A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

interlunio31-guerraÉ impressionante ler este livro do britânico H. G. Wells, lançado em 1898, e constatar como ele serve de base, direta ou indiretamente, para histórias de catástrofes, mundos pós-apocalípticos e invasões alienígenas até hoje.

A Guerra dos Mundos é uma grande especulação de como seria se seres vivos de outro planeta, superiores aos terráqueos em inteligência e tecnologia, pudessem nos observar e nos invadir, com o intuito de tomar nosso mundo.

Neste caso o planeta seria Marte, que aqui estaria envelhecendo e obrigando seus habitantes a procurar um novo lar. A Terra seria um bom substituto para os marcianos e eles iniciam uma invasão de início tímida, e em seguida, destruidora.

O narrador constrói uma grande tensão, anunciando as tragédias que se seguirão à chegada dos marcianos ao mesmo tempo que nos relata cada momento por que passa, entre medo, pavor e especulações científicas e filosóficas. A história é contada do ponto de vista dele, no interior da Inglaterra, e do ponto de vista do seu irmão, em Londres.

A grande reflexão da obra é sobre o abuso de poder de seres dominantes: Wells faz o leitor pensar sobre a maneira como tratamos os outros animais e até mesmo nossos semelhantes sobre os quais temos domínio. Que argumento relativo à sobrevivência nós teríamos se houvesse uma espécie mais desenvolvida intelectualmente que a nossa, e com mais recursos tecnológicos? Como nos sentiríamos se passássemos a ser alimento para uma espécie superior? Diante dos marcianos os humanos são, durante todo o livro, sempre comparados a pequenos animais – insetos, coelhos, ratos –, facilmente controlados.

“Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob o tacão dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.”

O narrador fica a maior parte do tempo sozinho e interage de verdade apenas com dois personagens-ideias: um padre e um artilheiro. O primeiro é o típico homem contraditório ao seus princípios, cheio de medo e desesperança. O segundo revela-se um homem prático e frio, aquele que se adequaria ao novo mundo, ainda que com uma moral duvidosa. Eles servem de contraponto ao narrador, aquele que tenta encontrar um equilíbrio diante de tanta tragédia, que busca tão somente a sobrevivência e o encontro com os seus.

A narrativa tem um ritmo tenso de ação na maior parte do tempo, o que a deixa um tanto cansativa. O autor traz poucos diálogos e momentos mais reflexivos, deixando-os mais para o final do livro. Comparando com outros livros do autor, como A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, as especulações e reflexões não foram tão desenvolvidas, e o ritmo de fuga do narrador, correndo para lá e para cá, bem que justifica a escolha de Tom Cruise – conhecido por estar sempre correndo nos filmes – em seu papel na adaptação cinematográfica mais atual da obra. Ainda assim trata-se de uma boa leitura, que impressiona pela grande imaginação de Wells, sua criação de referências e sua preocupação com os grandes desafios da humanidade moderna.

“Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?
– O que somos nós? – respondi, limpando a garganta.”

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Duna – Frank Herbert

48_dunaSempre que imaginamos um futuro distante, a sensação é de que a humanidade estará cada vez mais conectada ao mundo digital e as máquinas tomarão conta do nosso cotidiano. No entanto também podemos considerar que esta realidade poderá não nos agradar muito quando ela ultrapassar um certo limite: o limite que tira o ser humano do centro e o torna dispensável. Existem muitas histórias de ficção-científica que retratam o perigo da inteligência artificial tomando o controle das coisas, mas curiosamente em Duna temos um futuro possível mais distante ainda, um momento em que se tomou tanta consciência desse perigo, que as “máquinas pensantes” se tornaram proibidas e há muito banidas do universo. Esse passo para trás na História, ou sob outro ponto de vista, esse movimento histórico circular que traz de volta um sistema semelhante ao feudalismo medieval, dá ao livro uma atmosfera de retorno a um mundo mais analógico, ainda que haja novas e diferentes tecnologias, que nos lembram que essa história se passa cerca de 20.000 anos depois de nossa época.

Publicado em 1965, Duna se apresenta diferente dos demais clássicos da ficção-científica que eu já tive oportunidade de ler, aproximando-se mais da fantasia, tanto pelos temas como por uma preocupação maior com aspectos literários, geralmente deixados um pouco de lado pelos visionários do futuro da humanidade. Apesar de ser um livro longo, cada capítulo parece ter sido minuciosamente pensado, cada personagem tem sua missão bem definida na história e cada passo deles nos deixa ansiosos pelo próximo. Frequentemente comparado com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, por ter construído um universo bem definido, com povos, línguas, religiões etc., Duna ainda abarca questões ecológicas e sociais e oferece um alto nível de entretenimento, com muito espaço para ação, sem esquecer de desenvolver muito bem os personagens, para que nos importemos com eles. Aliás, os dramas familiares, as batalhas políticas e o uso de poderes mentais – em um mundo sem computadores os homens de destaque têm que ser geniais – não deixam qualquer possibilidade para personagens vazios.

