O inventário das coisas ausentes – Carola Saavedra

interlunio56-inventarioDividido em duas partes, O inventário das coisas ausentes é um romance curto, de narrativa ligeira e com leves toques de humor e tem como tema principal o encontro amoroso, o momento em que as pessoas descobrem o que é o amor.

A primeira parte tem um enredo mais embaralhado e simula um caderno de anotações de um escritor que está coletando ideias para um romance. Dessa forma, esse escritor é o narrador e sua personagem principal é Nina, uma moça que conhece no período de faculdade. As histórias contadas aqui são quase todas relacionadas a ela e a sua família. São histórias entre homens e mulheres, casamentos que não deram certo, maridos que foram embora, mulheres que casaram por obrigação, mas aqui e ali alguém descobrindo sua própria definição do que é amor: “então isto é o amor” é a frase que se repete.

A segunda parte, intitulada Ficção, seria a história propriamente dita, a narrativa criada pelo personagem escritor. É a história de um pai e de um filho, o encontro deles depois de 23 anos, bem como sobre a relação desse filho com Nina. Em vez de falar sobre o amor, aqui se fala muito mais sobre não saber o que é o amor, ou não saber manifestá-lo da melhor forma.

É uma daquelas ficções contemporâneas que reflete sobre o fazer literário e o faz bem, mas pessoalmente senti falta de mais desenvolvimento dos personagens, até mesmo da própria Nina, que deveria ser o personagem mais marcante. Sob o véu da narrativa fragmentada, tudo é mais sugestão do que fala e, no fim, parece que nada causou mudanças, não houve movimento, tudo ficou como já estava.

Os detetives selvagens – Roberto Bolaño

interlunio35-detetivesrbJuan García Madero é um adolescente mexicano de 17 anos que acaba de entrar para um grupo de poetas do movimento realismo visceral. Envolvido com a literatura de maneira bastante formal e caricata, decorando termos técnicos da poesia, García Madero agora entra em contato com um mundo mais próximo da vida real, iniciando-se no sexo, na amizade e na escrita de forma a encaixar-se melhor neste grupo. O diário de García Madero sobre suas experiências constitui a primeira parte de Os detetives selvagens, obra publicada em 1998 pelo chileno Roberto Bolaño. Com o título de “Mexicanos perdidos no México”, essa primeira parte se passa no final do ano de 1975, e é através dela que conhecemos os personagens que se denominam real-visceralistas.

Em um primeiro nível temos os protagonistas: Arturo Belano e Ulises Lima. Líderes do movimento, são os típicos poetas vagabundos, marginais e aparentemente indiferentes a tudo. Além deles destacam-se Rafael Barrios, Jacinto Requena, Xóchitl García, Felipe Müller, as irmãs María e Angélica Font, os irmãos Rodriguez, Pele Divina, Laura Jáuregui e César Arriaga. Publicam seus poemas numa revista própria, chamada Lee Harvey Oswald e estão sempre pelas ruas da Cidade do México, em cafés, bares e boates, escrevendo e conversando ao lado de xícaras e mais xícaras de café com leite.

Pintado este retrato, que poderia ser atribuído – com um ou outro detalhe modificado – a muitos movimentos literários ao longo da história, o autor pausa a narrativa de García Madero para construir a segunda parte do livro (“Os detetives selvagens”), que abarca os anos de 1976 a 1996, e onde encontramos, como uma espécie de narrativa policial ou um documentário cinematográfico, duas situações investigativas: a procura de Belano e Lima pela poeta Cesárea Tinajero, que pertencia ao primeiro realismo visceral, nos anos 1920, e a procura de alguém desconhecido pelo perfil dos próprios Belano e Lima, através de relatos de pessoas próximas aos dois, num movimento que ilustra bem a tendência de uma geração sempre procurar pela geração anterior. O leitor é ele mesmo um detetive, tentando descobrir o que é e o que não é confiável diante de tantas pistas embaralhadas.

