A vida de Isak Dinesen – Judith Thurman

interlunio34-bioblixenEm 1982, a jornalista Judith Thurman, colunista da revista The New Yorker, publicaria a sua biografia de maior repercussão: A vida de Isak Dinesen (no original “Isak Dinesen: a vida de uma contadora de estórias”). Dividida em 4 livros, a biografia cobre desde a vida das duas famílias de onde Blixen se originou – os Dinesen e os Westenholz – até sua morte, em 1962.

Karen Blixen, o nome por que hoje é conhecida a autora de A Fazenda Africana, apesar de ter sido batizada como Karen Christentze, era chamada pela família de “Tanne”. Esse nome dá título ao Livro Um da biografia, o que conta sua infância e juventude na Dinamarca. Interessante o que faz Thurman ao dar bastante voz às pessoas que mais marcaram a vida de Blixen: as irmãs, o irmão, a mãe, a feminista tia Bess e sobretudo o pai, Wilhelm Dinesen, que cometeu suicídio quando ela tinha 10 anos.

A família da mãe tinha origem burguesa, eram pessoas práticas, religiosas, que vinham de cidades grandes e que acreditavam no fruto do próprio trabalho. Suas mulheres geralmente eram feministas. Já a família do pai vinha do campo, tinha vínculos com a aristocracia e eram mais espirituosos. Tanne se identificava mais com a família do pai e a ausência deste foi um dos grandes sofrimentos em sua vida, pois achava que apenas ele a entendia. Já com tia Bess, que morava com sua família, o relacionamento era contraditório. Tanne tinha carinho pela tia, admirava algumas de suas ideias, mas considerava-a uma tirana puritana. Sua mãe e seus irmãos eram amados, mas o que se sobressaía era que Blixen não se encontrava nessa família, sentia-se completamente deslocada.

As primeiras tentativas de distanciamento da família foram seus cursos de Belas Artes e suas primeiras histórias, que eram peças de teatro familiar. A Vingança da Verdade era sua peça mais significativa, que escreveu aos 19 anos. Em muitos momentos de sua vida Blixen iria resgatar e fazer pequenas apresentações dessa peça e ela acabou sendo encenada mais tarde, na década de 60, no Teatro Real de Copenhague e na televisão dinamarquesa. Era uma história que se passava numa estalagem, em que uma feiticeira roga uma praga em todos para que todas as mentiras ditas naquela noite fossem reveladas pela manhã.

Sua vida amorosa na juventude não teve grandes emoções até se apaixonar pelo primo Hans Blixen. No entanto, Hans não sentia o mesmo e por um bom tempo ela ficou alimentando esse amor não-correspondido, recusando os vários pedidos de casamento que recebia. Até que aceita se casar com o irmão gêmeo de Hans, o também barão Bror Blixen. Inicialmente eles cuidariam de uma fazenda de gado na Dinamarca depois do casamento, até que alguém lhes deu a ideia de ter uma fazenda na África, em Nairóbi. Nenhuma das famílias dos jovens era a favor, mas o espírito aventureiro de Bror e a vontade de Karen de viver uma vida diferente, independente da família, deixaram-nos determinados e foram enfim, patrocinados pelos familiares. Poucos anos depois Hans morreria em um acidente de avião.

Inicia-se uma nova fase da futura escritora, aquela em que foi mais feliz: sua vida na África. O Livro Dois chama-se “Tania”, que era como os africanos a chamavam. Para quem leu A Fazenda Africana essa parte da biografia traz o lado mais realista, mais documental da história contada por Karen Blixen. Seu relacionamento com Bror, as caçadas, a infidelidade do marido, a sífilis contraída dele, que será o grande tormento em sua vida, os péssimos resultados financeiros da fazenda, tudo aqui é mostrado de forma mais dura, afinal o grande livro de Blixen não é sobre mostrar os fatos exatamente como aconteceram, mas como ela queria se lembrar deles.

Destaca-se nesse livro ainda seu romance com Denys Finch Hatton, quase abençoado pelo marido Bror, de quem se separa em 1925. Essa parte da história serviu de base para o filme de 1985, Entre Dois Amores, de Sydney Pollack, estrelado por Meryl Streep e Robert Redford. O relacionamento sofria altos e baixos pois Hatton não queria ter uma esposa e Blixen esperava mais presença e compromisso. O que se sobressaía era, contudo, a grande amizade entre os dois, suas caçadas, suas conversas sobre arte e seus jantares ao som de música alta. Infelizmente, logo após a falência da fazenda, Hatton, que era aviador, sofre um desastre em 1931, deixando Blixen completamente desconsolada. Agora ela teria que enfrentar seu maior pesadelo: voltar para a Dinamarca definitivamente.

Karen Blixen

No entanto, é voltando para o seu país que Karen Blixen consegue o distanciamento para se tornar a escritora Isak Dinesen, nome que escolhe para publicar seu trabalho, que também dá título ao terceiro livro da biografia. Nessa fase de saudade da África e de sofrimento com a piora da doença, ela coleta as várias histórias que havia delineado por anos e publica Sete Narrativas Góticas, primeiramente por uma edição americana. Só depois do grande sucesso do livro ele seria publicado na Dinamarca.

