O Circo do Dr. Lao – Charles G. Finney

interlunio53-circoEm pleno período da Grande Depressão americana, os habitantes da cidadezinha de Abalone, no Arizona, são despertados do tédio ao lerem, em sua tribuna matutina, o anúncio da chegada de um bizarro circo. O circo promete atrações incríveis, entre elas animais fantásticos, criaturas mitológicas, shows de erotismo, um adivinho e uma grande encenação apoteótica no final.

De início o autor vai apresentando os habitantes da cidade à medida que cada um vai reagindo ao anúncio e à parada de apresentação do circo. Um chinês, seguido de um unicórnio, um fauno, um cachorro verde, um homem muito velho, uma gaiola com um urso (ou seria um russo?), uma cobra gigantesca e outras criaturas fazem seu desfile curioso, mas nada animador: as pessoas estão procurando os truques por trás das atrações. Mesmo assim, a maioria está curiosa com o show e logo mais todos estarão seguindo para o terreno onde o circo está armado.

Em cada tenda o encontro de uma pessoa de Abalone com uma criatura nada aleatória, pois cada um ficará diante de seus piores defeitos. Uns vão engolir a arrogância, outros encontrarão a desilusão; uns vão encarar seu lado mais negro, outros vão se calar diante do inexplicável. No circo do Dr. Lao haverá grandes embates, disputas entre razão e fé, criação e morte, sexo e mortalidade, Ciência e outras formas de conhecimento. Sobretudo haverá o questionamento do império da Ciência, que não permite que haja coisas que não se pode explicar, exterminando o mistério, tão caro ao ser humano.

Um tanto diferente de sua famosa versão cinematográfica (7 Faces do Dr. Lao, de 1964), O Circo do Dr. Lao oferece um tom mais sombrio e menos ingênuo, menos político e mais filosófico, ainda que com uma linguagem muito simples e uma narrativa mais preocupada com as ideias do que com a trama. O filme tem algumas boas vantagens: a ótima atuação de Tony Randall, que faz os papéis de Dr. Lao, Merlin, Homem das Neves, Apolônio, Pã, Serpente e Medusa, isto é, suas sete faces, bem como o desenvolvimento da história e de alguns personagens, fazendo-os perder o caráter generalizado que têm no livro. No entanto, a obra escrita vai mais a fundo nas questões que propõe e tem o papel mais de provocar discussões que trazer esperança. O circo de Finney dificilmente perdoa, com seu caráter de arena do Juízo Final, onde todos os seus personagens estão prestes a acertar alguma grande conta.

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O mensageiro – L. P. Hartley

interlunio26-mensageiroDurante a leitura de O Mensageiro, do inglês L. P. Hartley, três livros que li nos últimos anos me vieram à memória: Reparação, de Ian McEwan; Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles; e O Sentido de um Fim, de Julian Barnes. Este último apenas pela proposta de fazer uma reflexão sobre a veracidade das nossas lembranças. Em ambos os livros os narradores, já com mais de 60 anos, ao rememorarem um momento crucial de seu passado, percebem que, ao longo do tempo, o que ficam são as emoções, as sensações que tivemos, que os fatos pouco importam, se não procurarmos por eles. No entanto, enquanto na obra de Barnes essa é uma questão levada até às últimas consequências, na de Hartley ela é apenas uma promessa inicial, levada de uma maneira bem sutil para quem estiver mais atento.

Leo Colston é um garoto de 12 anos que vai passar o verão na mansão Brandham, a casa de campo de seu rico colega de escola. O ano é 1900, e logo ele fará aniversário. Apesar de se sentir deslocado diante da família Maudsley, por sua condição social superior, Leo está empolgado com o local e as pessoas, que parecem tão perfeitas e mais interessantes que ele. Sobretudo Marian, por quem sente uma verdadeira adoração, uma jovem que está sempre preocupada em agradá-lo, ainda que com segundas intenções. Sua falta de jeito com as convenções da casa, suas roupas impróprias ao clima e ao ambiente, e as indiretas que recebe da família durante as refeições me lembraram de Virgínia, a heroína de Ciranda de Pedra. Assim como ela e tantos outros personagens de romances de formação, Leo quer fazer parte de um mundo que não é seu e as feridas que ficarão dessa desilusão juvenil vão ficar presentes para sempre.

Assim como Virgínia, Leo me lembrou Briony, de Reparação. Com muito mais inocência que ela, Leo também se envolve na vida de um casal e as consequências não são boas. Ele serve de mensageiro entre Marian, que possivelmente irá casar com um lorde, e Ted, um homem rude que trabalha como fazendeiro nos arredores da mansão. Inicialmente ele está feliz por agradar sua venerada Marian e não entende porque eles trocam cartas secretas, mas aos poucos ele vai descobrindo pistas sobre o que significa romance, sexo e falsidade. Leo se vê importante em seu papel de Mercúrio, como é chamado por um personagem, mas aos poucos, à medida que vai entendendo melhor o quanto isso afetará a vida de outras pessoas, se sente encurralado por encantadoras chantagens, às quais não consegue dizer não.

