O Circo do Dr. Lao – Charles G. Finney

interlunio53-circoEm pleno período da Grande Depressão americana, os habitantes da cidadezinha de Abalone, no Arizona, são despertados do tédio ao lerem, em sua tribuna matutina, o anúncio da chegada de um bizarro circo. O circo promete atrações incríveis, entre elas animais fantásticos, criaturas mitológicas, shows de erotismo, um adivinho e uma grande encenação apoteótica no final.

De início o autor vai apresentando os habitantes da cidade à medida que cada um vai reagindo ao anúncio e à parada de apresentação do circo. Um chinês, seguido de um unicórnio, um fauno, um cachorro verde, um homem muito velho, uma gaiola com um urso (ou seria um russo?), uma cobra gigantesca e outras criaturas fazem seu desfile curioso, mas nada animador: as pessoas estão procurando os truques por trás das atrações. Mesmo assim, a maioria está curiosa com o show e logo mais todos estarão seguindo para o terreno onde o circo está armado.

Em cada tenda o encontro de uma pessoa de Abalone com uma criatura nada aleatória, pois cada um ficará diante de seus piores defeitos. Uns vão engolir a arrogância, outros encontrarão a desilusão; uns vão encarar seu lado mais negro, outros vão se calar diante do inexplicável. No circo do Dr. Lao haverá grandes embates, disputas entre razão e fé, criação e morte, sexo e mortalidade, Ciência e outras formas de conhecimento. Sobretudo haverá o questionamento do império da Ciência, que não permite que haja coisas que não se pode explicar, exterminando o mistério, tão caro ao ser humano.

Um tanto diferente de sua famosa versão cinematográfica (7 Faces do Dr. Lao, de 1964), O Circo do Dr. Lao oferece um tom mais sombrio e menos ingênuo, menos político e mais filosófico, ainda que com uma linguagem muito simples e uma narrativa mais preocupada com as ideias do que com a trama. O filme tem algumas boas vantagens: a ótima atuação de Tony Randall, que faz os papéis de Dr. Lao, Merlin, Homem das Neves, Apolônio, Pã, Serpente e Medusa, isto é, suas sete faces, bem como o desenvolvimento da história e de alguns personagens, fazendo-os perder o caráter generalizado que têm no livro. No entanto, a obra escrita vai mais a fundo nas questões que propõe e tem o papel mais de provocar discussões que trazer esperança. O circo de Finney dificilmente perdoa, com seu caráter de arena do Juízo Final, onde todos os seus personagens estão prestes a acertar alguma grande conta.

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O Mágico de Oz – L. Frank Baum [Breve comentário]

interlunio46-ozUma das grandes qualidades de O Mágico de Oz é a sensação que ele dá ao leitor de que se trata de uma história há muito contada, um conto de fadas que vem sendo passado de geração a geração inúmeras vezes, apesar de ser uma história publicada em 1900. E era o que o autor desejava: construir um conto de fadas moderno sem a violência extrema dos clássicos (ainda que haja sim certa violência em O Mágico de Oz).

Isso fica claro na estrutura do livro, com tantas repetições e ações de 3 passos: ela encontra 3 amigos no caminho, o chapéu mágico dá 3 desejos a quem o usa, etc. Além disso, como é típico dos contos de fada, a história começa com sua saída de casa para entrar em contato com o mundo, causar mudança por onde passa e assim retornar mais madura e valorizando o que havia deixado. Ainda por cima Baum tem o mérito de oferecer boas mensagens às crianças sutilmente, sem didatismos, com belas passagens simbólicas, a ponto de agradar adultos também.

Duna – Frank Herbert

48_dunaSempre que imaginamos um futuro distante, a sensação é de que a humanidade estará cada vez mais conectada ao mundo digital e as máquinas tomarão conta do nosso cotidiano. No entanto também podemos considerar que esta realidade poderá não nos agradar muito quando ela ultrapassar um certo limite: o limite que tira o ser humano do centro e o torna dispensável. Existem muitas histórias de ficção-científica que retratam o perigo da inteligência artificial tomando o controle das coisas, mas curiosamente em Duna temos um futuro possível mais distante ainda, um momento em que se tomou tanta consciência desse perigo, que as “máquinas pensantes” se tornaram proibidas e há muito banidas do universo. Esse passo para trás na História, ou sob outro ponto de vista, esse movimento histórico circular que traz de volta um sistema semelhante ao feudalismo medieval, dá ao livro uma atmosfera de retorno a um mundo mais analógico, ainda que haja novas e diferentes tecnologias, que nos lembram que essa história se passa cerca de 20.000 anos depois de nossa época.

