Frankenstein ou O Prometeu moderno – Mary Shelley

interlunio59-frankensteinPublicado em 1818, Frankenstein não apenas se tornou uma das maiores histórias de horror de todos os tempos, como também é considerado o primeiro romance de ficção-científica. Além disso, a história de sua concepção é tão famosa quanto sua narrativa, talvez até mais: Mary Shelley imaginou a história depois de um pesadelo que teve, fruto das discussões com seu marido Percy Shelley, o poeta Lord Byron e outros amigos, sobre a possibilidade do homem de criar vida. Havia entre eles um desafio de cada um escrever uma história de terror e o pesadelo foi então a chave para a jovem escritora, que tinha apenas 19 anos.

A estrutura de Frankenstein é inusitada, com uma narrativa dentro da outra e com várias mudanças de ponto de vista. A primeira camada, que inicia e termina o livro, é constituída por cartas de um cientista inglês chamado Robert Walton para sua irmã Margaret. Walton está viajando pelos mares gelados do norte do planeta em busca de descobertas científicas que o glorifiquem. Um dia ele avista, ao longe, um homem de grande estatura em um trenó puxado por cães. Logo em seguida ele salva outro homem, em outro trenó, que sofrera um acidente. É Victor Frankenstein, um suíço com enorme magnetismo, porém doente e devastado pela dor. Quando Victor percebe que Walton é uma versão do que ele foi, resolve contar-lhe sua história, com a esperança que ele perca a atitude arrogante que ele tinha de colocar a Ciência acima de todas as coisas.

Começa assim a narrativa principal, contada por Frankenstein. Ele inicia relatando como sua infância foi feliz, com pais amorosos e a companhia de seu grande amigo Henry e de sua amada Elizabeth, uma órfã adotada por sua família. Desde cedo, Victor se mostra um entusiasta exagerado da Ciência e seu principal objetivo é realizar grandes feitos à humanidade. E é o objetivo de gerar vida que será tanto sua grande obra quanto sua ruína. E ele consegue isso depois de alguns anos de estudo na Alemanha, longe da família.

A partir de um processo que não é mostrado em detalhes – fica subentendido que Frankenstein usa material humano, mas não explica de que forma –, ele cria um ser e lhe dá a vida. O problema é que apenas quando o ser se move ele percebe o quanto a criatura que ele mesmo fez é grotesca na aparência. Semelhante ao homem, mas de uma outra espécie, muito mais ágil e forte, o monstro é uma criatura gigantesca e de feições desagradáveis ao olho humano, com deformidades, longos cabelos negros e pele amarela. Sem conseguir suportar sua criação ele foge e a criatura some.

Por um tempo Victor Frankenstein vive assombrado com o que fez, mal sabendo que o monstro será responsável por uma série de tragédias em sua vida, sendo a primeira a morte de seu irmãozinho William. Agora ele irá pagar por ser um pai que rejeitou o próprio filho e não soube lhe dar amparo, direcionamento ou compaixão. Quando eles finalmente se encontram, inicia-se uma nova narrativa, dessa vez sob o ponto de vista do monstro. É aqui que se dá um momento grandioso do livro, a conversa franca entre criatura e criador, a tragédia de um e de outro, especialmente do monstro, que à semelhança de Adão, quer entender porque recebeu o sopro de vida e depois foi abandonado. Mas ao contrário deste, e até mesmo de Lúcifer, como ele próprio exemplifica, não chegou a receber amor de seu criador, não pôde contar com a ajuda de ninguém e por ser único no mundo sua desgraça maior é a solidão.

“O anjo caído se transforma num demônio maligno. No entanto, até esse inimigo de Deus e dos homens teve amigos e cúmplices em sua desolação; eu estou sozinho.”

Por conta da clássica associação de que a feiúra é sinal de maldade, ele sabe que nunca vai poder se relacionar com a humanidade, pois todas suas tentativas foram um fracasso. E é aí que ele, desesperadamente, pede a Victor que lhe fabrique uma companhia da mesma espécie. Nesse momento não há como não sentir compaixão pelo monstro. Ele conta tudo por que passou, o descobrimento das primeiras coisas, do fogo, da linguagem, da consciência dos sentimentos e sensações. Inclusive aqui há mais uma narrativa interna sobre uma família francesa desgraçada pela pobreza e que serve como fonte de educação a ele, ainda que apenas como observador. Ele pede para ser amado, aceito. Ele argumenta que o desprezo de todos o fez revoltado e malvado. Mas Victor o perdoará por todos os crimes que já cometeu?

