Laranja Mecânica – Anthony Burgess [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Fev/2013]

09_laranja01Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

Todos nós somos seres orgânicos que agem através de escolhas morais, mas nos tornamos máquinas quando somos condicionados, nos tornamos algo como uma laranja mecânica. Essa é a grande proposição do livro de Burgess, que defende o livre-arbítrio como uma condição essencial do ser humano.

E ele faz isso nos contando a história de Alex, um adolescente viciado em violência e música clássica, odioso e carismático ao mesmo tempo, que com sua gangue de druguis sai à noite para praticar todos os tipos de violência extrema, mas não sem antes tomar seu leite batizado com drogas. O grupo tem uma linguagem própria, o nadsat, e durante a leitura vamos nos familiarizando com esse vocabulário – muito embora às vezes o glossário no final do livro ajude em alguns termos.

Na primeira parte da obra somos testemunhas de alguns terríveis atos do grupo, até o ponto em que Alex é preso por assassinar uma senhora. É só então na segunda parte que começa a primeira fase de punição: sua vida na prisão. Sua amizade com o capelão do local traz valiosas discussões sobre o livre-arbítrio ao conversarem sobre a possibilidade de Alex ser usado numa técnica de reabilitação, a técnica Ludovico, que o impediria de praticar o mal novamente e garantiria sua liberdade. O capelão argumenta que o processo o impediria de tomar decisões morais e que, portanto o deixaria sem alma:

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Segundo ele, e é essa a defesa do autor, o mal existe em todos nós. O que nos define como uma pessoa boa ou má é a escolha ética que fazemos: escolhemos não praticar o mal, mas isso não quer dizer que somos bons. Ser impedido de fazer o mal também impede Alex de fazer o bem, pois anula o livre-arbítrio. O bem tem que ser uma escolha, e não um condicionamento que deixa o indivíduo programado para não cometer crimes:

“Ele será seu verdadeiro cristão – krikava o Dr. Brodsky –, pronto para dar a outra face, pronto para ser crucificado ao invés de crucificar, doente até a alma só de pensar em sequer matar uma mosca.”

A técnica usada em Alex, portanto, não teria a intenção primeira de torná-lo um sujeito bom, mas tão somente um sujeito controlado. Seria apenas uma manobra política, uma punição mais barata e eficiente que sustentá-lo na prisão, garantindo segurança à sociedade. Alex aceita participar da experiência porque no fundo ele não acredita que vai deixar de ser quem é e também porque está mais interessado em sua liberdade, mas no momento em que percebe que todas as coisas que lhe davam prazer não podem mais se realizar, descobre que se tornou um mecanismo, que perdeu sua humanidade:

“Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

A última parte do livro tem quase um tom de fábula porque Alex se reencontra com todo o seu passado e sofre sua segunda fase de punição, vinda de várias pessoas a quem fez mal, sem poder se defender. Nesse ponto fica claro que o autor defende que nenhuma maldade que Alex tenha feito pode ser pior do que a que ele sofre, já que ele teria sido castrado naquilo que o faz humano, que é a sua escolha, seu livre-arbítrio.

No final, também por motivos políticos, Alex volta a ser o que era e é claro que volta a praticar crimes, mas em determinado momento se vê cansado da vida que leva e passa a desejar uma vida mais adulta. Nesse ponto percebemos que Burgess acredita que a falta de maturidade de Alex (ou dos jovens, em geral) é que o levaria a cometer todos aqueles atos violentos e que chegando a determinado ponto de sua vida, esses atos passariam a não fazer mais sentido.

A única coisa que me incomodou nesse final foi que em nenhum momento anterior na história do personagem ele faz qualquer reflexão que ponha em questão seus atos: para ele a violência dá prazer e ele a pratica porque deseja. Talvez por isso o último capítulo tenha um tom muito diferente do resto do livro: a redenção de Alex através da música seria, apesar de mais óbvia, mais convincente para mim, afinal não são apenas adolescentes que praticam crimes. No entanto, comparando com a versão americana do livro e com o filme de Kubrick, que ignoram o último capítulo, é melhor que haja algum tipo de redenção que nenhuma, do contrário a proposta do autor de demonstrar que não somos bons nem maus, que nossas escolhas flutuam, não se aplicaria a Alex, e ele se tornaria a própria encarnação da maldade.

