Oscar e a Senhora Rosa [Trilogia do Invisível, parte 3] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio45-oscarOscar e a Senhora Rosa
Nessa última parte da Trilogia (o autor ainda tem mais 3 obras que tratam de religiões) encontramos mais uma vez a amizade de uma criança com uma pessoa mais velha que não é da família. Oscar tem 10 anos e acabou de passar por um transplante de medula óssea, mas a cirurgia não deu resultado. Como os pais não estão sabendo lidar com sua doença, ele conta com a ajuda de uma simpática senhora que é voluntária no hospital. Por causa da cor rosa usada pelos voluntários, ele a chama de Vovó-Rosa.

Vovó-Rosa é uma senhora muito bem-humorada e está sempre contando para Oscar suas estripulias da juventude, quando era lutadora de catch. É com essas histórias e com sua sinceridade que ela o ajuda na difícil situação de saber que ele vai morrer em breve: ao que parece Oscar tem cerca de 12 dias de vida. Então ela sugere duas maneiras de lidar com o inevitável: escrever cartas a Deus e viver cada dia como se fossem 10 anos.

A narrativa é constituída por essas cartas de Oscar a Deus e nelas ele conta sobre sua rotina no hospital, seus amigos – outras crianças doentes – e sua namoradinha, Peggy Blue. A cada dia, fingindo ser mais velho 10 anos, Oscar se despede da vida vivendo-a o mais intensamente que pode. Apesar do tom melodramático da história – afinal é sobre a possível morte de uma criança – o autor soube construir personagens marcantes e possibilitou momentos de muito humor. Dessa vez o autor não foi tão específico em relação à religião evocada mas o Cristianismo aqui parece ser o Católico, e as categorias trabalhadas são a fé e o desenvolvimento da espiritualidade.

“A vida é um presente estranho. No início, superestimamos esse presente: imaginamos ter ganhado a vida eterna. Depois subestimamos, achamos uma porcaria, curto demais, até seríamos capazes de jogá-lo fora. Enfim nos damos conta de que não era um presente, mas sim um empréstimo. Então procuramos merecê-lo.”

A Trilogia do Invisível tem um apelo bem popular com sua linguagem simples e narrativas curtíssimas, permeadas de frases tocantes. Ela tem um sentido mais completo ao ser lida como um todo, mas cada livro é independente, e apesar de tocarem muito superficialmente nas questões religiosas, os livros podem interessar a quem aprecia histórias que envolvem espiritualidade, independentemente de suas crenças pessoais.

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Seu Ibrahim e as Flores do Corão [Trilogia do Invisível, parte 2] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio44-coraoSeu Ibrahim e as Flores do Corão
Nesta segunda narrativa o autor consegue dar bem mais corpo à história, que aqui nesse caso irá sintetizar o Islamismo, mais especificamente o Sufismo. Moisés, ou Momô, é um jovem judeu parisiense de 12 anos que, abandonado pela mãe e completamente desprezado e ignorado pelo pai, tem que se virar para encontrar algum carinho com as prostitutas da rua Paraíso e com as conversas com o árabe da rua Azul, Seu Ibrahim.

E é nessa amizade com Seu Ibrahim, que na verdade não é árabe, mas muçulmano, que Momô vai encontrar seu verdadeiro lar. Uma amizade que começa com a visita de Brigitte Bardot à mercearia de Ibrahim e desemboca em uma viagem de carro rumo à sua cidade natal. O livro é quase uma coleção de pérolas de sabedoria soltas por Ibrahim, baseadas na filosofia sufi, que acredita que a relação do homem com Deus deve ser direta e íntima e que a verdade é adquirida por êxtase mediante certas práticas.

Mesmo com pouquíssimas páginas, o autor consegue dar aos personagens Moisés e Ibrahim um desenho muito satisfatório, causando empatia no leitor que entende a simplicidade do livro. Muita coisa acontece, mas são as conversas entre os dois que dão um tom de beleza e humor à história, de tal maneira que a amizade, ou o amor, se sobressai de tal maneira que a religião aparece apenas nas entrelinhas.

“Seu amor por ela é seu. Pertence a você. Mesmo que o recuse, ela não pode modificar isso. Ela não o aproveitará, é só. O que você dá, Momô, é seu para sempre; o que você guarda, está perdido para sempre!”

Milarepa [Trilogia do Invisível, parte 1] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio43-milarepaMilarepa
Simon é um parisiense que sofre de um pesadelo recorrente: em um local montanhoso, estranho e lúgubre ele procura por um homem que odeia, a fim de matá-lo. Um dia ele encontra uma mulher misteriosa que afirma que ele é a encarnação de Svastika e o homem que odeia é Jetsün Milarepa, o grande iogue tibetano, que fora discípulo de Marpa Lotsawa. A única maneira de Simon se libertar é contar sua história com Milarepa centenas e centenas de vezes. Interessante perceber que, ao narrar tantas vezes a mesma história, Svastika ora conta tudo sob seu ponto de vista, ora toma o lugar de Milarepa, fazendo com que os dois se tornem um só, de certa forma.

Svastika era tio de Milarepa e quando o pai deste morre ele resolve ficar com toda a herança e tornar seu sobrinho um criado. Quando adulto, Milarepa resolve se vingar e, mais tarde, arrependido de ter praticado tantos atos ruins, procura o mestre Marpa para se tornar um discípulo e assim irá passar por muitas provas até se tornar um mestre também.

“Tinha percebido também que meu corpo é uma embarcação frágil: se o abarroto de crimes, ele naufraga; se alivio seu peso praticando o desapego, a generosidade, o altruísmo, ela me leva a um bom porto.”

As narrativas da trilogia parecem ter uma intenção de simplificar as ideias gerais de cada religião, e no caso de Milarepa se sobressaem o valor da meditação e a busca pela libertação dos desejos, que são a causa do sofrimento humano, segundo o budismo. É uma história que funciona como uma introdução ao credo e tem um apelo bem popular, o que é compreensível pela temática. Mas talvez por ser tão breve e tão simbólico Milarepa não dê conta de algo tão amplo, funcionando mais como parte do todo que é a trilogia do que como um livro com força própria.