Dom Quixote – Miguel de Cervantes

03_quixote_interlúnioUma surpresa que tive ao iniciar a leitura de Dom Quixote foi que se trata na verdade de 2 livros, de uma série não planejada pelo espanhol Miguel de Cervantes. O primeiro foi publicado em 1605, com o título de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha e o segundo, apenas em 1615, chamando-se Segunda parte do engenhoso cavaleiro Dom Quixote de la Mancha. São livros um pouco diferentes no estilo, mas ambos com um caráter  de experimentação de um novo gênero, um embrião do que ia ser chamado mais tarde de romance.

No primeiro o autor agiu com mais liberdade. É possível encontrar erros de continuidade (não se sabe se propositais), a escrita é solta e cheia de humor, os personagens e as situações referenciam as novelas de cavalaria o tempo todo e histórias paralelas são contadas ou presenciadas ao longo de todo o livro, dando um clima de histórias dentro de histórias. Neste os personagens vivem praticamente na estrada, buscando as aventuras conforme vão cavalgando, e as pessoas que vão encontrando no meio do caminho tomam mais tempo de narrativa que os próprios protagonistas.

Já no segundo Cervantes parece ter se preocupado mais com a forma, a estrutura narrativa é mais bem amarrada e o humor continua, talvez um pouco menos sutil. Aqui os heróis têm mais destaque, especialmente Sancho Pança, e ficam em grande parte sob o teto de alguém hospitaleiro, longe dos perigos das estradas, mas mais perto de troças maldosas. As aventuras, em vez de surgirem do acaso, geralmente aparecem como farsa.

02_quixote_interlúnioIsso acontece porque o segundo livro é uma espécie de Dom Quixote do primeiro, isto é, assim como o primeiro livro faz referência às novelas de cavalaria, o segundo livro faz referência ao primeiro livro de Dom Quixote. Numa intrincada rede metaficcional, os personagens do segundo são leitores do primeiro e quando se deparam com as figuras de Dom Quixote e Sancho Pança, muitos querem se aproveitar deles para que vivam as mais disparatadas situações, o que deixa grande parte do livro como um palco onde os heróis são meras marionetes.

Além disso, o narrador dos livros é um caso à parte, pois ele conta a história através de uma tradução da obra de um certo autor chamado Benengeli, e em alguns momentos têm-se até a opinião do tradutor adentrando a narrativa, causando a sensação de que se trata de uma história que poderia ter várias versões, mas que esta foi a que calhou de estar ali. Por toda a obra temos referência ao próprio ato de narrar a história, nos lembrando sempre seu caráter ficcional.

Dom Quixote é uma pessoa dos livros. Mais do que isso, ele quer, como aquela imagem que temos dos desenhos animados infantis, entrar no livros e se tornar personagem deles. Para isso ele decide viver o que deseja. Como uma criança que vê o que quer ver e brinca com a imaginação que possui, o fidalgo torna-se cavaleiro andante. Com a melhor das boas intenções Quixote quer retomar valores perdidos, grandes significados que não existem mais, e obviamente é tido como louco. Ainda assim dá para vê-lo também como aquele que inventa a si mesmo, que busca ser o que quer ser, mesmo que tudo não passe de ficção.

Sancho Pança, por outro lado, tem os pés bem calcados no chão e sua pobreza lhe suscita a busca por comida, conforto e dinheiro. Ora interesseiro, ora amigo, Sancho é sempre um alívio à melancolia de Quixote, com seus inúmeros provérbios e sabedoria popular que garantem os risos do leitor.

Dom Quixote é uma obra sobre inventar histórias, sobre encenação da realidade, sobre um leitor que quer viver o que seus personagens queridos viveram e com isso tornar-se autor de si mesmo enquanto personagem. Quixote é como se fosse um escritor que, em vez de escrever um livro, vive-o constantemente e que nos faz pensar no que nossa realidade tem de autêntico e de farsa, já que grande parte da vida pode ser vivida seguindo ilusões que tomamos como verdade.