Isso não tira o mérito da adaptação cinematográfica que, com exceção do final, foi extremamente fiel ao livro e encontrou soluções geniais para deixar a história ainda mais simbólica e angustiante. Apesar de ter vida própria enquanto filme, não deveria dispensar este incrível livro em que foi baseado.
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A Ilha – Aldous Huxley

Quando comentei sobre Admirável Mundo Novo eu falei sobre o que mais me chamava atenção no livro, que era a questão da felicidade, de como seria a vida humana se todos fossem felizes. Em A Ilha a questão é basicamente a mesma, e apesar de soar mais como utopia que distopia nesse caso, os métodos para alcançar a felicidade de alguma forma guardam uma relação com os utilizados no romance da década de 30, já que partem do argumento que não existe igualdade e felicidade coletivas sem controle do individual.

Publicado em 1962, o último livro de Aldous Huxley apresenta Pala, uma ilha proibida que sustenta uma sociedade isolada do mundo, quase auto-suficiente, que escapou de ser colônia dos países imperialistas por sua condição geográfica. Através do controle dos seus habitantes pela combinação de misticismo baseado em religiões orientais e ciência ocidental, a vida em Pala garante pessoas livres de neuroses e completamente integradas com a natureza. Conhecemos o local pelos olhos de Will, um jornalista que chega até a ilha um pouco por acaso e que tem a responsabilidade de mediar um acordo político que pode modificar para sempre a realidade desse paraíso.

Basicamente o livro é uma enorme entrevista que Will, enquanto espécie de representante do mundo ocidental, faz aos moradores da ilha, procurando entender como vivem e se relacionam. Cada resposta é uma crítica ao mundo lá fora e ao mesmo tempo uma proposta de vida alternativa transformadora pois ele não encontra ninguém que esteja infeliz, exceto a rainha de Pala e seu filho, futuro Rajá. Convivendo com a família McPhail ele observa como eles educam as crianças com um tipo de transdisciplinaridade, como resolvem os complexos com terapias, como eliminam a possibilidade de conflitos pelo trabalho braçal, como lidam com o sexo de forma livre, como enfrentam as dores e a morte com resignação, enfim, como aliam ciência e religião para garantir a felicidade plena:

“…o caminho da biologia aplicada, da natalidade controlada, da produção limitada e da industrialização seletiva (que só é possível quando se controla a natalidade). É o caminho que leva à felicidade e que vem de dentro de nós, por meio da saúde, do conhecimento e da mudança de atitude em face do mundo. Não é aquela miragem de felicidade exterior e que é adquirida à custa dos brinquedos, das pílulas e das intermináveis distrações.”

O romance praticamente não tem ação, é constituído dessas longas conversas sobre como as coisas funcionam em Pala e as terríveis memórias de Will sobre seu casamento e seu pai. Nesse sentido o livro se torna pesado de ler pois uma das coisas mais legais em um romance é o fato de você aprender algo de forma sutil através da ação dos personagens e de como reagem diante do que se passa com eles. Quando os personagens explicam demais e vivem de menos, a história perde fôlego e passa a se tornar quase um livro de não-ficção, e é o que acontece com A Ilha. Talvez fosse mais interessante se Will vivesse profundamente o cotidiano de Pala ou se se relacionasse de verdade com algum nativo, em vez de ser um mero observador.

Há inúmeras discussões relevantes no livro referentes a educação, religião, saúde, política etc., mas elas estão tão condensadas que podem causar um certo cansaço em quem não está preparado ou quem espera uma seqüência de Admirável Mundo Novo. Em comum com este, somente a ditadura do coletivo e a melancolia de mundos ideais despedaçados.

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Livro relacionado:

Neuromancer – William Gibson


Quando leio um livro muito incensado e importante para a cultura em geral, acabo me sentindo um pouco obrigada a gostar, do contrário fico achando que o problema está comigo. Mas isso acontece só num primeiro momento, afinal é preciso separar as coisas quando se avalia uma obra: há que se considerar tanto o que ela representa pro mundo como também o que ela representa pra você como leitor. Neuromancer foi um desses livros que me deixou dividida porque não me tocou pessoalmente, apesar de ter suas qualidades.

