Solanin – Inio Asano

interlunio57-solaninMeiko e Taneda são um jovem casal de namorados vivendo juntos na cidade de Tóquio. Eles terminaram a faculdade e trabalham, mas não estão satisfeitos com o rumo que suas vidas tomaram. Meiko decide pedir demissão e como ela praticamente sustenta a casa, Taneda fica um pouco desesperado. É que ela acha que a vida pode ser mais do que assumir o chamado cotidiano de pessoas adultas. “Será que eu não deveria estar fazendo outra coisa?” Eis a pergunta tão comum às pessoas de 20 e poucos anos.

A decisão de Meiko vai transformar mais a vida das pessoas que a rodeiam que a dela mesma, pelo menos em um primeiro momento. Seus amigos também vão se questionar e Taneda é o mais atingido. Agora ele pensa que deve levar a sua banda de rock de final de semana mais a sério. E então tudo começa, dá-se a largada pela busca dos sonhos. O problema é que após alguns dias a realidade cai na cabeça de todos e Meiko percebe que não vai poder viver a vida inteira com o que ela tem na poupança. E quando parece que tudo vai ficar bem, que a solução vai aparecer de alguma forma, uma tragédia acontece e todos na turma ficam sem chão.

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Solanin é o nome de uma canção escrita por Taneda e é a partir dessa música que Meiko vai tentar encontrar seu caminho para uma nova vida, uma vida com a tão esperada liberdade. É um mangá com uma bela história, especialmente para aqueles que não encontraram seu talento no mundo. Solanin é para aqueles que valorizam a amizade, a lealdade, e para aqueles que sabem que estar perdido no mundo é menos duro quando há companhia.

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O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

30_oceanoEu não costumo ter muita pressa para ler lançamentos, mas fiquei muito intrigada com esse mais recente livro do Gaiman. Embora eu seja leitora do autor há mais de 12 anos, ainda tenho alguns de seus livros mais antigos guardados para ler, esperando sei lá eu o quê, a tal hora certa. Mas esse não podia esperar, e mesmo com uma certa expectativa, não me decepcionei porque primeiro: eu já sei o que esperar dele, inclusive o fato de que seus livros não costumam surpreender muito (o que é bom, porque parece que tudo que se lê hoje em dia tem que ter uma reviravolta), e segundo: a escrita dele é confortável como um pijama velho.

Talvez eu tenha ficado um pouco desapontada por ser uma história curta. Eu esperava algo no estilo Deuses Americanos. Mas o livro é o que é: a lembrança de um breve, porém importante momento da infância. Lembrei-me então do mito do Rei Pescador, aquele que fala do instante em que o menino se queima ao tentar pegar um peixe na fogueira. É nesse comecinho da vida que ele perde a ilusão de que a vida é apenas felicidade, que ele percebe que o mundo pode ser injusto e duro.

E como pode ser injusto! E no caso do personagem de Gaiman, que tem apenas 7 anos, assustador, pois até mesmo sua casa e sua família deixam de ser terreno seguro. Segurança mesmo só na casa das Hempstock, um mundo materno e acolhedor, com comida que acalenta a alma e costuras que moldam o tempo. Mais uma vez Gaiman usa uma versão da figura das 3 mulheres – uma velha, uma adulta e uma jovem, conhecidas como Moiras na mitologia grega – como condutoras dos mistérios da vida, e são elas que fazem essa história ser tão envolvente. Talvez elas, mais que a criança narradora, sejam as responsáveis por nos levar de volta à infância ao longo da leitura.

Ainda que essa história tenha um fim, fica a sensação de que esse momento em que nos queimamos fica voltando o tempo todo durante a vida, não importa a idade que temos, e que tudo que precisamos para amenizar essa dor é ter alguém pra segurar forte nossa mão e dizer que tudo ficará bem.

