A Guerra dos Tronos – George R.R. Martin | Game of Thrones – HBO (Season 1)


Apesar de gostar muito da série Game of Thrones, não tinha a intenção de ler os livros que lhe deram origem. Não porque a série de livros seja longa e ainda inacabada, mas porque achei que o seriado daria conta da história muito bem e ainda traria o elemento visual, tão fascinante quando se trata de fantasia. Era o que achava até começar a assistir recentemente à segunda temporada, na qual tive a impressão de ser feita para quem está acompanhando os livros. Se na primeira eu já deixava passar alguns detalhes confusos que se perdem na velocidade imposta pela televisão, na segunda esses detalhes estão se aglomerando e tenho curtido menos a série. Resolvi encarar pelo menos os dois primeiros livros, e como meu irmão tem o primeiro, tomei emprestado, e à medida que ia lendo, fui revendo os episódios da primeira temporada.

No que diz respeito à trama, não vi praticamente nenhuma diferença significante entre as duas obras: a história foi contada completamente na série, não há motivo para ficar relatando que no livro um personagem era mais assim e no seriado era mais assado. A diferença mais marcante fica por conta do seriado dar mais relevância ao sexo (afinal é HBO) e tornar alguns personagens mais importantes. A vantagem do livro é que nele fica mais claro como funcionam as casas (famílias), seus nomes, seus símbolos, quem é fiel a quem, quem é vassalo de quem e como o jogo político pelo poder se desenvolve. Durante a leitura eu fui rabiscando tabelas para entender melhor quem era quem, pois haja pessoas nesse reino! Não é à toa que há um apêndice no final para que o leitor possa entender a genealogia das casas. Claro que conhecendo os principais personagens dá para seguir a leitura, mas para apreciar melhor o jogo dos tronos há que se acompanhar os detalhes que fazem a diferença.

Como em muitos livros de fantasia, temos aqui um mundo à parte, semelhante a uma Europa Medieval. Westeros se divide em Norte e Sul. O povo do Norte é um povo mais simples, ligado à natureza e aos deuses antigos (algo equivalente ao paganismo); o povo do Sul já adora novos deuses e são mais extravagantes e urbanos, por assim dizer. No Norte há uma Muralha que separa o reino do extremo Norte, onde vivem povos selvagens e criaturas estranhas e perigosas que muitos julgam não existir mais. São criaturas do frio que esperam o inverno para aparecer. O livro inteiro se passa no verão, mas a todo momento somos lembrados que o inverno está para chegar. Além disso há o Leste, para além do Mar Estreito, com cidades que não respondem ao Rei.

Cada capítulo é focado em um personagem, como se o narrador contasse a história pelos seus olhos, usando cada um deles de acordo com o que é mais importante contar em dado momento. Primeiro temos Eddard Stark, senhor de Winterfell, ao Norte. Ele é convidado pelo Rei para ser sua Mão, o segundo mais importante cargo do reino. Para isso ele deve ir para o Sul e deixar sua família. Depois temos Catelyn Stark, esposa de Eddard que sofre com o fato de que seu marido e as duas filhas que irão acompanhá-lo provavelmente não voltem mais para casa. As duas filhas são Sansa e Arya. Sansa é a mocinha romântica que mal pode esperar o momento em que irá casar com o filho do Rei. Arya é a filha rebelde, que está sendo levada para a corte como uma tentativa de ser domada e educada. Bran Stark é um dos filhos que também iriam embora com o pai mas que por conta de um acidente tem que permanecer em Winterfell. Jon Snow é o filho bastardo de Eddard e que tem como única escolha de vida entrar para a Patrulha da Noite, um grupo decadente que protege a Muralha. Já em Porto Real, temos o cunhado do rei Tyrion Lannister, um anão rejeitado pela família que se beneficia da riqueza e inteligência que possui para compensar suas limitações físicas. Por último, vivendo além do mar, a princesa Daenarys Targaryen, cuja dinastia governava o reino e comandava os dragões e que foi derrotada pelo atual rei. Seu irmão a casa com um líder de uma tribo estrangeira na intenção de recuperar o trono.

