Léxico Familiar – Natalia Ginzburg

interlunio61-lexicoExistem livros que são capazes de atingir uma camada mais profunda do leitor: histórias que falam com nossas histórias, pessoas ou personagens que revelam o que não conseguimos expressar. Léxico Familiar é um destes livros que nos tomam pela mão e nos levam a rever fragmentos de nossas vidas, como se fossem um dos espectros que surgem para Scrooge no Natal.

Com uma linguagem direta mas ao mesmo tempo afetuosa, a autora italiana Natalia Ginzburg tece um bordado de memórias – para usar uma metáfora do posfácio da edição – relativas à sua vida familiar, da infância à vida adulta. O foco está longe de ser ela mesma: não há quase menção sobre suas descobertas de menina, sobre o seu casamento com Leone Ginzburg ou sobre ser mãe de três filhos. A família aqui é a família que temos enquanto filhos, a que convivemos com as pessoas que não escolhemos: os pais, os irmãos, os parentes e amigos dos pais. E ela constrói esse bordado tomando como fio as frases, anedotas, expressões usadas pela família que vão se repetindo ao longo da narrativa, como não poderia ser diferente em qualquer convivência familiar.

As frases familiares e as piadas internas nos causam uma sensação de conforto, como se fizéssemos parte dessa família ou comparássemos com a nossa. Expressões como “surge um novo astro”, “as sobras de Virginia” e “não reconheço mais a minha Alemanha” causam-nos gargalhadas, pois nos sentimos incluídos nessa história e nos lembramos do que um avô ou uma tia costumava repetir em nossa infância e que virou um bordão em várias situações.

Ainda que ela mostre o pai como um homem duro e intransigente, acabamos por rir muito com esta figura, com sua falta de paciência e seus despertares durante a noite, preocupado com que rumo os filhos iam tomar. Sua mãe é retratada como uma figura um tanto passiva mas de um espírito livre, feliz e tranquilo, com uma sabedoria poética diante da vida. A família Levi, que conta ainda com os irmãos Gino, Mario, Alberto e Paola, vive com muito bom humor, mas ao mesmo tempo com a grande sombra do fascismo na Itália e da Segunda Guerra, que levam muitos amigos e familiares ao exílio e à morte.

Cada família constrói o seu próprio léxico familiar, mas não há dúvida de que o léxico da família de Natalia Ginzburg é especial e cheio de referências artísticas interessantes, nos envolvendo naquele afeto misterioso que as famílias têm, que se apresentam até mesmo nas brigas e discussões acaloradas. Uma leitura deliciosa, com todos os elementos que uma vida guarda: sonhos, perdas, melancolia, alegria, sonhos e desilusão, com humor e beleza, e um final que nos leva a querer voltar ao começo.

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O escolhido foi você – Miranda July

interlunio55-escolhidoMiranda July é uma cineasta americana que, empacada com um roteiro em desenvolvimento, tenta encontrar outras formas de inspiração. Envolvida em perder um pouco de tempo na internet e folheando leituras aleatórias, ela acaba encontrando um ponto de partida ao ler um catálogo de anúncios de compra e venda, o Pennysaver. Um dos anúncios chama sua atenção: é alguém vendendo um casaco de couro por 10 dólares. Ela começa a se perguntar quem seria aquela pessoa, a história daquela jaqueta etc. então resolve ligar para ela e marcar um encontro, pagando-a pelo seu tempo. Ela descobre que o vendedor é Michael, um transexual idoso. A partir daí ela começa uma série de entrevistas com anunciantes do Pennysaver, tudo na missão de ajudá-la a compor sua história para o filme.

O escolhido foi você é um relato dessas entrevistas, ilustradas com as fotos dos participantes e dos objetos de venda. Mas mais do que isso, é sobre a própria Miranda July, sobre a escrita do roteiro do filme O futuro e sobre uma visão geral da vida profissional da autora. À medida que conta essas histórias, ela revela suas dificuldades com a escrita e outros momentos importantes de sua vida como escritora, como por exemplo, sua primeira peça, baseada na experiência de ter se correspondido, ainda adolescente, com um presidiário mais velho.