“Uma história só é relevante, suponho, na medida em que as pessoas na história mudam. Mas eu tinha sete anos quando todas essas coisas aconteceram, e no fim de tudo era a mesma pessoa que era no início, não era? Todos os outros também. Deviam ser. As pessoas não mudam.”

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

Houve um tempo em que sempre que ouvia o título deste livro eu imaginava um grande épico sobre alguma família no campo. Depois que descobri que era sobre alguns dias na vida de um adolescente em Nova York nos anos 50 fiquei curiosa para saber o que tinha a ver uma coisa com a outra, mas só recentemente achei que era a hora de lê-lo.

Holden Caulfield tem 16 anos e está internado em algum lugar para recuperar-se de um esgotamento nervoso. Ele é o narrador de sua história e conta o que se passou com ele para que chegasse a esse ponto, ao mesmo tempo que divaga e reflete sobre a vida, sua família e sua dificuldade de se relacionar com os outros. Como todo adolescente, mas em maior escala que a média, Caulfield é intolerante com qualquer característica que remeta ao mundo adulto. Não suporta hipocrisia e convenções sociais, e acha muito desagradável que o mundo seja cheio de “falsidade”, com as pessoas escondendo o que realmente sentem e pensam, bem como o que acham umas das outras, formando um jogo de fingimento que ele sabe ser necessário para a vida social, mas que ainda assim o incomoda muito.

Mas se por um lado ele busca sinceridade e verdade, ele mesmo não é sincero com os outros e consigo mesmo, e isso é apenas uma das características que o fazem contraditório o tempo todo: ele anseia por companhia e se sente muito sozinho, mas ao mesmo tempo sabota suas relações por não saber lidar com elas, e ao tentar se proteger da dor, se aliena e colhe uma solidão insuportável. Ele quer fugir da vida cotidiana padronizada em que todos seguem o mesmo curso, fazem as mesmas coisas e dizem as mesmas frases, mas no fundo ele tem muito medo da maturidade que está para chegar e só consegue admirar pessoas que ele julga simples ou puras, como as crianças, especialmente sua irmãzinha Phoebe.

O livro é repleto de simbolismos, sendo o mais óbvio o chapéu de caça vermelho que ele usa para fugir de sua realidade, uma marca de individualidade típica dos adolescentes para assinalar o não-pertencimento a uma sociedade que ele julga hipócrita. É um clássico romance de formação, mas como ele mesmo deixa claro no primeiro parágrafo, essa história não será contada como a de David Copperfield, nem no formato, porque se restringirá a apenas alguns dias de sua vida, nem no estilo, já que Salinger se utiliza do chamado skaz adolescente: uma narração que lembra muito mais a fala do que a escrita, semelhante ao que Mark Twain fez em As Aventuras de Hucleberry Finn (aliás, os dois livros são usualmente comparados, como se Caulfield fosse uma versão urbana e refinada de Huck).

Essa linguagem usada pelo autor, inclusive, aproxima muito o leitor do narrador, o que acaba reativando alguns questionamentos da adolescência, nos lembrando de que as coisas não são muito diferentes por termos uma idade ou outra, a mudança é apenas de perspectiva, de como encaramos a vida: não é difícil encontrarmos Caulfields de todas as idades, que em vez de enfrentarem seus medos e desafios, encontram desculpas, como a falta de disposição. Não é difícil qualquer um de nós escolher agir assim em um momento ou outro como forma de nos protegermos de algo que não queremos encarar e é esse é apenas um dos motivos pelos quais O Apanhador no Campo de Centeio não é um livro juvenil, ainda que deva ser uma leitura incrível para quem estiver nessa fase.