O protagonista dessa saga é o jovem Paul Atreides, filho do duque Leto e de sua concubina Lady Jéssica, nobres do planeta Caladan que, a pedido do imperador padixá, vão se instalar no planeta Arrakis para tomar conta da produção e distribuição do mélange, uma espécie de droga/especiaria valiosa. Essa posição era ocupada anteriormente pelos Harkonnen, e essa tomada de poder vai causar uma guerra entre as duas famílias. De um lado os Harkonnen vão agir segundo os interesses do próprio imperador e de outro os Atreides querem ter o apoio do povo nativo, os fremen.

Por ser um planeta desértico, a água em Arrakis é extremamente escassa e os fremen sobrevivem reciclando a água do próprio corpo. Incrivelmente organizados, aos poucos vamos descobrindo o poder desse povo, seus segredos e sua importância para o futuro do planeta. O contato de Paul com a especiaria e com os fremen, associado ao seu treinamento marcial e poder presciente vão indicá-lo a uma posição de salvador, um suposto ser superior que vem sendo aguardado pela humanidade. Aliás, um dos temas de maior força do livro é essa volta do homem para ele mesmo e a natureza. Embora desejemos a facilidade que as máquinas proporcionam, o ser humano corre o risco de perder o contato com seus próprios recursos físicos e mentais e Paul acaba sendo um símbolo do que um homem pode se tornar com muito esforço e muitas variáveis a seu favor.

Apesar de ser o início de uma série, Duna é um livro que pode ser lido sem a preocupação com as continuações e que causou um grande impacto na literatura e no cinema de entretenimento, influenciando diversas obras posteriores. Quem conhece a saga cinematográfica de Star Wars vai encontrar diversas semelhanças, entre elas a paisagem desértica, a construção de um herói que tem uma origem perturbadora, os poderes mentais, um império ambicioso e inúmeros detalhes percebidos pelos fãs das duas séries. Outro exemplo são As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que talvez tenha encontrado nos livros de Frank Herbert uma grande inspiração para suas intrigas políticas e religiosas, e até mesmo para um estilo narrativo que consegue dosar grandes momentos de ação com personagens bem construídos e diálogos afiados.

Matadouro 5 – Kurt Vonnegut

28_matadouroSe você soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria?

Billy Pilgrim é um americano comum, com uma vida comum, não fosse pelo fato de ele ser capaz de viajar no tempo, ter tido uma experiência com alienígenas e ser um sobrevivente do bombardeio de Dresden, na Segunda Guerra Mundial. Billy conhece sua vida de trás pra frente, sabe o que vai acontecer em seguida, mas isso não muda em nada suas decisões: ele sabe que não vai fazer diferença, então ele só continua.

O escritor Kurt Vonnegut usa sua própria experiência na Guerra como base para construir essa história e se coloca como narrador e ocasional personagem do livro. No início ele narra em primeira pessoa sobre o processo de escrita da obra, então segue em terceira pessoa, contando as aventuras de Billy, porém aparecendo rapidamente como personagem duas ou três vezes, sempre de uma maneira cômica.

Essa mudança de ponto de vista deixa o leitor numa situação intrigante pois o narrador na terceira pessoa nos faz acreditar que tudo por que passa Billy é verdadeiro, mas ao mesmo tempo o autor nos dá algumas indicações de que poderia haver outras explicações para o que acontece com o protagonista. Suas viagens no tempo são reais ou são uma maneira de ele lidar com os fantasmas da guerra? A adaptação de George Roy Hill para o cinema também deixa a questão em aberto e mantém a ironia e o humor da narrativa, mas aqui perdemos muito de algo importante oferecido apenas pelo livro: o tom e o ritmo da escrita de Vonnegut, que praticamente convida o leitor a ler em voz alta.

A estrutura do romance está longe de ser linear, pois é formada pelas inúmeras viagens no tempo de Billy e isto faz toda a diferença para que a história funcione. A linha sinuosa de tempo que existe é apenas aquela que leva o leitor a chegar ao momento do bombardeio de Dresden, que é o ponto chave da narrativa. Os principais momentos da vida de Billy se passam, portanto, enquanto ele é soldado na Segunda Guerra, mas também enquanto é homem adulto, por volta de seus 40 anos, ou quando é abduzido por seres do planeta Tralfamador.

Aliás, são os estranhos tralfamadorianos e sua visão de tempo que sustentam a maneira de Billy ver o mundo, que servem de base para as reflexões trazidas pelo livro diante das tragédias da vida e acaba afetando na própria maneira como a narrativa é costurada. Eles argumentam que não há livre-arbítrio, as coisas estão escritas e elas acontecem continuamente, uma roda do destino que não para de girar e garante que tudo que aconteceu e acontece vai continuar acontecendo pra sempre. Para que se preocupar? Tudo são coisas da vida:

“Todo o tempo é todo o tempo. Não muda. Não se presta a alertas ou explicações. Simplesmente é. Viva momento a momento, e o senhor descobrirá que todos somos, como eu disse antes, insetos em âmbar.”

