Livros e Leituras de Fevereiro e Março

Nos dois últimos meses tive boas leituras e adquiri coisas novas para a estante:

17_fev-mar

Começei completando minha coleção do Livro das Mil e uma Noites, que devo ter começado em 2009. Por sinal, na época cheguei a ler a metade do volume 1 e nunca terminei, não lembro o porquê, mas estava gostando muito. Também de coleção adquiri o volume 4 do The Absolute Sandman. Essa versão está sendo lançada no Brasil pela Panini, mas eu acabei preferindo a edição americana, não só pela linda capa de couro, como por achar que seria interessante reler no original, já que todas as minhas outras versões são brasileiras. Eu devo ter umas 4 edições diferentes de Sandman, tanto em revistas avulsas como encadernados, mas nunca consegui completar nenhuma; sempre que vou reler eu começo com uma e vou para outra, mas espero que essa agora eu consiga todos os volumes.

Ainda em quadrinhos, Retalhos e Habibi, do Craig Thompson. Eu não tenho dúvida de que irei gostar de ambos, mas estou mais empolgada ainda para ler Habibi. O mangá Solanin, de Inio Asano e o livro Matadouro 5, de Kurt Vonnegut são livrinhos de bolso muito recomendados pela Luara e eles me chamaram da prateleira da L&PM. Também veio pra casa O Sentido de um Fim, para a discussão no Fórum Literário. De todos que comprei foi o único que li até agora.

Por fim, dois livros infantis: Ela tem olhos de céu, da minha amiga Socorro Acioli, que veio com um lindo button para quem comprou no dia do lançamento, e Peter e Wendy, de J.M. Barrie, em uma edição bem legal da Cosac Naify, em que a sobrecapa do livro se transforma numa luminária.

E as minhas leituras (clique na imagem do livro para ver texto aqui no blog ou informações do Goodreads):

08_serena09_laranja0110_wood13_sentido
.
11_chocolate12_collector14_espadas15_semfim

Coincidentemente, a metade dos livros têm histórias que se passam nas décadas de 60/70 e três foram lidos para o Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Dos que não comentei por aqui:

A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl – a história não era nenhuma novidade pra mim, talvez por isso não tenha me surpreendido tanto, já que as adaptações para o cinema são bem fiéis. Mesmo assim gostei, e tenho vontade de ler alguns outros livros do autor, como Matilda e As Bruxas.

O Colecionador, de John Fowles – lido para o fórum, foi um livro que achei muito bem escrito e envolvente, mas com uma temática que me incomoda bastante. Consegui um exemplar em português fazendo uma troca no skoob, mas como o livro veio muito velho acabei lendo em inglês mesmo, no kindle.

A Tormenta de Espadas [As Crônicas de Gelo e Fogo, #3], de George R.R. Martin – começa devagar, mas do meio para o fim justifica ser considerado um dos melhores da série. Li para me preparar para a terceira temporada da série de tv e estou ansiosa para ver como vão adaptá-lo. Achei que a escrita do Martin deu uma caída em relação aos outros livros, mas pode ser problema de tradução. Contudo, no que diz respeito à trama, nesse ele caprichou.

A História sem Fim, de Michael Ende – esse livro tem grandes qualidades narrativas, mas senti falta de uma certa linearidade, em certo ponto ele toma um rumo episódico que coloca a história principal em segundo plano. Adorei os personagens Atreiú e Fuchur, mas não simpatizei muito com o Bastian, ainda que seja legal que o personagem principal tenha tantas facetas e não seja exatamente bonzinho. Não cheguei a ver o filme na infância – sei lá eu por que essa sessão da tarde não aconteceu pra mim – mas sempre achei muito estranha a produção do dragão Fuchur, que mais parece um cachorro. Pude vê-lo agora e apesar de continuar achando estranho esse Fuchur (que no filme se chama Falkor), até que é uma boa adaptação, bem no estilo dos anos 80. Fiquei surpresa, contudo, ao ver que o filme só cobre metade do livro.

Anúncios

A Fúria dos Reis – George R.R. Martin | Game of Thrones – HBO (Season 2)

Entre abril e maio li A Fúria dos Reis, segundo volume da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, mas dessa vez optei pelo original em inglês, versão ebook. A segunda temporada já havia começado, mas pelo menos consegui terminar a leitura bem antes que a série acabasse. Para aqueles que não leram o livro ou não viram a segunda temporada da série, fica avisado que aqui haverá spoilers.