Miranda é muito autoconsciente de seus próprios privilégios e muito autocrítica, então ela mesma percebe o quanto essas entrevistas parecem tirá-la do seu ambiente mas ao mesmo tempo não vão fazê-la formar novas amizades, pois são pessoas com quem não tem nada em comum. E nem a intenção era essa, sua motivação é apenas coletar material humano para seu trabalho. O mais próximo que chega de uma real aproximação é o que tem com o último entrevistado (sem dúvida o entrevistado mais cativante), a ponto de ele acabar participando do seu filme.

Esse é um livro direto e honesto sobre encontros improváveis e o que se pode aprender com eles, mas infelizmente a autora não aprofundou suas conclusões ou reflexões sobre o que houve, e como a maioria das pessoas entrevistadas também não tinha muito a dizer, o leitor pode ficar com a sensação de que o que tem nas mãos é mais um álbum de figurinhas que um relato com conteúdo sobre composição artística.

Diário de Inverno – Paul Auster

44_inverno4Depois de uma certa idade, geralmente depois dos 60 anos, é comum começar a refazer os próprios passos através das lembranças que foram mais significativas na vida. O escritor norte-americano Paul Auster, conhecido por obras como A Invenção da Solidão, Timbuktu e A Trilogia de Nova York, escreve este Diário de Inverno como uma espécie de catalogação de suas lembranças, mas aqui ele não se limita apenas a contar pequenas histórias, ele também faz uma autobiografia de sensações, colocando tudo que é relacionado ao corpo em evidência. As sensações físicas que cada episódio contado guarda; a temperatura dos ambientes, as estações, o vento no rosto, o calor ou o frio insuportáveis, as dores e prazeres, os machucados acidentais, tudo que o corpo possa absorver do meio é relevante, afinal as memórias mais importantes são daqueles momentos nos quais você se sentiu realmente vivo.

Neste livro, a descrição das coisas mais banais acabam adquirindo a grande importância que elas verdadeiramente têm e que só parecem não ter porque você as repete tanto ao longo da vida que esquece que elas existem e são essenciais. É o caso, por exemplo, do tempo que gastamos nos locomovendo, das comidas que costumamos comer, dos abraços que damos e recebemos, do sono, dos sonhos, das viagens. Mas sobretudo a importância do que é mais marcante: a história de nossas mães, os anos no colégio, as cicatrizes que colecionamos na infância, os parentes que queremos evitar e que nos perseguem, os ossos quebrados, as casas onde moramos (em determinado ponto do livro ele descreve todas as residências em que morou), os amigos que perduram, a perda de entes queridos, tudo que compõe uma história de vida comum, feita dos momentos que lembramos ou que lembram por nós.

Essa simplicidade da proposta de Auster, aliada a uma escrita muito clara e ligeira, pode afastar alguns leitores mais rigorosos, mas constituirá uma leitura muito prazerosa a quem estiver no espírito de desenterrar suas próprias lembranças. Até mesmo o recurso da segunda pessoa, que serve para marcar uma fala consigo mesmo, pode ter o efeito de conversa com o leitor. A despeito de ser a vida de um escritor famoso – uma profissão que pode garantir algumas aventuras – Diário de Inverno é o relato autobiográfico de uma pessoa comum, com a qual muitas pessoas podem se identificar.

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★★★★ | Companhia das Letras, 2014

“Você acha que nunca vai acontecer com você, que não pode acontecer com você, que você é a única pessoa do mundo com quem nenhuma dessas coisas jamais há de acontecer, e então, uma por uma, todas elas começam a acontecer com você, do mesmo modo como acontecem com todas as outras pessoas.”

Depois de uma certa idade, geralmente depois dos 60 anos, é comum ter visto muita gente querida partir. A morte da mãe de Auster é um dos momentos mais fortes do livro e de certa forma assinala o tom de inverno da vida anunciado pelo título. Contudo, esta não é uma obra lúgubre ou algo do tipo, pelo contrário, é uma narrativa repleta de vitalidade, de humor, de tudo que constitui uma história pessoal bem contada, que abarca tanto os mais pequenos assuntos do cotidiano quanto grandes questões sobre identidade e consciência da finitude.

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*Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora Companhia das Letras.