Tudo começa em um cenário bem semelhante ao de Blade Runner: Chiba City, no Japão, mais especificamente na região de Night City, em que perambulam turistas, marginais e não-japoneses. Case é um ex-cowboy (espécie de hacker) do ciberespaço, que foi punido por ter vendido informações de seus chefes, tendo seu sistema nervoso danificado por uma toxina. Sem poder exercer sua profissão, ele sobrevive como uma espécie de intermediário de um traficante e age de maneira autodestrutiva. Um belo dia aparece Molly (imagine a Trinity, de The Matrix), com uma proposta de cura para o seu problema, contanto que ele faça parte de um time com uma missão secreta, liderada pelo sombrio Armitage, que por sua vez responde a Wintermute, uma Inteligência Artificial. Até chegar à missão principal eles irão passar por outros desafios e coletar mais algumas pessoas à equipe. Se isso pareceu a descrição de um jogo de videogame, não é à toa, Case é um mero peão das circunstâncias, resolvendo as missões que lhe são impostas para que ele possa ter sua cura definitiva.

Apesar de conter vários elementos que me interessam, a história não me conquistou. A maior dificuldade que tive durante a leitura foi o fato de não me importar muito com os personagens pois eles parecem vazios e sem propósito. Sei que a intenção do autor é retratar um mundo niilista, e Case representa bem essa característica, mas me incomodou o fato do leitor não ter acesso aos seus pensamentos e desejos. E isso acontece com todos os personagens, você conhece apenas seus objetivos mais urgentes e eles dificilmente dizem respeito a algo fora das missões. Por um lado é curioso porque você se depara com uma sociedade em que as pessoas parecem andróides que perderam o contato com os grandes significados ou valores e isso é válido enquanto visão distópica, mas por outro isso deixa a leitura maçante porque não dá para se identificar ou torcer por ninguém. Apenas na quarta e última parte eu passei a curtir o livro, não sei se porque Case parece mais humano ou se porque a narrativa fica menos travada ou se porque as coisas finalmente se resolvem, mas os últimos capítulos até que compensaram os demais.

Neuromancer causou muito impacto na época em que foi lançado (1984) e antecipou muitos conceitos comuns nos dias de hoje, como o pós-humano, a globalização, o ciberespaço etc. Além disso inaugurou o subgênero cyberpunk na ficção-científica e serviu como uma boa inspiração para outras obras, sendo a mais famosa e evidente os filmes da série The Matrix. Dentro desse contexto de referência, é um livro que vale a pena ser lido, mas enquanto obra literária ou mesmo entretenimento, não foi o que eu esperava.

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Livros relacionados:

A Máquina do Tempo – H. G. Wells


Alguns livros do final do século XIX me dão a impressão de que o espírito da época era semelhante ao dos nossos dias, algo como uma sensação de que o futuro já chegou. A Máquina do Tempo, novela escrita em 1895 por H. G. Wells, é um desses casos em que vemos temas bem motivados pelas revoluções tecnológicas, fato que acabou inaugurando a chamada ficção-científica na literatura.

Nessa história temos O Viajante do Tempo, um cientista que constrói uma máquina capaz de se deslocar pela Quarta Dimensão. Durante um jantar em sua casa em que ele chega depois dos convidados, machucado e sujo, afirma que acaba de chegar do futuro e começa a descrever sua incrível aventura de oito dias no ano de 802701. Nesse momento da história, o Viajante encontra um mundo em ruínas e duas espécies de seres que parecem ter vindo de nossa espécie: os Elois e os Morlocks. Os primeiros são pessoas infantilizadas e bobas, pequenas e sem pelos, que se alimentam de frutas e vivem como animais pacatos. Os segundos são agressivos, têm aparência asquerosa, vivem sob a terra e temem a luz. Logo no início sua máquina é roubada e, com a companhia de Weena, o único ser com quem interage num nível mais íntimo, ele vai tentar recuperá-la e voltar para seu próprio tempo.

A teoria do personagem ao se deparar com esses seres é de que, num primeiro momento, a humanidade teria chegado a tal ponto de harmonia entre aqueles que produzem (que deram origem aos Morlocks) e aqueles que usufruem (que deram origem aos Elois), que qualquer possibilidade de guerra teria se extinguido, e portanto o ser humano viveria sem adversidades. O problema é que, segundo ele, são as adversidades da vida que tornaram o homem um ser inteligente, logo, à medida que a civilização caminhasse para a paz e a segurança, os seres humanos iriam aos poucos se tornando mais dóceis e menos inteligentes.

“Não existe inteligência onde não existe mudança ou necessidade de mudança. Os únicos animais que demonstram inteligência são aqueles que tiveram de enfrentar uma grande variedade de necessidades e de perigos”.