Os relatos formam um grande tecido sobre quem eram Belano e Lima, mas sobretudo eles contam histórias de vida mais ricas e encantadoras que as desses poetas. O romance entre dois homens, uma moça que tira fotos nua, a loucura lúcida de um homem que perdeu suas referências, uma mulher que se esconde por vários dias em um banheiro para não ser presa… Muitos relatos que transportam o leitor para longe da narrativa principal mas que ao mesmo tempo contestam a validade do próprio relato, já que cada personagem tem visões muito distintas de quem são Arturo Belano e Ulises Lima. Isso é mais evidente ainda diante da voz única que Roberto Bolaño dá a maioria destes personagens, através de um discurso indireto livre, com marcas de oralidade na medida para que o leitor acredite nessas histórias. A terceira parte do livro, “Os desertos de Sonora”, volta ao começo e retoma o diário de García Madero, o qual acompanha Belano e Lima em sua busca por Cesárea Tinajero por vários povoados mexicanos.

Ao contrário de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, que propõe um quebra-cabeça hermético, Bolaño oferece um jogo mais simples de encaixar, abarcando leitores de vários tipos, desde o que está interessado em boas histórias até aquele que se empolga com referências obscuras ou com a diferente construção da narrativa. Através de alguns contrastes, o autor questiona o que é poesia, o que é ser poeta, o que é real e principalmente o que é real segundo o olhar de cada um. A poesia é algo que inicia com o ato de escrever ou é uma atitude perante a vida? Será que ser poeta tem mais a ver com roubar livros de sebos que propriamente publicar poemas? Bolaño sugere que a poesia é algo maior que a literatura e a juventude encontra nela um norte para a vida, afinal “não resta aos rapazes pobres outro remédio senão a vanguarda literária.”

Afogado – Junot Díaz

interlunio06-afogadoLivro de estréia do escritor dominicano Junot Díaz, Afogado é uma coleção de contos interligados pela temática da imigração de dominicanos para o Estados Unidos. A maioria dos contos é narrada pelo personagem Yunior e acompanha a história de vida de sua família, desde momentos de sua infância pobre na República Dominicana, quando foram abandonados pelo pai, até quando já vivem nos Estados Unidos, numa situação mais razoável. Alguns contos não deixam claro se foram ou não narrados pelo mesmo personagem (na minha interpretação não foram) mas de qualquer forma estes também referem-se a rapazes dominicanos em situações muito semelhantes a de Yunior, meninos sem pai, criados por uma mãe que trabalha muito e envolvidos com um universo marginalizado e violento.

Os contos em que a história se passa na República Dominicana têm um tom de nostalgia e desencanto. Um dos contos mais bonitos, “Aguantando”, narra um primeiro momento na infância de Yunior, morando com a mãe, o avô e o irmão Rafa. A ausência do pai, que foi para os EUA e não voltou para buscá-los, é praticamente uma presença, um fantasma para a família. Em “Ysrael” os dois irmãos estão passando um verão na casa dos tios, no campo, e se deparam com um menino que perdeu parte do rosto e tem que usar máscara. Esse personagem volta em “Sem cara”, onde ele está esperando ser enviado para uma operação no Canadá.

Em “Negócios” temos a visão do que aconteceu com o pai depois que foi embora: como foi sua chegada aos Estados Unidos, como conseguiu a cidadania e todo o rol de empregos por que passou até chegar a pensar em buscar sua família. No conto “Fiesta, 1980” já vemos a família reunida e eles fazem uma pequena viagem em sua kombi para a casa de parentes, onde haverá uma festa.

Sem dúvida a vida destes personagens gira em torno da figura do pai de Yunior, e este demonstra um grande esforço em tentar entender e perdoar o abandono e a indiferença que sofre:

“Já que não conseguia me lembrar de nenhum momento com ele, eu o perdoava por todos os nove anos da minha vida. Nos dias em que eu tinha de imaginá-lo – raramente, pois a Mami já não falava tanto – ele era o soldado da foto. Ele era uma nuvem de fumaça de cigarro, cujos traços ainda estavam nos uniformes que tinha deixado pra trás. Ele era pedaços dos pais dos meus amigos, dos jogadores de dominó na esquina, pedaços da Mami e do Abuelo. Eu absolutamente não o conhecia. Não sabia que ele tinha nos abandonado.”

Dois contos narram o cotidiano de jovens traficantes de maconha – que podem ou não ser Yunior, podem ou não ser a mesma pessoa, não fica claro. “Aurora” mostra seu relacionamento com uma garota viciada em drogas e o tipo de vida amorosa possível entre eles e em “Afogado” um jovem vive com a mãe e relata um fato que acontece com ele e seu melhor amigo que os fazem se distanciar. Agora seu amigo está indo para a Universidade enquanto ele sabe que seu futuro será bem diferente.