O Amante – Marguerite Duras

25_amanteA primeira coisa que compreendi quando comecei a ler O Amante, da francesa Marguerite Duras, é que não era simplesmente um relato sobre sua iniciação sexual aos 15 anos, como muitas vezes as sinopses nos contam. A bem da verdade, o caráter erótico da narrativa me pareceu ficar em segundo plano, diante das tragédias familiares da narradora, e o sexo aparece não apenas como elemento de prazer, mas também como um mecanismo de libertação da dor e da pobreza.

É bastante simbólico que o encontro entre essa menina de 15 anos e aquele que irá tornar-se seu amante – um rico chinês de 27 anos – se dê na travessia de um rio, o rio Mekong, na então Saigon do começo do século XX. A balsa a levará a outra margem, sua existência de criança ficará para trás e através dessa relação, que envolve também dinheiro, ela irá conquistar poder perante a mãe e os dois irmãos. Tudo sempre se volta para a mãe e os irmãos, especialmente a mãe, de quem a narradora fala com revolta, raiva, frustração, ciúme: ela demonstra como é possível odiar as pessoas que mais amamos e como isso nos deixa confusos e culpados. Mas ela irá experimentar o poder também sobre esse homem, que a ama desde o primeiro momento, e sua relação com ele é sofrida e desesperada porque não há possibilidade de futuro: cada encontro é intenso porque é uma despedida.

A imagem da menina na balsa, com seu vestido aproveitado da mãe, seus sapatos de lamê e um chapéu masculino, encontrando um homem rico numa limusine preta, é a imagem a que a narradora volta sempre, de forma que nada nessa história é contado linearmente: é como se ela apontasse detalhes de uma fotografia a cada momento que a vê, e em cada um deles uma nova lembrança surgisse. É um jogo com o tempo das memórias, que dá a sensação de alguém muito velho indo e voltando em seu relato, onde as memórias aparecem como elas se desenvolvem no pensamento, e não cronologicamente, e no fundo elas não passam de um quebra-cabeças desmontado, em que cada peça vai surgindo para que o leitor sinta as emoções no devido tempo. Os verbos no presente, em boa parte do livro, lhe dão um tom onírico, sugestivo e vago, e em algumas passagens podemos nos perguntar se é possível confiar nessas lembranças, mas isso é o que menos importa, pois o mais importante passou pela peneira fina da escritora e as imagens que ela constrói são pequenos relicários que guardam o essencial.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

A fazenda africana – Karen Blixen

14_fazendaApesar de muitos leitores encararem descrições como um defeito nos livros, para mim são elas que definem um bom escritor, pois são elas que nos fazem recriar a imaginação de outra pessoa e de pintar um quadro próprio, sugerido por quem escreveu. São elas que nos transportam longe de nossa confortável poltrona e nos levam a lugares que jamais poderíamos conhecer de perto. E foram através das belas descrições de Karen Blixen que eu estive na África, sentindo o grave calor do dia, as noites frias, os cheiros da selva, os sorrisos das crianças e os olhares únicos dos quicuios, dos massais, dos somalis.

Romance de não-ficção ou relato autobiográfico, A fazenda africana narra os anos em que Blixen cuidou de sua fazenda de café no Quênia, no início do século XX, mas sobretudo conta a história das pessoas que fizeram parte de sua vida nessa aventura africana. O livro não segue uma linha exata no tempo, justamente porque seus capítulos são divididos por situações e pessoas que foram importantes e inesquecíveis para a autora, como a história de Kamante, um menino quicuio que ela salva e que acaba depois se tornando seu cozinheiro, ou mesmo sobre sua amizade/amor por Denys Finch-Hatton: Blixen parecia muito feliz sobrevoando a África ao seu lado.