A inocência de Leo é comovente, afinal estamos falando de uma criança do começo do século XX, quando a infância era apenas um momento virtual, uma espécie de purgatório em que se espera chegar a um suposto paraíso, que seria o mundo adulto. Além disso, ele está em uma idade em que já não é mais tão criança, mas a maturidade ainda está muito longe. Quando Leo, já aos 60 e poucos anos, abre seu diário da época e relembra tudo que houve, tudo que por sua vida inteira tentou esquecer, ele se depara com a triste constatação de que algumas manchas não se apagam, e nesse sentido ele se compara ao próprio século XX, um século que já em sua metade se encontrava cheio de marcas, medos e culpas:

“— O século XX — perguntaria eu — fez muito melhor do que eu fiz? Quando você deixa esta sala, que eu admito ser estúpida e desanimada, e toma o último ônibus para sua casa no passado (se você não o perdeu), pergunte a si mesmo se achou tudo tão radiante quanto imaginou. Pergunte a si mesmo se ele cumpriu suas esperanças. Você foi derrotado, Colston, você foi derrotado, assim como o seu século, seu precioso século do qual você esperou tanto.”

Sobre a adaptação cinematográfica:
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O filme O Mensageiro, de 1971, dirigido por Joseph Losey, é uma adaptação extremamente fiel ao livro de Hartley, com ótimas atuações, tendo levado a Palma de Ouro em Cannes. Apesar de Julie Christie, então com 30 anos, ser muito velha para o papel de uma mocinha de no máximo 20 anos, ela consegue passar o espírito de Marian. Obviamente o que se perde aqui são as reflexões do narrador sobre tudo que acontece com ele, as considerações sobre memória, as consequências do trauma que ele sofre e o paralelo de sua vida com o século XX, mas fica clara a questão da perda da inocência e a dolorosa volta ao passado para fechar o que ficou suspenso.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor.

Um punhado de pó – Evelyn Waugh

interlunio12-handfulEm Um punhado de pó entramos em contato com o cotidiano de uma família inglesa nos anos 30, cuja casa, reformada de uma abadia gótica, representa tudo de mais precioso ao seu dono, Tony Last: tradição e valores da aristocracia britânica. Apesar das infinitas reformas e dos inúmeros criados tomarem todo o seu dinheiro, Tony não abre mão de suas lembranças e herança familiares. Quem não concorda com a situação é sua esposa Brenda, que depois de 8 anos vivendo no campo, numa casa que julga inútil, resolve se lançar a uma vida mais agitada em Londres, com direito a um amante e novos amigos.

Quando Tony finalmente descobre a traição e uma tragédia ocorre na família, um processo de divórcio é iniciado e aqui fica ainda mais claro o quão irônico é o autor, especialmente na fala de Brenda, que a todo instante disfarça seus erros colocando a culpa em Tony por tudo que lhe acontece. O egocentrismo de Brenda e de seu amante Beaver é tão absurdo que pode render boas risadas ao leitor.

É então que começa uma segunda parte do livro totalmente diferente da primeira. Tony faz uma viagem ao norte do Brasil acompanhando um explorador em busca de uma cidade perdida. O tom da história agora é outro, pois entre índios e uma selva desconhecida, o personagem precisa se preocupar apenas com a própria sobrevivência. Mas será que a distância fará com que esqueça Brenda? A situação-limite fará com que Tony demonstre alguma emoção, depois de tantos infortúnios aos quais sempre parece indiferente?

Esta parte do livro causa um certo desconforto, pois é uma grande quebra na coerência interna da narrativa. Apesar de estar passando por uma situação dolorosa, é difícil acreditar que Tony, um cavalheiro inglês acostumado a uma rotina em que o chá não pode deixar de ser servido na hora certa, tenha a disposição de adentrar a floresta amazônica em busca de uma ilusão. No entanto não há dúvida de que este momento é o mais envolvente da história e que dá aspectos originais a obra.

Com um final impactante, a despeito do resto da narrativa, que é geralmente arrastada e lenta, Um punhado de pó deixa uma impressão marcante no leitor, ainda que seus personagens não sejam nem de longe apaixonantes. Estão todos representando um papel voltado às convenções sociais, e a hipocrisia é a lei que rege esse mundo. Como se fosse um Fitzgerald inglês, Waugh faz uma crítica constante ao exagero dos prazeres, do dinheiro e das aparências: a mentira é valiosa, pois ela evita o grande monstro do constrangimento social.

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Esta leitura faz parte do Projeto 100 melhores romances segundo a revista Time.

