Dois infantis de Neil Gaiman

Neil Gaiman é daqueles autores que mesmo quando faz um trabalho apenas razoável, ainda assim vale a pena. Não que seja o caso destes seus 2 livros infantis, que trazem deliciosas histórias cheias de humor e imaginatividade, passando longe do didatismo chato de muita coisa pra criança que vemos por aí.
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The Day I Swapped My Dad for Two Goldfish [O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados] é uma história engraçada sobre um garoto que, ao ver os peixinhos que o amigo acabou de ganhar, sugere-lhe uma troca bem inusitada: os peixes pelo indiferente pai, que tudo que faz é ler o jornal. Apesar dos conselhos da sábia irmãzinha, o garoto realiza a troca, mas em seguida terá que percorrer um longo caminho para reaver o pai. O resgate na companhia da irmã é muito divertido pois a cada momento o pai já foi trocado por outra coisa. O garoto é o narrador, e a história é contada como se ele a tivesse escrito, com seu próprio estilo e sua própria letra. As ilustrações de McKean, como sempre, são ótimas, mas desta vez, bem simples, acompanhando o texto como uma história em quadrinhos feita pelo narrador.
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Já em The Wolves in the Walls [Os Lobos dentro das Paredes] McKean fez algo bem mais especial para ilustrar a atmosfera um tanto assustadora criada por Gaiman. Assustadora porque lida com os medos de Lucy, que num momento de silêncio em casa, começa a ouvir um barulho vindo das paredes e tem certeza de que são lobos. Sua mãe lhe diz que não, seu pai lhe diz que não, e até seu irmão lhe diz que não, e todos têm uma explicação sobre a impossibilidade de haver lobos nas paredes, já que, segundo eles, se um dia os lobos começarem a sair das paredes, tudo estará acabado. Lucy é uma adorável menina questionadora, que não aceita argumentos genéricos só porque todos têm uma teoria lógica sobre o assunto. Tanto é que tinha razão: os lobos acabam mesmo saindo das paredes e sua família passa a morar no jardim. Enquanto todos estão pensando pra onde deverão ir, Lucy planeja voltar pra casa e enfrentar seus medos.

Dos dois livros, somente este último foi lançado aqui no Brasil, mas o primeiro tem uma linguagem bem simples e com certeza pode ser lido por uma criança que estuda inglês, especialmente com a ajuda dos pais.

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On the Road (Pé na Estrada) – Jack Kerouac

Quando jovens, somos levados facilmente pela idolatria porque ainda não descobrimos quem somos ou não acreditamos em nossas próprias qualidades ou queremos uma realidade maior que a oferecida diante de nossos olhos. Geralmente precisamos de alguém que nos puxe pela mão para fazer as coisas que queremos fazer, e é um pouco o que acontece com Sal Paradise e Dean Moriarty, em On the Road. Com o propósito de descobrir o que é a vida, o que é a América, o que é Deus e o sentido de tudo, Sal precisa pegar a estrada e ser apóstolo de Dean, que serve de condutor não só como motorista mas também como “santo” idolatrado, que orienta a uma vida plena de liberdade no final dos anos 40.

“…e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo em constelações…”

A vida proposta por Dean é a vida do cada dia com sua preocupação; sem pensamentos sobre carreira profissional ou investimentos pro futuro, mas a mais pura e primitiva vida compromissada apenas com o agora e com os desejos imediatos, ainda que isso signifique muitas vezes babaquice ou criminalidade. A liberdade de ser e fazer o que quiser, uma espécie de egoísmo infantil que se preocupa apenas com o querer, independente do que isso possa significar para os outros. A liberdade do seguir em frente e não ficar parado, de descobrir o que há além e experimentar todos os prazeres possíveis.

“Inclinou-se sobre o volante e deu a partida; estava de volta a seu elemento natural, qualquer um podia perceber. Ficamos maravilhados, percebemos que estávamos deixando para trás toda a confusão e o absurdo, desempenhando a única função nobre de nossa época: mover-se.”