Através destes oito personagens vamos conhecendo as intrigas de mil outros. Não por acaso eles são aqueles por quem o leitor torce e responsáveis por um local da história: se em algum lugar estiver ocorrendo uma batalha, por exemplo, pelo menos um desses personagens estará presente para assisti-la. Destaque para Tyrion, o melhor personagem do livro. Além de ser responsável por muitas tiradas de humor sarcástico, ele está sempre com um livro na mão, uma mulher na cama e uma frase sábia na boca:

“…uma mente necessita de livros da mesma forma que uma espada necessita de uma pedra de amolar se quisermos que se mantenha afiada.”

O gênero fantasia é geralmente entretenimento puro, muito específico para quem gosta desse tipo de história, pois lida com valores esquecidos (como a honra), brinca com nossos medos e superstições e ao mesmo tempo pode tratar de assuntos como política sem se comprometer com a contemporaneidade. Fora o elemento da magia e seres fantásticos, que tornam ilimitadas as possibilidades de uma cena impactante, como é a do final de A Guerra dos Tronos. Não espere algo que o fará pensar sobre a vida, o universo e tudo mais. O que temos aqui é um enredo muito bem construído, com bons personagens e muita diversão.

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Pedro e Lua – Odilon Moraes


Tinha uma pedra no meio do caminho de Pedro, mas não era bem uma pedra, era Lua. E assim começa uma história de amizade comovente que encanta pela simplicidade e poesia, mas também pela constatação de que não importa o quanto podemos amar alguém, ainda assim temos que viver o que temos que viver, seja seguindo o próprio caminho, seja esperando que caminhem conosco. O que sempre nos resta é pagar o preço da saudade.

Pedro e Lua é um livro para crianças, mas eu não resisto a um bom infanto-juvenil com belas ilustrações. Sem falar da capa, cujas estrelas acendem no escuro! Se sua criança interior cresceu mais que a minha, fica pelo menos a sugestão para um lindo presente.

Ah! E Feliz Dia Mundial do Livro!

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Livros relacionados:

Kindle

Recente adquiri um Kindle e posso dizer que já me adaptei e estou gostando. Eu tinha uma certa experiência em ler digitalmente num Ipod Touch, mas como a tela é pequena a leitura nunca foi muito agradável. Fora que nunca tive coragem de comprar livros para ler nele, então aproveitava apenas para e-books gratuitos ou os que encontrava aqui e ali, geralmente bem bagunçados por não haver o mínimo de diagramação. Com o Kindle o conforto é muito maior, pois é um dispositivo feito para leitura, com todos os recursos de imitar o papel, como o uso da tinta eletrônica, que ajudam a não cansar a visão. A tela não é exatamente grande, eu esperava algo um pouco maior, mas corresponde mais ou menos a um livro de bolso, o que é suficiente pra mim (clique na imagem acima para ver em tamanho real).

Num primeiro momento estranhei o contraste. O fundo acinzentado me incomodou, afinal as páginas dos livros de papel são brancas ou amareladas, e não cinzentas. Depois fui percebendo que isso melhorava muito dependendo da luz que eu usava para ler e hoje já estou completamente acostumada. Acredito que esse tom frio é para não agredir muito a visão, mas ainda assim eu preferia que o fundo fosse mais amarelado. Comparei com o Kindle de uma amiga, que tem um modelo mais antigo, o dela me pareceu bem menos cinza, então pode ser que varie de modelo pra modelo.

Ainda não comprei nenhum livro por ele, simplesmente porque comprei muitos livros ultimamente e estou querendo esperar um pouco, mas existem alguns clássicos disponíveis gratuitamente que já baixei, fora as amostras que são muito boas para escolher melhor o que vale a pena comprar. Como é tudo muito recente ainda não procurei livros em português, mas acredito que usarei mais o Kindle para ler livros em inglês mesmo, pois é uma maneira incrível de comprar livros importados mais baratos e sem frete. Fora o dicionário que vem incluso, que permite que você acesse o significado das palavras sem sair da página que está sendo lida. Adoro o fato dele ter uma bateria tão durável (1 a 2 meses) e os papéis de parede quando está desligado são muito legais. Além disso, é engraçado ter a sensação de usar um aparelho com um pé no passado, talvez por sua tecnologia ser ainda uma coisa nova ou justamente por querer imitar algo analógico.