O paciente inglês – Michael Ondaatje

43_paciente2Mais conhecida por sua adaptação para o cinema, que foi Oscar de melhor filme em 1996, a história de O paciente inglês inicia com o encontro de quatro personagens em uma villa na Itália depois que a Segunda Guerra acaba na Europa. Após servir como hospital, o local fora abandonado, exceto pela jovem Hana, uma enfermeira canadense que perdeu o pai e o namorado recentemente. Ela insiste em ficar com seu misterioso paciente, um homem com o corpo inteiramente queimado, que não teria condições de ser deslocado. Chega em seguida Caravaggio, um amigo do pai de Hana, que tem intenção de convencê-la a partir, ao mesmo tempo que tenta descobrir a identidade do paciente. Em determinado momento une-se ao grupo o indiano Kip, um sapador que está desmontando bombas na região.

Os personagens acabaram de sofrer muitas perdas devido a guerra e nesta villa isolada do mundo lá fora eles vão sobrevivendo e convivendo, cada um ajudando a limpar as feridas do outro. Kip tem um especial papel de cura para eles, especialmente para Hana, de quem se torna amante. Para o Paciente Inglês ele se torna um amigo e, apesar de seu caráter de isolamento, necessário para sua profissão, é Kip quem dá um caráter de família a esse quarteto. Uma história de amor é vivida e outra contada. Aos poucos sabemos o que ocorreu com esse paciente, como ele sofreu o acidente que o queimou no deserto e como ele viveu um romance que acabaria destruindo muitas vidas.

O enredo é construído, de certa forma, de trás para frente: você conhece a situação presente dos personagens, o autor volta um pouco no tempo, conta o passado recente e aos poucos vai entrando mais e mais no passado de cada um. Como usou fatos reais e se baseou em alguns personagens históricos para montar sua ficção, Ondaatje costura no texto algumas citações, refere-se a canções, poemas, textos técnicos sobre bombas e sobre exploração no deserto, e cria uma colcha de retalhos que pode ser confusa em alguns momentos, mas que pode funcionar para quem estiver mais atento. Em alguns momentos sua escrita é agradável, traz imagens bonitas, em outros parece um pouco artificial, pesada. A adaptação para o cinema foi muito bem realizada e em vários aspectos é até mais verossímil que o livro, mas infelizmente deu muita importância ao personagem Caravaggio, que a meu ver é quase dispensável, e acabou tirando muito a força de Kip. O foco do filme é na verdade no romance vivido pelo Paciente Inglês antes do seu acidente, ainda que Juliette Binoche com sua Hana roube a cena.

O que me agradou mais nesse livro foi a relação dos personagens enquanto estão vivendo na villa. Agradam-me histórias em que os personagens estão em situações “fora do sistema”, fora da sociedade. Vivem um dia de cada vez, numa rotina que interessa apenas à sobrevivência e ao encontro com o outro. Os relatos do passado, mesmo os relacionados ao Paciente Inglês, que são maioria na obra, com uma ou outra exceção não me emocionaram tanto. Gostei também de o autor ter estabelecido que vários personagens tivessem uma espécie de livro sagrado, um livro preferido que poderia servir também como caderno de anotações, usando as páginas brancas. Histórias de Heródoto, Anna Karenina, Rebecca, O último dos moicanos são alguns exemplos de livros pessoais dos personagens.

De uma maneira mais ampla, é um livro sobre pessoas que estão fugindo de sua identidade, que em um mundo de guerra não querem dar importância a nacionalidade, ao passado, às origens, ainda que estas características estejam sempre as perseguindo. São vidas ainda um tanto perdidas, com muitas ruínas por limpar. Querem construir uma vida qualquer longe do sofrimento, embora chegue uma hora em que o mundo acaba gritando muito alto e eles finalmente terão que ouvir.

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Matadouro 5 – Kurt Vonnegut

28_matadouroSe você soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria?

Billy Pilgrim é um americano comum, com uma vida comum, não fosse pelo fato de ele ser capaz de viajar no tempo, ter tido uma experiência com alienígenas e ser um sobrevivente do bombardeio de Dresden, na Segunda Guerra Mundial. Billy conhece sua vida de trás pra frente, sabe o que vai acontecer em seguida, mas isso não muda em nada suas decisões: ele sabe que não vai fazer diferença, então ele só continua.

O escritor Kurt Vonnegut usa sua própria experiência na Guerra como base para construir essa história e se coloca como narrador e ocasional personagem do livro. No início ele narra em primeira pessoa sobre o processo de escrita da obra, então segue em terceira pessoa, contando as aventuras de Billy, porém aparecendo rapidamente como personagem duas ou três vezes, sempre de uma maneira cômica.

