Cinema: 10 Questões

Como faz tempo que não falo sobre filmes aqui, vou aproveitar para responder duas correntes sobre Cinema que achei bacanas. Caso alguém queira respondê-las também em seu blog, fique à vontade!

Tag 5 perguntas (Cinema)*


1. Em qual filme você gostaria de morar?
Gostaria de morar em A Viagem de Chihiro, simplesmente porque é o mais lindo filme que eu já vi. Mas para escolher um que não seja animação, eu moraria em Matrix e aprenderia kung-fu em alguns segundos.


2. Qual personagem você gostaria de ser?
Adoraria ser Celine, de Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol. Linda, inteligente, divertida e aventureira.


3. Que filme você mudaria o final?
Vinhas da Ira. O final do livro é uma das coisas mais lindas da literatura; acaba sendo inevitável ficar frustrado com o final diferente, ainda que o filme seja muito bom.


4. Que filme gostaria de ter realizado?
Imagino que deve ter sido muito divertido fazer Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado. Mil vezes que eu assista esse filme, mil vezes eu morro de rir.


5. Que título de filme você acha fantástico?
Um Bonde Chamado Desejo (infelizmente no Brasil foi lançado como “Uma Rua chamada Pecado”).

Meu TOP 5 de Questões Aleatórias (Cinema)**


1. Terror, Suspense e Tortura
Não assisto a filmes de terror ou com cenas pesadas de pessoas sendo torturadas, me fazem muito mal. Também não suporto filmes com um assassino mascarado qualquer matando todo mundo sem motivo. Como sou muito ansiosa, qualquer filme com muito suspense já me deixa um pouco irritada, mas se for um bom filme, como os de Hitchcock, por exemplo, então fica tudo certo. Indicação: Um Corpo que Cai.


2. Filmes de Justiceiros
Qualquer pessoa que viva numa cidade violenta tem seus momentos de revolta com o crime e a impunidade, então não há como evitar a fantasia de um justiceiro: seja um cowboy num faroeste, seja um policial que foge à regra, como Dirty Harry, esses homens invencíveis nos dão a sensação de que pode haver alguma justiça ou mesmo vingança em situações extremas. O justiceiro é uma falsa ilusão de poder na vida real, mas uma ótima válvula de escape na ficção. Indicação: Os Imperdoáveis.


3. Irresistíveis
É mais forte que eu. Se estiver passando na televisão algum filme da minha infância e adolescência, eu tenho que assistir a pelo menos uma parte. Vi mil vezes: Fúria de Titãs, As 7 Faces do Dr. Lao, Simbad e o Olho do Tigre, As Novas Viagens de Simbad, quase todos os filmes de John Hughes e mil outros que todo mundo da época conhece. Indicação: Feitiço do Tempo.


4. Roteiro
A coisa que mais me chama a atenção num filme é o roteiro. E depois que eu li o Story, do Robert Mckee, virou quase uma mania observar a estrutura dos filmes que assisto. Uma boa direção e fotografia são uma delícia de ver, mas dificilmente são suficientes se o roteiro não for bom. Indicação: os roteiros de Bergman, de Kaufman, do Tarantino e do Arriaga.


5.Adaptações da Literatura para o Cinema
Ver uma adaptação pode ser uma faca de dois gumes porque é impossível competir com sua imaginação pessoal, mas ao mesmo tempo é muito divertido ver a interpretação de um diretor para algo que funcionou tão diferentemente na sua cabeça. Acho mais importante que o filme seja fiel ao espírito geral do livro: filmes extremamente fiéis aos detalhes do livro tendem a não acrescentar muito. Indicação: Drácula de Bram Stoker.

*A tag 5 perguntas foi elaborada originalmente sobre Literatura pela Juliana, de O Batom de Clarice. A versão cinema eu vi em um vídeo da Mercedes, do Meus Olhos Verdes.
**A tag Meu TOP 5 de Questões Aleatórias é uma tag do Conversa Cult que me foi proposta pela Michelle, do Resumo da Ópera. Originalmente a tag é para falar de tudo, mas eu adaptei para cinema porque não consegui me resolver nas respostas.

Dois romances curtos mexicanos

Festa no Covil – Juan Pablo Villalobos
Logo depois da minha leitura de O Apanhador no Campo de Centeio eu acabei coincidentemente lendo outro romance de formação com linguagem skaz, desta vez na voz de uma criança, o Tochtli, de Festa no Covil. Ele é um menino com idade indefinida, mas com ingenuidade evidente, pois percebemos que ele ainda não é capaz de entender muito bem o que observa em sua casa, ou melhor, em seu “palácio”. Filho de um chefe do narcotráfico, Tochtli não freqüenta a escola – tem um professor particular – e vive isolado do mundo, contando nos dedos as pessoas que conhece, que são os empregados da casa ou os parceiros de seu pai.

