Mary Poppins – P. L. Travers [Breve comentário]

interlunio39-maryUm já clássico moderno nas histórias infantis, Mary Poppins é a babá que chega na família Banks para trazer um pouco de magia à vida de suas crianças, tão negligenciadas pelos pais. Mary é uma protagonista curiosa, já que não foi feita exatamente para agradar o leitor. Vaidosa, ela parece ser egocêntrica, mas sempre é prestativa com problemas alheios, se ela os considera sérios. Ela serve mais como um canal para um mundo mágico, um símbolo do escapismo infantil diante da indiferença dos pais.

Através de cenas fantásticas, pessoas que flutuam, conversas com animais e uma festa de aniversário pra lá de excêntrica, Mary enreda uma aventura atrás da outra, contanto que não se faça muitas perguntas! A personagem pode parecer meio ríspida, mas ela não teria seu charme se fosse o estereótipo da babá água-com-açúcar, e ela parece muito doce naquela que foi minha cena favorita: quando entra com seu namorado em uma tela que ele pintou. Além disso, as crianças são ótimos personagens, especialmente Jane, que parece ter tudo para dar a atenção devida aos irmãos quando Mary se for. O livro me agradou bastante, com exceção de um ou outro capítulo que me pareceu dispensável.

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Contos de Lugares Distantes – Shaun Tan


Há certos livros que a gente sabe que vai gostar. Não é nem uma questão de criar expectativas, mas de ter uma intuição de que o livro já conversa com você antes de você começar a lê-lo. Esse livro de contos de Shaun Tan é um desses que ficou me chamando da estante, querendo ser lido urgentemente. Mal começo e já sei que ele é dos meus e que irá entrar no rol dos preferidos.

Shaun Tan conta suas histórias tanto (ou mais) pelas imagens quanto pelo texto escrito, ou melhor dizendo, suas imagens não são ilustrações simplesmente: muitas vezes é o texto que vai ilustrar a imagem. Algumas são pinturas extremamente simbólicas que parecem falar diretamente com nosso inconsciente, tornando-as difíceis de decifrar com palavras, como nos contos País Nenhum ou História do Vovô. Outras são mais simples e diretas, como em Faça seu próprio animal de estimação, em que o texto escrito toma a responsabilidade poética.

Os 15 contos são histórias de subúrbios, que bem poderiam ser de cidades pequenas, de lugares em que há muito espaço e pouca gente, muito tédio e pouca novidade. Esses lugares distantes possuem mais campo para deixar entrar o inusitado no cotidiano, tornando-o fantástico: um búfalo que aponta o caminho certo, uma vingança canina, um natal ao contrário, um dugongo na grama do vizinho… Não pelo efeito do inesperado, mas pela poesia que surge destas situações que sacodem a rotina e transformam a vida.

“Que sensação marcante e inominável é esta, que acontece bem no instante do salto: algo que parece tristeza e pesar, uma vontade súbita de ter seu presente de volta, agarrado ao peito, sabendo que certamente nunca o verá de novo. Então você se solta, deixando os músculos relaxarem, os pulmões esvaziarem, e no remanso da saudade permanece uma imagem às margens da memória: a imensa rena no seu telhado, fazendo uma reverência.”

Meus preferidos foram País Nenhum (um lugar secreto dentro de um lar), Ressaca (sobre abandono), Velório (impactante), História do Vovô (uma visão muito poética e bem-humorada sobre casamento) e Chuva ao Longe (o que acontece com os poemas que ninguém lê?). Para quem quiser conhecer melhor o autor, hoje saiu no blog da Cosac Naify um texto dele sobre seu processo criativo e de qual seria o papel das imagens nos livros ilustrados, vale a pena ler!

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