Essa mudança de ponto de vista deixa o leitor numa situação intrigante pois o narrador na terceira pessoa nos faz acreditar que tudo por que passa Billy é verdadeiro, mas ao mesmo tempo o autor nos dá algumas indicações de que poderia haver outras explicações para o que acontece com o protagonista. Suas viagens no tempo são reais ou são uma maneira de ele lidar com os fantasmas da guerra? A adaptação de George Roy Hill para o cinema também deixa a questão em aberto e mantém a ironia e o humor da narrativa, mas aqui perdemos muito de algo importante oferecido apenas pelo livro: o tom e o ritmo da escrita de Vonnegut, que praticamente convida o leitor a ler em voz alta.

A estrutura do romance está longe de ser linear, pois é formada pelas inúmeras viagens no tempo de Billy e isto faz toda a diferença para que a história funcione. A linha sinuosa de tempo que existe é apenas aquela que leva o leitor a chegar ao momento do bombardeio de Dresden, que é o ponto chave da narrativa. Os principais momentos da vida de Billy se passam, portanto, enquanto ele é soldado na Segunda Guerra, mas também enquanto é homem adulto, por volta de seus 40 anos, ou quando é abduzido por seres do planeta Tralfamador.

Aliás, são os estranhos tralfamadorianos e sua visão de tempo que sustentam a maneira de Billy ver o mundo, que servem de base para as reflexões trazidas pelo livro diante das tragédias da vida e acaba afetando na própria maneira como a narrativa é costurada. Eles argumentam que não há livre-arbítrio, as coisas estão escritas e elas acontecem continuamente, uma roda do destino que não para de girar e garante que tudo que aconteceu e acontece vai continuar acontecendo pra sempre. Para que se preocupar? Tudo são coisas da vida:

“Todo o tempo é todo o tempo. Não muda. Não se presta a alertas ou explicações. Simplesmente é. Viva momento a momento, e o senhor descobrirá que todos somos, como eu disse antes, insetos em âmbar.”

A sensação de que tudo é por acaso, que ninguém tem uma característica especial que o leve para a felicidade ou para o infortúnio e que só nos resta cumprir um papel que já está definido pode ser bem desanimadora, mas parece ser a solução que o livro oferece diante da falta de controle que temos perante o inevitável. Ser sobrevivente de um ataque que matou 135 mil pessoas não faz Billy Pilgrim – ou Vonnegut – mais especial que ninguém, mas a história é passada adiante, para que todos possam pensar sobre ela.

Billy demonstra que saber o futuro não muda muita coisa. Se você soubesse que está caminhando para um fim, você continuaria? Não é o que todos nós já fazemos?

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Howards End – E.M. Forster

20_howardsend_bookHowards End é a história de duas irmãs, Margaret e Helen Schlegel, inglesas de origem alemã, e sua relação com a família Wilcox, típica família inglesa abastada, no ínicio do século XX.

As irmãs têm uma vida intelectual rica, facilitada pela renda de sua herança. Durante os chás e jantares com amigos, as mais variadas discussões ocorrem, desde a questão do feminismo até o tema do dinheiro – Margaret defende o dinheiro como um grande educador, indispensável para se ter o conforto que proporciona o pensamento livre. Tomando como exemplo Leonard Bast, um jovem e pobre escriturário que elas conhecem por acaso, Margaret acredita que ajudá-lo, ajudar uma única pessoa ou poucos, no capitalismo, seria a única forma possível de fazer algum bem:

“Fazer bem à humanidade era inútil: os multicoloridos esforços para isso esparramavam-se pela vasta área como névoa e resultavam num cinzento universal. Fazer o bem para um só, ou, neste caso, para uns poucos, era o máximo a que podia ousar aspirar.”

Já os Wilcox são uma família prática, voltada para os negócios, que jamais se preocuparia com pessoas como Leonard e que ainda assim atraem a curiosidade das irmãs. Helen chega a ter um breve relacionamento com Paul, o filho mais novo, mas a relação entre os dois grupos se inicia realmente através da amizade de Margaret e a Sra. Ruth Wilcox. O grande amor da vida de Ruth é sua casa em Howards End, uma propriedade rural, e Margaret fica intrigada com as descrições apaixonadas que ela faz do lugar.

Margaret e Helen se dividem então nessa preocupação em ajudar Leonard Bast e na intenção de captar o espírito prático dos Wilcox. Mas elas possuem atitudes e abordagens diferentes, e suas personalidades lembram um pouco as das irmãs Elinor e Marianne, de Razão e Sensibilidade: uma mais contida, diplomática e racional, outra mais selvagem, impulsiva.

É um romance em que os personagens servem muito mais como representantes de ideias contrárias num grande debate sobre a vida do que pessoas com uma vida interessante, pelo menos externamente. Curioso notar também que os lugares – as cidades, as casas, os prédios – são quase personagens também, com personalidades que moldam o humor de seus habitantes. Não à toa o título do livro é o nome de uma casa e muitas interpretações sobre ele falam de Howards End simbolizar a própria Inglaterra e de como as classes sociais ali representadas deverão compartilhar o país.