Os demais contos são essencialmente crônicas de encontros amorosos. Tanto “Como sair com uma garota mulata, crioula, branca ou mestiça”, que cataloga os tipos de menina com quem o narrador sai, quanto “Namorado”, que é sobre um cara observando os movimentos de sua vizinha de cima, as histórias não vão muito além disso, mas “Edison, New Jersey”, que traz um personagem entregador/montador de mesas de sinuca de luxo, já se aprofunda mais na cultura dos dominicanos que moram nos Estados Unidos, no que eles mantêm e no que eles descartaram dela depois de anos como imigrantes. Quando o personagem passa dirigindo por Washington Heights, bairro de Nova York em que a maioria dos habitantes são dominicanos, ele percebe de maneira específica o que resta desta cultura.

Logo na epígrafe do livro o autor, que é radicado nos Estados Unidos, pede desculpas por contar essas histórias em inglês pois isso “já deturpa o que eu queria lhe dizer”. Aquele velho sentimento de já não pertencer mais ao país de origem, tampouco se sentir que pertence ao lugar onde mora fica bem evidente desde o princípio. Mas a força do livro reside sobretudo na construção dos personagens, no quanto o leitor acredita que eles existem e que são inúmeros.

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Essa leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor.

O jogo da amarelinha – Julio Cortázar

39_amarelinhaSerá possível ler um livro como O jogo da amarelinha sem se deixar contaminar pelo peso de um clássico que revolucionou o gênero do romance? Depois de mais de 50 anos de sua publicação talvez seja possível, pelo menos, tentar fazer uma leitura mais distante e menos preocupada, mas me pergunto se é possível apreciar profundamente o livro sem ter o mínimo de interesse pelo estudo dos aspectos formais da Literatura. Pois aqui não basta a história que é contada: importa ainda mais como ela é disposta e como o leitor preenche suas lacunas. E essa é a dificuldade do romance – ou do antirromance, como pode ser considerado – pois o leitor é praticamente chamado para ser escritor também. O leitor aqui é “um cúmplice, um companheiro de viagem”. Como em um sonho, onde há histórias embaçadas e símbolos que devem ser interpretados, o livro é um jogo a ser explorado:

“Uma narrativa que atue como coagulante de vivências, como catalisadora de noções confusas e mal-entendidas, e que incida em primeiro lugar sobre aquele que está escrevendo, para o que é preciso escrevê-la como antirromance.”

Um livro que pode ser lido segundo várias direções e que, portanto, quebra com a ideia de enredo, realmente pode ser considerado um antirromance, no entanto, Cortázar propõe dois caminhos e em ambos podemos ver uma trama formada, encerrada nos 56 primeiros capítulos, os únicos lidos na ordem. A história de Horacio Oliveira, um homem em seus quarenta anos, argentino vivendo em Paris, tentando encontrar ou tentando fugir de algum sentido para a vida através de suas reflexões e interações com os amigos e amantes. Ele faz parte do Clube da Serpente, um grupo formado por artistas e intelectuais que se reúnem para as mais variadas discussões ao som de jazz. Entre eles está Maga, sua namorada, uma mulher sábia e misteriosa, mas vista como tola pelo grupo.

Como seu protagonista, o livro não oferece muita ação. Principalmente na primeira parte, “Do lado de lá”, os personagens geralmente estão dormindo, sonhando, estão deitados ou fazendo sexo, ouvindo música, fumando ou bebendo, andando a esmo; são pessoas em seus momentos mais mentais que físicos. Já na segunda parte, “Do lado de cá”, temos um pouco mais de ação através de tudo que envolve os personagens Traveler e Talita, mas no geral a narrativa é mais interna. Os capítulos restantes, do 57 ao 155, que compõem a terceira parte, “De outros lados”, e que segundo o próprio autor são prescindíveis, são completamente diferentes entre si, como se fossem páginas e notas excedentes que poderiam ter ido para a gaveta, mas que foram anexadas ao romance. Isso não quer dizer que estes capítulos sejam realmente uma espécie de apêndice, pois sem eles o livro não seria o que é. Afinal é através destes capítulos que Cortázar faz suas experimentações.