É aqui que se desenrola o grande dilema do romance pois Victor é responsável por tudo que sua criatura faz e não só pagará por rejeitar o “filho”, como também por ter ousado brincar com um ato que é divino. Esse Prometeu Moderno, que faz o homem do barro ou lhe dá o fogo, desafiando os deuses, será punido até o último momento com o fardo pesado da culpa por todas as mortes causadas pelo monstro. Essa responsabilidade de Victor não seria uma manifestação do seu próprio monstro interior?

O estilo de Shelley é dramático, nitidamente manifestado pelo desespero de Frankenstein, um homem que sente tudo de maneira muito profunda e que é marcado por uma tragédia atrás da outra. Há muitos elementos góticos, o medo e o suspense em que vive o protagonista, os belíssimos cenários naturais da Europa, castelos em ruínas e à beira de abismos, e as muitas contemplações dessas paisagens, geralmente nas viagens mostradas, que são sempre uma espécie de intermezzo entre as ações.

Ao contrário das adaptações cinematográficas, com suas descargas de eletricidade vinda de raios, não há uma explicação para o princípio da vida descoberto por Frankenstein. Mas todas as narrativas inspiradas nessa obra mostram o perigo da ciência sem ética, as consequências de fazer algo apenas pelo poder de fazê-lo. Roubar o fogo para dá-lo aos homens é tarefa fácil, difícil é perceber que o fogo que aquece também destrói e que manipular a natureza exige uma grande coragem e discernimento, qualidades que o jovem Victor Frankenstein estava longe de possuir.

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Essa foi uma leitura para o Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

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Tartarin de Tarascon – Alphonse Daudet

interlunio49-tartarinSe alguém aí está procurando um livro leve, engraçado e com um pouco de aventura, pode ser que o encontre neste pequeno livro do francês Alphonse Daudet. Publicado em 1872, Tartarin de Tarascon tem um dos personagens mais divertidos da literatura, pois ele é uma mistura de Dom Quixote com Sancho Pança e sofre o tempo todo com essa dualidade, essa briga entre o Tartarin que quer explorar o mundo e caçar leões e o Tartarin corpulento que quer ficar em sua poltrona com seu chocolate quente.

A comunidade de Tarascon, no Sul da França, tem costumes bem peculiares, com suas cantigas tradicionais e sua paixão pela caça. O problema é que não há nada para caçar na cidade, então a caça para eles é na verdade um bom almoço no campo, coroado com tiros nas próprias boinas. Aquele que tem a boina mais destruída é o vencedor, e esse sempre é Tartarin. Sua fama de herói é corroborada pela grande quantidade de armas expostas em sua casa e seus livros sobre guerra, mas a verdade é que Tartarin nunca saiu da cidade e seus inimigos são apenas imaginários, por quem ele está sempre esperando a cada esquina. Ele é um contador de histórias, histórias que nunca viveu, mas que leu, histórias de outros que acabaram tornando-se suas à medida que as narra continuamente, de forma tão dramática.

“O homem do Sul não mente; ele se engana. Não diz a verdade todo o tempo, mas acredita que sim… Suas mentiras não são bem mentiras, são uma espécie de miragem…”

Um dia um circo chega à cidade e Tartarin se depara frente a frente com um leão. A partir desse momento ele encontra uma missão de vida: irá para a África caçar leões! Depois de muita relutância de seu lado Sancho e da pressão dos tarasconeses, Tartarin seguirá para a Argélia com toda a sua parafernália de caçador, e vai se deparar com muitas aventuras, mas não exatamente as que esperava viver.