Foi apenas depois de algum tempo que Blixen teve coragem de contar sua experiência como fazendeira no Quênia, e o resultado foi sua grande obra, A Fazenda Africana. Em seguida publicaria Histórias de Inverno, sob o peso da ocupação alemã na Dinamarca. Nessa época sua casa virou um ponto de fuga para os judeus dinamarqueses que procuravam refúgio na Suécia e ela então teve seu papel no movimento de resistência que salvou mais de 7000 pessoas.

Chegou ainda a escrever, sob pseudônimo, um fraco livro de suspense, apenas por questões financeiras e nunca admitiu formalmente sua autoria. Já nessa época contava com a ajuda de sua secretária Clara Svendsen, uma espécie de fã da autora que fez de tudo para trabalhar para ela. As duas tinham um relacionamento de amor e ódio e no final da vida de Blixen, quando já não conseguia escrever, Clara tornou-se sua copista. Outro relacionamento estranho, no final da década de 40 e começo dos 50, foi o que teve com o escritor Thorkild Bjørnvig. Ela era uma espécie de mestre místico para ele e para desenvolver o seu dom e ter paz para o trabalho, ele era mantido na enorme casa de Blixen, longe da esposa. Karen queria ter muito controle sobre Bjørnvig e eles acabaram rompendo.

O quarto e último livro é chamado de “Pellegrina”, uma referência a Pellegrina Leoni, a cantora de seu conto “Os Sonhadores”. Judith Thurman a toda hora faz referência a esse conto para comentar como Pellegrina é uma representação de Isak Dinesen, no sentido de que a personagem é alguém que está sempre se reinventando, sempre morrendo e renascendo como alguém novo. Aliás, durante todo o livro a autora analisa os contos de Blixen comparando-os com momentos de sua vida.

Nessa parte destaca-se sua ida aos Estados Unidos, onde foi tratada como uma rainha e conheceu inúmeros escritores e celebridades; a publicação de seus últimos livros – Últimas histórias Anedotas do destino – e sua morte, já com o corpo extremamente frágil por conta da doença.

A biografia revela um trabalho de pesquisa minucioso e Thurman não se limita a descrever os fatos da vida da escritora dinamarquesa. Além de analisar inúmeras de suas obras a fundo, ela também analisa a própria vida de Blixen, seja com categorias filosóficas, seja com categorias da Psicanálise, e traz para o leitor ótimas reflexões, ideais para quem busca uma biografia com um algo a mais.

Karen Blixen era uma contradição ambulante. Ora defendia o feminismo, ora o criticava; ora defendia o socialismo, ora era a favor da aristocracia, ostentando seu título de baronesa. Era generosa e egoísta ao mesmo tempo, tinha muito amor por seus empregados, mas podia ofendê-los gravemente. Era sobretudo uma mulher sofredora, solitária, que acreditava que a vida teria feito um pacto com ela: o amor em troca de boas histórias.

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Sete narrativas góticas – Karen Blixen

interlunio08-goticasDepois de algum tempo que retornou involuntariamente da África, a dinamarquesa Karen Blixen parece ter encontrado na escrita o ânimo que precisava para amenizar sua saudade. O Sete Narrativas Góticas foi seu primeiro livro publicado, em 1934, e consiste em contos ou novelas fantásticas, com histórias que já contava oralmente para seus amigos, naquele continente que considerava sua verdadeira casa.

As histórias têm uma estrutura semelhante aos contos de fadas, cheias de peripécias e com algumas narrativas menores internas, histórias dentro de histórias, que às vezes são mais importantes ou envolventes que a história principal. São como um labirinto circular, em que depois que se chega ao meio só resta ir desenrolando o caminho de volta até fechar a trama.

O termo gótico não poderia ser mais preciso: a autora traz o mundo medieval para personagens do século XIX e ambienta suas vidas em castelos, mosteiros, florestas sombrias. As paisagens são soturnas e os personagens são simbólicos, parecem não ser de carne e osso, mas apenas representações de ideias ou ideais. Os valores parecem ser contraditórios e muitas vezes o negativo é apresentado como positivo: a morte traz luz, a noite reserva esperança… Acima de tudo é criada uma atmosfera poderosa de sombras, em que desfila a loucura e o sobrenatural.

Um tema que está muito presente é o da manipulação. Um personagem com um certo poder ou talento irá tratar os outros como suas marionetes. Isso ocorre sobretudo em “O dilúvio em Nordeney”, “O macaco” e “O poeta”. Na primeira novela temos personagens com muita improbabilidade de se encontrar reunidos em um celeiro, contando suas vidas em volta do fogo de uma lamparina. Esperam a morte ou a possibilidade de salvação, caso sejam resgatados de uma enchente. Na segunda, que tem um mosteiro como cenário, uma prioresa possui um macaco por quem é muito devotada. O animal terá um curioso papel no destino do jovem sobrinho da prioresa e a moça com quem ele quer casar. Já na terceira história há um triângulo amoroso marcado pela tragédia: um velho irá manipular um jovem casal para que tudo ocorra conforme seus objetivos, separando-os por amor à Poesia e a Beleza.