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O mais incrível é ver como a autora apresenta as pessoas pelo que elas têm de mais bonito e o quanto isso diz sobre ela mesma, já que pouco conta de sua vida mais pessoal, seu marido ou sua família. Mas ela também conta sobre suas caçadas, seus animais preferidos, como ela acabava interferindo nas questões locais e como a cultura africana marcava a cada dia sua existência. Sua paixão pela terra africana é tamanha que ela quer fazer parte dela de alguma forma:

“Se é que estou, como creio, familiarizada com uma melodia da África, da girafa e suas listras iluminadas pela lua nova, dos arados nos campos, dos rostos suados dos colhedores de café, será que a África também conhece uma melodia minha? Será que o ar sobre a planície estremecia com uma cor que eu estivesse vestindo, ou as crianças inventariam um jogo no qual surgia meu nome, ou, ainda, a lua cheia lançaria uma sombra parecida comigo sobre o cascalho diante da casa, e as águias de Ngong me buscariam com seus olhos?”

Com uma escrita delicada, simples e cheia de comparações e metáforas, Blixen constrói imagens da fazenda, dos seus funcionários, das tribos nativas e dos seus amigos de uma forma tão límpida e amorosa que o leitor se sente abandonado e com saudade quando o livro acaba. Não sei dizer que episódios foram os meus preferidos nesse belo rol de histórias, mas sei que quero voltar a essa fazenda um dia, sentar mais uma vez na varanda do casarão e observar Lulu aparecendo entre as árvores ao entardecer.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Aspectos do Romance – E.M. Forster

Aspectos do Romance é um clássico livro de teoria literária de E.M. Forster, autor de romances como A Room with a View, Howards End e A Passage to India, todos bastante conhecidos por suas adaptações no cinema. Como foi baseado em uma série de conferências que o romancista apresentou na Universidade de Cambridge em 1927, o texto é relativamente fácil de ler e traz alguns toques de humor, especialmente quando dá suas alfinetadas em alguns escritores analisados. Farei aqui um resumo das principais categorias trabalhadas por Forster no livro, tanto para registrar minha leitura como para contribuir com quem tiver curiosidade sobre seu conteúdo.

O livro fala por si mesmo
Uma primeira consideração que Forster apresenta para começar a falar de literatura é a de que devemos ler os livros e não os escritores. É a velha crítica à ideia de que devemos conhecer a vida do autor para entender sua obra. Segundo Forster, antes de mais nada, os livros devem ser lidos como se todos os autores estivessem juntos numa enorme távola suspensa no tempo:

“É preciso ler os livros (o que é um infortúnio, porque isso leva tempo); é o único modo de descobrir o que eles contêm. Algumas tribos selvagens os comem, mas a leitura é o único método de assimilação deles conhecido no Ocidente. O leitor precisa se sentar, sozinho, e lutar com o escritor, coisa que o pseudo-erudito não faria. [Este] Prefere relacionar o livro à história do seu tempo, aos acontecimentos da vida do autor, aos acontecimentos que ele narra, e sobretudo a alguma tendência.”

Para provar seu argumento ele vai dispondo trechos de dois romances de autores diferentes, com características semelhantes e com distância histórica, demonstrando que a Arte sempre se ocupa das mesmas coisas, o que muda são apenas as técnicas de ficção. A Historiografia ou a Biografia, portanto, teriam pouca ou nenhuma relevância sobre a obra: o livro fala por si mesmo.

Essa questão é polêmica pois segundo outros teóricos, o ideal é que o leitor que deseja analisar uma obra observe o que o livro pede; é o livro que vai dizer o que de externo devo buscar: História, Psicanálise, Filosofia, Poesia e até Biografia, tudo vai depender da necessidade. O que não cabe, no entanto, é a tentação pela chamada “fofoca literária”, que pode ser divertida como passatempo à parte, mas não enquanto elemento para ser usado na análise, pois retira o foco do que é mais importante, que é a obra.

Estória e Enredo
Os aspectos escolhidos pelo autor para analisar o romance são: a Estória (história), as Pessoas (personagens), o Enredo, a Fantasia, a Profecia, o Padrão e o Ritmo. A Estória é a característica mais básica do romance: são os eventos que se sucedem no tempo. Para muitos leitores, essa é a única característica que interessa num livro porque ela responde ao instinto da curiosidade de querer saber o que vai acontecer depois. Já o aspecto do Enredo (também conhecido como trama ou plot), apesar de se referir à seqüência de eventos, obedece à causalidade e está intimamente ligado ao final. Um romance levado ao acaso, cheio de coincidências para justificar os eventos, contém apenas uma Estória e não um Enredo. Se a Estória requer curiosidade, o Enredo requer inteligência e memória; em um bom texto, diz o autor, nada é de graça, as coisas aparecem por um motivo e mesmo que algo pareça gratuito num primeiro momento, existirá uma função para isto no decorrer do romance.