A sensação de que tudo é por acaso, que ninguém tem uma característica especial que o leve para a felicidade ou para o infortúnio e que só nos resta cumprir um papel que já está definido pode ser bem desanimadora, mas parece ser a solução que o livro oferece diante da falta de controle que temos perante o inevitável. Ser sobrevivente de um ataque que matou 135 mil pessoas não faz Billy Pilgrim – ou Vonnegut – mais especial que ninguém, mas a história é passada adiante, para que todos possam pensar sobre ela.

Billy demonstra que saber o futuro não muda muita coisa. Se você soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria? Não é o que todos nós já fazemos?

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2001: uma odisseia no espaço e Mundos perdidos de 2001 – Arthur C. Clarke [Fórum Entre Pontos e Vírgulas] [Projeto Kubrick]

59_2001Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

2001: uma odisseia no espaço é um livro que foi escrito com uma técnica singular, pois ao mesmo tempo que escrevia o roteiro para o filme que ia ser dirigido por Stanley Kubrick, Clarke ia expandindo suas idéias em forma de romance, tendo que lidar com constantes intervenções do diretor. O resultado desse processo que durou 4 anos são duas obras que se complementam, pois enquanto o livro de Clarke tem um caráter um tanto de ensaio, mais envolvido em oferecer respostas ao leitor, o filme de Kubrick tem um propósito mais preocupado com a estética e com a pergunta em si. Ele não facilita as coisas para quem assiste ao seu filme, haja visto que muitas pessoas têm dificuldade de entender algumas cenas, afinal sua intenção era trabalhar as emoções que despertam o inexplicável. No mais, o propósito dos dois artistas não era humilde: mostrar a evolução do homem, de onde viemos e para onde possivelmente vamos.

No início do livro, acompanhamos um grupo de homens-macacos que está prestes a entrar em extinção devido a constante seca, a falta de alimentos e a vulnerabilidade perante os animais ferozes. Embora fossem seres com uma inteligência superior a outros animais semelhantes, eles não possuíam nenhuma outra vantagem natural que pudessem ajudá-los a sobreviver. Sem garras, sem dentes afiados e com pouca destreza, perecer era o futuro mais provável.

Até que surge uma “nova rocha” em seu território, uma placa retangular transparente que causa certa curiosidade e que vai acabar modificando suas vidas para sempre. A placa emite ordens e emoções a esses seres, manipulando suas mentes para que desenvolvam desejos que não conheciam. Nasce a consciência da falta e com ela o despertar da violência, necessária para abater outros animais e facilitar a sobrevivência. Aprendem a usar ossos e pedras como armas e utensílios; entendem que, se não nasceram com uma qualidade, ela pode ser desenvolvida externamente. Nasce, portanto, a tecnologia, e com ela a salvação da espécie. Com o tempo, surge o Homem propriamente dito e com ele a Linguagem, a mais poderosa arma para a espécie permanecer no planeta, já que é através dela que o homem passa as informações adiante no tempo.

Temos um salto na história. A conquista do espaço é o estágio a que aquele ser primitivo chegou, depois de milhões de anos. A Terra mais uma vez se encontra numa situação crítica pois está superpopulosa, falta comida e os países estão numa tensão que os levará a uma grande guerra. O astronauta Heywood Floyd é chamado às pressas para uma viagem à Lua. Ao chegar, toma conhecimento da descoberta de uma placa retangular com idade mais antiga que os seres humanos, que estava enterrada na cratera de Tycho. Uma comprovação de que há ou que houve vida inteligente fora da Terra. No momento em que a luz do sol entra em contato com a placa, um sinal é emitido para o espaço.

Algum tempo depois, David Bowman e Frank Poole são astronautas a bordo da nave Discovery, que tem como missão uma exploração de Saturno. Além deles há mais 3 tripulantes hibernando, que devem ser acordados apenas ao chegar ao planeta, e o computador HAL 9000, o cérebro da nave. Somente HAL e os tripulantes que hibernam sabem o real motivo da missão. Em determinado momento, quando já estão próximos de Saturno, ocorre um suposto problema na antena da nave e Frank acaba morrendo, ao tentar consertá-la. Bowman desconfia que HAL esteja por trás disso e aos poucos vai percebendo que está à mercê de um assassino.

Enquanto toda a tripulação é executada pela dissimulada máquina, David consegue escapar por pouco e desliga HAL. Só então ele é orientado para a verdadeira missão da Discovery: encontrar o destino do sinal enviado pela AMT-1, a placa encontrada na Lua. David encontra uma nova placa, dessa vez em Jápeto, lua de Saturno. É o Portal das Estrelas, por onde David entra para ser engolido por um Espaço avesso. Ele viaja por esse túnel e é expelido para o que ele entende como espaço novamente, mas aparentemente em outro tempo/espaço, com um enorme Sol vermelho. No final de sua viagem ele se encontra repentinamente em uma sala semelhante a um quarto de hotel. Ao dormir, sua vida regride como um filme e suas lembranças são guardadas para serem armazenadas em outro lugar. Até que ele “nasce” novamente e se transforma em outro ser que não precisa de matéria, embora se visualize como um bebê. O Homem retorna como um novo ser, pronto para dar à Terra uma nova etapa da evolução humana.