Publicado em 1965, Duna se apresenta diferente dos demais clássicos da ficção-científica que eu já tive oportunidade de ler, aproximando-se mais da fantasia, tanto pelos temas como por uma preocupação maior com aspectos literários, geralmente deixados um pouco de lado pelos visionários do futuro da humanidade. Apesar de ser um livro longo, cada capítulo parece ter sido minuciosamente pensado, cada personagem tem sua missão bem definida na história e cada passo deles nos deixa ansiosos pelo próximo. Frequentemente comparado com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, por ter construído um universo bem definido, com povos, línguas, religiões etc., Duna ainda abarca questões ecológicas e sociais e oferece um alto nível de entretenimento, com muito espaço para ação, sem esquecer de desenvolver muito bem os personagens, para que nos importemos com eles. Aliás, os dramas familiares, as batalhas políticas e o uso de poderes mentais – em um mundo sem computadores os homens de destaque têm que ser geniais – não deixam qualquer possibilidade para personagens vazios.

O protagonista dessa saga é o jovem Paul Atreides, filho do duque Leto e de sua concubina Lady Jéssica, nobres do planeta Caladan que, a pedido do imperador padixá, vão se instalar no planeta Arrakis para tomar conta da produção e distribuição do mélange, uma espécie de droga/especiaria valiosa. Essa posição era ocupada anteriormente pelos Harkonnen, e essa tomada de poder vai causar uma guerra entre as duas famílias. De um lado os Harkonnen vão agir segundo os interesses do próprio imperador e de outro os Atreides querem ter o apoio do povo nativo, os fremen.

Por ser um planeta desértico, a água em Arrakis é extremamente escassa e os fremen sobrevivem reciclando a água do próprio corpo. Incrivelmente organizados, aos poucos vamos descobrindo o poder desse povo, seus segredos e sua importância para o futuro do planeta. O contato de Paul com a especiaria e com os fremen, associado ao seu treinamento marcial e poder presciente vão indicá-lo a uma posição de salvador, um suposto ser superior que vem sendo aguardado pela humanidade. Aliás, um dos temas de maior força do livro é essa volta do homem para ele mesmo e a natureza. Embora desejemos a facilidade que as máquinas proporcionam, o ser humano corre o risco de perder o contato com seus próprios recursos físicos e mentais e Paul acaba sendo um símbolo do que um homem pode se tornar com muito esforço e muitas variáveis a seu favor.

Apesar de ser o início de uma série, Duna é um livro que pode ser lido sem a preocupação com as continuações e que causou um grande impacto na literatura e no cinema de entretenimento, influenciando diversas obras posteriores. Quem conhece a saga cinematográfica de Star Wars vai encontrar diversas semelhanças, entre elas a paisagem desértica, a construção de um herói que tem uma origem perturbadora, os poderes mentais, um império ambicioso e inúmeros detalhes percebidos pelos fãs das duas séries. Outro exemplo são As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que talvez tenha encontrado nos livros de Frank Herbert uma grande inspiração para suas intrigas políticas e religiosas, e até mesmo para um estilo narrativo que consegue dosar grandes momentos de ação com personagens bem construídos e diálogos afiados.

As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

06_avalon_allO que será que há nas lendas medievais que atraem tanto as pessoas, especialmente os mais jovens? Será porque passam a idéia de uma vida aparentemente mais simples, em que havia um contato mais direto com a natureza, ou porque revelariam uma fantasia do homem forte e destemido que deve enfrentar suas batalhas e a donzela frágil que espera ser salva apenas por sua beleza e bondade – o que faz até hoje meninas se vestirem de princesa e meninos brincarem com espadas? Talvez seja porque essas histórias permitem um enorme espaço para o desconhecido, seja através da magia ou da religião, oferecendo a possibilidade de soluções rápidas para os problemas ou porque valores como honra e compromisso são levados a sério, oferecendo uma certa segurança ou conforto.