“O mistério é essencial para um enredo, e não pode ser apreciado sem inteligência. Para o curioso, não passa de mais um “E depois?”. Apreciar um mistério requer que uma parte da mente seja posta de lado, ruminando os pensamentos, enquanto a outra segue adiante.”

Um bom exemplo que vejo para essa diferença pode ser encontrado fora da literatura, quando observamos seriados de TV. Muitas vezes trabalham com uma ideia inicial a ser desenvolvida, completamente desgarrados de um final fechado, porquanto não é possível calcular quantas temporadas irá durar. As coisas vão acontecendo e alguns elementos que pareciam fazer parte de uma motivação futura se revelam como pontas soltas em relação ao todo, e servem apenas para deixar o espectador com curiosidade para o próximo episódio. Alguns romances, assim como os seriados de TV, não conversam com o final e o enredo acaba não existindo ou se tornando um monstro de 7 cabeças. Muitos romances mais modernos também não possuem enredo, mas em outro sentido: o leitor é que constrói o enredo através da reflexão dramática dos personagens e Forster trata estes romances com certa ironia.

Personagens e Ponto de Vista
Outro aspecto importante para o romance são os personagens, as Pessoas. Qual seria a diferença entre as pessoas da vida real e as pessoas dos livros? Para isso existem duas respostas: a resposta estética, segundo a qual os personagens seguem leis próprias dentro da obra de arte, e a resposta psicológica, que afirma que enquanto nossa vida secreta é invisível (não é possível conhecermos inteiramente nem a nós mesmos), a vida secreta dos personagens é visível. Nossos relacionamentos reais são confusos porque nunca conhecemos o âmago daqueles que nos são mais íntimos e é por isso que a ficção se torna mais impactante e real que a própria vida, afinal é mais fácil se emocionar lendo um livro que lendo o jornal do dia:

“Isso que chamamos de intimidade não passa de uma improvisação; o conhecimento perfeito é uma ilusão. Nos romances, porém, conseguimos conhecer as pessoas perfeitamente, e, além do prazer normal da leitura, podemos encontrar aqui uma compensação pela falta de clareza da vida. Neste sentido, a ficção é mais verdadeira do que a História, porque ultrapassa as evidências, e todos nós sabemos por experiência própria que existe algo além das evidências.”

Ainda falando de personagens, Forster lança um conceito muito utilizado nos manuais de teoria literária até hoje, que é o de personagem plano x personagem redondo, referindo-se a que nível de profundidade um personagem pode chegar e qual o papel de cada um nos romances. O personagem plano pode ser resumido numa única frase ou ideia, e uma vez apresentado ao leitor, este já o entende e sabe o que pode esperar dele. O personagem redondo é aquele que sempre nos surpreende e cuja definição está sempre sendo construída. Ambos têm sua função nos romances: os planos tendem a trazer humor, os redondos tendem a trazer drama e Forster dá vários exemplos de como eles são usados por autores como Jane Austen (que usa os dois tipos), Charles Dickens (que usa apenas os planos) e os romancistas russos (que usam apenas os redondos).

Já o ponto de vista da narrativa, para Forster, não deve seguir fórmulas, como acreditam alguns teóricos. Ele deve seguir os efeitos que o autor quer passar para o leitor, isto é, a relação da Estória com o narrador pouco importa e o ponto de vista pode mudar sempre que a Estória pedir. Forster critica, portanto, o recurso da metaficção, que é trazer para o leitor uma análise do próprio processo criativo do escritor, sob pena de perder o efeito ficcional:

“O romancista que mostra interesse exagerado por seu próprio método nunca pode ser mais do que interessante; deixou de lado a criação de personagens e nos solicita que o ajudemos a analisar sua própria mente, com a consequentemente forte queda da nossa temperatura emocional.”