O narrador dessa história – um observador de todos os passos do herói – é a verdadeira fonte do humor do livro, com suas tiradas irônicas e retratos cômicos de cada trapalhada de Tartarin. Além disso, o autor aproveita para alfinetar a França em relação à colonização da Argélia e para destruir as ilusões do estrangeiro que pensa a África em seus estereótipos de lugar ermo, com habitantes selvagens; um erro que ele mesmo cometeu, quando visitou a Argélia ainda jovem. Mas as ilusões e a ingenuidade de Tartarin causam-nos mais riso que pena justamente porque ele precisa aprender, precisa tirar o véu da vaidade extrema e ver além do seu pequeno universo tarasconês, que ele leva para onde vai.

O Mágico de Oz – L. Frank Baum [Breve comentário]

interlunio46-ozUma das grandes qualidades de O Mágico de Oz é a sensação que ele dá ao leitor de que se trata de uma história há muito contada, um conto de fadas que vem sendo passado de geração a geração inúmeras vezes, apesar de ser uma história publicada em 1900. E era o que o autor desejava: construir um conto de fadas moderno sem a violência extrema dos clássicos (ainda que haja sim certa violência em O Mágico de Oz).

Isso fica claro na estrutura do livro, com tantas repetições e ações de 3 passos: ela encontra 3 amigos no caminho, o chapéu mágico dá 3 desejos a quem o usa, etc. Além disso, como é típico dos contos de fada, a história começa com sua saída de casa para entrar em contato com o mundo, causar mudança por onde passa e assim retornar mais madura e valorizando o que havia deixado. Ainda por cima Baum tem o mérito de oferecer boas mensagens às crianças sutilmente, sem didatismos, com belas passagens simbólicas, a ponto de agradar adultos também.

A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

interlunio31-guerraÉ impressionante ler este livro do britânico H. G. Wells, lançado em 1898, e constatar como ele serve de base, direta ou indiretamente, para histórias de catástrofes, mundos pós-apocalípticos e invasões alienígenas até hoje.

A Guerra dos Mundos é uma grande especulação de como seria se seres vivos de outro planeta, superiores aos terráqueos em inteligência e tecnologia, pudessem nos observar e nos invadir, com o intuito de tomar nosso mundo.

Neste caso o planeta seria Marte, que aqui estaria envelhecendo e obrigando seus habitantes a procurar um novo lar. A Terra seria um bom substituto para os marcianos e eles iniciam uma invasão de início tímida, e em seguida, destruidora.

O narrador constrói uma grande tensão, anunciando as tragédias que se seguirão à chegada dos marcianos ao mesmo tempo que nos relata cada momento por que passa, entre medo, pavor e especulações científicas e filosóficas. A história é contada do ponto de vista dele, no interior da Inglaterra, e do ponto de vista do seu irmão, em Londres.

A grande reflexão da obra é sobre o abuso de poder de seres dominantes: Wells faz o leitor pensar sobre a maneira como tratamos os outros animais e até mesmo nossos semelhantes sobre os quais temos domínio. Que argumento relativo à sobrevivência nós teríamos se houvesse uma espécie mais desenvolvida intelectualmente que a nossa, e com mais recursos tecnológicos? Como nos sentiríamos se passássemos a ser alimento para uma espécie superior? Diante dos marcianos os humanos são, durante todo o livro, sempre comparados a pequenos animais – insetos, coelhos, ratos –, facilmente controlados.

“Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob o tacão dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.”

O narrador fica a maior parte do tempo sozinho e interage de verdade apenas com dois personagens-ideias: um padre e um artilheiro. O primeiro é o típico homem contraditório ao seus princípios, cheio de medo e desesperança. O segundo revela-se um homem prático e frio, aquele que se adequaria ao novo mundo, ainda que com uma moral duvidosa. Eles servem de contraponto ao narrador, aquele que tenta encontrar um equilíbrio diante de tanta tragédia, que busca tão somente a sobrevivência e o encontro com os seus.

A narrativa tem um ritmo tenso de ação na maior parte do tempo, o que a deixa um tanto cansativa. O autor traz poucos diálogos e momentos mais reflexivos, deixando-os mais para o final do livro. Comparando com outros livros do autor, como A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, as especulações e reflexões não foram tão desenvolvidas, e o ritmo de fuga do narrador, correndo para lá e para cá, bem que justifica a escolha de Tom Cruise – conhecido por estar sempre correndo nos filmes – em seu papel na adaptação cinematográfica mais atual da obra. Ainda assim trata-se de uma boa leitura, que impressiona pela grande imaginação de Wells, sua criação de referências e sua preocupação com os grandes desafios da humanidade moderna.

“Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?
– O que somos nós? – respondi, limpando a garganta.”

A letra escarlate – Nathaniel Hawthorne

26_letraNa cidade de Salém, nos Estados Unidos do século XVII, Hester Prynne é uma mulher que comete adultério e é condenada a usar uma letra A escarlate bordada no peito, como uma marca perpétua de seu pecado perante a comunidade puritana. Quem seria seu marido, supostamente desaparecido, e quem seria seu amante ela não revela, mas cedo na história os conhecemos como Roger Chillingworth e Arthur Dimmesdale. Chillingworth é médico e se aproveita disso para se aproximar do pastor Dimmesdale, que sofre de alguma doença séria. Os dois iniciam uma amizade que vai se tornando, aos poucos, um meio de vingança.

Marginalizada pelo povo e com uma filha ilegítima para criar, Hester passa a morar em um chalé abandonado nos limites da cidade. Em um local no qual os cidadãos são rígidos em seus preceitos religiosos e a floresta é palco para rituais malignos, ela escolhe viver justamente nesta linha intermediária, como alguém que não encontra mais lugar no mundo. A filha Pearl lhe serve tanto de bênção como de maldição, já que ela não consegue compreender as atitudes selvagens de uma criança criada em isolamento e completa solidão.

A letra escarlate pode ser vista como uma história sem história, ou melhor, uma narrativa que constrói uma tensão principal e se concentra em desenvolver personagens, de forma que mesmo avançando na leitura podemos ter a sensação de que nada está acontecendo. Em alguns momentos podemos pensar que estamos lendo um romance histórico, em outros podemos ver elementos de um conto de fadas. O mundo particular de Hester e Pearl está tão à parte de tudo e todos, que filha e mãe acabam sendo vistas como entidades de outra dimensão: Hester vai assumindo ironicamente um posto quase de santa e Pearl é constantemente chamada de fada pelo narrador e vários elementos simbólicos perpassam a narrativa, dando a ela esse tom “encantado”.

Um exemplo disso é quando Hester veste Pearl com as mesmas cores da letra, escarlate e dourado, e constatamos que a menina é a verdadeira letra, o símbolo real do pecado de Hester, o que poderia até dispensar o bordado de sua roupa. Ela também pode ser vista como um reflexo da mãe. Os constantes questionamentos de Pearl – por que seu pai não as assume? – podem ser interpretados como questionamentos íntimos de Hester, que ela não tem coragem de fazer; podemos ver Pearl como uma faceta sua que ela não quer ter que lidar, chegando ao ponto de descrever sua filha como um ser assustador, talvez por achar que está a se olhar em um espelho. Mas no fundo ambas são representações da natureza, selvagens e ao mesmo tempo à frente do seu tempo.

O pecado é o tema que se sobressai e, curiosamente, Hester aceita sua punição mesmo sabendo que ela não faz sentido, talvez porque saiba que não há como fugir do momento histórico em que vive. Como é marginalizada, ela tem uma vantagem sobre as outras mulheres: ela pensa sobre a situação delas e percebe que há algo de injusto sobre isso:

“…com relação a todas as mulheres. Valia a pena aceitar a existência como era, mesmo para a mais feliz delas? (…) Como primeiro passo, teria de pôr abaixo todo o sistema social e reconstruí-lo do zero. Depois, a própria natureza do sexo oposto ou um longo hábito hereditário tornado como que sua natureza precisaria ser essencialmente mudada para que a mulher pudesse assumir o que parece ser uma posição mais justa e conveniente.”

Hawthorne se sai bem ao demonstrar o caráter de cada personagem, seus objetivos e dramas pessoais. No entanto, como só temos acesso a eles de uma maneira externa, como se o narrador fosse uma câmera registrando o que se passa, é um pouco difícil nos relacionarmos com estes personagens. Some-se a isso o fato do enredo em si ser curto – daria um conto – e temos um livro enfadonho, repleto de cenas de desenvolvimento dos personagens, com muito poucos momentos mais emocionantes.