Para compensar sua solidão, o pai atende a todos os seus desejos de consumo, tornando Tochtli um tanto fetichista – ele atribui muito poder aos chapéus que usa, por exemplo – e elitista, pois para ele as coisas materiais são medidas apenas pelo seu valor qualitativo e nunca pelo seu valor afetivo. Mas essa compensação não resolve muito seu enorme tédio e o fato de ter que encarar a rotina de violência da casa, muitas vezes para demonstrar que é “macho” para seu pai e que a infância acabou.

O mais interessante no livro é observar como existem duas histórias sendo contadas: uma sob o olhar inocente de Tochtli, com sua maneira de interpretar o que vê; e outra revelada ao leitor, escondida naquilo que a inocência dele não pode perceber. Numa primeira leitura, quando o livro acabou, fiquei um pouco decepcionada com o romance pois esperava um pouco mais de carga dramática, mas como o livro é muito curto, resolvi ler novamente e foi bem melhor, especialmente porque reparei em detalhes de como o autor amarrou tudo de maneira tão criativa. Ainda assim, fiquei com a sensação de que faltou alguma coisa.

Pedro Páramo – Juan Rulfo
Ainda que seja curto, o romance Pedro Páramo é denso e poético, não dá para deixar passar uma só palavra em branco, sob pena do leitor se perder um pouco na prosa de Juan Rulfo – que se limita apenas ao essencial –, mas também porque se trata de uma bela escrita, que deve ser apreciada com calma.

O livro conta a história de Comala, mas em dois momentos diferentes: um de quando esta era uma cidade cheia de vida e outro de quando se apresenta como uma cidade morta, e a figura de Pedro Páramo, o maior dono de terras da região, está diretamente ligada ao destino desta cidade e seus habitantes. Afinal ele não só possui terras como possui pessoas: ele domina a Igreja, na figura do padre Rentería, e domina a lei, através de seu advogado Trujillo e da violência de seus capangas. Seu poder inicia ao herdar as terras do pai e ao casar com Dolores Preciado, pelo simples interesse em fugir das dívidas da família e assim ampliar seu império, a Media Luna. Dolores acaba abandonando-o, apenas para perceber depois que ela é que foi abandonada. Em revezamento com essa história, marcada por sinais naturais como a chuva, que nunca pára de cair, temos uma outra narrativa, esta agora assinalada pelo calor, o agouro dos pássaros e a decadência, em que Juan Preciado, o filho de Pedro e Dolores, volta a Comala para exigir de volta o que seria seu. Mas ele chega à cidade tarde demais, pois vai percebendo aos poucos que todos os habitantes que vai encontrando já morreram.

Este não é um livro fácil de descrever em poucas linhas porque todos seus inúmeros personagens têm densidade e importância para a história, como se fosse um romance russo que se passa no México (ou em qualquer lugar da América Latina). A relação morte e vida é complexa aqui porque a diferença entre quem está morto e quem está vivo é mínima e Comala é quase um retrato do Purgatório, um lugar que não está aqui nem lá, mas algo no meio do caminho, numa possível e bela alegoria à condição dos países latino-americanos.

O Apanhador no Campo de Centeio – J.D. Salinger

Houve um tempo em que sempre que ouvia o título deste livro eu imaginava um grande épico sobre alguma família no campo. Depois que descobri que era sobre alguns dias na vida de um adolescente em Nova York nos anos 50 fiquei curiosa para saber o que tinha a ver uma coisa com a outra, mas só recentemente achei que era a hora de lê-lo.

Holden Caulfield tem 16 anos e está internado em algum lugar para recuperar-se de um esgotamento nervoso. Ele é o narrador de sua história e conta o que se passou com ele para que chegasse a esse ponto, ao mesmo tempo que divaga e reflete sobre a vida, sua família e sua dificuldade de se relacionar com os outros. Como todo adolescente, mas em maior escala que a média, Caulfield é intolerante com qualquer característica que remeta ao mundo adulto. Não suporta hipocrisia e convenções sociais, e acha muito desagradável que o mundo seja cheio de “falsidade”, com as pessoas escondendo o que realmente sentem e pensam, bem como o que acham umas das outras, formando um jogo de fingimento que ele sabe ser necessário para a vida social, mas que ainda assim o incomoda muito.

Mas se por um lado ele busca sinceridade e verdade, ele mesmo não é sincero com os outros e consigo mesmo, e isso é apenas uma das características que o fazem contraditório o tempo todo: ele anseia por companhia e se sente muito sozinho, mas ao mesmo tempo sabota suas relações por não saber lidar com elas, e ao tentar se proteger da dor, se aliena e colhe uma solidão insuportável. Ele quer fugir da vida cotidiana padronizada em que todos seguem o mesmo curso, fazem as mesmas coisas e dizem as mesmas frases, mas no fundo ele tem muito medo da maturidade que está para chegar e só consegue admirar pessoas que ele julga simples ou puras, como as crianças, especialmente sua irmãzinha Phoebe.