Forster cria ambientes aconchegantes e conversas agradáveis, no entanto essas conversas nunca se elevam o suficiente, e o clima, mesmo quando desconfortável, não parece incomodar de verdade. A personagem Helen é a que exala mais vida, mas ela pouco está presente, já que a narrativa é focada mais em Margaret. É somente no final do livro que as emoções finalmente afloram, que dramas mais profundos acontecem e que todo o enredo se justifica, o que faz com que a leitura de boa parte do livro seja um pouco enfadonha.

A adaptação cinematográfica de 1992, dirigida por James Ivory, revela muito bem o espírito do livro e lhe é extremamente fiel. Como o enredo construído por Forster é simples e muito entremeado com passagens em que tanto o narrador quanto os personagens refletem sobre o que está acontecendo – o que faz com que muito material não constitua história propriamente dita –, a obra é muito convidativa a adaptações e assim deve ser com todos os seus livros, já que vários foram adaptados para o cinema, como Maurice (1987), Uma janela para o amor (1985), ambos também dirigidos por James Ivory, e Passagem para a Índia (1984), de David Lean.

Autor de Aspectos do Romance, Forster era muito consciente da estrutura narrativa do gênero e talvez por isso mesmo o livro traga um tom artificial em alguns momentos. Isso pode ser um defeito ou uma qualidade, dependendo do nível de consciência da construção da obra que o leitor deseja ter durante a leitura. Mas ainda assim o autor foi capaz de me prender em sua bem estruturada teia, mesmo que por um tempo eu não conseguisse prever que desenhos ele iria formar no fim.

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2001: uma odisseia no espaço e Mundos perdidos de 2001 – Arthur C. Clarke [Fórum Entre Pontos e Vírgulas] [Projeto Kubrick]

59_2001Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

2001: uma odisseia no espaço é um livro que foi escrito com uma técnica singular, pois ao mesmo tempo que escrevia o roteiro para o filme que ia ser dirigido por Stanley Kubrick, Clarke ia expandindo suas idéias em forma de romance, tendo que lidar com constantes intervenções do diretor. O resultado desse processo que durou 4 anos são duas obras que se complementam, pois enquanto o livro de Clarke tem um caráter um tanto de ensaio, mais envolvido em oferecer respostas ao leitor, o filme de Kubrick tem um propósito mais preocupado com a estética e com a pergunta em si. Ele não facilita as coisas para quem assiste ao seu filme, haja visto que muitas pessoas têm dificuldade de entender algumas cenas, afinal sua intenção era trabalhar as emoções que despertam o inexplicável. No mais, o propósito dos dois artistas não era humilde: mostrar a evolução do homem, de onde viemos e para onde possivelmente vamos.

No início do livro, acompanhamos um grupo de homens-macacos que está prestes a entrar em extinção devido a constante seca, a falta de alimentos e a vulnerabilidade perante os animais ferozes. Embora fossem seres com uma inteligência superior a outros animais semelhantes, eles não possuíam nenhuma outra vantagem natural que pudessem ajudá-los a sobreviver. Sem garras, sem dentes afiados e com pouca destreza, perecer era o futuro mais provável.

Até que surge uma “nova rocha” em seu território, uma placa retangular transparente que causa certa curiosidade e que vai acabar modificando suas vidas para sempre. A placa emite ordens e emoções a esses seres, manipulando suas mentes para que desenvolvam desejos que não conheciam. Nasce a consciência da falta e com ela o despertar da violência, necessária para abater outros animais e facilitar a sobrevivência. Aprendem a usar ossos e pedras como armas e utensílios; entendem que, se não nasceram com uma qualidade, ela pode ser desenvolvida externamente. Nasce, portanto, a tecnologia, e com ela a salvação da espécie. Com o tempo, surge o Homem propriamente dito e com ele a Linguagem, a mais poderosa arma para a espécie permanecer no planeta, já que é através dela que o homem passa as informações adiante no tempo.

Temos um salto na história. A conquista do espaço é o estágio a que aquele ser primitivo chegou, depois de milhões de anos. A Terra mais uma vez se encontra numa situação crítica pois está superpopulosa, falta comida e os países estão numa tensão que os levará a uma grande guerra. O astronauta Heywood Floyd é chamado às pressas para uma viagem à Lua. Ao chegar, toma conhecimento da descoberta de uma placa retangular com idade mais antiga que os seres humanos, que estava enterrada na cratera de Tycho. Uma comprovação de que há ou que houve vida inteligente fora da Terra. No momento em que a luz do sol entra em contato com a placa, um sinal é emitido para o espaço.