Apesar disso, é interessante perceber como o autor transforma os próprios símbolos que cria, como o meteoro que surge nos céus, interpretado de inúmeras maneiras, ou mesmo a letra escarlate, que passa a significar outra coisa com o tempo, com as virtudes de Hester voltadas à comunidade, confirmando que não é o símbolo em si que determina o significado, mas um novo significado pode passar a determinar o símbolo. Infelizmente o enredo não tem força suficiente para sustentar um leitor que gosta de se envolver com a leitura e o romance acaba atraindo mais por esses aspectos formais. Seu mérito, então, parece estar mais relacionado aos simbolismos, a uma breve discussão feminista e ao clima sombrio construído – aproximando-se de um conto de fadas moderno – do que mesmo por uma história cativante.

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Esta leitura participa da discussão do Fórum Entre Pontos e Vírgulas de maio de 2014.

Coração das Trevas – Joseph Conrad

32_trevasSe Coração das Trevas fosse um filme ou uma fotografia, ele provavelmente seria em preto e branco, com todas as suas imagens cheias de luzes e sombras. Curiosamente, no entanto, o livro inicia com uma descrição muito bonita de um final de tarde colorido no rio Tâmisa, narrado por alguém a bordo de um iole, embora quem realmente vá contar essa história seja o personagem Charlie Marlow, posto na popa da embarcação com uma simbólica posição de “ídolo”. Ao lembrar a todos que a Inglaterra já fora um lugar selvagem dominado pelos romanos, Marlow ironiza a colonização inglesa na África e resolve contar sobre sua experiência como capitão de um barco a vapor.

Com um fascínio antigo pelo continente, Marlow vai em busca de ser contratado por uma companhia que realizava comércio através do rio Congo. O que antes ele considerava como um espaço em branco no mapa já se tornara “um lugar escuro, tomado pelas trevas”, e esse sinistro resultado da colonização era algo que ele queria ver de perto. Sua missão era resgatar o notável Sr. Kurtz de um posto de troca localizado nas profundezas da selva africana, um homem que adiciona mais mistério ainda em sua aventura.

A primeira metade do livro tem uma atmosfera que julguei muito semelhante à de A Ilha do Dr. Moreau: o mistério, a antecipação que envolve a figura de Kurtz deixa o personagem Marlow tão curioso e assombrado quanto o narrador do livro de Wells com o que vê na ilha. A diferença é que Marlow parece querer adentrar o mistério porque se identifica com Kurtz; quer entendê-lo, pois tem consciência de que qualquer ser humano pode se perder no coração das trevas, afinal todos os civilizados têm uma porção selvagem adormecida. Olhar o homem primitivo como algo diferente de si é negar sua própria constituição humana:

“Você, se for homem bastante, reconhece intimamente no fundo de si […] uma suspeita vaga de que haja ali um significado que você – você, tão distante da noite das primeiras eras – talvez seja capaz de compreender. E por que não? O espírito do homem tudo pode – porque tudo está contido nele, tanto a totalidade do passado como o futuro inteiro.”

Essa atmosfera de segredos, sombras na selva, dominação e violência a favor do progresso que o livro de Wells também traz, é mostrada por Conrad, poucos anos depois, sob uma forma mais realista, segundo Braulio Tavares em seu prefácio para A Ilha do Dr. Moreau. Ele aponta essa semelhança com Coração das Trevas, demonstrando que a selvageria dos colonizadores europeus, em vez de demonstrar sua suposta superioridade, coloca todos no mesmo patamar:

“O coração das trevas é uma versão realista da alegoria mostrada em A Ilha do Dr. Moreau. O choque entre civilizados e primitivos, em vez de civilizar estes últimos (em vez de transformar ‘animais’ em ‘homens’), gera um atrito espantosamente cruel que acaba por animalizar a todos. É da natureza do colonialismo usar por um lado um discurso missionário e civilizatório (‘estamos aqui para transformá-los em criaturas superiores, iguais a nós’) e por outro uma prática que acaba por desumanizar os próprios civilizados.”

Ao questionar o processo de colonização, portanto, Conrad faz perguntas cada vez mais profundas sobre a própria natureza humana, ou seja, sobre o que nos faz humanos. Será que a domesticação do homem civilizado apagaria seus instintos mais primitivos? O que acontece a um homem que retorna à selva, que penetra num mundo longe da moralidade e a ele é permitido ser selvagem novamente?