Neste livro temos a mesma divisão de capítulos por personagens específicos – não se trata de um relato em primeira pessoa, mas um foco em cada um deles. São praticamente os mesmos do primeiro livro, acrescentando dois personagens relacionados ao mar: Theon Greyjoy (secundário no livro anterior) e Davos Seaworth. Com Eddard fora do baralho, continuamos a ver a trama sob o olhar de Arya, Sansa, Tyrion, Bran, Jon, Catelyn e Daenerys. Para retomar a história, o autor usa a aparição de um cometa vermelho. Aos poucos vamos vendo como cada personagem interpreta esse evento segundo suas próprias convicções e interesses, e como as reações são diferentes. Para alguns ele simboliza o reino dividido pela guerra, anunciando morte e sofrimento, para outros ele ressalta a volta dos dragões, ou a intervenção religiosa da sacerdotisa vermelha ou mesmo o poder da casa Lannister. Na verdade ele antecipa tudo isso, preparando o leitor para o que virá.

Ao contrário do livro anterior, que era mais homogêneo, A Fúria dos Reis reveza capítulos muito bons e outros razoáveis. Os de Daenerys, por exemplo, considerei bem enfadonhos, mas gostei de um ou dois, especialmente aquele em que seu grupo passa um tempo numa cidade fantasma e Jorah conta sua história. A saga de Theon também me deixou entediada. Ele é um bom personagem, um jovem que não consegue se encaixar em nenhum lugar, nenhuma família e mais perdido que Daenerys na Casa dos Imortais. Porém Theon pode despertar no leitor sentimentos conflitantes e a casa Greyjoy e seus valores não me causaram admiração ou interesse. Tyrion continua como um dos melhores personagens da série, finalmente com oportunidade de brilhar com suas estratégias para o jogo político e a guerra, mas aqui ele fica em segundo em comparação com Arya. Era a história dela que eu mais ficava ansiosa para ler. De Porto Real a Harrenhal ela não descansa um segundo, sua interação com Jaqen H’ghar e outros personagens paga o livro inteiro e a reza que faz antes de dormir é antológica. Se os capítulos de Sansa são mais bonitos no que diz respeito à escrita do autor, os de Arya são mais instigantes e surpreendentes. Ao norte da Muralha, Jon e a A Patrulha da Noite passam por algumas aventuras bacanas, mas achei que para o grupo as coisas ficam mais interessantes com a aproximação do final do livro.

Em relação ao seriado, as diferenças ficaram bem menos sutis. Considerei a segunda temporada um pouco confusa para quem não leu o livro, mas ainda assim algumas escolhas foram necessárias. Arya nunca chega nem perto de Tywin no livro, mas apesar de parecer um pouco forçado um lorde fazer amizade com uma copeira, vi isso como uma solução inteligente tanto para causar tensão como para resumir o que acontece em Harrenhal. Outro exemplo é a Batalha de Água Negra que, filmada à noite, proporcionou um efeito bonito com a ação do fogovivo e causou um impacto maior visualmente, com o uso do barco vazio. Já a morte de Bran e seu irmão, infelizmente, não foi muito explorada no seriado. Ela funciona muito bem no livro, mas na série fica bem óbvio que não foram eles que morreram. A constatação de que estão vivos, no final, é uma surpresa que coroa a história. Na TV, a surpresa final foi outra e admito que ela foi mais do que adequada para a versão em vídeo. O que me causou estranhamento mesmo foram alguns personagens e situações que não aparecem no livro, mas talvez eles tenham antecipado algo do terceiro volume. Assim como o livro, a série teve seus altos e baixos, mas no geral teve episódios incríveis.

Esse livro foi minha primeira compra de ebook e primeira leitura (completa) no Kindle. A experiência foi ótima; como é um livro que não tenho intenção de guardar, saiu muito mais barato e mais prático lê-lo nesse formato. Sem falar do auxílio do dicionário, que define a palavra que você seleciona, sem sair da página de leitura. Devo adquirir os próximos livros da série também dessa forma. Mas isso só quando o inverno, isto é, a terceira temporada estiver chegando.

__
Livro relacionado:

A Guerra dos Tronos – George R.R. Martin | Game of Thrones – HBO (Season 1)


Apesar de gostar muito da série Game of Thrones, não tinha a intenção de ler os livros que lhe deram origem. Não porque a série de livros seja longa e ainda inacabada, mas porque achei que o seriado daria conta da história muito bem e ainda traria o elemento visual, tão fascinante quando se trata de fantasia. Era o que achava até começar a assistir recentemente à segunda temporada, na qual tive a impressão de ser feita para quem está acompanhando os livros. Se na primeira eu já deixava passar alguns detalhes confusos que se perdem na velocidade imposta pela televisão, na segunda esses detalhes estão se aglomerando e tenho curtido menos a série. Resolvi encarar pelo menos os dois primeiros livros, e como meu irmão tem o primeiro, tomei emprestado, e à medida que ia lendo, fui revendo os episódios da primeira temporada.

