O Selvagem da Motocicleta – S.E. Hinton | Rumble Fish (1983) – F.F. Coppola


Lendo O Selvagem da Motocicleta eu tive a sensação de rever os personagens de Vidas Sem Rumo vivendo uma outra história. Rusty-James, Steve e Motorcycle Boy lembram muito o trio Ponyboy, Johnny e Dallas. Especialmente Motorcycle Boy, o bad boy atormentado com altos níveis de charme e carisma, que é temido e admirado por todos. Já vendo o filme, com o filtro do diretor e a caracterização dos atores, a diferença fica mais marcada, até porque no filme eles são bem menos inocentes e não têm a menor cara de meninos de 14 e 17 anos.

Como no livro anterior, Hinton traz a questão das brigas masculinas, o prazer que elas causam e sua relação com disputas por território ou vaidade, mas aqui não há diferenças sociais. Os personagens não sabem ao certo porque brigam, são como os peixes betta, peixes de briga que não podem estar no mesmo aquário com outro da mesma espécie. Mais uma vez também ela trata de coisas como o relacionamento entre irmãos, a estrutura familiar e a rejeição a drogas pesadas, mas tudo numa história bem curta, sem tempo para muita profundidade.

O Coppola então preencheu a história de uma maneira muito visual, começando pela escolha do preto e branco, que não é gratuita porque Motorcycle Boy não vê cores. As cenas são muito simbólicas e os efeitos de câmera, fotografia e jogos de luz e sombra são o barato do filme; o diretor parece ter lambido cada cena para que ficasse como ele queria esteticamente. Um exemplo disso é a presença constante de relógios nas cenas, talvez para salientar a ansiedade de Rusty-James.

Sempre gosto do Matt Dillon, o James Dean dos anos 80, ainda que ele tenha feito esse mesmo papel tantas vezes; o Mickey Rourke está muito bem, mas me incomodou em alguns momentos porque eu imaginava um Motorcycle Boy bem diferente (eu já havia visto o filme há muito tempo e não lembrava mais quem tinha feito o personagem); já o personagem Steve me irritou um pouco, no livro ele não é tão caricato e patético. Fora isso e a trilha sonora ruim, Rumble Fish é um agrado para quem curte cinema e gosta de observar detalhes de direção: alguns momentos têm o tom de videoclip e em outros parece que estamos vendo um filme de Fellini, com a dramaticidade passando por cima de qualquer falta de lógica. Um cult que vale a pena ser visto, num daqueles casos raros em que o filme supera o livro.

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Vidas sem Rumo: The Outsiders – S.E. Hinton | The Outsiders (1983) – F.F. Coppola


É difícil falar sobre algo que você gostou na infância ou adolescência porque seu julgamento pode ser manipulado pela nostalgia. Ainda assim, lendo o livro da Susan E. Hinton e revendo o filme do Coppola posso perceber que The Outsiders (Vidas Sem Rumo) é uma história bonita para jovens, na qual qualquer adolescente pode encontrar seu retrato de alguma forma. Até porque a autora o escreveu com apenas 16 anos, o que dá mais autenticidade aos sentimentos dos personagens e às situações que eles enfrentam. Apesar de ter visto o filme algumas vezes no passado, só soube da existência do livro recentemente, pela Raquel.

O narrador é Ponyboy Curtis, um menino de 14 anos que perdeu os pais e que mora com seus dois irmãos mais velhos, Sodapop e Darren. Seu melhor amigo Johnny e outros amigos do bairro (Two-Bit, Steve e Dallas) são greasers, que é o termo que define os garotos pobres, marginais. Todos eles vivem em eterno duelo com os socials, que são os garotos ricos, até que uma morte acontece e a vida dos dois grupos começa a mudar para sempre.

A história, que se passa no final da década de 60, mostra uma visão bem pessimista em relação ao destino dos greasers; a falta de estrutura familiar fatalmente conduz os meninos a um destino traçado de violência, morte, prisão ou, na melhor das hipóteses, trabalho pesado. Como um social chega a comentar, os greasers podem ganhar todas as brigas, mas no final eles serão sempre os perdedores, porque continuarão por baixo na vida. A salvação de Pony, além do amor de seus irmãos, é seu interesse por coisas como a arte e o pôr-do-sol. Numa cena com Johnny ele até cita um poema que resume o processo em que eles estão passando de perder a inocência e ter que entrar rapidamente para a maturidade: “Nothing gold can stay”.

Da versão de 2005 – com cenas adicionadas pelo diretor – não há quase diferenças em relação ao livro. Só consigo lembrar o fato de que no filme não aparecem as garotas greasers, mas elas também não têm muita importância no livro. Apesar de ter sido escrito por uma menina, The Outsiders é realmente sobre meninos. Ainda que com atuações bem verdes, o filme virou cult por causa dos atores e do que eles se tornaram depois, mas a história tem sua força e acredito que deva funcionar ainda hoje para aqueles que ainda estão em sua fase dourada.

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