“Vocês não conseguem entender? E como poderiam – com um calçamento de pedra debaixo de seus pés, cercados por vizinhos prontos a acudi-los ou lhes pedir algum favor […] – como podem vocês imaginar a qual região particular das eras primevas os pés desimpedidos de um homem podem levá-lo quando ele se depara com a solidão.”

As belas descrições de Conrad e seus efeitos de luz e escuridão, tanto na paisagem como em todas as oposições feitas no livro, garantem uma leitura muito rica, mesmo em um livro tão curto, pois o autor deixa vários elementos da narrativa implícitos. É como se o autor pintasse um quadro cheio de detalhes sugestivos e deixasse ao leitor a tarefa de observá-los com cuidado, imaginando o que haveria por trás da floresta fechada e do coração dos homens.

Emma – Jane Austen [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Dez/2012]

Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Emma, de Jane Austen. Como é voltado para pessoas que leram o livro, pode conter revelações sobre o enredo.

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Em 2008 fiz parte de um clube de leitura sobre Jane Austen e lembro que antes de aceitar participar, tinha um certo preconceito com a autora, achando que sua literatura seria muito água com açúcar para o meu gosto. Eu estava enganada, é claro, pois apesar de não ter faltado açúcar em nossas reuniões – já que, para entrar no clima, aproveitávamos para discutir os livros tomando um chá da tarde –, constatei que os romances de Austen oferecem muito mais crítica e sarcasmo à sociedade inglesa retratada do que mesmo a preocupação com um amor romântico.

O grande tema que se destaca nos livros que já li da autora é a condição da mulher de seu tempo, que dependia de herança ou de casamento para garantir um bom status social e financeiro para o resto da vida. O trabalho, principalmente para as mulheres, não tinha um valor edificante, mas sim degradante, e o casamento era o ponto mais alto de alguma experiência de poder feminino possível.

A maioria dos relacionamentos voltados para o casamento começavam com a constatação de que são convenientes, e a vaidade, muito mais que o amor, era quem dava as cartas na hora da escolha dos pares. As protagonistas de Austen geralmente são exceções porque se apaixonam, mas longe de serem mocinhas perfeitas, sempre fazem algumas escolhas erradas para acertar depois. E Emma talvez seja a menos perfeita de todas elas.

Vaidosa, rica e mimada, Emma julga o amor e o casamento como coisas abaixo de sua condição social. Sem mãe, com um pai que não passa de um egocêntrico hipocondríaco e uma governanta que não consegue ter poder sobre ela, Emma tem apenas a figura de Mr. Knightley, amigo da família, como uma espécie de grilo falante a todo tempo tentando educá-la – o que nem sempre a impede de fazer o que bem entende. Somente quando a governanta, sua melhor amiga, deixa seu posto para casar é que Emma percebe sua solidão e seu drama inicia.

É difícil gostar de Emma porque ela é uma heroína cheia de defeitos e com problemas superficiais, muitas vezes levada pela vaidade, a inveja e a manipulação da vida alheia – o que seriam características mais próprias de uma vilã –, mas ao mesmo tempo cheia de boas intenções e doçura, contraste que a deixa muito mais humana que as mocinhas comuns. Como não precisa de nada, Emma precisa perder algumas coisas para evoluir, fazendo um caminho inverso ao das usuais princesas, como afirma David Lodge, em A Arte da Ficção:

“O romance será o avesso da história de Cinderela, o triunfo da heroína subestimada, que de Orgulho e Preconceito a Mansfield Park já vinha despertando a imaginação de Jane Austen. Emma é uma princesa que precisa ser humilhada para atingir a verdadeira felicidade.”