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Com pequenas diferenças, o filme de Kubrick conta a mesma história, mas de uma forma mais misteriosa e simbólica. Ele não trabalha, por exemplo, os problemas de superpopulação e escassez de recursos na Terra, apontados por Clarke. O que foi ótimo, porque esse é um dos defeitos do livro. São problemas que ficaram soltos e sem propósito no romance como um todo, uma situação que não leva a lugar nenhum.

Um dos momentos mais emocionantes do livro e do filme, sobretudo do filme, é o da “morte” de HAL. Muitas vezes o computador parece mais humano que os tripulantes, com seu olho de lente vermelha e seus pigarros eletrônicos, mas isso serve para mostrar que essa diferença já está ficando mínima e que a tendência do homem é se tornar algo muito próximo à máquina e vice-versa, até que um dia o que entendemos por consciência nem mesmo precise de um invólucro.

Ao entrar no Portal das Estrelas, ou no buraco de minhoca, David viaja no tempo e no espaço de uma forma que explicaria como as jornadas dos seres extraterrestres se dariam sem levar milhares de anos. E é através desse atalho que ele chega ao local onde irá se preparar para a próxima etapa. Ele agora é um novo elo entre o que foi e o que virá, um novo ser que levará os humanos a uma nova aurora. Kubrick é genial ao usar a mesma música – Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss – nos dois momentos cruciais da evolução.

Como em muitas histórias de Ficção Científica, as idéias apresentadas são mais importantes que a vida pessoal dos personagens, o que pode desconectar o leitor comum, acostumado a se envolver com os problemas cotidianos da vida. Não gostamos de pensar em problemas grandiosos, na imensidão do Universo e coisas assim porque isso nos lembra o quanto somos insignificantes diante de tudo.

No entanto, em algumas versões do romance, Clarke teria trabalhado a reação das pessoas ao constatarem a existência de vida inteligente fora da Terra. A situação política mundial mudaria: o pavor de uma inteligência superior faria os homens se unirem, esquecerem as divisas e diferenças. Além disso, alguns personagens, especialmente Bowman, também teriam suas vidas e personalidades mais desenvolvidas nestas outras versões, mas acredito que nessa história Bowman precisava mesmo ser esse homem mais genérico, que representa a humanidade inteira, e nesse sentido a escolha por eliminar os detalhes de sua vida pessoal pode ter sido necessária.

08_2001mundosEssas e outras versões da história podem ser contempladas em Mundos Perdidos de 2001, um relato de Clarke sobre sua história com Kubrick e sobretudo capítulos descartados do romance. Muitas idéias para o livro e o filme foram aos poucos sendo descartadas ao longo dos anos que trabalharam juntos, especialmente por Kubrick, que não queria explicações demais e nem queria comprometer o filme, caso não houvesse recursos cinematográficos: enquanto na Literatura tudo é possível, o Cinema é limitado pelos efeitos disponíveis.

Ao mesmo tempo, Kubrick não queria que as duas obras tivessem uma validade curta, que é o que acontece com muitas narrativas que tentam prever o futuro.

“Tínhamos de antecipar o futuro. Uma forma de fazer isso era estar tão à frente do presente que não houvesse perigo de sermos superados pelos fatos. Por outro lado, se fôssemos muito longe correríamos o grave risco de perder o contato com o público.”

Entrar em contato com essas versões anteriores mostram que Kubrick estava certo. Alguns capítulos são muito didáticos; a versão final nos faz pensar mais e deixa tudo mais generalizado, pois o livro pode ser interpretado de várias formas.

Mas Mundos Perdidos de 2001 não deixa de ser um texto curioso para quem quer entender melhor as questões tratadas no romance, bem como pensar em outras: como seria um encontro mais direto dos seres humanos com alienígenas quando eles ainda nem sequer poderiam ser considerados humanos? E se Bowman se encontrasse com civilizações de outros planetas? Por que esses seres superiores que não aparecem deixaram um plano esquematizado para que os seres humanos evoluíssem?

Além disso, o livro também traz um pouco dos bastidores da concepção do roteiro e das filmagens, como por exemplo o momento em que Clarke telefona para Isaac Asimov para tirar dúvidas científicas. Por falar em Asimov, uma das cenas descartadas mostra o treinamento de HAL (que chegou a se chamar Sócrates e chegou a se chamar Athena, com uma voz feminina). Nela as Leis da Robótica são citadas, o que causaria um efeito bem irônico, considerando o que HAL acaba fazendo depois.