É nessa parte do livro que o leitor vai encontrar os mais variados textos: capítulos extras, que podem explicar ou desenvolver melhor histórias do livro principal, anúncios de jornais, citações de livros, experimentações de linguagem… mas sobretudo reflexões sobre a própria obra, através da figura de Morelli, um escritor admirado pelo Clube e que se propõe a escrever um antirromance. Durante a leitura vamos entrando em contato com suas teorias e como ele defende uma literatura que seja escrita para um leitor superior, aquele que seja capaz de fazer companhia ao autor na construção da obra mesma. Uma obra que seja figurativa e não descritiva, objetiva – não à toa há muitas discussões sobre Pintura versus Literatura –, uma obra que se aproxime mais da imagem e do som (da Música) e se afaste da descrição literária, algo que os beatniks americanos já haviam tentado de outra forma:

“Morelli parece muito mais radical e mais jovem nas suas experiências espirituais que os jovens californianos, embriagados por palavras em sânscrito e cervejas em lata”.

É também nessa parte que se desenvolvem questões metafísicas encontradas ao longo da história de Oliveira e que justificam a maneira particular escolhida pelo autor para escrever seu romance e desenhar seu protagonista. Se não sabemos o que é real e se não sabemos se a nossa percepção do real não é uma ilusão, a imaginação e o surrealismo então têm todo o direito de tomar conta da vida e da arte. Não adianta buscar um mundo perfeito porque o perfeito não dura, pois somos seres históricos. A verdade só pode residir na ficção, na cultura, na arte, na invenção:

“A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, todas as turas deste mundo.”

Toda essa problemática é legítima, válida e por vezes, instigante, contudo a vida que Oliveira leva a torna vazia e improdutiva. Como a própria Maga explicita, ele apenas observa a vida e não a vive, e uma vida apenas observada, não vivida, fala muito pouco ao outro.

Por essa e outras foi uma leitura que me deixou dividida. Por um lado consegui ver a genialidade e a proposta da obra, emocionei-me com belos capítulos e me empolguei em vários momentos, sobretudo na primeira metade da experiência. Porém por outro me revoltei com o elitismo, a arrogância do livro que é escrito para poucos escolhidos, algumas “brincadeiras” literárias que não acrescentam muito, o excesso de recursos aparentemente aleatórios. Talvez uma releitura fosse mais prazerosa, pois é daqueles livros em que seu estudo pode ser mais divertido que a própria leitura, mas ainda assim eu provavelmente continuaria a me incomodar com essa ideia de que para ser profundo um personagem tem que ser tão passivo e esvaziado. Uma grande experiência de leitura, sem dúvida, mas que deixou-me com um certo fastio desse longo e estridente improviso de clarinete tocado por Cortázar.

*Esta leitura participa da discussão do Leituras Compartilhadas, do blog O Espanador, bem como é o livro do mês de agosto do Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Um, dois e já – Inés Bortagaray

37_umdoisQuando eu era criança, sempre que voltávamos às aulas, as professoras solicitavam a famigerada redação contando as nossas férias. Geralmente eu nunca sabia o que contar e quando tentava tudo parecia muito sem graça, mesmo quando as férias tinham sido boas. Um, dois e já, da uruguaia Inés Bortagaray, poderia parecer uma redação sobre férias em família, já que a narradora é uma menina por volta de seus 10 anos, com suas frases curtas e ritmo particular, mas o livro tem o grande mérito de contar o momento que antecede as férias, uma longa viagem familiar de carro, tão típica das décadas de 70 e 80, que muitas vezes parecia que a autora estava contando um pouco da minha própria história.

Talvez seja por esse motivo que os personagens da família não têm nomes: eles poderiam ser qualquer pai ou mãe, qualquer irmão ou irmã. O relato parece ser feito para que toda uma geração se identifique: quatro irmãos dividindo o banco de trás, com direito a brigas e brincadeiras e a disputa pelos assentos com janela.

A narrativa se divide em vários pontos no tempo e no espaço, segundo o olhar da menina. Primeiro o seu olhar através da janela do carro, com a paisagem dando a impressão de se movimentar e a sensação de o carro estar parado. Depois o seu olhar para dentro do carro, com as lembranças e expectativas da família, os jogos de viagem, a música que toca, as distrações, as piadas contadas, as adivinhas, os enigmas. Sem esquecer as repetições compulsivas e supersticiosas para que nenhum acidente aconteça, bem como as fantasias e os sonhos que toda criança tem para que saiba lidar com o medo da morte. Aqui não temos, portanto, uma história propriamente dita, temos apenas a visão de mundo de uma menina, à medida que a vida passa diante de seus olhos, com idade suficiente para perceber-se e perceber os outros.