Enquanto conta sua história, o Viajante vai simultaneamente expondo suas impressões sobre esse novo mundo, já que tudo lhe é estranho e não há ninguém para explicar como as coisas são. Sendo assim, a narrativa ora é descritiva ora é filosófica, mas de uma maneira muito fluida, até porque o livro é bem curto. Não há nenhuma tentativa de explicação científica do funcionamento da máquina, pois a intenção era apenas demonstrar, de maneira especulativa, as possibilidades do futuro, como se a verdadeira máquina do tempo fosse a imaginação do autor. No entanto, Wells se utiliza das teorias científicas de seu tempo como argumento para as especulações de seu personagem, e em especial da teoria de Tempo enquanto Quarta Dimensão do Espaço: se é possível se movimentar nas três dimensões, também seria possível se movimentar numa quarta.

Um momento que achei muito divertido no livro foi quando o Viajante lamenta não ter lembrado de levar sua Kodak! Fiquei imaginando o que ele nos dias de hoje lamentaria não ter levado, talvez exatamente uma câmera, mas pelo menos ele colocou no bolso algo mais importante: fósforos. Se numa viagem espacial aprendemos que uma toalha pode ser muito útil, numa viagem no tempo o bom mesmo é levar uma caixa de fósforos.

Adaptações:
A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960) – George Pal

Nesta versão clássica de 1960, o Viajante se chama George e sua motivação em querer ver o futuro é por não ser satisfeito com a época em que vive. Aqui, antes de chegar a 802701, ele assiste às duas Grandes Guerras e em cada uma tem oportunidade de encontrar o filho de seu melhor amigo David, na juventude e na velhice. Muita coisa me incomodou neste filme, mas a principal foi o fato dos Elois falarem o mesmo inglês de George! No livro o personagem aprende alguma coisa da língua deles, mas no geral só tem sua inteligência como recurso para entender esse novo mundo, ao passo que aqui Weena lhe serve de guia, explicando como tudo funciona.
O filme me pareceu mais antiquado que o livro, e nem falo dos efeitos especiais limitados porque alguns até deram conta do recado, mas por algumas escolhas estranhas, como fazer de Weena um par romântico de George ou fazer os Elois de uma hora para outra se revoltarem contra os Warlocks, deixando George quase como um messias que irá salvar a humanidade no futuro. Confesso que o que achei mais legal no filme foi o design da máquina do tempo (feito por William Ferrari). Eu adoraria ter uma réplica dela na minha sala, como os meninos do The Big Bang Theory.


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A Máquina do Tempo (The Time Machine, 2002) – Simon Wells

Sendo o diretor bisneto do H. G. Wells, dá pra ter uma esperança de que o filme seja bom, mas não é o que acontece. O Viajante nesta versão se chama Alexander e é um professor universitário, com um laboratório cheio de invenções inovadoras e uma namorada com quem pretendia casar, mas que acaba morrendo. O que o leva a desenvolver a máquina é exatamente poder voltar no tempo para salvá-la. Apesar de tentar fazer algo diferente e explorar primeiro uma volta ao passado, esse filme não passa de um remake inferior da versão de 1960, sem nenhum compromisso em ser fiel ao livro. Enquanto H. G. Wells mostra um cientista interessado em conhecimento e em pensar para onde a humanidade poderia evoluir, este filme leva seu personagem ao futuro por uma curiosidade nada científica, apenas por uma obsessão pessoal. Simon Wells parece ter se preocupado mais em criar inúmeras referências ao filme de George Pal do que em homenagear de maneira digna seu parente. E elas são inúmeras, desde a inspiração do design da máquina, passando por detalhes de cenas e até a ideia do Viajante revolucionar o futuro. Apesar de ter bons efeitos especiais, o filme demonstra que a imaginação não é hereditária.

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Livros relacionados:

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury


Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury mostra ao leitor um mundo bem parecido com o nosso atual, com a essencial diferença de que os livros são proibidos, tanto a propriedade quanto a leitura, e para controlar esta proibição os bombeiros são responsáveis por queimá-los – daí o título do livro, que seria a temperatura em que eles queimam.

Guy Montag é um bombeiro que claramente sente prazer em queimar livros, instigado pelo seu chefe Beatty, um homem culto, que um dia amou os livros mas agora prefere queimá-los. Ele é casado com Mildred, uma mulher que passa o dia interagindo com uma espécie de conjunto de televisões na parede e que parece ser uma pessoa vazia, ou esvaziada. Um dia ele encontra a espirituosa Clarisse, sua vizinha adolescente que o faz pensar e questionar a própria vida. A partir de seus encontros com ela é que ele desperta a curiosidade em relação aos livros e vai, durante a história, seguir um percurso de informação, rebeldia e transformação.