Não é a mesma coisa de ler um livro de papel, é claro. Apesar de ter recursos como marcador, anotações e destaque de texto, o lado lúdico de apreciar a capa ou sentir a textura das páginas se perde, mas se você levar em conta a leitura pela leitura é a mesma coisa. Existe o boato de que em breve ele será vendido aqui no Brasil por cerca de 200 reais. É um preço bom, quem compra pela Amazon tem que pagar o dobro por conta do imposto e apenas alguns modelos são disponíveis internacionalmente. Talvez aí apareçam mais títulos em português e e as pessoas se interessem mais por esse jeito alternativo de apreciar uma boa leitura.

O Selvagem da Motocicleta – S.E. Hinton | Rumble Fish (1983) – F.F. Coppola


Lendo O Selvagem da Motocicleta eu tive a sensação de rever os personagens de Vidas Sem Rumo vivendo uma outra história. Rusty-James, Steve e Motorcycle Boy lembram muito o trio Ponyboy, Johnny e Dallas. Especialmente Motorcycle Boy, o bad boy atormentado com altos níveis de charme e carisma, que é temido e admirado por todos. Já vendo o filme, com o filtro do diretor e a caracterização dos atores, a diferença fica mais marcada, até porque no filme eles são bem menos inocentes e não têm a menor cara de meninos de 14 e 17 anos.

Como no livro anterior, Hinton traz a questão das brigas masculinas, o prazer que elas causam e sua relação com disputas por território ou vaidade, mas aqui não há diferenças sociais. Os personagens não sabem ao certo porque brigam, são como os peixes betta, peixes de briga que não podem estar no mesmo aquário com outro da mesma espécie. Mais uma vez também ela trata de coisas como o relacionamento entre irmãos, a estrutura familiar e a rejeição a drogas pesadas, mas tudo numa história bem curta, sem tempo para muita profundidade.

O Coppola então preencheu a história de uma maneira muito visual, começando pela escolha do preto e branco, que não é gratuita porque Motorcycle Boy não vê cores. As cenas são muito simbólicas e os efeitos de câmera, fotografia e jogos de luz e sombra são o barato do filme; o diretor parece ter lambido cada cena para que ficasse como ele queria esteticamente. Um exemplo disso é a presença constante de relógios nas cenas, talvez para salientar a ansiedade de Rusty-James.

Sempre gosto do Matt Dillon, o James Dean dos anos 80, ainda que ele tenha feito esse mesmo papel tantas vezes; o Mickey Rourke está muito bem, mas me incomodou em alguns momentos porque eu imaginava um Motorcycle Boy bem diferente (eu já havia visto o filme há muito tempo e não lembrava mais quem tinha feito o personagem); já o personagem Steve me irritou um pouco, no livro ele não é tão caricato e patético. Fora isso e a trilha sonora ruim, Rumble Fish é um agrado para quem curte cinema e gosta de observar detalhes de direção: alguns momentos têm o tom de videoclip e em outros parece que estamos vendo um filme de Fellini, com a dramaticidade passando por cima de qualquer falta de lógica. Um cult que vale a pena ser visto, num daqueles casos raros em que o filme supera o livro.

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Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino


A narrativa fantástica é aquela que encerra um fato insólito em sua lógica interna: num mundo com regras estabelecidas, surge algo surpreendente, inesperado, inexplicável. Não deve ser confundida com a narrativa maravilhosa, que trabalha com uma lógica paralela, como é o caso das histórias de fantasia, como O Senhor dos Anéis. Tudo que acontece na história maravilhosa é esperado: um mago realiza mágicas, um dragão cospe fogo… mas ninguém irá ver um carro cortando a floresta. Já o fantástico apresenta um mundo semelhante ao nosso real, mas com a diferença de trazer um acontecimento que causa estranhamento, que pode ser desde uma aparição de um fantasma até uma epidemia de cegueira na humanidade.