Acredito que é exatamente essa percepção tão apurada da narradora, que conta o pouco que acontece com tantos detalhes, que leva o leitor junto nesta viagem e o faz sentir o cheiro de vômito e de pijama dentro do carro. No momento em que a família vai tirar uma foto na beira da estrada, por exemplo, é possível visualizar muito bem cada movimento de cada membro da família e ficar imaginando a curiosidade de como saiu aquela foto até ela ser revelada. Talvez seja um livro específico para quem é nostálgico, para lembrar dos amigos de infância que foram embora e de que não tivemos mais notícias, ou dos bichinhos de estimação dos quais não soubemos tomar conta, mas pode ser que seja também para os filhos do meio, aqueles que sempre têm que lutar mais para conseguir seu lugar no mundo.

Travessuras da menina má – Mario Vargas Llosa

04_meninaJá reparei que tenho fácil afeição por personagens que são mais observadores que atuantes, desses que narram mais a vida dos amigos que a sua própria, geralmente porque esta não é lá muito interessante. Ricardo Somocurcio é desses personagens que têm muito a contar sobre a vida das pessoas que o rodeiam: apesar de Travessuras da menina má ser um livro que conta a sua própria história de amor com uma complicada mulher, são seus queridos coadjuvantes que roubam a cena, sendo os meus preferidos os Gravoski e Juan Barreto. Não à toa os títulos dos capítulos se referem a essas pessoas que passam por sua vida e que não só estão relacionadas a sua amada, como também geralmente têm um significado especial por si mesmas.

Ricardo muitas vezes se julga um fantasma. Seu único sonho é poder morar em Paris e para isso inicia uma carreira de tradutor e intérprete, profissão que o deixa num constante estado intermediário. Também sofre o mal de quem mora muito tempo longe de sua terra natal. Não se considera mais peruano, mas também tampouco é francês – mais uma vez em estado intermediário, fantasma que se esvaece diante da vida. Vive em função da Menina Má, de encontrá-la, de conquistá-la, de amá-la mas nem por isso deixa de ser um personagem que conquista o leitor logo de início, talvez por ser alguém cuja amizade qualquer um gostaria de ter.

O que mais me agradou no livro foi a maneira de Llosa narrar, especialmente no início dos capítulos, em que ele nos deixa ansiosos por novidades, pois começa sempre com um momento mais à frente, falando de novos personagens como se já os conhecêssemos, deixando que o leitor vá descobrindo somente depois a próxima fase de sua história com a Menina Má. Esse recurso funciona até o capítulo final, mas infelizmente o personagem deste momento não é tão bem desenvolvido como os anteriores, ou talvez não seja tão envolvente, o fato é que, ao contrário dos outros, este não acrescenta muito à história e não tem relação com a Menina Má. Além disso, observando de uma maneira fria, pode parecer que o romance tem mais coincidências do que seria suportável no que diz respeito a verossimilhança, mas Llosa faz isso de uma forma que não compromete a história, pelo contrário, as coincidências são profundamente necessárias para que tudo fique mais interessante.

Ler o Travessuras da menina má é como fazer uma deliciosa viagem junto com Ricardito por Londres, Tóquio, Madri e Paris e  é como crescer junto com ele dos anos 50 aos anos 80, comprovando que a história, a política e os homens não necessariamente vão melhorando ao longo do tempo e nem porque estamos ficando mais velhos estamos ficando mais sábios.

Tia Júlia e o Escrevinhador – Mario Vargas Llosa

21_juliaEmbora os personagens deste romance não sejam os mais interessantes da história da Literatura – talvez até porque sejam baseados na vida real do autor – eu cheguei a ficar com saudade deles no final do livro. Senti como se tivesse viajado até o Peru e tivesse convivido com eles e suas histórias doces e banais. Nada banais, no entanto, são as historietas paralelas contadas ao longo do livro e que permeiam o romance, todas com um tom trágico e envolvente.