Às vezes parece absurdo projetar coisas tão distantes de nossa realidade e abrir tanto espaço para o mistério, mas não se pensarmos que hoje vamos ao espaço, enquanto há tempos atrás éramos homens-macacos tentando sobreviver até o próximo nascer do sol. Acredito que a força da obra de Clarke e Kubrick é justamente a de nos levar a pensar nessas grandes questões, a despeito de nossas vidas individuais, que são tão curtas e nas quais raramente lembramos que somos meros membros de uma espécie.

“Só uma cultura de viajantes espaciais pode verdadeiramente transcender seu meio ambiente e juntar-se a outras, dando sentido à criação.”

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*Desde que li Laranja Mecânica fiquei com vontade de ver, e em alguns casos rever, os filmes de Stanley Kubrick que são baseados em livros, o que acabou se transformando em um pequeno projeto meu de leitura: o Projeto Kubrick.

Laranja Mecânica – Anthony Burgess [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Fev/2013]

09_laranja01Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

Todos nós somos seres orgânicos que agem através de escolhas morais, mas nos tornamos máquinas quando somos condicionados, nos tornamos algo como uma laranja mecânica. Essa é a grande proposição do livro de Burgess, que defende o livre-arbítrio como uma condição essencial do ser humano.

E ele faz isso nos contando a história de Alex, um adolescente viciado em violência e música clássica, odioso e carismático ao mesmo tempo, que com sua gangue de druguis sai à noite para praticar todos os tipos de violência extrema, mas não sem antes tomar seu leite batizado com drogas. O grupo tem uma linguagem própria, o nadsat, e durante a leitura vamos nos familiarizando com esse vocabulário – muito embora às vezes o glossário no final do livro ajude em alguns termos.

Na primeira parte da obra somos testemunhas de alguns terríveis atos do grupo, até o ponto em que Alex é preso por assassinar uma senhora. É só então na segunda parte que começa a primeira fase de punição: sua vida na prisão. Sua amizade com o capelão do local traz valiosas discussões sobre o livre-arbítrio ao conversarem sobre a possibilidade de Alex ser usado numa técnica de reabilitação, a técnica Ludovico, que o impediria de praticar o mal novamente e garantiria sua liberdade. O capelão argumenta que o processo o impediria de tomar decisões morais e que, portanto o deixaria sem alma:

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Segundo ele, e é essa a defesa do autor, o mal existe em todos nós. O que nos define como uma pessoa boa ou má é a escolha ética que fazemos: escolhemos não praticar o mal, mas isso não quer dizer que somos bons. Ser impedido de fazer o mal também impede Alex de fazer o bem, pois anula o livre-arbítrio. O bem tem que ser uma escolha, e não um condicionamento que deixa o indivíduo programado para não cometer crimes:

“Ele será seu verdadeiro cristão – krikava o Dr. Brodsky –, pronto para dar a outra face, pronto para ser crucificado ao invés de crucificar, doente até a alma só de pensar em sequer matar uma mosca.”

A técnica usada em Alex, portanto, não teria a intenção primeira de torná-lo um sujeito bom, mas tão somente um sujeito controlado. Seria apenas uma manobra política, uma punição mais barata e eficiente que sustentá-lo na prisão, garantindo segurança à sociedade. Alex aceita participar da experiência porque no fundo ele não acredita que vai deixar de ser quem é e também porque está mais interessado em sua liberdade, mas no momento em que percebe que todas as coisas que lhe davam prazer não podem mais se realizar, descobre que se tornou um mecanismo, que perdeu sua humanidade:

“Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

A última parte do livro tem quase um tom de fábula porque Alex se reencontra com todo o seu passado e sofre sua segunda fase de punição, vinda de várias pessoas a quem fez mal, sem poder se defender. Nesse ponto fica claro que o autor defende que nenhuma maldade que Alex tenha feito pode ser pior do que a que ele sofre, já que ele teria sido castrado naquilo que o faz humano, que é a sua escolha, seu livre-arbítrio.

No final, também por motivos políticos, Alex volta a ser o que era e é claro que volta a praticar crimes, mas em determinado momento se vê cansado da vida que leva e passa a desejar uma vida mais adulta. Nesse ponto percebemos que Burgess acredita que a falta de maturidade de Alex (ou dos jovens, em geral) é que o levaria a cometer todos aqueles atos violentos e que chegando a determinado ponto de sua vida, esses atos passariam a não fazer mais sentido.

A única coisa que me incomodou nesse final foi que em nenhum momento anterior na história do personagem ele faz qualquer reflexão que ponha em questão seus atos: para ele a violência dá prazer e ele a pratica porque deseja. Talvez por isso o último capítulo tenha um tom muito diferente do resto do livro: a redenção de Alex através da música seria, apesar de mais óbvia, mais convincente para mim, afinal não são apenas adolescentes que praticam crimes. No entanto, comparando com a versão americana do livro e com o filme de Kubrick, que ignoram o último capítulo, é melhor que haja algum tipo de redenção que nenhuma, do contrário a proposta do autor de demonstrar que não somos bons nem maus, que nossas escolhas flutuam, não se aplicaria a Alex, e ele se tornaria a própria encarnação da maldade.