O livro é repleto de simbolismos, sendo o mais óbvio o chapéu de caça vermelho que ele usa para fugir de sua realidade, uma marca de individualidade típica dos adolescentes para assinalar o não-pertencimento a uma sociedade que ele julga hipócrita. É um clássico romance de formação, mas como ele mesmo deixa claro no primeiro parágrafo, essa história não será contada como a de David Copperfield, nem no formato, porque se restringirá a apenas alguns dias de sua vida, nem no estilo, já que Salinger se utiliza do chamado skaz adolescente: uma narração que lembra muito mais a fala do que a escrita, semelhante ao que Mark Twain fez em As Aventuras de Hucleberry Finn (aliás, os dois livros são usualmente comparados, como se Caulfield fosse uma versão urbana e refinada de Huck).

Essa linguagem usada pelo autor, inclusive, aproxima muito o leitor do narrador, o que acaba reativando alguns questionamentos da adolescência, nos lembrando de que as coisas não são muito diferentes por termos uma idade ou outra, a mudança é apenas de perspectiva, de como encaramos a vida: não é difícil encontrarmos Caulfields de todas as idades, que em vez de enfrentarem seus medos e desafios, encontram desculpas, como a falta de disposição. Não é difícil qualquer um de nós escolher agir assim em um momento ou outro como forma de nos protegermos de algo que não queremos encarar e é esse é apenas um dos motivos pelos quais O Apanhador no Campo de Centeio não é um livro juvenil, ainda que deva ser uma leitura incrível para quem estiver nessa fase.

Duas aventuras de H.R. Haggard

Quando criança, fantasia associada a aventura e descoberta de civilizações perdidas formavam para mim uma equação irresistível, coisa que deve ter começado através das caças ao tesouro protagonizadas pelo Tio Patinhas e os filmes da tarde com as sagas de Simbad ou Indiana Jones. Numa destas sessões assisti a uma das versões de Ela e fiquei muito intrigada com a história, especialmente o final. Recentemente lembrei do filme e descobri que é uma adaptação de um best-seller de H. Rider Haggard, o mesmo autor do famoso As Minas do Rei Salomão e que, com suas obras, iniciou o subgênero lost-world nos livros de fantasia.

Apesar de ser um dos livros mais vendidos de todos os tempos, dificilmente ouço falar de alguém que tenha lido Ela ou mesmo conheça sua história. O narrador é Holly, um professor de Cambridge que juntamente com seu filho adotivo Leo e seu criado Job seguem em uma perigosa aventura na África a fim de entender a herança histórica da família de Leo. Lá eles descobrem uma civilização escondida, comandada por Ayesha, uma belíssima mulher que vive há dois mil anos. Se por um lado a história é curiosa e influenciou inúmeros escritores mais tarde, como Rudyard Kipling e J.R.R. Tolkien, por outro é incômodo para o leitor de hoje perceber de maneira tão escancarada alguns valores racistas e machistas dos vitorianos. Apesar de Ayesha ser uma mulher com extremo poder – é absurdamente bonita e sábia e possui poderes sobrenaturais e grande capacidade de comando – sua soberania não é vista com bons olhos, mas como algo perigoso à humanidade, e infelizmente sua devoção romântica a Leo por vezes acaba ajudando a diminuir a força da personagem.

As Minas do Rei Salomão também conta uma aventura na África e é narrada pelo caçador Allan Quatermain, que possui um mapa para as incríveis e secretas minas do rei bíblico. Com a companhia de Sir Henry Curtis, o Capitão Good e o nativo Umbopa, os personagens farão uma longa jornada através de um deserto africano, cada um com seu motivo e missões pessoais. Os tipos de situação que eles enfrentam são semelhantes aos que vemos em filmes com o personagem Indiana Jones (que parece ter sua origem em Quatermain), com direito a batalhas contra um rei africano sanguinário, trapaças de uma feiticeira maligna e cavernas com mecanismos secretos. Assim como em Ela, Haggard traz um narrador um tanto contraditório, que se divide entre mostrar os africanos como bárbaros e ao mesmo tempo, em algumas situações, considerá-los como mais cavalheiros que certos europeus. É fácil encontrar sua edição traduzida por Eça de Queiroz.

A escrita de Haggard não oferece muitos atrativos, mas não há como negar que ele foi muito criativo em suas histórias, aproveitando sua experiência na África para pormenorizar suas descrições. Tendo influenciado tantos livros e filmes que vieram depois, estas obras não causam muito impacto nos dias atuais e são previsíveis e ultrapassadas – as situações repetitivas e os monólogos cansativos dos narradores também não ajudam. Ainda assim, guardarei a cena final de Ela com carinho nas minhas lembranças de infância.