Mario é um jovem estudante de Direito, aspirante a escritor, que trabalha em uma rádio em Lima reciclando notícias do dia para sua transmissão de hora em hora. No livro ele narra uma passagem da sua vida, quando tinha apenas 18 anos, em que conheceu dois bolivianos que o fascinaram e o marcaram para sempre: Julia, um amor complicado pela diferença de idade e revolta da família; e Pedro Camacho, um excêntrico escritor de radionovelas. Enquanto ela irá estimular sua sexualidade e ânsia por maturidade, ele o fará refletir sobre o objetivo de ser escritor profissional.

O livro se divide então entre o cotidiano de Mario – lutando pelo direito de ficar com uma mulher mais velha e ao mesmo tempo tentando escrever e compreender o método e a personalidade do colega de rádio –, e vários capítulos de novelas de Pedro Camacho, como são transmitidos aos ouvintes da Rádio Central.

Essas radionovelas funcionam como contos com os quais a história principal de vez em quando dialoga, fazendo referências que comentam ou antecipam os acontecimentos. Seus protagonistas são sempre pessoas de 50 anos, geralmente homens, que guardam certas características em comum: “testa ampla, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade no espírito” (embora essa descrição seja alterada mais pra frente) e sua escrita curiosamente revela um estilo próprio, diferente do restante do livro, repleto de passagens melodramáticas e metáforas cafonas, próprias das radionovelas:

“A incerteza, margarida cujas pétalas não se termina jamais de desfolhar, foi agravando o alcoolismo de Joaquín Hinostroza Bellmont, a quem, por fim, via-se mais bêbado que sóbrio.”

Mais para o fim, essas histórias perdem um pouco o fôlego e vão desmoronando junto com o personagem Pedro Camacho e minha curiosidade restava apenas para o que iria acontecer com Mario e Julia. Muitos leitores reclamam do final do livro e eu até entendo, porque nada de muito extraordinário acontece, talvez, como já comentei, pelo compromisso que o autor tinha com a realidade. Ainda assim sua escrita é leve, bonita, simples e com ótimos toques de humor, o que me rendeu uma leitura mais do que agradável.

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Livros relacionados:

Duas novelas chilenas

Uma das recentes modas literárias são os chamados romances curtos, mais precisamente novelas, pela sua estrutura. Tenho um certo embate com novelas (e com contos também) porque elas dificilmente alcançam a profundidade de um romance ou mesmo não dão tempo para que os personagens se arredondem, tomem corpo. Ainda assim podem ser ótimas leituras, como estes dois exemplos de autores chilenos contemporâneos.

61_contadoraA Contadora de Filmes – Hernán Rivera Letelier

“Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.”

Esse é o primeiro capítulo do livro e resume bem como começa a vida da menina Maria Margarita enquanto contadora de filmes num pequeno povoado no Chile, no final dos anos 50. Morando com seu pai inválido, abandonado pela mulher, e os 4 irmãos mais velhos, Maria tem em comum com a mãe a atitude de nunca se conformar com nada e o enorme amor pelo cinema. Ela leva tão a sério suas interpretações que acaba atraindo todas as pessoas do povoado na hora em que se apresenta e encontra a partir daí uma fonte de renda para a família, ganhando até um nome artístico: Fada Docine.

Se a primeira parte da história é até divertida, do meio pro fim ela vai ficando mais triste e interna. À medida que Maria vai amadurecendo e descobrindo o mundo, e o mundo vai apresentando novidades, como a televisão, a menina que tem medo dos dias nublados vai perdendo não só sua clientela como outras coisas mais importantes da vida. Apesar da personagem ser muito genuína, o caráter curto do livro nos deixa com a sensação de que poderia haver mais desenvolvimento, mas ainda assim o livro é tocante, com um final muito belo.

Existe um projeto do Walter Salles para que ele se torne filme e espero ansiosa por ver o deserto do Atacama nas telas.

62_bonsai2Bonsai – Alejandro Zambra
Esta pequeníssima novela começa, digamos assim, pelo fim, e se desenvolve como se fosse contada um pouco de trás para frente, da direita para a esquerda, deixando quaisquer ansiedades do leitor mais ou menos resolvidas:

“No final ela morre e ele fica sozinho.”

Ainda assim queremos saber os comos e os porquês e eles têm muita relação com a Literatura, que integra a vida do casal chileno Julio e Emilia, a ponto de interferir até em sua vida sexual. É um livro que fala de outros livros e fala de si mesmo: o personagem Julio inclusive escreve um romance chamado Bonsai. Não me envolvi muito com a história do casal, mas o livro traz muito boas considerações sobre relacionamentos. Para mim, o mais envolvente na obra foi mesmo a escrita de Zambra, que dá muito prazer em ser lida.