Algumas coisas me incomodaram nesta obra. Considero fraco o argumento de que o desaparecimento dos livros se deu porque todos os livros eram “perigosos” ou faziam as pessoas pensarem, até porque nem todo livro tem essa qualidade. Eu acreditaria mais numa destruição de alguns títulos (exemplos históricos reais não faltam) ou mesmo que as pessoas foram trocando os livros por outras mídias mais fáceis, coisa que até o autor deixou clara no livro. Mas tudo bem, posso concordar que o livro enquanto objeto carrega, além de seu conteúdo, uma aura meio de misticidade que poderia incomodar os governos a ponto de serem alvo do fogo. No entanto, fiz careta para um certo didatismo, quase infanto-juvenil, que permeia o livro, especialmente quando surge Faber, o personagem que vai ser praticamente um professor para Montag. Ele é responsável por explicar a Montag e ao leitor a importância da causa, ainda que deixe claro que o buraco é mais embaixo:

“Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. […] Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós, a partir de retalhos do universo.”

De certa forma eu tentei ver a história do livro mais como uma alegoria, em que os livros seriam apenas um símbolo da decadência do pensamento livre e das manifestações artísticas. Nesse sentido, Fahrenheit 451 se assemelha um pouco a Admirável Mundo Novo, no sentido que enfoca a importância da arte para o ser humano. A teoria é que o ser humano, por mais feliz que fosse, não conseguiria viver sem manifestações artísticas, sem questionamentos sobre a vida e até mesmo sem tristeza. Os indivíduos da sociedade criada por Bradbury, simbolizados pela personagem Mildred, são parecidos com aqueles da obra de Huxley. São pessoas anestesiadas pelos prazeres, a diversão e o entretenimento. Porém, como em toda distopia, sempre há um grupo marginal que constitui a esperança e Montag segue em direção a esse caminho.

Apesar de tudo, é um livro com qualidades. Uma das partes mais bacanas é quando o autor meio que profetiza os reality shows nas cenas de perseguição a Montag. Algumas imagens na narrativa são belas e me fizeram querer ler outras obras do autor. E o tom meio didático do livro, que me chateou um pouco, pode ser uma vantagem na educação de jovens. E é assim que vejo esse livro, como um livro para jovens, eu mesma teria amado este livro nos meus tempos de Clarisse.

Leia aqui sobre o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut.
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1984 – George Orwell


Eu sempre resisti a ler este livro por julgar que seria datado, enfadonho, duro demais. E ele pode ser tudo isso, dependendo de como você o lê. Da minha parte eu vi um livro excelente, obrigatório, atual, que não apenas nos traz reflexões sobre o futuro da humanidade como também nos traz lindas imagens literárias.

“Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.”

O mundo de 1984 tem a estética de um jornal velho e encardido. É um mundo cinza, sem cores, sem sabores, sem prazeres. Winston, o protagonista, é um indivíduo desse mundo onde sua vida se resume a viver para o Partido, entendido aqui como o governo que rege até os pensamentos de seus cidadãos e que tem na figura do Grande Irmão o símbolo de sua soberania e vigilância absolutas.

Winston sabe como disfarçar o desgosto que sente pela condição a que está inserido e para dar vazão aos pensamentos que não pode expressar, ele começa um diário. Esta é apenas a primeira atitude proibida que ele toma na sua luta contra o Partido, pois a principal vai ser viver uma história de amor e rebeldia com Julia (engraçado que o tempo todo eu pensava a Julia como se fosse uma espécie de Lisbeth Salander, uma menina que sempre sabe o que fazer, onde encontrar o que é necessário e não deixar de viver o que é preciso).

A primeira parte do livro pode ser difícil: a impossibilidade das pessoas interagirem, a vigilância por toda parte, as proibições infinitas dão uma sensação sufocante de que não há nada que possa acontecer fora desse aprisionamento. No entanto, na segunda parte do livro, a mais bonita na minha opinião, vemos um mundo paralelo construído por Winston e Julia, onde conseguem sua felicidade por um tempo. Eles mesmos sabem que não vai durar, que serão presos e torturados um dia, mas ainda assim não abrem mão de sua fuga temporária pois acreditam que o mais importante é que o Partido não consiga jamais invadir seus sentimentos um pelo outro.