Fantasia e Profecia; Padrão e Ritmo
A Fantasia e a Profecia são aspectos que perpassam a obra literária e têm um caráter transcendente, por assim dizer. A Fantasia é aquilo que não pode acontecer na vida real; o leitor tem que se entregar à impossibilidade da história como se ela fosse possível e não são todos que se sentem dispostos a isso. Curiosamente ele aponta Ulysses, de James Joyce, como um exemplo de livro fantasista. Já a Profecia refere-se ao “tom de voz” do romancista e tem a ver com sua visão de mundo implícita em seu texto, não como uma reflexão, mas como o que ele chama de canção: o que fica nas entrelinhas tem mais força do que é o que é dito de forma explícita. Como exemplo de autores proféticos ele cita Dostoievski, D. H. Lawrence, Melville e Emily Brontë.

Por fim, os aspectos de Padrão e Ritmo. O Padrão seria o desenho geral da história e tem relação íntima com o Enredo. Muitas vezes é fácil perceber que alguns autores costumam se utilizar sempre de um mesmo padrão em todos os seus livros. Quanto mais um padrão é definido e perfeito, mais o romance se afasta da realidade, o que pode ocasionar uma obra com grande beleza estética mas muito distante da vida. O Ritmo também contribui para a estética da obra e diz respeito a como o autor conjuga repetição e variação em sua escrita, com uma característica semelhante ao que acontece na música.

Forster conclui o livro fazendo uma reflexão sobre o futuro do romance. Assim como considerou no início que a História não tem lugar quando se fala de Arte porque esta nunca muda, também considera que no futuro as coisas continuem as mesmas, a menos que a natureza humana mude e com ela o processo criativo:

“Se a natureza humana de fato se alterar, será porque os indivíduos terão conseguido olhar-se uns aos outros de um modo novo. Aqui e ali há algumas pessoas que estão tentando fazer isso – são muito poucas, mas entre elas há alguns romancistas. (…) Seja como for – esse caminho traz movimento e combustível para o romance, porque, se o romancista se vê diferentemente, também vê diferentemente seus personagens, e daí resulta um sistema de iluminação novo.”

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Livro relacionado:

A Arte da Ficção – David Lodge


A Arte da Ficção é um pequeno livro de David Lodge para iniciantes no estudo da Literatura, que foi lançado aqui no Brasil pela L&PM. Como foi escrito originalmente sob forma de artigos para jornal, endereçados ao leitor comum, o texto é simples e didático e bem gostoso de ler. São 50 capítulos curtos, cada um tratando de uma característica própria do gênero romance. O autor inicia com um trecho de uma obra e a partir do exemplo analisa brevemente aquele romance através do assunto em questão.

Os tópicos são os mais diversos, de tipos de romance a recursos estilísticos, e abarcam muitas questões, tanto clássicas quanto modernas (o livro é de 1992), tais como: Ponto de vista, Ambientação, Simbolismo, Motivação, Metaficção, Realismo mágico, O leitor no texto, O futuro imaginado etc. No primeiro parágrafo sobre metaficção, por exemplo, ele comenta sobre essa febre da literatura contemporânea:

“Metaficção é a ficção que versa sobre a si mesma: romances e contos que chamam a atenção para o status ficcional e o método usado em sua escritura. O avô de todos os romances metaficcionais foi Tristram Shandy, cujos diálogos entre o narrador e os leitores imaginários são apenas um dos inúmeros recursos que Sterne usou para realçar a lacuna existente entre a vida e a arte, que o realismo tradicional tenta ocultar. A metaficção não é, portanto, uma invenção moderna, mas uma forma que muitos escritores contemporâneos julgam interessante, porque se sentem sufocados por seus antecedentes literários, oprimidos pelo medo de que tudo o que tenham a dizer já tenha sido dito antes e condenados pelo ambiente cultural moderno a ter essa consciência.”

Enquanto ex-professor, Lodge acaba dando, em cada capítulo, uma pequena aula sobre a narrativa romanesca, mas aqui e ali também fala de sua experiência como escritor e descreve alguns processos de escrita utilizados por ele e pelos autores referidos no livro, o que pode ser interessante para escritores iniciantes. O livro pode ser visto também como um bom guia de leitura, pois me deixou interessada em vários livros citados. No entanto, vejo A Arte da Ficção mais útil para estudantes ou aquele leitor comum que quer ir além do enredo dos livros que lê e que procura entender melhor como os efeitos literários de um texto são boa parte de uma experiência rica de leitura.