Não sei o que seria, mas na adolescência as histórias medievais me chamavam muito a atenção e mesmo assim eu nunca havia lido As Brumas de Avalon, livro devorado por muitos amigos meus na época. Até cheguei a assistir ao filme televisivo de 2001, mas somente ano passado adquiri os livros da saga e reacendi a curiosidade com essa lenda arturiana recontada sob o olhar de seus personagens femininos.

Principalmente a partir do segundo livro percebe-se que o romance se trata basicamente de um embate entre paganismo e cristianismo, força feminina e força masculina, natureza e espírito, terra e céu: elementos representados respectivamente por Morgana e Gwenhwyfar (também conhecida por Guinevere). Os personagens em geral são bem humanos, nem bons nem maus, e a maior parte deles muito cativantes e bem construídos, especialmente Morgana – o leitor torce por ela até quando está errada. Acredito que a única personagem insuportável do livro seja Gwenhwyfar, não necessariamente pelo seu fanatismo religioso e superficialidade, mas pela sua pouca capacidade de evolução, tornando-a muito repetitiva na história, um verdadeiro disco arranhado.

O primeiro e terceiro livros foram os melhores, na minha opinião, e apesar de ter sentido uma queda na qualidade da narrativa lendo o último livro, no geral a leitura foi o que eu esperava: envolvente e leve, até mesmo quando traz breves discussões teológicas, e com o ótimo mérito de dar voz e poder às mulheres diante de uma lenda tão masculina.

Sobre a adaptação (com spoilers)
07_avalonJá havia assistido a esse filme (ou mini-série) em 2001, mas não lembrava de absolutamente nada. Como costumo dizer, não procuro fidelidade de enredo em adaptações, mas espero que elas sejam fiéis ao espírito do livro e esta está bem longe disso. Mesmo não entendendo muito de Paganismo, dá pra perceber que aqui ele é retratado como mera bruxaria e o seu embate com o Cristianismo foi praticamente sufocado, ou distorcido. Além disso, no livro todos os personagens são ambíguos, moralmente falando, e aqui eles ou são bonzinhos ou são malvados, criando um maniqueísmo que destrói completamente a força dos personagens criados pela autora. E como se não bastasse, até espada colocam na mão de Morgana, enquanto a idéia de poder da mulher proposta por Bradley não era a de se apropriar do mundo masculino, mas tão somente utilizar seus próprios recursos femininos.

Duas aventuras de H.R. Haggard

Quando criança, fantasia associada a aventura e descoberta de civilizações perdidas formavam para mim uma equação irresistível, coisa que deve ter começado através das caças ao tesouro protagonizadas pelo Tio Patinhas e os filmes da tarde com as sagas de Simbad ou Indiana Jones. Numa destas sessões assisti a uma das versões de Ela e fiquei muito intrigada com a história, especialmente o final. Recentemente lembrei do filme e descobri que é uma adaptação de um best-seller de H. Rider Haggard, o mesmo autor do famoso As Minas do Rei Salomão e que, com suas obras, iniciou o subgênero lost-world nos livros de fantasia.

Apesar de ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, dificilmente ouço falar de alguém que tenha lido Ela ou mesmo conheça sua história. O narrador é Holly, um professor de Cambridge que juntamente com seu filho adotivo Leo e seu criado Job seguem em uma perigosa aventura na África a fim de entender a herança histórica da família de Leo. Lá eles descobrem uma civilização escondida, comandada por Ayesha, uma belíssima mulher que vive há dois mil anos. Se por um lado a história é curiosa e influenciou inúmeros escritores mais tarde, como Rudyard Kipling e J.R.R. Tolkien, por outro é incômodo para o leitor de hoje perceber de maneira tão escancarada alguns valores racistas e machistas dos vitorianos. Apesar de Ayesha ser uma mulher com extremo poder – é absurdamente bonita e sábia e possui poderes sobrenaturais e grande capacidade de comando – sua soberania não é vista com bons olhos, mas como algo perigoso à humanidade, e infelizmente sua devoção romântica a Leo por vezes acaba ajudando a diminuir a força da personagem.