Algum tempo depois, David Bowman e Frank Poole são astronautas a bordo da nave Discovery, que tem como missão uma exploração de Saturno. Além deles há mais 3 tripulantes hibernando, que devem ser acordados apenas ao chegar ao planeta, e o computador HAL 9000, o cérebro da nave. Somente HAL e os tripulantes que hibernam sabem o real motivo da missão. Em determinado momento, quando já estão próximos de Saturno, ocorre um suposto problema na antena da nave e Frank acaba morrendo, ao tentar consertá-la. Bowman desconfia que HAL esteja por trás disso e aos poucos vai percebendo que está à mercê de um assassino.

Enquanto toda a tripulação é executada pela dissimulada máquina, David consegue escapar por pouco e desliga HAL. Só então ele é orientado para a verdadeira missão da Discovery: encontrar o destino do sinal enviado pela AMT-1, a placa encontrada na Lua. David encontra uma nova placa, dessa vez em Jápeto, lua de Saturno. É o Portal das Estrelas, por onde David entra para ser engolido por um Espaço avesso. Ele viaja por esse túnel e é expelido para o que ele entende como espaço novamente, mas aparentemente em outro tempo/espaço, com um enorme Sol vermelho. No final de sua viagem ele se encontra repentinamente em uma sala semelhante a um quarto de hotel. Ao dormir, sua vida regride como um filme e suas lembranças são guardadas para serem armazenadas em outro lugar. Até que ele “nasce” novamente e se transforma em outro ser que não precisa de matéria, embora se visualize como um bebê. O Homem retorna como um novo ser, pronto para dar à Terra uma nova etapa da evolução humana.

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Com pequenas diferenças, o filme de Kubrick conta a mesma história, mas de uma forma mais misteriosa e simbólica. Ele não trabalha, por exemplo, os problemas de superpopulação e escassez de recursos na Terra, apontados por Clarke. O que foi ótimo, porque esse é um dos defeitos do livro. São problemas que ficaram soltos e sem propósito no romance como um todo, uma situação que não leva a lugar nenhum.

Um dos momentos mais emocionantes do livro e do filme, sobretudo do filme, é o da “morte” de HAL. Muitas vezes o computador parece mais humano que os tripulantes, com seu olho de lente vermelha e seus pigarros eletrônicos, mas isso serve para mostrar que essa diferença já está ficando mínima e que a tendência do homem é se tornar algo muito próximo à máquina e vice-versa, até que um dia o que entendemos por consciência nem mesmo precise de um invólucro.

Ao entrar no Portal das Estrelas, ou no buraco de minhoca, David viaja no tempo e no espaço de uma forma que explicaria como as jornadas dos seres extraterrestres se dariam sem levar milhares de anos. E é através desse atalho que ele chega ao local onde irá se preparar para a próxima etapa. Ele agora é um novo elo entre o que foi e o que virá, um novo ser que levará os humanos a uma nova aurora. Kubrick é genial ao usar a mesma música – Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss – nos dois momentos cruciais da evolução.

Como em muitas histórias de Ficção Científica, as idéias apresentadas são mais importantes que a vida pessoal dos personagens, o que pode desconectar o leitor comum, acostumado a se envolver com os problemas cotidianos da vida. Não gostamos de pensar em problemas grandiosos, na imensidão do Universo e coisas assim porque isso nos lembra o quanto somos insignificantes diante de tudo.

No entanto, em algumas versões do romance, Clarke teria trabalhado a reação das pessoas ao constatarem a existência de vida inteligente fora da Terra. A situação política mundial mudaria: o pavor de uma inteligência superior faria os homens se unirem, esquecerem as divisas e diferenças. Além disso, alguns personagens, especialmente Bowman, também teriam suas vidas e personalidades mais desenvolvidas nestas outras versões, mas acredito que nessa história Bowman precisava mesmo ser esse homem mais genérico, que representa a humanidade inteira, e nesse sentido a escolha por eliminar os detalhes de sua vida pessoal pode ter sido necessária.

08_2001mundosEssas e outras versões da história podem ser contempladas em Mundos Perdidos de 2001, um relato de Clarke sobre sua história com Kubrick e sobretudo capítulos descartados do romance. Muitas idéias para o livro e o filme foram aos poucos sendo descartadas ao longo dos anos que trabalharam juntos, especialmente por Kubrick, que não queria explicações demais e nem queria comprometer o filme, caso não houvesse recursos cinematográficos: enquanto na Literatura tudo é possível, o Cinema é limitado pelos efeitos disponíveis.

Ao mesmo tempo, Kubrick não queria que as duas obras tivessem uma validade curta, que é o que acontece com muitas narrativas que tentam prever o futuro.