A adaptação para o cinema, pelo diretor Cristián Jiménez, é bem delicada e lenta, dá inclusive para se envolver bem mais com os personagens. No entanto, sendo baseado em um livro tão pequeno, dá a sensação de que o filme poderia ser mais curto, o que o torna um pouco monótono para quem já conhece a história. Ainda assim é um filme muito bonito, que eu recomendaria.

bonsai

Dois romances curtos mexicanos

Festa no Covil – Juan Pablo Villalobos
Logo depois da minha leitura de O Apanhador no Campo de Centeio eu acabei coincidentemente lendo outro romance de formação com linguagem skaz, desta vez na voz de uma criança, o Tochtli, de Festa no Covil. Ele é um menino com idade indefinida, mas com ingenuidade evidente, pois percebemos que ele ainda não é capaz de entender muito bem o que observa em sua casa, ou melhor, em seu “palácio”. Filho de um chefe do narcotráfico, Tochtli não freqüenta a escola – tem um professor particular – e vive isolado do mundo, contando nos dedos as pessoas que conhece, que são os empregados da casa ou os parceiros de seu pai.

Para compensar sua solidão, o pai atende a todos os seus desejos de consumo, tornando Tochtli um tanto fetichista – ele atribui muito poder aos chapéus que usa, por exemplo – e elitista, pois para ele as coisas materiais são medidas apenas pelo seu valor qualitativo e nunca pelo seu valor afetivo. Mas essa compensação não resolve muito seu enorme tédio e o fato de ter que encarar a rotina de violência da casa, muitas vezes para demonstrar que é “macho” para seu pai e que a infância acabou.

O mais interessante no livro é observar como existem duas histórias sendo contadas: uma sob o olhar inocente de Tochtli, com sua maneira de interpretar o que vê; e outra revelada ao leitor, escondida naquilo que a inocência dele não pode perceber. Numa primeira leitura, quando o livro acabou, fiquei um pouco decepcionada com o romance pois esperava um pouco mais de carga dramática, mas como o livro é muito curto, resolvi ler novamente e foi bem melhor, especialmente porque reparei em detalhes de como o autor amarrou tudo de maneira tão criativa. Ainda assim, fiquei com a sensação de que faltou alguma coisa.

Pedro Páramo – Juan Rulfo
Ainda que seja curto, o romance Pedro Páramo é denso e poético, não dá para deixar passar uma só palavra em branco, sob pena do leitor se perder um pouco na prosa de Juan Rulfo – que se limita apenas ao essencial –, mas também porque se trata de uma bela escrita, que deve ser apreciada com calma.

O livro conta a história de Comala, mas em dois momentos diferentes: um de quando esta era uma cidade cheia de vida e outro de quando se apresenta como uma cidade morta, e a figura de Pedro Páramo, o maior dono de terras da região, está diretamente ligada ao destino desta cidade e seus habitantes. Afinal ele não só possui terras como possui pessoas: ele domina a Igreja, na figura do padre Rentería, e domina a lei, através de seu advogado Trujillo e da violência de seus capangas. Seu poder inicia ao herdar as terras do pai e ao casar com Dolores Preciado, pelo simples interesse em fugir das dívidas da família e assim ampliar seu império, a Media Luna. Dolores acaba abandonando-o, apenas para perceber depois que ela é que foi abandonada. Em revezamento com essa história, marcada por sinais naturais como a chuva, que nunca pára de cair, temos uma outra narrativa, esta agora assinalada pelo calor, o agouro dos pássaros e a decadência, em que Juan Preciado, o filho de Pedro e Dolores, volta a Comala para exigir de volta o que seria seu. Mas ele chega à cidade tarde demais, pois vai percebendo aos poucos que todos os habitantes que vai encontrando já morreram.

Este não é um livro fácil de descrever em poucas linhas porque todos seus inúmeros personagens têm densidade e importância para a história, como se fosse um romance russo que se passa no México (ou em qualquer lugar da América Latina). A relação morte e vida é complexa aqui porque a diferença entre quem está morto e quem está vivo é mínima e Comala é quase um retrato do Purgatório, um lugar que não está aqui nem lá, mas algo no meio do caminho, numa possível e bela alegoria à condição dos países latino-americanos.