As Minas do Rei Salomão também conta uma aventura na África e é narrada pelo caçador Allan Quatermain, que possui um mapa para as incríveis e secretas minas do rei bíblico. Com a companhia de Sir Henry Curtis, o Capitão Good e o nativo Umbopa, os personagens farão uma longa jornada através de um deserto africano, cada um com seu motivo e missões pessoais. Os tipos de situação que eles enfrentam são semelhantes aos que vemos em filmes com o personagem Indiana Jones (que parece ter sua origem em Quatermain), com direito a batalhas contra um rei africano sanguinário, trapaças de uma feiticeira maligna e cavernas com mecanismos secretos. Assim como em Ela, Haggard traz um narrador um tanto contraditório, que se divide entre mostrar os africanos como bárbaros e ao mesmo tempo, em algumas situações, considerá-los como mais cavalheiros que certos europeus. É fácil encontrar sua edição traduzida por Eça de Queiroz.

A escrita de Haggard não oferece muitos atrativos, mas não há como negar que ele foi muito criativo em suas histórias, aproveitando sua experiência na África para pormenorizar suas descrições. Tendo influenciado tantos livros e filmes que vieram depois, estas obras não causam muito impacto nos dias atuais e são previsíveis e ultrapassadas – as situações repetitivas e os monólogos cansativos dos narradores também não ajudam. Ainda assim, guardarei a cena final de Ela com carinho nas minhas lembranças de infância.

A Fúria dos Reis – George R.R. Martin | Game of Thrones – HBO (Season 2)

Entre abril e maio li A Fúria dos Reis, segundo volume da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, mas dessa vez optei pelo original em inglês, versão ebook. A segunda temporada já havia começado, mas pelo menos consegui terminar a leitura bem antes que a série acabasse. Para aqueles que não leram o livro ou não viram a segunda temporada da série, fica avisado que aqui haverá spoilers.

Neste livro temos a mesma divisão de capítulos por personagens específicos – não se trata de um relato em primeira pessoa, mas um foco em cada um deles. São praticamente os mesmos do primeiro livro, acrescentando dois personagens relacionados ao mar: Theon Greyjoy (secundário no livro anterior) e Davos Seaworth. Com Eddard fora do baralho, continuamos a ver a trama sob o olhar de Arya, Sansa, Tyrion, Bran, Jon, Catelyn e Daenerys. Para retomar a história, o autor usa a aparição de um cometa vermelho. Aos poucos vamos vendo como cada personagem interpreta esse evento segundo suas próprias convicções e interesses, e como as reações são diferentes. Para alguns ele simboliza o reino dividido pela guerra, anunciando morte e sofrimento, para outros ele ressalta a volta dos dragões, ou a intervenção religiosa da sacerdotisa vermelha ou mesmo o poder da casa Lannister. Na verdade ele antecipa tudo isso, preparando o leitor para o que virá.

Ao contrário do livro anterior, que era mais homogêneo, A Fúria dos Reis reveza capítulos muito bons e outros razoáveis. Os de Daenerys, por exemplo, considerei bem enfadonhos, mas gostei de um ou dois, especialmente aquele em que seu grupo passa um tempo numa cidade fantasma e Jorah conta sua história. A saga de Theon também me deixou entediada. Ele é um bom personagem, um jovem que não consegue se encaixar em nenhum lugar, nenhuma família e mais perdido que Daenerys na Casa dos Imortais. Porém Theon pode despertar no leitor sentimentos conflitantes e a casa Greyjoy e seus valores não me causaram admiração ou interesse. Tyrion continua como um dos melhores personagens da série, finalmente com oportunidade de brilhar com suas estratégias para o jogo político e a guerra, mas aqui ele fica em segundo em comparação com Arya. Era a história dela que eu mais ficava ansiosa para ler. De Porto Real a Harrenhal ela não descansa um segundo, sua interação com Jaqen H’ghar e outros personagens paga o livro inteiro e a reza que faz antes de dormir é antológica. Se os capítulos de Sansa são mais bonitos no que diz respeito à escrita do autor, os de Arya são mais instigantes e surpreendentes. Ao norte da Muralha, Jon e a A Patrulha da Noite passam por algumas aventuras bacanas, mas achei que para o grupo as coisas ficam mais interessantes com a aproximação do final do livro.