Isso não tira o mérito da adaptação cinematográfica que, com exceção do final, foi extremamente fiel ao livro e encontrou soluções geniais para deixar a história ainda mais simbólica e angustiante. Apesar de ter vida própria enquanto filme, não deveria dispensar este incrível livro em que foi baseado.
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A Ilha – Aldous Huxley

Quando comentei sobre Admirável Mundo Novo eu falei sobre o que mais me chamava atenção no livro, que era a questão da felicidade, de como seria a vida humana se todos fossem felizes. Em A Ilha a questão é basicamente a mesma, e apesar de soar mais como utopia que distopia nesse caso, os métodos para alcançar a felicidade de alguma forma guardam uma relação com os utilizados no romance da década de 30, já que partem do argumento que não existe igualdade e felicidade coletivas sem controle do individual.

Publicado em 1962, o último livro de Aldous Huxley apresenta Pala, uma ilha proibida que sustenta uma sociedade isolada do mundo, quase auto-suficiente, que escapou de ser colônia dos países imperialistas por sua condição geográfica. Através do controle dos seus habitantes pela combinação de misticismo baseado em religiões orientais e ciência ocidental, a vida em Pala garante pessoas livres de neuroses e completamente integradas com a natureza. Conhecemos o local pelos olhos de Will, um jornalista que chega até a ilha um pouco por acaso e que tem a responsabilidade de mediar um acordo político que pode modificar para sempre a realidade desse paraíso.

Basicamente o livro é uma enorme entrevista que Will, enquanto espécie de representante do mundo ocidental, faz aos moradores da ilha, procurando entender como vivem e se relacionam. Cada resposta é uma crítica ao mundo lá fora e ao mesmo tempo uma proposta de vida alternativa transformadora pois ele não encontra ninguém que esteja infeliz, exceto a rainha de Pala e seu filho, futuro Rajá. Convivendo com a família McPhail ele observa como eles educam as crianças com um tipo de transdisciplinaridade, como resolvem os complexos com terapias, como eliminam a possibilidade de conflitos pelo trabalho braçal, como lidam com o sexo de forma livre, como enfrentam as dores e a morte com resignação, enfim, como aliam ciência e religião para garantir a felicidade plena:

“…o caminho da biologia aplicada, da natalidade controlada, da produção limitada e da industrialização seletiva (que só é possível quando se controla a natalidade). É o caminho que leva à felicidade e que vem de dentro de nós, por meio da saúde, do conhecimento e da mudança de atitude em face do mundo. Não é aquela miragem de felicidade exterior e que é adquirida à custa dos brinquedos, das pílulas e das intermináveis distrações.”

O romance praticamente não tem ação, é constituído dessas longas conversas sobre como as coisas funcionam em Pala e as terríveis memórias de Will sobre seu casamento e seu pai. Nesse sentido o livro se torna pesado de ler pois uma das coisas mais legais em um romance é o fato de você aprender algo de forma sutil através da ação dos personagens e de como reagem diante do que se passa com eles. Quando os personagens explicam demais e vivem de menos, a história perde fôlego e passa a se tornar quase um livro de não-ficção, e é o que acontece com A Ilha. Talvez fosse mais interessante se Will vivesse profundamente o cotidiano de Pala ou se se relacionasse de verdade com algum nativo, em vez de ser um mero observador.

Há inúmeras discussões relevantes no livro referentes a educação, religião, saúde, política etc., mas elas estão tão condensadas que podem causar um certo cansaço em quem não está preparado ou quem espera uma seqüência de Admirável Mundo Novo. Em comum com este, somente a ditadura do coletivo e a melancolia de mundos ideais despedaçados.

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Livro relacionado:

Neuromancer – William Gibson


Quando leio um livro muito incensado e importante para a cultura em geral, acabo me sentindo um pouco obrigada a gostar, do contrário fico achando que o problema está comigo. Mas isso acontece só num primeiro momento, afinal é preciso separar as coisas quando se avalia uma obra: há que se considerar tanto o que ela representa pro mundo como também o que ela representa pra você como leitor. Neuromancer foi um desses livros que me deixou dividida porque não me tocou pessoalmente, apesar de ter suas qualidades.

Tudo começa em um cenário bem semelhante ao de Blade Runner: Chiba City, no Japão, mais especificamente na região de Night City, em que perambulam turistas, marginais e não-japoneses. Case é um ex-cowboy (espécie de hacker) do ciberespaço, que foi punido por ter vendido informações de seus chefes, tendo seu sistema nervoso danificado por uma toxina. Sem poder exercer sua profissão, ele sobrevive como uma espécie de intermediário de um traficante e age de maneira autodestrutiva. Um belo dia aparece Molly (imagine a Trinity, de The Matrix), com uma proposta de cura para o seu problema, contanto que ele faça parte de um time com uma missão secreta, liderada pelo sombrio Armitage, que por sua vez responde a Wintermute, uma Inteligência Artificial. Até chegar à missão principal eles irão passar por outros desafios e coletar mais algumas pessoas à equipe. Se isso pareceu a descrição de um jogo de videogame, não é à toa, Case é um mero peão das circunstâncias, resolvendo as missões que lhe são impostas para que ele possa ter sua cura definitiva.