Ciro Colares, A Crônica Paixão por Fortaleza – Lucíola Limaverde


Eu sei que o fato deste livro ter sido escrito por uma prima querida me faz bastante suspeita para falar sobre ele, mas não poderia deixar de comentar este belo texto que originalmente foi uma monografia de final de curso e se transformou em livro, ao ganhar o prêmio Braga Montenegro, em 2010.

A proposta geral é demonstrar como a crônica, gênero que se acha entre o jornalismo e a literatura, pode encontrar uma vida após jornal e mais especificamente, como o cronista cearense Ciro Colares (1923-2002) conseguiu esse feito aproximando suas crônicas da poesia. Através de uma análise de textos do livro Fortalezamada, Lucíola Limaverde demonstra como era a relação deste jornalista com a cidade de Fortaleza e como seu olhar poético para as coisas simples do cotidiano elevava seus textos diários. Seria mais um trabalho acadêmico se não fosse a própria autora dialogar com essa ideia e levar a escrita de sua monografia para um nível também literário. O que temos então é um bonito texto acadêmico que vale a pena ser lido não só pelo seu tema como por suas linhas carregadas de poesia e paixão pelo cronista Colares. Tanto é assim que a introdução e a conclusão do livro são cartas pessoais ao jornalista, demonstrando como sua obra marcou a autora e como é possível aplicar um pouco de emoção a trabalhos sérios sem sair do rigor que eles demandam.

Num primeiro momento, somos introduzidos às relações entre jornalismo e literatura, entre prosa e poesia, e conhecemos um pouco da história de Ciro Colares, que trabalhou em vários jornais de Fortaleza e que tinha como inspiração maior sua cidade, seu bairro, seu beco. Ciro tinha alma boêmia, aqui entendida quase como um sinônimo a um estado de ser atento à poesia do mundo, como ele próprio define:

“Ser boêmio é um estado d’alma. Às vezes não há nenhum boêmio dentre os homens que num boteco, altas noites, bebem e tocam sambinhas em caixas de fósforos beija-flor. Às vezes, os mais autênticos dormem as noites todas e de manhã cedo vão dar milho às galinhas, apanhar rosas e borboletas.”

Lucíola vai demonstrando então de que forma Ciro conseguia revelar o cotidiano de sua cidade, do seu beco e dos bares que frequentava de forma singular, ultrapassando as regras de objetividade do jornal, buscando trazer permanência ao que é descartável:

“A literatura, como arte, se quer permanente e universal. E o jornalista, inclusive o também escritor, assiste a uma morte por dia: é o jornal quase recém-escrito, já substituído. O fim do jornal, de alguma forma, é o fim de quem o escreve, as folhas carcomidas servindo de embrulho ou de forro – embora haja sempre a esperança de que ela acabe por limpar janelas, aclarando ambientes.”

A cidade, enquanto grande protagonista de seus textos, serve não para regionalizar as crônicas, mas antes as torna universais, pois todo leitor possui lugares que lhes são caros, o que gera identificação. No entanto, neste caso, isso pode ser mais forte ainda para o próprio fortalezense, que através das crônicas-poemas pode resgatar um pouco uma cidade que quase não existe mais, uma Fortaleza cuja transformação foi sendo aos poucos relatada e lamentada por Ciro, já que ela foi se afastando cada vez mais de sua experiência de infância, numa época em que as cadeiras eram postas na calçada e todos se conheciam pelo nome:

“Bem que a cidade pequena devia ter sido amarrada
na linha de minha pipa ou na fieira do meu pião,
só assim ela parava, que era para esperar a gente crescer
e entendê-la melhor,
mas todo mundo foi que parou
e a cidade embalou tomando a frente de todo mundo.”

O trabalho de Lucíola é uma bela homenagem não só a Ciro Colares como a Fortaleza e nos faz olhar diferente para a cidade, para que seja amada com todos os seus defeitos e encantos, vendo poesia na lama dos becos, nos calçamentos de pedra, ou nas avenidas de asfalto.

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