Duas aventuras de H.R. Haggard

Quando criança, fantasia associada a aventura e descoberta de civilizações perdidas formavam para mim uma equação irresistível, coisa que deve ter começado através das caças ao tesouro protagonizadas pelo Tio Patinhas e os filmes da tarde com as sagas de Simbad ou Indiana Jones. Numa destas sessões assisti a uma das versões de Ela e fiquei muito intrigada com a história, especialmente o final. Recentemente lembrei do filme e descobri que é uma adaptação de um best-seller de H. Rider Haggard, o mesmo autor do famoso As Minas do Rei Salomão e que, com suas obras, iniciou o subgênero lost-world nos livros de fantasia.

Apesar de ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, dificilmente ouço falar de alguém que tenha lido Ela ou mesmo conheça sua história. O narrador é Holly, um professor de Cambridge que juntamente com seu filho adotivo Leo e seu criado Job seguem em uma perigosa aventura na África a fim de entender a herança histórica da família de Leo. Lá eles descobrem uma civilização escondida, comandada por Ayesha, uma belíssima mulher que vive há dois mil anos. Se por um lado a história é curiosa e influenciou inúmeros escritores mais tarde, como Rudyard Kipling e J.R.R. Tolkien, por outro é incômodo para o leitor de hoje perceber de maneira tão escancarada alguns valores racistas e machistas dos vitorianos. Apesar de Ayesha ser uma mulher com extremo poder – é absurdamente bonita e sábia e possui poderes sobrenaturais e grande capacidade de comando – sua soberania não é vista com bons olhos, mas como algo perigoso à humanidade, e infelizmente sua devoção romântica a Leo por vezes acaba ajudando a diminuir a força da personagem.

As Minas do Rei Salomão também conta uma aventura na África e é narrada pelo caçador Allan Quatermain, que possui um mapa para as incríveis e secretas minas do rei bíblico. Com a companhia de Sir Henry Curtis, o Capitão Good e o nativo Umbopa, os personagens farão uma longa jornada através de um deserto africano, cada um com seu motivo e missões pessoais. Os tipos de situação que eles enfrentam são semelhantes aos que vemos em filmes com o personagem Indiana Jones (que parece ter sua origem em Quatermain), com direito a batalhas contra um rei africano sanguinário, trapaças de uma feiticeira maligna e cavernas com mecanismos secretos. Assim como em Ela, Haggard traz um narrador um tanto contraditório, que se divide entre mostrar os africanos como bárbaros e ao mesmo tempo, em algumas situações, considerá-los como mais cavalheiros que certos europeus. É fácil encontrar sua edição traduzida por Eça de Queiroz.

A escrita de Haggard não oferece muitos atrativos, mas não há como negar que ele foi muito criativo em suas histórias, aproveitando sua experiência na África para pormenorizar suas descrições. Tendo influenciado tantos livros e filmes que vieram depois, estas obras não causam muito impacto nos dias atuais e são previsíveis e ultrapassadas – as situações repetitivas e os monólogos cansativos dos narradores também não ajudam. Ainda assim, guardarei a cena final de Ela com carinho nas minhas lembranças de infância.

O Selvagem da Motocicleta – S.E. Hinton | Rumble Fish (1983) – F.F. Coppola


Lendo O Selvagem da Motocicleta eu tive a sensação de rever os personagens de Vidas Sem Rumo vivendo uma outra história. Rusty-James, Steve e Motorcycle Boy lembram muito o trio Ponyboy, Johnny e Dallas. Especialmente Motorcycle Boy, o bad boy atormentado com altos níveis de charme e carisma, que é temido e admirado por todos. Já vendo o filme, com o filtro do diretor e a caracterização dos atores, a diferença fica mais marcada, até porque no filme eles são bem menos inocentes e não têm a menor cara de meninos de 14 e 17 anos.

Como no livro anterior, Hinton traz a questão das brigas masculinas, o prazer que elas causam e sua relação com disputas por território ou vaidade, mas aqui não há diferenças sociais. Os personagens não sabem ao certo porque brigam, são como os peixes betta, peixes de briga que não podem estar no mesmo aquário com outro da mesma espécie. Mais uma vez também ela trata de coisas como o relacionamento entre irmãos, a estrutura familiar e a rejeição a drogas pesadas, mas tudo numa história bem curta, sem tempo para muita profundidade.