Se para Sal a aventura da estrada é uma peregrinação espiritual e despedida da última infância, naquela idade em que ainda podemos fazer loucuras sob a desculpa de nossa juventude, para Dean é a única forma de viver, atropelando as pessoas que o amam porque o mais importante é seguir em frente. Dean não tem nada a oferecer, senão o entusiasmo pela vida. Sua ideia de liberdade é romântica e atraente, mas é um fogo que aquece e queima os que se aproximam. Ainda assim, Sal insiste em vê-lo como salvador, no fundo porque ele quer ser Dean Moriarty, ser tudo o que não é; ele quer entender a vida sob outros olhos porque sua própria vida não lhe ofereceu o que era necessário:

“Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser um negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, música, não era noite o suficiente. (…) Mas era apenas eu, Sal Paradise, melancólico, errando nessa escuridão violeta, naquela noite insuportavelmente encantadora, desejando poder trocar meu mundo pelo dos alegres, autênticos e extasiantes negros da América.”

Quando li On the Road aos 18 anos o livro causou um grande impacto em mim: eu queria ter experiências semelhantes às de Sal, pelo menos no que diz respeito às viagens. Queria encontrar pessoas diferentes e interessantes, queria colecionar histórias, queria ver a estrada e as diferentes vegetações do meu país através das janelas laterais de um carro ou de um ônibus… 18 anos depois não dá mais para se identificar tanto com os personagens, mas penso que o que ficou de mais importante pra mim desta estrada percorrida por Sal e Dean é o eterno questionamento, é o ímpeto de tentar não fazer as coisas da mesma forma que todos já fazem ou fizeram, de não se deixar cair numa fôrma e se acomodar na tradição. Perguntar-se sempre se o que queremos fazer é realmente o que queremos ou apenas o que é esperado de nós, para só então tomar uma decisão, seja ela qual for, ainda que seja a mais segura.
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Adaptação: Na Estrada (On the Road, 2012) – Walter Salles

O filme de Walter Salles destaca Sal como escritor e a amizade dele com Dean, dando uma importância maior à Marylou e Camille, esposas de Dean. Infelizmente o episódio com Terry e Sal – uma das melhores partes do livro na minha opinião – não foi desenvolvido como deveria, mas algumas outras situações foram bem retratadas. Fiquei um pouco incomodada com a escolha de Sam Riley como Sal Paradise, que não me pareceu certo para o papel (ainda que bom ator), mas ainda assim é um filme bonito e com bons momentos.

The Maxx – Sam Kieth

Talvez poucas pessoas lembrem, mas em meados dos anos 90 a MTV brasileira colocou no ar uma série de animação baseada nos quadrinhos The Maxx, de Sam Kieth. O vídeo chegou a ser lançado em fita VHS aqui no Brasil e tenho a minha guardada até hoje como lembrança, assim como uma action figure do Maxx pela qual tenho o maior carinho. A série contava a história de Julie Winters, uma assistente social envolvida em um relacionamento complicado com o vagabundo Maxx.

Devido a um acontecimento trágico por que passou, Julie construiu inconscien-temente um mundo paralelo, baseado em suas memórias suprimidas de infância, formado por uma savana australiana com criaturas inusitadas, em que ela seria a Rainha Leopardo, senhora da selva. Maxx em ambos os mundos é seu protetor e animal-espírito, ainda que ele não controle onde estará a cada instante: num momento ele pode estar lutando na cidade para defendê-la, em outro repentinamente adentrar na savana, tendo que lidar com outros perigos.
Na cidade, Maxx enfrenta Mr. Gone, um vilão que ataca mulheres e comanda os Iszes, seres que tomam a forma humana para cometer crimes. Somente Gone sabe o significado dos dois mundos, o que há por trás da máscara de Maxx e o que aconteceu com Julie no passado. Cobrindo 11 números dos quadrinhos – lançados pela Image Comics e posteriormente pela DC Comics –, a série constitui um primeiro arco de histórias, focado em Julie. Mesmo com um final diferente, a animação é bem fiel, praticamente uma filmagem dos quadros de Sam Kieth.