No que diz respeito à trama, não vi praticamente nenhuma diferença significante entre as duas obras: a história foi contada completamente na série, não há motivo para ficar relatando que no livro um personagem era mais assim e no seriado era mais assado. A diferença mais marcante fica por conta do seriado dar mais relevância ao sexo (afinal é HBO) e tornar alguns personagens mais importantes. A vantagem do livro é que nele fica mais claro como funcionam as casas (famílias), seus nomes, seus símbolos, quem é fiel a quem, quem é vassalo de quem e como o jogo político pelo poder se desenvolve. Durante a leitura eu fui rabiscando tabelas para entender melhor quem era quem, pois haja pessoas nesse reino! Não é à toa que há um apêndice no final para que o leitor possa entender a genealogia das casas. Claro que conhecendo os principais personagens dá para seguir a leitura, mas para apreciar melhor o jogo dos tronos há que se acompanhar os detalhes que fazem a diferença.

Como em muitos livros de fantasia, temos aqui um mundo à parte, semelhante a uma Europa Medieval. Westeros se divide em Norte e Sul. O povo do Norte é um povo mais simples, ligado à natureza e aos deuses antigos (algo equivalente ao paganismo); o povo do Sul já adora novos deuses e são mais extravagantes e urbanos, por assim dizer. No Norte há uma Muralha que separa o reino do extremo Norte, onde vivem povos selvagens e criaturas estranhas e perigosas que muitos julgam não existir mais. São criaturas do frio que esperam o inverno para aparecer. O livro inteiro se passa no verão, mas a todo momento somos lembrados que o inverno está para chegar. Além disso há o Leste, para além do Mar Estreito, com cidades que não respondem ao Rei.

Cada capítulo é focado em um personagem, como se o narrador contasse a história pelos seus olhos, usando cada um deles de acordo com o que é mais importante contar em dado momento. Primeiro temos Eddard Stark, senhor de Winterfell, ao Norte. Ele é convidado pelo Rei para ser sua Mão, o segundo mais importante cargo do reino. Para isso ele deve ir para o Sul e deixar sua família. Depois temos Catelyn Stark, esposa de Eddard que sofre com o fato de que seu marido e as duas filhas que irão acompanhá-lo provavelmente não voltem mais para casa. As duas filhas são Sansa e Arya. Sansa é a mocinha romântica que mal pode esperar o momento em que irá casar com o filho do Rei. Arya é a filha rebelde, que está sendo levada para a corte como uma tentativa de ser domada e educada. Bran Stark é um dos filhos que também iriam embora com o pai mas que por conta de um acidente tem que permanecer em Winterfell. Jon Snow é o filho bastardo de Eddard e que tem como única escolha de vida entrar para a Patrulha da Noite, um grupo decadente que protege a Muralha. Já em Porto Real, temos o cunhado do rei Tyrion Lannister, um anão rejeitado pela família que se beneficia da riqueza e inteligência que possui para compensar suas limitações físicas. Por último, vivendo além do mar, a princesa Daenarys Targaryen, cuja dinastia governava o reino e comandava os dragões e que foi derrotada pelo atual rei. Seu irmão a casa com um líder de uma tribo estrangeira na intenção de recuperar o trono.

Através destes oito personagens vamos conhecendo as intrigas de mil outros. Não por acaso eles são aqueles por quem o leitor torce e responsáveis por um local da história: se em algum lugar estiver ocorrendo uma batalha, por exemplo, pelo menos um desses personagens estará presente para assisti-la. Destaque para Tyrion, o melhor personagem do livro. Além de ser responsável por muitas tiradas de humor sarcástico, ele está sempre com um livro na mão, uma mulher na cama e uma frase sábia na boca:

“…uma mente necessita de livros da mesma forma que uma espada necessita de uma pedra de amolar se quisermos que se mantenha afiada.”

O gênero fantasia é geralmente entretenimento puro, muito específico para quem gosta desse tipo de história, pois lida com valores esquecidos (como a honra), brinca com nossos medos e superstições e ao mesmo tempo pode tratar de assuntos como política sem se comprometer com a contemporaneidade. Fora o elemento da magia e seres fantásticos, que tornam ilimitadas as possibilidades de uma cena impactante, como é a do final de A Guerra dos Tronos. Não espere algo que o fará pensar sobre a vida, o universo e tudo mais. O que temos aqui é um enredo muito bem construído, com bons personagens e muita diversão.

__
Livro relacionado: