Diário de Inverno – Paul Auster

44_inverno4Depois de uma certa idade, geralmente depois dos 60 anos, é comum começar a refazer os próprios passos através das lembranças que foram mais significativas na vida. O escritor norte-americano Paul Auster, conhecido por obras como A Invenção da Solidão, Timbuktu e A Trilogia de Nova York, escreve este Diário de Inverno como uma espécie de catalogação de suas lembranças, mas aqui ele não se limita apenas a contar pequenas histórias, ele também faz uma autobiografia de sensações, colocando tudo que é relacionado ao corpo em evidência. As sensações físicas que cada episódio contado guarda; a temperatura dos ambientes, as estações, o vento no rosto, o calor ou o frio insuportáveis, as dores e prazeres, os machucados acidentais, tudo que o corpo possa absorver do meio é relevante, afinal as memórias mais importantes são daqueles momentos nos quais você se sentiu realmente vivo.

Neste livro, a descrição das coisas mais banais acabam adquirindo a grande importância que elas verdadeiramente têm e que só parecem não ter porque você as repete tanto ao longo da vida que esquece que elas existem e são essenciais. É o caso, por exemplo, do tempo que gastamos nos locomovendo, das comidas que costumamos comer, dos abraços que damos e recebemos, do sono, dos sonhos, das viagens. Mas sobretudo a importância do que é mais marcante: a história de nossas mães, os anos no colégio, as cicatrizes que colecionamos na infância, os parentes que queremos evitar e que nos perseguem, os ossos quebrados, as casas onde moramos (em determinado ponto do livro ele descreve todas as residências em que morou), os amigos que perduram, a perda de entes queridos, tudo que compõe uma história de vida comum, feita dos momentos que lembramos ou que lembram por nós.

Essa simplicidade da proposta de Auster, aliada a uma escrita muito clara e ligeira, pode afastar alguns leitores mais rigorosos, mas constituirá uma leitura muito prazerosa a quem estiver no espírito de desenterrar suas próprias lembranças. Até mesmo o recurso da segunda pessoa, que serve para marcar uma fala consigo mesmo, pode ter o efeito de conversa com o leitor. A despeito de ser a vida de um escritor famoso – uma profissão que pode garantir algumas aventuras – Diário de Inverno é o relato autobiográfico de uma pessoa comum, com a qual muitas pessoas podem se identificar.

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★★★★ | Companhia das Letras, 2014

“Você acha que nunca vai acontecer com você, que não pode acontecer com você, que você é a única pessoa do mundo com quem nenhuma dessas coisas jamais há de acontecer, e então, uma por uma, todas elas começam a acontecer com você, do mesmo modo como acontecem com todas as outras pessoas.”

Depois de uma certa idade, geralmente depois dos 60 anos, é comum ter visto muita gente querida partir. A morte da mãe de Auster é um dos momentos mais fortes do livro e de certa forma assinala o tom de inverno da vida anunciado pelo título. Contudo, esta não é uma obra lúgubre ou algo do tipo, pelo contrário, é uma narrativa repleta de vitalidade, de humor, de tudo que constitui uma história pessoal bem contada, que abarca tanto os mais pequenos assuntos do cotidiano quanto grandes questões sobre identidade e consciência da finitude.

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*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

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O paciente inglês – Michael Ondaatje

43_paciente2Mais conhecida por sua adaptação para o cinema, que foi Oscar de melhor filme em 1996, a história de O paciente inglês inicia com o encontro de quatro personagens em uma villa na Itália depois que a Segunda Guerra acaba na Europa. Após servir como hospital, o local fora abandonado, exceto pela jovem Hana, uma enfermeira canadense que perdeu o pai e o namorado recentemente. Ela insiste em ficar com seu misterioso paciente, um homem com o corpo inteiramente queimado, que não teria condições de ser deslocado. Chega em seguida Caravaggio, um amigo do pai de Hana, que tem intenção de convencê-la a partir, ao mesmo tempo que tenta descobrir a identidade do paciente. Em determinado momento une-se ao grupo o indiano Kip, um sapador que está desmontando bombas na região.

Os personagens acabaram de sofrer muitas perdas devido a guerra e nesta villa isolada do mundo lá fora eles vão sobrevivendo e convivendo, cada um ajudando a limpar as feridas do outro. Kip tem um especial papel de cura para eles, especialmente para Hana, de quem se torna amante. Para o Paciente Inglês ele se torna um amigo e, apesar de seu caráter de isolamento, necessário para sua profissão, é Kip quem dá um caráter de família a esse quarteto. Uma história de amor é vivida e outra contada. Aos poucos sabemos o que ocorreu com esse paciente, como ele sofreu o acidente que o queimou no deserto e como ele viveu um romance que acabaria destruindo muitas vidas.

O enredo é construído, de certa forma, de trás para frente: você conhece a situação presente dos personagens, o autor volta um pouco no tempo, conta o passado recente e aos poucos vai entrando mais e mais no passado de cada um. Como usou fatos reais e se baseou em alguns personagens históricos para montar sua ficção, Ondaatje costura no texto algumas citações, refere-se a canções, poemas, textos técnicos sobre bombas e sobre exploração no deserto, e cria uma colcha de retalhos que pode ser confusa em alguns momentos, mas que pode funcionar para quem estiver mais atento. Em alguns momentos sua escrita é agradável, traz imagens bonitas, em outros parece um pouco artificial, pesada. A adaptação para o cinema foi muito bem realizada e em vários aspectos é até mais verossímil que o livro, mas infelizmente deu muita importância ao personagem Caravaggio, que a meu ver é quase dispensável, e acabou tirando muito a força de Kip. O foco do filme é na verdade no romance vivido pelo Paciente Inglês antes do seu acidente, ainda que Juliette Binoche com sua Hana roube a cena.

O que me agradou mais nesse livro foi a relação dos personagens enquanto estão vivendo na villa. Agradam-me histórias em que os personagens estão em situações “fora do sistema”, fora da sociedade. Vivem um dia de cada vez, numa rotina que interessa apenas à sobrevivência e ao encontro com o outro. Os relatos do passado, mesmo os relacionados ao Paciente Inglês, que são maioria na obra, com uma ou outra exceção não me emocionaram tanto. Gostei também de o autor ter estabelecido que vários personagens tivessem uma espécie de livro sagrado, um livro preferido que poderia servir também como caderno de anotações, usando as páginas brancas. Histórias de Heródoto, Anna Karenina, Rebecca, O último dos moicanos são alguns exemplos de livros pessoais dos personagens.

De uma maneira mais ampla, é um livro sobre pessoas que estão fugindo de sua identidade, que em um mundo de guerra não querem dar importância a nacionalidade, ao passado, às origens, ainda que estas características estejam sempre as perseguindo. São vidas ainda um tanto perdidas, com muitas ruínas por limpar. Querem construir uma vida qualquer longe do sofrimento, embora chegue uma hora em que o mundo acaba gritando muito alto e eles finalmente terão que ouvir.

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