Em relação ao seriado, as diferenças ficaram bem menos sutis. Considerei a segunda temporada um pouco confusa para quem não leu o livro, mas ainda assim algumas escolhas foram necessárias. Arya nunca chega nem perto de Tywin no livro, mas apesar de parecer um pouco forçado um lorde fazer amizade com uma copeira, vi isso como uma solução inteligente tanto para causar tensão como para resumir o que acontece em Harrenhal. Outro exemplo é a Batalha de Água Negra que, filmada à noite, proporcionou um efeito bonito com a ação do fogovivo e causou um impacto maior visualmente, com o uso do barco vazio. Já a morte de Bran e seu irmão, infelizmente, não foi muito explorada no seriado. Ela funciona muito bem no livro, mas na série fica bem óbvio que não foram eles que morreram. A constatação de que estão vivos, no final, é uma surpresa que coroa a história. Na TV, a surpresa final foi outra e admito que ela foi mais do que adequada para a versão em vídeo. O que me causou estranhamento mesmo foram alguns personagens e situações que não aparecem no livro, mas talvez eles tenham antecipado algo do terceiro volume. Assim como o livro, a série teve seus altos e baixos, mas no geral teve episódios incríveis.

Esse livro foi minha primeira compra de ebook e primeira leitura (completa) no Kindle. A experiência foi ótima; como é um livro que não tenho intenção de guardar, saiu muito mais barato e mais prático lê-lo nesse formato. Sem falar do auxílio do dicionário, que define a palavra que você seleciona, sem sair da página de leitura. Devo adquirir os próximos livros da série também dessa forma. Mas isso só quando o inverno, isto é, a terceira temporada estiver chegando.

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Livro relacionado:

A Guerra dos Tronos – George R.R. Martin | Game of Thrones – HBO (Season 1)


Apesar de gostar muito da série Game of Thrones, não tinha a intenção de ler os livros que lhe deram origem. Não porque a série de livros seja longa e ainda inacabada, mas porque achei que o seriado daria conta da história muito bem e ainda traria o elemento visual, tão fascinante quando se trata de fantasia. Era o que achava até começar a assistir recentemente à segunda temporada, na qual tive a impressão de ser feita para quem está acompanhando os livros. Se na primeira eu já deixava passar alguns detalhes confusos que se perdem na velocidade imposta pela televisão, na segunda esses detalhes estão se aglomerando e tenho curtido menos a série. Resolvi encarar pelo menos os dois primeiros livros, e como meu irmão tem o primeiro, tomei emprestado, e à medida que ia lendo, fui revendo os episódios da primeira temporada.

No que diz respeito à trama, não vi praticamente nenhuma diferença significante entre as duas obras: a história foi contada completamente na série, não há motivo para ficar relatando que no livro um personagem era mais assim e no seriado era mais assado. A diferença mais marcante fica por conta do seriado dar mais relevância ao sexo (afinal é HBO) e tornar alguns personagens mais importantes. A vantagem do livro é que nele fica mais claro como funcionam as casas (famílias), seus nomes, seus símbolos, quem é fiel a quem, quem é vassalo de quem e como o jogo político pelo poder se desenvolve. Durante a leitura eu fui rabiscando tabelas para entender melhor quem era quem, pois haja pessoas nesse reino! Não é à toa que há um apêndice no final para que o leitor possa entender a genealogia das casas. Claro que conhecendo os principais personagens dá para seguir a leitura, mas para apreciar melhor o jogo dos tronos há que se acompanhar os detalhes que fazem a diferença.

Como em muitos livros de fantasia, temos aqui um mundo à parte, semelhante a uma Europa Medieval. Westeros se divide em Norte e Sul. O povo do Norte é um povo mais simples, ligado à natureza e aos deuses antigos (algo equivalente ao paganismo); o povo do Sul já adora novos deuses e são mais extravagantes e urbanos, por assim dizer. No Norte há uma Muralha que separa o reino do extremo Norte, onde vivem povos selvagens e criaturas estranhas e perigosas que muitos julgam não existir mais. São criaturas do frio que esperam o inverno para aparecer. O livro inteiro se passa no verão, mas a todo momento somos lembrados que o inverno está para chegar. Além disso há o Leste, para além do Mar Estreito, com cidades que não respondem ao Rei.