“Tínhamos de antecipar o futuro. Uma forma de fazer isso era estar tão à frente do presente que não houvesse perigo de sermos superados pelos fatos. Por outro lado, se fôssemos muito longe correríamos o grave risco de perder o contato com o público.”

Entrar em contato com essas versões anteriores mostram que Kubrick estava certo. Alguns capítulos são muito didáticos; a versão final nos faz pensar mais e deixa tudo mais generalizado, pois o livro pode ser interpretado de várias formas.

Mas Mundos Perdidos de 2001 não deixa de ser um texto curioso para quem quer entender melhor as questões tratadas no romance, bem como pensar em outras: como seria um encontro mais direto dos seres humanos com alienígenas quando eles ainda nem sequer poderiam ser considerados humanos? E se Bowman se encontrasse com civilizações de outros planetas? Por que esses seres superiores que não aparecem deixaram um plano esquematizado para que os seres humanos evoluíssem?

Além disso, o livro também traz um pouco dos bastidores da concepção do roteiro e das filmagens, como por exemplo o momento em que Clarke telefona para Isaac Asimov para tirar dúvidas científicas. Por falar em Asimov, uma das cenas descartadas mostra o treinamento de HAL (que chegou a se chamar Sócrates e chegou a se chamar Athena, com uma voz feminina). Nela as Leis da Robótica são citadas, o que causaria um efeito bem irônico, considerando o que HAL acaba fazendo depois.

Às vezes parece absurdo projetar coisas tão distantes de nossa realidade e abrir tanto espaço para o mistério, mas não se pensarmos que hoje vamos ao espaço, enquanto há tempos atrás éramos homens-macacos tentando sobreviver até o próximo nascer do sol. Acredito que a força da obra de Clarke e Kubrick é justamente a de nos levar a pensar nessas grandes questões, a despeito de nossas vidas individuais, que são tão curtas e nas quais raramente lembramos que somos meros membros de uma espécie.

“Só uma cultura de viajantes espaciais pode verdadeiramente transcender seu meio ambiente e juntar-se a outras, dando sentido à criação.”

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*Desde que li Laranja Mecânica fiquei com vontade de ver, e em alguns casos rever, os filmes de Stanley Kubrick que são baseados em livros, o que acabou se transformando em um pequeno projeto meu de leitura: o Projeto Kubrick.

Norwegian Wood – Haruki Murakami

10_woodTodo mundo fala que é mais difícil falar sobre um livro de que gostamos muito, talvez porque isso revele muito de nossa intimidade, ou acabe mostrando muito de quem somos. Norwegian Wood é o primeiro livro do ano que amei. Não esperava muito mais que um bom livro, mas acabei me surpreendendo. No entanto, é daqueles livros que dependem muito de identificação com os personagens ou situações, o que acaba rendendo uma leitura chata para alguns e maravilhosa para outros.

Uma das coisas mais legais do livro é a sensação de que todos temos trilha sonora para certos momentos da vida, ou melhor, como certas canções servem de transporte para um momento ou trazem de volta a presença de alguém que está longe no tempo ou no espaço. No caso deste livro de Murakami, tudo começa quando Toru Watanabe, de 37 anos, está num avião e começa a tocar Norwegian Wood, dos Beatles. Imediatamente ele se sente mal porque a música lhe traz de volta não só o seu passado triste, mas a sensação de um futuro incerto:

“Refleti sobre as muitas coisas perdidas no curso da minha vida até aquele momento. O tempo perdido, pessoas mortas ou desaparecidas, emoções que eu nunca mais experimentaria.”

A partir daí acompanhamos suas lembranças de juventude no final dos anos 60, essencialmente a história das amizades que fez e que marcaram sua vida em sua época de estudante. Toru é quase sempre o terceiro elemento em seus relacionamentos, um rapaz simples que gosta de ser amigo de pessoas complexas e lhes serve deixando-as confortáveis por serem diferentes:

“– Por que você só gosta desse tipo de pessoa? – perguntou Naoko. – Todos pessoas esquisitas, desvirtuadas, que afundam aos poucos por não saberem nadar bem. Eu, Kizuki, Reiko. Somos todos assim. Por que não consegue gostar de pessoas mais normais?
– Provavelmente porque eu não os vejo assim – respondi depois de refletir por um instante. – Não acho de jeito algum que você, Kizuki e Reiko sejam esquisitos. Aqueles que eu considero esquisitos estão todos andando lá fora numa boa.”

Para mim, Norwegian Wood é mais uma história de amizade que de amor e perda ou entrada no mundo adulto. Uma maneira de lembrarmos como certas pessoas que fazem parte da nossa vida em algum momento podem deixar marcas eternas. Mas também é uma obra cheia de referências gostosas, literárias e musicais – quem é fã dos Beatles pode encontrar várias, algumas bem sutis, outras bem evidentes –, com uma escrita leve, temática profunda e personagens memoráveis.