As mulheres são geralmente retratadas como a Mulher enquanto ideia e muitas vezes apresentadas como inatingíveis. Em “O velho cavalheiro” o narrador nos conta duas histórias amorosas: de quando se apaixonou por uma mulher casada e a sua noite de amor com uma jovem que encontrou bêbada nas ruas de Paris. Aqui temos dois exemplos de mulheres no pedestal: a dama poderosa e superior, e a jovem misteriosa, que responde a todas as fantasias. “Os sonhadores” também traz essa mulher envolta em mistério, mas aqui ela é quase uma deusa imortal, encantadora de homens.

Talvez a história mais fraca seja ”Os caminhos em torno de Pisa”, que nos apresenta a um conde dinamarquês que está na Itália para fugir de sua esposa ciumenta. Ele vem a conhecer uma senhora que quer ver a neta antes de morrer e pede a ele que a ajude. Provavelmente esta seja a novela com menos elementos fantásticos. Por outro lado, “A ceia em Elsinore” tem um forte elemento sobrenatural. Trata de uma família vivendo em Elsinore, que conta com duas irmãs espirituosas e melancólicas e seu irmão Morten, jovem destemido e vaidoso que acaba se tornando corsário, apresando vários navios para o seu país durante as guerras napoleônicas. Quando o corso é proibido, ele some no mundo e torna-se pirata, mas volta depois como fantasma para se encontrar com suas irmãs.

Ninguém consegue criar imagens que funcionam como pinturas literárias como Karen Blixen. Embora essas narrativas góticas possam soar ingênuas e seus temas e reflexões possam ser vistos como ultrapassados, a autora constrói uma atmosfera onírica que pode marcar muito a imaginação do leitor. São histórias que remetem a um tempo em que as narrativas orais em volta do fogo eram o único entretenimento possível e tinham o poder de deixar quem as ouvia rememorando seus trechos mágicos antes de dormir.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

A fazenda africana – Karen Blixen

14_fazendaApesar de muitos leitores encararem descrições como um defeito nos livros, para mim são elas que definem um bom escritor, pois são elas que nos fazem recriar a imaginação de outra pessoa e de pintar um quadro próprio, sugerido por quem escreveu. São elas que nos transportam longe de nossa confortável poltrona e nos levam a lugares que jamais poderíamos conhecer de perto. E foram através das belas descrições de Karen Blixen que eu estive na África, sentindo o grave calor do dia, as noites frias, os cheiros da selva, os sorrisos das crianças e os olhares únicos dos quicuios, dos massais, dos somalis.

Romance de não-ficção ou relato autobiográfico, A fazenda africana narra os anos em que Blixen cuidou de sua fazenda de café no Quênia, no início do século XX, mas sobretudo conta a história das pessoas que fizeram parte de sua vida nessa aventura africana. O livro não segue uma linha exata no tempo, justamente porque seus capítulos são divididos por situações e pessoas que foram importantes e inesquecíveis para a autora, como a história de Kamante, um menino quicuio que ela salva e que acaba depois se tornando seu cozinheiro, ou mesmo sobre sua amizade/amor por Denys Finch-Hatton: Blixen parecia muito feliz sobrevoando a África ao seu lado.

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O mais incrível é ver como a autora apresenta as pessoas pelo que elas têm de mais bonito e o quanto isso diz sobre ela mesma, já que pouco conta de sua vida mais pessoal, seu marido ou sua família. Mas ela também conta sobre suas caçadas, seus animais preferidos, como ela acabava interferindo nas questões locais e como a cultura africana marcava a cada dia sua existência. Sua paixão pela terra africana é tamanha que ela quer fazer parte dela de alguma forma:

“Se é que estou, como creio, familiarizada com uma melodia da África, da girafa e suas listras iluminadas pela lua nova, dos arados nos campos, dos rostos suados dos colhedores de café, será que a África também conhece uma melodia minha? Será que o ar sobre a planície estremecia com uma cor que eu estivesse vestindo, ou as crianças inventariam um jogo no qual surgia meu nome, ou, ainda, a lua cheia lançaria uma sombra parecida comigo sobre o cascalho diante da casa, e as águias de Ngong me buscariam com seus olhos?”

Com uma escrita delicada, simples e cheia de comparações e metáforas, Blixen constrói imagens da fazenda, dos seus funcionários, das tribos nativas e dos seus amigos de uma forma tão límpida e amorosa que o leitor se sente abandonado e com saudade quando o livro acaba. Não sei dizer que episódios foram os meus preferidos nesse belo rol de histórias, mas sei que quero voltar a essa fazenda um dia, sentar mais uma vez na varanda do casarão e observar Lulu aparecendo entre as árvores ao entardecer.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.