Apesar de conter vários elementos que me interessam, a história não me conquistou. A maior dificuldade que tive durante a leitura foi o fato de não me importar muito com os personagens pois eles parecem vazios e sem propósito. Sei que a intenção do autor é retratar um mundo niilista, e Case representa bem essa característica, mas me incomodou o fato do leitor não ter acesso aos seus pensamentos e desejos. E isso acontece com todos os personagens, você conhece apenas seus objetivos mais urgentes e eles dificilmente dizem respeito a algo fora das missões. Por um lado é curioso porque você se depara com uma sociedade em que as pessoas parecem andróides que perderam o contato com os grandes significados ou valores e isso é válido enquanto visão distópica, mas por outro isso deixa a leitura maçante porque não dá para se identificar ou torcer por ninguém. Apenas na quarta e última parte eu passei a curtir o livro, não sei se porque Case parece mais humano ou se porque a narrativa fica menos travada ou se porque as coisas finalmente se resolvem, mas os últimos capítulos até que compensaram os demais.

Neuromancer causou muito impacto na época em que foi lançado (1984) e antecipou muitos conceitos comuns nos dias de hoje, como o pós-humano, a globalização, o ciberespaço etc. Além disso inaugurou o subgênero cyberpunk na ficção-científica e serviu como uma boa inspiração para outras obras, sendo a mais famosa e evidente os filmes da série The Matrix. Dentro desse contexto de referência, é um livro que vale a pena ser lido, mas enquanto obra literária ou mesmo entretenimento, não foi o que eu esperava.

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Livros relacionados:

A Máquina do Tempo – H. G. Wells


Alguns livros do final do século XIX me dão a impressão de que o espírito da época era semelhante ao dos nossos dias, algo como uma sensação de que o futuro já chegou. A Máquina do Tempo, novela escrita em 1895 por H. G. Wells, é um desses casos em que vemos temas bem motivados pelas revoluções tecnológicas, fato que acabou inaugurando a chamada ficção-científica na literatura.

Nessa história temos O Viajante do Tempo, um cientista que constrói uma máquina capaz de se deslocar pela Quarta Dimensão. Durante um jantar em sua casa em que ele chega depois dos convidados, machucado e sujo, afirma que acaba de chegar do futuro e começa a descrever sua incrível aventura de oito dias no ano de 802701. Nesse momento da história, o Viajante encontra um mundo em ruínas e duas espécies de seres que parecem ter vindo de nossa espécie: os Elois e os Morlocks. Os primeiros são pessoas infantilizadas e bobas, pequenas e sem pelos, que se alimentam de frutas e vivem como animais pacatos. Os segundos são agressivos, têm aparência asquerosa, vivem sob a terra e temem a luz. Logo no início sua máquina é roubada e, com a companhia de Weena, o único ser com quem interage num nível mais íntimo, ele vai tentar recuperá-la e voltar para seu próprio tempo.

A teoria do personagem ao se deparar com esses seres é de que, num primeiro momento, a humanidade teria chegado a tal ponto de harmonia entre aqueles que produzem (que deram origem aos Morlocks) e aqueles que usufruem (que deram origem aos Elois), que qualquer possibilidade de guerra teria se extinguido, e portanto o ser humano viveria sem adversidades. O problema é que, segundo ele, são as adversidades da vida que tornaram o homem um ser inteligente, logo, à medida que a civilização caminhasse para a paz e a segurança, os seres humanos iriam aos poucos se tornando mais dóceis e menos inteligentes.

“Não existe inteligência onde não existe mudança ou necessidade de mudança. Os únicos animais que demonstram inteligência são aqueles que tiveram de enfrentar uma grande variedade de necessidades e de perigos”.

Enquanto conta sua história, o Viajante vai simultaneamente expondo suas impressões sobre esse novo mundo, já que tudo lhe é estranho e não há ninguém para explicar como as coisas são. Sendo assim, a narrativa ora é descritiva ora é filosófica, mas de uma maneira muito fluida, até porque o livro é bem curto. Não há nenhuma tentativa de explicação científica do funcionamento da máquina, pois a intenção era apenas demonstrar, de maneira especulativa, as possibilidades do futuro, como se a verdadeira máquina do tempo fosse a imaginação do autor. No entanto, Wells se utiliza das teorias científicas de seu tempo como argumento para as especulações de seu personagem, e em especial da teoria de Tempo enquanto Quarta Dimensão do Espaço: se é possível se movimentar nas três dimensões, também seria possível se movimentar numa quarta.