O Coppola então preencheu a história de uma maneira muito visual, começando pela escolha do preto e branco, que não é gratuita porque Motorcycle Boy não vê cores. As cenas são muito simbólicas e os efeitos de câmera, fotografia e jogos de luz e sombra são o barato do filme; o diretor parece ter lambido cada cena para que ficasse como ele queria esteticamente. Um exemplo disso é a presença constante de relógios nas cenas, talvez para salientar a ansiedade de Rusty-James.

Sempre gosto do Matt Dillon, o James Dean dos anos 80, ainda que ele tenha feito esse mesmo papel tantas vezes; o Mickey Rourke está muito bem, mas me incomodou em alguns momentos porque eu imaginava um Motorcycle Boy bem diferente (eu já havia visto o filme há muito tempo e não lembrava mais quem tinha feito o personagem); já o personagem Steve me irritou um pouco, no livro ele não é tão caricato e patético. Fora isso e a trilha sonora ruim, Rumble Fish é um agrado para quem curte cinema e gosta de observar detalhes de direção: alguns momentos têm o tom de videoclip e em outros parece que estamos vendo um filme de Fellini, com a dramaticidade passando por cima de qualquer falta de lógica. Um cult que vale a pena ser visto, num daqueles casos raros em que o filme supera o livro.

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Vidas sem Rumo: The Outsiders – S.E. Hinton | The Outsiders (1983) – F.F. Coppola


É difícil falar sobre algo que você gostou na infância ou adolescência porque seu julgamento pode ser manipulado pela nostalgia. Ainda assim, lendo o livro da Susan E. Hinton e revendo o filme do Coppola posso perceber que The Outsiders (Vidas Sem Rumo) é uma história bonita para jovens, na qual qualquer adolescente pode encontrar seu retrato de alguma forma. Até porque a autora o escreveu com apenas 16 anos, o que dá mais autenticidade aos sentimentos dos personagens e às situações que eles enfrentam. Apesar de ter visto o filme algumas vezes no passado, só soube da existência do livro recentemente, pela Raquel.

O narrador é Ponyboy Curtis, um menino de 14 anos que perdeu os pais e que mora com seus dois irmãos mais velhos, Sodapop e Darren. Seu melhor amigo Johnny e outros amigos do bairro (Two-Bit, Steve e Dallas) são greasers, que é o termo que define os garotos pobres, marginais. Todos eles vivem em eterno duelo com os socials, que são os garotos ricos, até que uma morte acontece e a vida dos dois grupos começa a mudar para sempre.

A história, que se passa no final da década de 60, mostra uma visão bem pessimista em relação ao destino dos greasers; a falta de estrutura familiar fatalmente conduz os meninos a um destino traçado de violência, morte, prisão ou, na melhor das hipóteses, trabalho pesado. Como um social chega a comentar, os greasers podem ganhar todas as brigas, mas no final eles serão sempre os perdedores, porque continuarão por baixo na vida. A salvação de Pony, além do amor de seus irmãos, é seu interesse por coisas como a arte e o pôr-do-sol. Numa cena com Johnny ele até cita um poema que resume o processo em que eles estão passando de perder a inocência e ter que entrar rapidamente para a maturidade: “Nothing gold can stay”.

Da versão de 2005 – com cenas adicionadas pelo diretor – não há quase diferenças em relação ao livro. Só consigo lembrar o fato de que no filme não aparecem as garotas greasers, mas elas também não têm muita importância no livro. Apesar de ter sido escrito por uma menina, The Outsiders é realmente sobre meninos. Ainda que com atuações bem verdes, o filme virou cult por causa dos atores e do que eles se tornaram depois, mas a história tem sua força e acredito que deva funcionar ainda hoje para aqueles que ainda estão em sua fase dourada.

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