Já o segundo arco (que fecha a história na edição #35) apresenta o mundo paralelo de Sarah, a típica adolescente rejeitada e rebelde, e vai trazendo histórias cada vez mais pesadas, especialmente quando Kieth passa a escrever sozinho. Ele mergulha fundo em algumas situações até incômodas de ler, afinal seus personagens são sempre pessoas que foram de alguma forma abandonadas ou abusadas. Se a história de Gone, por exemplo, não for algo perturbador, não imagino o que pode ser. Por conta disso, prefiro os números em que Kieth faz parceria com Bill Messner-Loebs, pois este parece ter sido responsável por amenizar um pouco o drama, com seus diálogos sempre muito espirituosos e até engraçados.

Apesar de Maxx ter uma atitude e aparência de super-herói, o personagem funciona também como ironia ao universo de músculos e super poderes das histórias em quadrinhos tradicionais. Kieth chega a parodiar certos clichês usados nas histórias de super-heróis, o que acaba funcionando como uma crítica à romantização da violência e da morte, mas ao mesmo tempo sem abdicar desses elementos, talvez com a intenção de trazer consciência para eles. Através de categorias da psicanálise, num universo de mitologia primitiva, The Maxx trata de assuntos sérios como o feminismo e a violência contra a mulher de uma maneira bem particular, quase absurda e ao mesmo tempo divertida. Tudo sob a visão de personagens desajustados e marginais, que estão buscando algum tipo de fuga da realidade, afinal quando o mundo lá fora se torna muito perigoso, tudo que lhes resta é o mundo interior.


*É possível encontrar as edições encadernadas em sites como Amazon e Book Depository. A série foi lançada em dvd em 2009 e é bem fácil de achar. Há um tempo fiz legendas para os arquivos de vídeo, caso alguém se interesse, eu posso enviá-las por e-mail.

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Alta Fidelidade – Nick Hornby

Sempre tive uma relação do tipo nunca-te-li-sempre-te-amei com os livros de Nick Hornby, e depois de ler Alta Fidelidade posso dizer que era bem o que eu esperava. O romance conta a história de Rob, um londrino de 35 anos, dono de uma loja de discos, que descreve sua complicada relação com as mulheres e com a música. Para se identificar com Rob você tem que ter pelo menos uma dessas 5 características:
a) ter nascido entre os anos 60 e 80;
b) conhecer um pouco de cultura pop britânica e americana;
c) gostar de música e ter possuído (ou possuir) discos de vinil;
d) ter chegado aos 30 e não ter uma vida adulta padrão;
e) ter passado por rejeições amorosas durante a vida.

Através de listas parecidas com essa, Rob vai enumerando tudo aquilo que é importante pra ele: músicas, filmes, livros e até relacionamentos que deram errado. São as rejeições, inclusive, que conduzem a narrativa, começando pelos 5 mais inesquecíveis fins de relacionamento por que já passou, numa escala que vai da namoradinha de infância ao grande amor vivido nos tempos de faculdade. Segundo ele, essas situações moldaram suas escolhas de vida e depois que Laura, sua atual namorada, resolve deixá-lo, ele vai então entrar em contato com cada uma dessas mulheres, para tentar entender o que deu errado.

A escrita de Hornby é simples e elegante, e sempre soa como as letras de canções pop às quais faz referência, algo como música em forma de literatura (foi bom, aliás, ler no original porque tenho a impressão de que é o tipo de escrita que soa muito diferente em português). As listas Top Five que Rob e os funcionários de sua loja fazem o tempo todo são parte da diversão do livro e apesar de Rob ser um cara depressivo e cheio de auto-piedade, não tem como ler sem um sorriso no rosto, tamanho é o humor (britânico) com que ele trata suas teorias sobre relacionamentos, música e arte em geral. Há um momento, por exemplo, em que ele se pergunta se a arte não acabaria nos tornando pessoas com tendência à solidão ou à melancolia:

“O que veio primeiro – a música ou o sofrimento? Eu escutava música porque estava triste? Ou estava triste porque escutava música? Será que todos esses discos te tornam uma pessoa melancólica?”

Depois dos 30 é inevitável se tornar um pouco saudosista e o ambiente das lojas de discos, que eu tanto freqüentei nos anos 90, bem como as discussões musicais sobre bandas preferidas ou conviver com quem é colecionador de música ou o maravilhoso ritual de gravar coletâneas em fitas cassetes para os amigos, tudo contribuiu para que eu me sentisse em casa durante a leitura. Mas o livro não fica só nessa posição de retrato de uma geração ou mesmo de uma confidência masculina em relação ao sexo, ele também brinca com as infantilidades da vida adulta que raramente admitimos, mas que fazem todo sentido, especialmente quando passamos por uma fase ruim e tudo nos leva a agir como na adolescência, esse limbo onde tudo parece ser mil vezes pior do que realmente é.

Adaptação: Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000) – Stephen Frears
Um ponto baixo da versão cinematográfica é a troca de Londres por Chicago, o que significa perder muito do personagem e de seu humor, transformando Rob num cara menos irônico, menos loser e até com iniciativa profissional, talvez para que um público maior se identifique com ele. Uma das minhas questões preferidas no livro é a de ele ser um adulto inadequado, que não consegue resolver sua vida pelos padrões esperados e aqui sua inadequação é um mero desconforto. Mas gosto muito das cenas da loja de discos e é sempre bom ver personagens conversando sobre música envoltos numa ótima trilha sonora.

A Mulher que escreveu a Bíblia – Moacyr Scliar

Uma maneira de ver o Destino é como aquele conjunto de coisas das quais você não pode escapar: nascer mulher ou homem, em um determinado país, em uma determinada família, com uma determinada aparência – que irá ou não satisfazer o gosto da sociedade em seu momento histórico –, condição social favorável ou não, enfim, uma específica combinação de características que você não escolheu e que de certa forma servirão de funil para suas possibilidades de vida. Esse tipo de Destino, que aponta mais para o passado e o presente do que para o futuro, nos lança um desafio pra vida, tornando-a um jogo de escolha daquilo que você irá aceitar e daquilo que irá tentar transformar ou compensar.

Em A mulher que escreveu a Bíblia, Scliar constrói uma personagem cujo Destino foi bastante cruel: numa época em que o valor de uma mulher era medido somente pela beleza e fertilidade, ela nascera incrivelmente feia. Não ajudava muito ser filha de um mero pastor de cabras e ter uma bela irmã, mas pelo menos ela sabia ler e escrever e também era a primogênita, o que lhe rendeu ser uma das setecentas esposas do rei Salomão e acabar se tornando uma redatora da história dos judeus.

A narrativa, no entanto, é o relato de uma mulher dos dias de hoje contando como foi ser essa moça em uma vida passada, usando referências modernas e analisando as situações como se acontecessem no nosso tempo. O anacronismo na linguagem e o erotismo escrachado dão o tom de humor do livro, bem como as situações e pensamentos absurdos da personagem, com suas fantasias ingênuas de menina apaixonada, que ora incomodam, ora fazem rir. O texto inclusive foi adaptado para o teatro em 2007 e se tornou uma peça cômica.

Uma leitura leve, mas que também questiona o papel da mulher na história, o quanto a beleza define esse papel e como a condição feminina atual ainda é atrelada ao mundo masculino. A moça feia vive em função da aceitação dos homens e ao mesmo tempo se descobre em seu processo de sublimação, transformando seu Destino de uma maneira não muito diferente do que muitas mulheres fariam hoje:

“Minha vida tinha agora um sentido, um significado: feia, eu era, contudo, capaz de criar beleza. Não a falsa beleza que os espelhos enganosamente refletem, mas a verdadeira e duradoura beleza dos textos que eu escrevia, dia após dia, semana após semana – como se estivesse num estado de permanente e deliciosa embriaguez.”

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