A adaptação para o cinema é bela e delicada, mas incrivelmente mais triste e sombria que o livro e, talvez por questões de direitos autorais, não se utilizou muito das músicas que ajudam a contar a história.

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Laranja Mecânica – Anthony Burgess [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Fev/2013]

09_laranja01Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

Todos nós somos seres orgânicos que agem através de escolhas morais, mas nos tornamos máquinas quando somos condicionados, nos tornamos algo como uma laranja mecânica. Essa é a grande proposição do livro de Burgess, que defende o livre-arbítrio como uma condição essencial do ser humano.

E ele faz isso nos contando a história de Alex, um adolescente viciado em violência e música clássica, odioso e carismático ao mesmo tempo, que com sua gangue de druguis sai à noite para praticar todos os tipos de violência extrema, mas não sem antes tomar seu leite batizado com drogas. O grupo tem uma linguagem própria, o nadsat, e durante a leitura vamos nos familiarizando com esse vocabulário – muito embora às vezes o glossário no final do livro ajude em alguns termos.

Na primeira parte da obra somos testemunhas de alguns terríveis atos do grupo, até o ponto em que Alex é preso por assassinar uma senhora. É só então na segunda parte que começa a primeira fase de punição: sua vida na prisão. Sua amizade com o capelão do local traz valiosas discussões sobre o livre-arbítrio ao conversarem sobre a possibilidade de Alex ser usado numa técnica de reabilitação, a técnica Ludovico, que o impediria de praticar o mal novamente e garantiria sua liberdade. O capelão argumenta que o processo o impediria de tomar decisões morais e que, portanto o deixaria sem alma:

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Segundo ele, e é essa a defesa do autor, o mal existe em todos nós. O que nos define como uma pessoa boa ou má é a escolha ética que fazemos: escolhemos não praticar o mal, mas isso não quer dizer que somos bons. Ser impedido de fazer o mal também impede Alex de fazer o bem, pois anula o livre-arbítrio. O bem tem que ser uma escolha, e não um condicionamento que deixa o indivíduo programado para não cometer crimes:

“Ele será seu verdadeiro cristão – krikava o Dr. Brodsky –, pronto para dar a outra face, pronto para ser crucificado ao invés de crucificar, doente até a alma só de pensar em sequer matar uma mosca.”

A técnica usada em Alex, portanto, não teria a intenção primeira de torná-lo um sujeito bom, mas tão somente um sujeito controlado. Seria apenas uma manobra política, uma punição mais barata e eficiente que sustentá-lo na prisão, garantindo segurança à sociedade. Alex aceita participar da experiência porque no fundo ele não acredita que vai deixar de ser quem é e também porque está mais interessado em sua liberdade, mas no momento em que percebe que todas as coisas que lhe davam prazer não podem mais se realizar, descobre que se tornou um mecanismo, que perdeu sua humanidade:

“Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

A última parte do livro tem quase um tom de fábula porque Alex se reencontra com todo o seu passado e sofre sua segunda fase de punição, vinda de várias pessoas a quem fez mal, sem poder se defender. Nesse ponto fica claro que o autor defende que nenhuma maldade que Alex tenha feito pode ser pior do que a que ele sofre, já que ele teria sido castrado naquilo que o faz humano, que é a sua escolha, seu livre-arbítrio.

No final, também por motivos políticos, Alex volta a ser o que era e é claro que volta a praticar crimes, mas em determinado momento se vê cansado da vida que leva e passa a desejar uma vida mais adulta. Nesse ponto percebemos que Burgess acredita que a falta de maturidade de Alex (ou dos jovens, em geral) é que o levaria a cometer todos aqueles atos violentos e que chegando a determinado ponto de sua vida, esses atos passariam a não fazer mais sentido.

A única coisa que me incomodou nesse final foi que em nenhum momento anterior na história do personagem ele faz qualquer reflexão que ponha em questão seus atos: para ele a violência dá prazer e ele a pratica porque deseja. Talvez por isso o último capítulo tenha um tom muito diferente do resto do livro: a redenção de Alex através da música seria, apesar de mais óbvia, mais convincente para mim, afinal não são apenas adolescentes que praticam crimes. No entanto, comparando com a versão americana do livro e com o filme de Kubrick, que ignoram o último capítulo, é melhor que haja algum tipo de redenção que nenhuma, do contrário a proposta do autor de demonstrar que não somos bons nem maus, que nossas escolhas flutuam, não se aplicaria a Alex, e ele se tornaria a própria encarnação da maldade.

Isso não tira o mérito da adaptação cinematográfica que, com exceção do final, foi extremamente fiel ao livro e encontrou soluções geniais para deixar a história ainda mais simbólica e angustiante. Apesar de ter vida própria enquanto filme, não deveria dispensar este incrível livro em que foi baseado.
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