Cada capítulo é focado em um personagem, como se o narrador contasse a história pelos seus olhos, usando cada um deles de acordo com o que é mais importante contar em dado momento. Primeiro temos Eddard Stark, senhor de Winterfell, ao Norte. Ele é convidado pelo Rei para ser sua Mão, o segundo mais importante cargo do reino. Para isso ele deve ir para o Sul e deixar sua família. Depois temos Catelyn Stark, esposa de Eddard que sofre com o fato de que seu marido e as duas filhas que irão acompanhá-lo provavelmente não voltem mais para casa. As duas filhas são Sansa e Arya. Sansa é a mocinha romântica que mal pode esperar o momento em que irá casar com o filho do Rei. Arya é a filha rebelde, que está sendo levada para a corte como uma tentativa de ser domada e educada. Bran Stark é um dos filhos que também iriam embora com o pai mas que por conta de um acidente tem que permanecer em Winterfell. Jon Snow é o filho bastardo de Eddard e que tem como única escolha de vida entrar para a Patrulha da Noite, um grupo decadente que protege a Muralha. Já em Porto Real, temos o cunhado do rei Tyrion Lannister, um anão rejeitado pela família que se beneficia da riqueza e inteligência que possui para compensar suas limitações físicas. Por último, vivendo além do mar, a princesa Daenarys Targaryen, cuja dinastia governava o reino e comandava os dragões e que foi derrotada pelo atual rei. Seu irmão a casa com um líder de uma tribo estrangeira na intenção de recuperar o trono.

Através destes oito personagens vamos conhecendo as intrigas de mil outros. Não por acaso eles são aqueles por quem o leitor torce e responsáveis por um local da história: se em algum lugar estiver ocorrendo uma batalha, por exemplo, pelo menos um desses personagens estará presente para assisti-la. Destaque para Tyrion, o melhor personagem do livro. Além de ser responsável por muitas tiradas de humor sarcástico, ele está sempre com um livro na mão, uma mulher na cama e uma frase sábia na boca:

“…uma mente necessita de livros da mesma forma que uma espada necessita de uma pedra de amolar se quisermos que se mantenha afiada.”

O gênero fantasia é geralmente entretenimento puro, muito específico para quem gosta desse tipo de história, pois lida com valores esquecidos (como a honra), brinca com nossos medos e superstições e ao mesmo tempo pode tratar de assuntos como política sem se comprometer com a contemporaneidade. Fora o elemento da magia e seres fantásticos, que tornam ilimitadas as possibilidades de uma cena impactante, como é a do final de A Guerra dos Tronos. Não espere algo que o fará pensar sobre a vida, o universo e tudo mais. O que temos aqui é um enredo muito bem construído, com bons personagens e muita diversão.

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Livro relacionado:

La science des rêves (2006) – Michel Gondry

The Science of Sleep é um filme de Michel Gondry, o mesmo diretor de Eternal Sunshine of the Spotless Mind, com a diferença que aqui ele também é responsável pelo roteiro. Um filme sobre sonhos com bastante devaneios tem tudo pra me agradar e as atuações do Gael García Bernal e da Charlotte Gainsbourg estão ótimas. Inclusive esse filme me lembrou muito Anna Oz, também sobre sonhos e também com a atriz, e que é um dos meus filmes favoritos.
Stéphane é um designer/artista que vive entre a realidade e seus sonhos feitos de papelão, e boa parte do tempo não sabe quando está em um ou em outro. Ele conhece Stéphanie, que acaba de se mudar para o apartamento ao lado, e apesar de ela entrar nos seus jogos de fantasias, tem dificuldade de se relacionar com essa pessoa tão cheia de camadas. O mais legal do filme são as brincadeiras dos dois, o faz-de-conta que eles montam como se fossem duas crianças. Fora isso não gostei muito das cenas que acontecem na empresa em que ele trabalha, achei bem forçadas, apesar dos personagens serem divertidos. Mas no geral o filme é engraçado, doce, bonito.