaus do século passado, com seus rios, portos, praças, bairros como a Cidade Flutuante, e suas ruas repletas de estrangeiros. Mas a sensação que fica é que estes personagens estão em outro plano, que suas vidas pessoais são maiores que o mundo, que a tragédia diária de irmãos que se odeiam, de um casal que se distancia, de uma solidão abafada ou de uma vida escrava que não sabe fugir, gritam mais alto que tudo. A recompensa pelo esforço parece nunca chegar. Assim como na parábola, o que vai vencer é o amor e o perdão, mas quais serão as consequências dessa escolha e quem pagará por isso? Ao contrário da história bíblica, não há lugar para arrependimentos, afinal Omar não é o filho pródigo que volta arrependido, ele é o filho pródigo que volta todas as noites apenas para descansar.

Ela tem olhos de céu – Socorro Acioli [Vencedor do Prêmio Jabuti 2013 de Livro Infantil]

43_olhosA primeira vez que li esse livro, ainda antes de vê-lo impresso, fiquei apaixonada por essa história ao mesmo tempo melancólica e cheia de humor, contada em versos por Socorro Acioli e ilustrada maravilhosamente por Mateus Rios. Trata-se da história de Bastiana, uma menina que comanda o clima de sua cidade conforme suas emoções. Se está bem, faz sol. Se chora, o céu chora junto. Em Santa Rita do Norte (talvez uma referência à santa que faz florescer o que está seco) o povo sofre com a falta de chuva e logo que Bastiana nasce, já traz com seu choro uma tempestade.

“Quanto mais ela chorava
Mais o céu escurecia”

Se de início o acontecimento parece uma benção, com o tempo vai se tornando um fardo para a moça e a família, já que as pessoas vão querer usar Bastiana conforme suas necessidades de estiagem ou chuva. E ao descobrir o que a faz chorar e o que a faz feliz vão assim manipulando suas lágrimas, tirando-lhe a paz, o que culmina com a tentativa de expulsá-la da cidade.

Essa bela aventura de cordel não tem um final típico do gênero e talvez aí eu esperasse algo mais dentro do padrão, com o problema de Bastiana mais resolvido, por exemplo, ou mesmo prolongado por um grande amor – o que é apenas indicado como possibilidade na história. Também não há um padrão rigoroso no número de sílabas dos versos, o que dá uma leve rasteira no ritmo poético aqui e ali, mas nada que comprometa o poema como um todo. O diálogo entre Acioli e Rios, no entanto, foi perfeito: os dois trabalham muito bem a dualidade do sol e da chuva, do marrom e do roxo, do seco e do molhado, do feliz e do triste.

No mais, um lindo livro para todas as idades e um prêmio mais do que merecido a uma autora que ainda vai dar muito o que falar na Literatura Brasileira.

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