Peter e Wendy – J.M. Barrie

18_peterPeter e Wendy não parece ser um livro que muita gente tenha lido, apesar de todos conhecerem a história através de adaptações. Mesmo na infância, nunca me senti empolgada com os personagens e sua aventura na Terra do Nunca. Mas como recentemente histórias infantis têm me chamado (mais ainda) a atenção, não resisti a essa bonita edição da Cosac Naify, em que a sobrecapa se transforma em luminária.

Ler a obra original não me fez mudar muito de idéia com relação aos personagens, ainda que eles sejam bem construídos por Barrie. Peter tem todas as virtudes e defeitos da infância exacerbados, e isso o deixa ora muito divertido, ora muito desagradável. Já Wendy é uma espécie de não-criança, pois toda sua energia é voltada pra fantasiar que é adulta. A vida deles na Terra do Nunca é fazer de conta que são pais dos Garotos Perdidos, como se brincassem de casinha. O papel de Peter se divide em outros, pois além disso ele é amigo, herói, líder. Mas Wendy é apenas uma frágil mãe, com funções domésticas, incapaz de atos de bravura, servindo apenas para confortar meninos carentes de amor materno.

O que mais me envolveu na obra foi ver como as crianças são retratadas de uma maneira realista, sem aquela chata romantização de que elas seriam anjinhos: o Pan de Peter parece apontar para um estágio onde a moral ainda não foi construída, um mundo de natureza pura, com espaço tanto para a inocência quanto para a crueldade, a violência e o egocentrismo:

“Afinal, as crianças estão sempre prontas, quando uma novidade se oferece, a abandonar as pessoas de que mais gostam.”

Se existe alguma romantização da infância no livro é no ponto em que ela é mostrada como um mundo mágico onde tudo é possível, inclusive poder voar, mas no fundo é isso mesmo que acontece com a imaginação infantil e isso só funciona por muito tempo para Peter, pois todas as outras crianças acabam escolhendo crescer. Por mais que a infância tenha suas vantagens, nós geralmente só nos damos conta delas depois de grandes.

A narrativa de Barrie é outro elemento de muito valor em Peter e Wendy. Não sei se porque o livro foi escrito com base em sua peça de teatro, mas a interação com o leitor é contínua, trazendo-o para dentro da obra, permitindo que ele participe do rumo da história e ao mesmo tempo antecipe o que vai acontecer, gerando expectativa. É um texto gostoso de ler, com várias camadas de significado, servindo tanto para adultos como para crianças, especialmente para adultos que têm crianças ou que sentem nostalgia de sua própria Terra do Nunca.

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Livros e Leituras de Fevereiro e Março

Nos dois últimos meses tive boas leituras e adquiri coisas novas para a estante:

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Começei completando minha coleção do Livro das Mil e uma Noites, que devo ter começado em 2009. Por sinal, na época cheguei a ler a metade do volume 1 e nunca terminei, não lembro o porquê, mas estava gostando muito. Também de coleção adquiri o volume 4 do The Absolute Sandman. Essa versão está sendo lançada no Brasil pela Panini, mas eu acabei preferindo a edição americana, não só pela linda capa de couro, como por achar que seria interessante reler no original, já que todas as minhas outras versões são brasileiras. Eu devo ter umas 4 edições diferentes de Sandman, tanto em revistas avulsas como encadernados, mas nunca consegui completar nenhuma; sempre que vou reler eu começo com uma e vou para outra, mas espero que essa agora eu consiga todos os volumes.

Ainda em quadrinhos, Retalhos e Habibi, do Craig Thompson. Eu não tenho dúvida de que irei gostar de ambos, mas estou mais empolgada ainda para ler Habibi. O mangá Solanin, de Inio Asano e o livro Matadouro 5, de Kurt Vonnegut são livrinhos de bolso muito recomendados pela Luara e eles me chamaram da prateleira da L&PM. Também veio pra casa O Sentido de um Fim, para a discussão no Fórum Literário. De todos que comprei foi o único que li até agora.

Por fim, dois livros infantis: Ela tem olhos de céu, da minha amiga Socorro Acioli, que veio com um lindo button para quem comprou no dia do lançamento, e Peter e Wendy, de J.M. Barrie, em uma edição bem legal da Cosac Naify, em que a sobrecapa do livro se transforma numa luminária.

E as minhas leituras (clique na imagem do livro para ver texto aqui no blog ou informações do Goodreads):

08_serena09_laranja0110_wood13_sentido
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11_chocolate12_collector14_espadas15_semfim

Coincidentemente, a metade dos livros têm histórias que se passam nas décadas de 60/70 e três foram lidos para o Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Dos que não comentei por aqui:

A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl – a história não era nenhuma novidade pra mim, talvez por isso não tenha me surpreendido tanto, já que as adaptações para o cinema são bem fiéis. Mesmo assim gostei, e tenho vontade de ler alguns outros livros do autor, como Matilda e As Bruxas.

O Colecionador, de John Fowles – lido para o fórum, foi um livro que achei muito bem escrito e envolvente, mas com uma temática que me incomoda bastante. Consegui um exemplar em português fazendo uma troca no skoob, mas como o livro veio muito velho acabei lendo em inglês mesmo, no kindle.

A Tormenta de Espadas [As Crônicas de Gelo e Fogo, #3], de George R.R. Martin – começa devagar, mas do meio para o fim justifica ser considerado um dos melhores da série. Li para me preparar para a terceira temporada da série de tv e estou ansiosa para ver como vão adaptá-lo. Achei que a escrita do Martin deu uma caída em relação aos outros livros, mas pode ser problema de tradução. Contudo, no que diz respeito à trama, nesse ele caprichou.

A História sem Fim, de Michael Ende – esse livro tem grandes qualidades narrativas, mas senti falta de uma certa linearidade, em certo ponto ele toma um rumo episódico que coloca a história principal em segundo plano. Adorei os personagens Atreiú e Fuchur, mas não simpatizei muito com o Bastian, ainda que seja legal que o personagem principal tenha tantas facetas e não seja exatamente bonzinho. Não cheguei a ver o filme na infância – sei lá eu por que essa sessão da tarde não aconteceu pra mim – mas sempre achei muito estranha a produção do dragão Fuchur, que mais parece um cachorro. Pude vê-lo agora e apesar de continuar achando estranho esse Fuchur (que no filme se chama Falkor), até que é uma boa adaptação, bem no estilo dos anos 80. Fiquei surpresa, contudo, ao ver que o filme só cobre metade do livro.