Os contos fantásticos do século XIX, no entanto, são de um tipo específico, que é aquele que gera certa dúvida se o fato estranho aconteceu ou não, simplesmente porque são narrados em primeira pessoa, e geralmente são narrados pela vítima do acontecimento, de forma bastante emocional, às vezes por cartas ou diários. Nesta coletânea selecionada por Italo Calvino, apenas o último conto, escrito já no final do século, é narrado em terceira pessoa. Dispostos em ordem cronológica, Calvino separa as histórias do livro em duas categorias: o fantástico visionário, aquele em que surgem aparições, e o fantástico cotidiano ou psicológico, em que o extraordinário ocorre mentalmente, isto é, ao invés de ser visto, é sentido.

As histórias têm em comum um herói atormentado pelas circunstâncias, geralmente um homem bom e pacato que se vê capturado pelas forças do mal e por elas é marcado ou condenado. O fantástico aparece através de bruxaria, alquimia, folclore, lendas, entidades, fantasmas, mundos paralelos e até partes do corpo com vida própria. É comum que eles manifestem sutilmente uma moralidade puritana ou religiosa.

Os que mais apreciei do fantástico visionário foram O Homem de Areia (uma história genial sobre a loucura e o medo), de E. T. A. Hoffmann, e A Vênus de Ille (principalmente pela forma de narrar), de Mérimée. Do fantástico cotidiano obviamente se destacou o famoso O coração denunciador, de Poe, O sinaleiro, de Dickens (que me lembrou algo que já vi ou li, mas que não consigo identificar), O sonho, de Turguêniev (adorei a atmosfera onírica), O demônio da garrafa, de Stevenson (também pela narrativa), Os amigos dos amigos, de Henry James (única vez em que a narradora é uma mulher) e Em terra de cego, de Wells, que juntamente com Poe e Hoffmann já pagam o livro (ainda que o meu tenha sido presente). Eu dispensaria totalmente da coletânea Os construtores de ponte, O espanta-diabo (bocejei cada segundo lendo estes), É de confundir! (também fiquei confusa com a presença desse conto), Chickamauga (não acho que seja um conto fantástico) e A noite (já li muita coisa melhor de Maupassant).

O único problema do conto fantástico oitocentista é que eles já foram tão referenciados e copiados pelo cinema e pela tv que alguns efeitos se perderam. Mesmo assim, eles possuem um sabor único a quem se deixa levar pelo inusitado e falam diretamente ao nosso inconsciente, deixando-nos a maravilhosa sensação de que a realidade pode ser bem mais interessante do que é rotineiramente.

Contos:
História do demoníaco Pacheco – Jan Potocki
Um oficial francês dorme numa hospedaria assombrada onde ele irá realizar seus desejos mais profundos.

Sortilégio de outono – Joseph Von Einchendorff
Um eremita atormentado por ter vivido num mundo espelhado ao seu.

O Homem de Areia – Ernst Theodor Amadeus Hoffmann
A história de Natanael, da infância à idade adulta perseguido pela presença do Homem de Areia, o ser que pune as crianças que não querem dormir.

A história de Willie, o vagabundo – Walter Scott
Para provar que resolveu sua dívida com o cruel cavaleiro Sir Robert, o gaiteiro Steenie terá que ir ao inferno buscar o recibo.

O elixir da longa vida – Honoré de Balzac
Uma poção mágica capaz de devolver a vida aos mortos passará de pai para filho.

O olho sem pálpebra – Philarète Chasles
Conto de Halloween em que amigos se reúnem para celebrar e realizar simpatias de casamento.

A mão encantada – Gérard de Nerval
Um cigano enfeitiça a mão de um comerciante para que ele se saia bem em um duelo, mas a mão passa a ter vontade própria.

O jovem Goodman Brown – Nathaniel Hawthorne
Brown mora num vilarejo cristão e ao longo de uma estrada luta contra tentações diabólicas.

O nariz – Nikolai Vassilievitch Gogol
A história do nariz do major Kovalióv, que sai de seu corpo e passa a ter vida própria.

A morte amorosa – Théophile Gautier
Romuald é um padre que, no dia de sua ordenação, se apaixona por uma vampira.

A Vênus de Ille – Prosper Mérimée
No dia de seu casamento, para que pudesse jogar um pouco com os amigos, um jovem coloca o anel de noivado no dedo de uma antiga estátua de Vênus, que não quer mais devolvê-lo.