“Se você conseguir sentir que vale a pena continuar humano, mesmo que isso não tenha a menor utilidade, você os venceu.”

O título do livro em si traz um questionamento interessante. Em 1984 a história já não existe mais, não há mais passado ou futuro, apenas o presente. As informações sobre o passado são constantemente editadas para a conveniência do presente e não há mais espaço para o futuro, já que não há mais espaço para mudanças, a guerra é contínua e programada para nunca mais ter fim. 1984 por um lado delimita uma data, o ano em que tudo isso acontece com Winston, mas por outro acaba sendo irônico que ainda haja datas quando o passado não pode mais ser recuperado nem aproximadamente como aconteceu de verdade.

Em Admirável Mundo Novo, os indivíduos eram controlados através da genética, do condicionamento e da droga. A felicidade era imperativa pois ela permitia que os seres humanos nada questionassem. Em 1984, o controle se dá através do terror, da violência e da lavagem cerebral. Qualquer tipo de prazer individual é crime e o pensamento deve ser apenas direcionado a amar o Partido e o Grande Irmão com toda a sua alma. Nesse sentido, Orwell traz um mundo pavoroso em que não é mais possível a humanidade: tudo que resta são retalhos de humanos formando um tecido social que vive para o poder.

Em geral, quando se pensa em distopias, pensa-se num mundo que não tem nada a ver com a sua realidade atual, justamente por estar se referindo a algo que poderia acontecer no futuro. No entanto, 1984 nos coloca questões universais sobre o poder, que chega a ser assustador pensar no que pode haver deste mundo pintado pelo autor que já não haja em nosso mundo sob outras formas. Afinal, nada é absurdo depois que vira cotidiano.

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Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley


A primeira vez que li Admirável Mundo Novo, há uns bons 15 anos, imediatamente ele se tornou um livro favorito. Não sei se por nostalgia ou porque me faça pensar em tantas questões, a segunda leitura me provou que eu continuo amando essa narrativa que prevê um futuro tão assustadoramente perfeito.

Em tudo que leio sobre o livro, o foco é geralmente na questão que resume o panorama da história: seres humanos sendo cultivados em laboratórios, num esquema semelhante à produção de carros e “preparados” de forma a cumprir as funções sociais específicas de sua casta. No entanto, o que mais me comove na história é como as relações humanas seriam se todos fossem felizes.

Nesta Londres de 632 d.F. (depois de Ford), em que “cada um pertence a todos”, ninguém é nada de ninguém. Não há mais pais, mães, irmãos e é de bom tom que se tenha amantes diferentes toda semana. Ora, se não há laços, boa parte do sofrimento humano se resolve. Outra parte resolvida é que você já nasce sabendo qual sua missão na sociedade, pois cada casta é feita para tarefas específicas e cada ser humano é condicionado a abraçar com alegria sua servidão: não há indivíduos essenciais, só a comunidade importa.

“O segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer.”

Dentro de toda essa perfeição, temos 3 personagens que não estão satisfeitos e dentre eles John, que é um rapaz que foi criado praticamente como um selvagem numa reserva indígena. John passou a vida inteira lendo um único livro, as Obras Completas de Shakespeare, como se fosse uma bíblia com respostas para a vida. Em determinado momento ele é levado para viver na civilização e fica cada vez mais horrorizado com esse mundo asséptico.

Depois de perceber que a civilização não era o que ele esperava, John começa a defender o direito que cada um de nós tem de ser triste, de ficar sozinho, de chorar, de se desesperar, de sofrer. Num mundo onde a felicidade é obrigatória, esse direito não existe. Num mundo onde se é diferente, você estará sempre sozinho.

“- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
– Em suma – disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.”

Também não há mais intimidade. Há um momento em que a personagem Lenita argumenta que fazer as coisas de maneira íntima seria como não fazer nada, o que me lembrou muito o que vivemos hoje com as redes sociais: se não foi compartilhado, o acontecimento não foi vivido. E este é apenas um exemplo de previsões que se tornaram semelhantes ao que vivemos hoje neste livro escrito em 1932.

Talvez exatamente por isso, por tantas previsões serem realidade ou serem extremamente possíveis hoje, o impacto do livro não é tão forte como poderia ser em outras distopias. O próprio Huxley aponta algumas escolhas equivocadas na história, principalmente sobre o destino de John, mas como isso não é o mais significativo pra mim enquanto leitora, a riqueza e beleza do livro permanece, é uma obra pela qual tenho muito carinho.

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