Além do percurso de Emma, é possível detectar no romance alguns tipos de destino possíveis às mulheres, através de algumas personagens. Miss Bates, por exemplo, é a solteirona pobre que tudo que tem é uma boa relação com a comunidade, por sua família ter um nome. Sua sobrevivência é garantida pela caridade dos amigos, o que a torna uma enorme bajuladora. Já Harriet Smith não tem nome ou família, mas como é bonita, sua melhor escolha é casar com quem aceite sua situação. Jane Fairfax é órfã e pobre, e como foi criada por uma família rica, sofre com a possibilidade de não conseguir casar e ter que se tornar uma governanta. Miss Taylor, simples governanta de Emma, consegue uma grande emancipação ao fazer um bom casamento, ao contrário de Miss Hawkins, que sai de sua vida confortável na casa dos pais para se casar com um homem de poucas posses, somente pelo orgulho de estar casada. Em Jane Austen, portanto, amor, berço e dinheiro andam de mãos dadas e o leitor que só consegue enxergar o romantismo água com açúcar em seus livros talvez esteja um pouco desatento.

A narrativa bem amarrada da autora perde muito sua força na terceira e última parte do livro, principalmente depois do clímax, com Mr. Knightley e Emma se declarando um ao outro. A partir daí não há mais surpresas ou novidades, e a leitura fica enfadonha. Ainda assim a leitura no geral foi prazerosa, especialmente pelos momentos cômicos encabeçados por personagens como Mr. Woodhouse e Miss Bates; pelos mal entendidos de uma sociedade que não deixa transparecer seus sentimentos e por uma certa beleza da vida cotidiana e privada, que faz com que os personagens sejam familiares e facilmente reconhecíveis, nos dando a impressão de que os conhecemos de algum lugar.

Para quem tiver interesse em participar da discussão sobre o livro, é só acessar o canal da Denise Mercedes a partir do dia 20 de dezembro.

Duas aventuras de H.R. Haggard

Quando criança, fantasia associada a aventura e descoberta de civilizações perdidas formavam para mim uma equação irresistível, coisa que deve ter começado através das caças ao tesouro protagonizadas pelo Tio Patinhas e os filmes da tarde com as sagas de Simbad ou Indiana Jones. Numa destas sessões assisti a uma das versões de Ela e fiquei muito intrigada com a história, especialmente o final. Recentemente lembrei do filme e descobri que é uma adaptação de um best-seller de H. Rider Haggard, o mesmo autor do famoso As Minas do Rei Salomão e que, com suas obras, iniciou o subgênero lost-world nos livros de fantasia.

Apesar de ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, dificilmente ouço falar de alguém que tenha lido Ela ou mesmo conheça sua história. O narrador é Holly, um professor de Cambridge que juntamente com seu filho adotivo Leo e seu criado Job seguem em uma perigosa aventura na África a fim de entender a herança histórica da família de Leo. Lá eles descobrem uma civilização escondida, comandada por Ayesha, uma belíssima mulher que vive há dois mil anos. Se por um lado a história é curiosa e influenciou inúmeros escritores mais tarde, como Rudyard Kipling e J.R.R. Tolkien, por outro é incômodo para o leitor de hoje perceber de maneira tão escancarada alguns valores racistas e machistas dos vitorianos. Apesar de Ayesha ser uma mulher com extremo poder – é absurdamente bonita e sábia e possui poderes sobrenaturais e grande capacidade de comando – sua soberania não é vista com bons olhos, mas como algo perigoso à humanidade, e infelizmente sua devoção romântica a Leo por vezes acaba ajudando a diminuir a força da personagem.

As Minas do Rei Salomão também conta uma aventura na África e é narrada pelo caçador Allan Quatermain, que possui um mapa para as incríveis e secretas minas do rei bíblico. Com a companhia de Sir Henry Curtis, o Capitão Good e o nativo Umbopa, os personagens farão uma longa jornada através de um deserto africano, cada um com seu motivo e missões pessoais. Os tipos de situação que eles enfrentam são semelhantes aos que vemos em filmes com o personagem Indiana Jones (que parece ter sua origem em Quatermain), com direito a batalhas contra um rei africano sanguinário, trapaças de uma feiticeira maligna e cavernas com mecanismos secretos. Assim como em Ela, Haggard traz um narrador um tanto contraditório, que se divide entre mostrar os africanos como bárbaros e ao mesmo tempo, em algumas situações, considerá-los como mais cavalheiros que certos europeus. É fácil encontrar sua edição traduzida por Eça de Queiroz.