O fantasma e o consertador de ossos – Joseph Sheridan Le Fanu
Um consertador de ossos tem que passar a noite num castelo que é assombrado por um fantasma com um osso para consertar.

O coração denunciador – Edgar Allan Poe
Um dos mais conhecidos de Poe, a história de um assassino torturado pelas batidas do coração de sua vítima.

A sombra – Hans Christian Andersen
Um homem deixa sua sombra escapar de si e a reencontra tempos depois como um sujeito rico e poderoso com uma proposta perigosa.

O sinaleiro – Charles Dickens
Um sinaleiro de trem sofre de visões perturbadoras em sua estação de trabalho, seguidas sempre de algum acidente nos trilhos.

O sonho – Ivan Sergueievitch Turguêniev
Através de um sonho, um rapaz irá encontrar seu verdadeiro pai e o passado de sua mãe.

O espanta-diabo – Nikolai Semionovitch Leskov
Durante o dia que passa junto ao seu tio, homem presencia estranhos rituais.

É de confundir! – Auguste Villiers de L’Isle-Adam
Um homem faz duas visitas mórbidas.

A noite – Guy de Maupassant
Um passeio por Paris feito por um amante da noite que, aos poucos, vai sendo engolido por ela.

Amour dure – Vernon Lee (Violetta Paget)
Em forma de diário, conta como o professor Spiridion se apaixonou por Medea da Carpi, uma espécie de viúva negra há séculos morta.

Chickamauga – Ambrose Bierce
Uma criança perdida na mata encontra estranhos homens.

Os buracos da máscara – Jean Lorrain
Um bizarro baile de máscaras com tom de pesadelo.

O demônio da garrafa – Robert Louis Stevenson
Um marinheiro arranja uma garrafa com um demônio dentro, capaz de realizar todos os desejos de quem a possui.

Os amigos dos amigos – Henry James
Um homem e uma mulher, que passaram por uma situação misteriosa parecida, nunca conseguem se ver, ainda que os amigos em comum tentem arranjar o encontro.

Os construtores de pontes – Rudyard Kipling
Durante a construção de uma ponte na Índia ocorre uma enchente e dois homens presenciam uma reunião dos deuses hindus.

Em terra de cego – Herbert George Wells
Um homem cai num local isolado onde todas as pessoas são cegas e supõe que por isso irá dominá-las.

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Vidas sem Rumo: The Outsiders – S.E. Hinton | The Outsiders (1983) – F.F. Coppola


É difícil falar sobre algo que você gostou na infância ou adolescência porque seu julgamento pode ser manipulado pela nostalgia. Ainda assim, lendo o livro da Susan E. Hinton e revendo o filme do Coppola posso perceber que The Outsiders (Vidas Sem Rumo) é uma história bonita para jovens, na qual qualquer adolescente pode encontrar seu retrato de alguma forma. Até porque a autora o escreveu com apenas 16 anos, o que dá mais autenticidade aos sentimentos dos personagens e às situações que eles enfrentam. Apesar de ter visto o filme algumas vezes no passado, só soube da existência do livro recentemente, pela Raquel.

O narrador é Ponyboy Curtis, um menino de 14 anos que perdeu os pais e que mora com seus dois irmãos mais velhos, Sodapop e Darren. Seu melhor amigo Johnny e outros amigos do bairro (Two-Bit, Steve e Dallas) são greasers, que é o termo que define os garotos pobres, marginais. Todos eles vivem em eterno duelo com os socials, que são os garotos ricos, até que uma morte acontece e a vida dos dois grupos começa a mudar para sempre.

A história, que se passa no final da década de 60, mostra uma visão bem pessimista em relação ao destino dos greasers; a falta de estrutura familiar fatalmente conduz os meninos a um destino traçado de violência, morte, prisão ou, na melhor das hipóteses, trabalho pesado. Como um social chega a comentar, os greasers podem ganhar todas as brigas, mas no final eles serão sempre os perdedores, porque continuarão por baixo na vida. A salvação de Pony, além do amor de seus irmãos, é seu interesse por coisas como a arte e o pôr-do-sol. Numa cena com Johnny ele até cita um poema que resume o processo em que eles estão passando de perder a inocência e ter que entrar rapidamente para a maturidade: “Nothing gold can stay”.