Um momento que achei muito divertido no livro foi quando o Viajante lamenta não ter lembrado de levar sua Kodak! Fiquei imaginando o que ele nos dias de hoje lamentaria não ter levado, talvez exatamente uma câmera, mas pelo menos ele colocou no bolso algo mais importante: fósforos. Se numa viagem espacial aprendemos que uma toalha pode ser muito útil, numa viagem no tempo o bom mesmo é levar uma caixa de fósforos.

Adaptações:
A Máquina do Tempo (The Time Machine, 1960) – George Pal

Nesta versão clássica de 1960, o Viajante se chama George e sua motivação em querer ver o futuro é por não ser satisfeito com a época em que vive. Aqui, antes de chegar a 802701, ele assiste às duas Grandes Guerras e em cada uma tem oportunidade de encontrar o filho de seu melhor amigo David, na juventude e na velhice. Muita coisa me incomodou neste filme, mas a principal foi o fato dos Elois falarem o mesmo inglês de George! No livro o personagem aprende alguma coisa da língua deles, mas no geral só tem sua inteligência como recurso para entender esse novo mundo, ao passo que aqui Weena lhe serve de guia, explicando como tudo funciona.
O filme me pareceu mais antiquado que o livro, e nem falo dos efeitos especiais limitados porque alguns até deram conta do recado, mas por algumas escolhas estranhas, como fazer de Weena um par romântico de George ou fazer os Elois de uma hora para outra se revoltarem contra os Warlocks, deixando George quase como um messias que irá salvar a humanidade no futuro. Confesso que o que achei mais legal no filme foi o design da máquina do tempo (feito por William Ferrari). Eu adoraria ter uma réplica dela na minha sala, como os meninos do The Big Bang Theory.


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A Máquina do Tempo (The Time Machine, 2002) – Simon Wells

Sendo o diretor bisneto do H. G. Wells, dá pra ter uma esperança de que o filme seja bom, mas não é o que acontece. O Viajante nesta versão se chama Alexander e é um professor universitário, com um laboratório cheio de invenções inovadoras e uma namorada com quem pretendia casar, mas que acaba morrendo. O que o leva a desenvolver a máquina é exatamente poder voltar no tempo para salvá-la. Apesar de tentar fazer algo diferente e explorar primeiro uma volta ao passado, esse filme não passa de um remake inferior da versão de 1960, sem nenhum compromisso em ser fiel ao livro. Enquanto H. G. Wells mostra um cientista interessado em conhecimento e em pensar para onde a humanidade poderia evoluir, este filme leva seu personagem ao futuro por uma curiosidade nada científica, apenas por uma obsessão pessoal. Simon Wells parece ter se preocupado mais em criar inúmeras referências ao filme de George Pal do que em homenagear de maneira digna seu parente. E elas são inúmeras, desde a inspiração do design da máquina, passando por detalhes de cenas e até a ideia do Viajante revolucionar o futuro. Apesar de ter bons efeitos especiais, o filme demonstra que a imaginação não é hereditária.

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Livros relacionados:

Fahrenheit 451 (1966) – François Truffaut

Depois de assistir a Le quatre cents coups, ano passado, fiquei muito curiosa em ver mais coisas de Truffaut. Mas para ver Fahrenheit 451, eu quis primeiro ler o livro de Ray Bradbury. E para isso eu tinha que antes ler 1984 e reler Admirável Mundo Novo. Depois desse festival de distopias, finalmente voltei ao ponto de partida.

Existe muita fidelidade ao livro de Bradbury nesta versão de Truffaut,  mas acho que o diretor foi além e conseguiu me convencer mais. Em alguns pontos ele foi mais radical: até os créditos iniciais do filme são narrados e a própria palavra escrita é proibida (se não me engano no livro existem outros tipos de leitura). O foco da proibição do livro é pela forma como eles podem deixar o ser humano infeliz (porque fazem questionar o mundo) ou como eles podem lhe dar uma arrogância intelectual. Nesta sociedade, todos devem ser iguais e a leitura faz com que os leitores se sintam superiores.

Alguns personagens foram limados e Clarisse ganha mais idade e tem um destino diferente, inclusive achei muito bacana a escolha de usar a mesma atriz para fazer o papel de Mildred (no filme ela se chama Linda). Interpretei como uma maneira de demonstrá-las como versões diferentes de uma mesma mulher,  ou como a educação pode levar alguém a caminhos diferentes. A Clarisse do livro é mais interessante e sábia, no filme ela tem um outro tipo de importância. Claro que não correspondeu ao imaginário pessoal que construí quando li, afinal o filme é de 1966, com estética e estilo de atuação próprios, e o livro, que tem pouca descrição de tempo e lugar (com exceção da referência a um passado em que os livros eram permitidos), faz o leitor, ou pelo menos me fez, imaginar um mundo de acordo com sua própria época, mas não há como ficar indiferente à direção única de Truffaut e sua visão pertinente da obra de Bradbury.