A escrita de Haggard não oferece muitos atrativos, mas não há como negar que ele foi muito criativo em suas histórias, aproveitando sua experiência na África para pormenorizar suas descrições. Tendo influenciado tantos livros e filmes que vieram depois, estas obras não causam muito impacto nos dias atuais e são previsíveis e ultrapassadas – as situações repetitivas e os monólogos cansativos dos narradores também não ajudam. Ainda assim, guardarei a cena final de Ela com carinho nas minhas lembranças de infância.

Sherlock Holmes [Volumes 3, 7 e 9] – Arthur Conan Doyle

Ultimamente os livros da coleção Sherlock Holmes têm sido uma leitura de descanso, intercalada com as leituras oficiais, mesmo que eu já esteja um pouco cansada das aventuras do detetive, tão semelhantes entre si. Quando assistia à série House (que não é nada mais que uma adaptação livre do personagem Holmes, que por sua vez foi inspirado em um médico pra quem Conan Doyle trabalhou), eu tinha um sentimento parecido diante da estrutura repetitiva: uma cena do paciente da semana passando mal, depois o arrogante House relutando em pegar o caso no hospital – até que algo o convença de que se trata de um desafio à altura para sua inteligência –, uma primeira teoria que certamente será equivocada, e o momento de insight a partir de uma conversa com seu único amigo Watson, isto é, Wilson.

Os livros de contos com Holmes têm uma estrutura semelhante, mas enquanto na série havia um enredo paralelo envolvendo as relações (profissionais e afetivas) de House com os outros médicos do hospital, bem como um desenvolvimento profundo de seu personagem, nas histórias de Conan Doyle só podemos contar com poucas informações acerca do detetive, coisas como ter um irmão mais inteligente que ele, ou se entregar totalmente à cocaína quando está entediado. Em A Volta de Sherlock Holmes, aliás, o autor se preocupou ainda menos em desenvolver Holmes e Watson e se concentrou praticamente nos casos narrados.

O título já deixa claro que o livro é sobre o retorno de sua suposta morte, ocorrida em As Memórias de Sherlock Holmes. Os contos seguem a estrutura já consagrada: alguém chega aflito à sua casa, Holmes aceita o caso se for desafiador e Watson não serve muito como conselheiro, mas ajuda como testemunha, amigo e força bruta. A diferença para os livros anteriores de contos é que nesse há um esforço maior de Holmes em dividir seus pensamentos com Watson, o que dá ao leitor uma chance de raciocinar junto com ele e entrar no jogo de desvendar o mistério. Os meus preferidos foram A Casa Vazia, O Ciclista Solitário e Os Dançarinos.

Os romances também seguem um certo padrão do autor, não só na estrutura como na temática, mas além de guardarem maiores surpresas que os contos, tenho a sensação de que são mais bem escritos. É recorrente no cânone que haja histórias sobre um homem no final da vida cujo passado ressurge devido a um acerto de contas, geralmente por ter participado de uma sociedade secreta ou algo como um segredo de guerra ou crime cometido em outro país. O Signo dos Quatro é uma dessas histórias de acerto de contas, mas acredito que tenha sido a mais divertida que li até agora na coleção, pois o autor misturou muito bem aventura, ação, humor e romance. Apesar da narrativa iniciar melancólica, com Holmes tomado pelo vício em cocaína, o caso trazido pela bela Mary Morstan traz fôlego novo à vida dos dois amigos e apresenta cenas bem engraçadas, com ótimos diálogos entre eles.

Já em O Vale do Medo, que também é uma história de acerto de contas, Conan Doyle segue a mesma estrutura já usada em Um Estudo em Vermelho, de uma narrativa dentro da outra, mas aqui ela toma um aspecto de pulp-fiction, com direito a gângsters e romance, e foi baseada em fatos históricos ocorridos nos Estados Unidos entre 1862 e 1876. Como indicado na introdução do livro, é uma história muito bem montada, mas que por ter sido imitada tantas vezes no cinema e em outros livros, acaba não sendo tão desafiadora para o leitor moderno. Ainda assim gostei da história, especialmente do personagem McMurdo.

Agora só restam 3 volumes da coleção, mas por enquanto lerei apenas O Cão dos Baskervilles, que deixei pra encarar por último por ser considerado o melhor romance do cânone. Vamos ver se este me empolga novamente e eu acabe querendo ler os últimos volumes ainda esse ano.

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