Da versão de 2005 – com cenas adicionadas pelo diretor – não há quase diferenças em relação ao livro. Só consigo lembrar o fato de que no filme não aparecem as garotas greasers, mas elas também não têm muita importância no livro. Apesar de ter sido escrito por uma menina, The Outsiders é realmente sobre meninos. Ainda que com atuações bem verdes, o filme virou cult por causa dos atores e do que eles se tornaram depois, mas a história tem sua força e acredito que deva funcionar ainda hoje para aqueles que ainda estão em sua fase dourada.

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Contos de Lugares Distantes – Shaun Tan


Há certos livros que a gente sabe que vai gostar. Não é nem uma questão de criar expectativas, mas de ter uma intuição de que o livro já conversa com você antes de você começar a lê-lo. Esse livro de contos de Shaun Tan é um desses que ficou me chamando da estante, querendo ser lido urgentemente. Mal começo e já sei que ele é dos meus e que irá entrar no rol dos preferidos.

Shaun Tan conta suas histórias tanto (ou mais) pelas imagens quanto pelo texto escrito, ou melhor dizendo, suas imagens não são ilustrações simplesmente: muitas vezes é o texto que vai ilustrar a imagem. Algumas são pinturas extremamente simbólicas que parecem falar diretamente com nosso inconsciente, tornando-as difíceis de decifrar com palavras, como nos contos País Nenhum ou História do Vovô. Outras são mais simples e diretas, como em Faça seu próprio animal de estimação, em que o texto escrito toma a responsabilidade poética.

Os 15 contos são histórias de subúrbios, que bem poderiam ser de cidades pequenas, de lugares em que há muito espaço e pouca gente, muito tédio e pouca novidade. Esses lugares distantes possuem mais campo para deixar entrar o inusitado no cotidiano, tornando-o fantástico: um búfalo que aponta o caminho certo, uma vingança canina, um natal ao contrário, um dugongo na grama do vizinho… Não pelo efeito do inesperado, mas pela poesia que surge destas situações que sacodem a rotina e transformam a vida.

“Que sensação marcante e inominável é esta, que acontece bem no instante do salto: algo que parece tristeza e pesar, uma vontade súbita de ter seu presente de volta, agarrado ao peito, sabendo que certamente nunca o verá de novo. Então você se solta, deixando os músculos relaxarem, os pulmões esvaziarem, e no remanso da saudade permanece uma imagem às margens da memória: a imensa rena no seu telhado, fazendo uma reverência.”

Meus preferidos foram País Nenhum (um lugar secreto dentro de um lar), Ressaca (sobre abandono), Velório (impactante), História do Vovô (uma visão muito poética e bem-humorada sobre casamento) e Chuva ao Longe (o que acontece com os poemas que ninguém lê?). Para quem quiser conhecer melhor o autor, hoje saiu no blog da Cosac Naify um texto dele sobre seu processo criativo e de qual seria o papel das imagens nos livros ilustrados, vale a pena ler!

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The Lost Thing (2010) – Andrew Ruhemann e Shaun Tan

Prestes a terminar de ler Contos de Lugares Distantes, do Shaun Tan, eu paro para olhar a pequena biografia do autor no final do livro e vejo que ele foi responsável pela concepção de arte em Wall-E e co-diretor de The Lost Thing, oscar de melhor curta de animação do ano passado que eu estava por assistir há meses e que foi baseado num livro seu de mesmo nome.

É um lindo filme, que começa com o encontro de um jovem e uma criatura meio máquina, meio animal. O jovem percebe que ela é uma Coisa Perdida, algo que não parece fazer parte do seu mundo e cuja importância ninguém reconhece. Você vê então um grande contraste entre essa Coisa cheia de vida e de cor e as pessoas cinzentas deste mundo que estão preocupadas com questões mais importantes e sérias do cotidiano. Na tentativa de encontrar um lugar para ela, ele irá se deparar com algumas soluções, entre elas a opção de que a Coisa Perdida se encaixe neste esquema cinzento.

Este filme me fez pensar não só em amizade, em abandono e em convivência com o diferente, mas também em como as pessoas podem ser mais frias e automatizadas que as próprias máquinas quando se importam apenas com a mera reprodução da vida cotidiana.