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A Guerra dos Mundos – H. G. Wells

interlunio31-guerraÉ impressionante ler este livro do britânico H. G. Wells, lançado em 1898, e constatar como ele serve de base, direta ou indiretamente, para histórias de catástrofes, mundos pós-apocalípticos e invasões alienígenas até hoje.

A Guerra dos Mundos é uma grande especulação de como seria se seres vivos de outro planeta, superiores aos terráqueos em inteligência e tecnologia, pudessem nos observar e nos invadir, com o intuito de tomar nosso mundo.

Neste caso o planeta seria Marte, que aqui estaria envelhecendo e obrigando seus habitantes a procurar um novo lar. A Terra seria um bom substituto para os marcianos e eles iniciam uma invasão de início tímida, e em seguida, destruidora.

O narrador constrói uma grande tensão, anunciando as tragédias que se seguirão à chegada dos marcianos ao mesmo tempo que nos relata cada momento por que passa, entre medo, pavor e especulações científicas e filosóficas. A história é contada do ponto de vista dele, no interior da Inglaterra, e do ponto de vista do seu irmão, em Londres.

A grande reflexão da obra é sobre o abuso de poder de seres dominantes: Wells faz o leitor pensar sobre a maneira como tratamos os outros animais e até mesmo nossos semelhantes sobre os quais temos domínio. Que argumento relativo à sobrevivência nós teríamos se houvesse uma espécie mais desenvolvida intelectualmente que a nossa, e com mais recursos tecnológicos? Como nos sentiríamos se passássemos a ser alimento para uma espécie superior? Diante dos marcianos os humanos são, durante todo o livro, sempre comparados a pequenos animais – insetos, coelhos, ratos –, facilmente controlados.

“Naquele momento senti uma emoção incomum à experiência humana, mas que as pobres criaturas que dominamos conhecem muito bem. Senti-me como um coelho que, ao voltar para sua toca, encontra uma dúzia de operários cavando os alicerces de uma casa. Percebi a primeira insinuação de algo que logo se tornou claro em minha mente, e que me oprimiu durante muitos dias – uma sensação de destronamento, a convicção de que já não era o mestre, mas um animal entre outros, sob o tacão dos marcianos. Daí em diante, como os animais, nós espreitaríamos, fugiríamos, buscaríamos esconderijos. O terrível império humano caíra.”

O narrador fica a maior parte do tempo sozinho e interage de verdade apenas com dois personagens-ideias: um padre e um artilheiro. O primeiro é o típico homem contraditório ao seus princípios, cheio de medo e desesperança. O segundo revela-se um homem prático e frio, aquele que se adequaria ao novo mundo, ainda que com uma moral duvidosa. Eles servem de contraponto ao narrador, aquele que tenta encontrar um equilíbrio diante de tanta tragédia, que busca tão somente a sobrevivência e o encontro com os seus.

A narrativa tem um ritmo tenso de ação na maior parte do tempo, o que a deixa um tanto cansativa. O autor traz poucos diálogos e momentos mais reflexivos, deixando-os mais para o final do livro. Comparando com outros livros do autor, como A Máquina do Tempo e A Ilha do Dr. Moreau, as especulações e reflexões não foram tão desenvolvidas, e o ritmo de fuga do narrador, correndo para lá e para cá, bem que justifica a escolha de Tom Cruise – conhecido por estar sempre correndo nos filmes – em seu papel na adaptação cinematográfica mais atual da obra. Ainda assim trata-se de uma boa leitura, que impressiona pela grande imaginação de Wells, sua criação de referências e sua preocupação com os grandes desafios da humanidade moderna.

“Todo nosso trabalho desfeito, todo o trabalho… O que são esses marcianos?
– O que somos nós? – respondi, limpando a garganta.”

Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

interlunio03dallowayPublicado em 1925, Mrs. Dalloway é um curto romance que descreve um dia na vida de seus personagens, na cidade de Londres, em algum mês de junho após a Primeira Guerra. Apesar de se passar em apenas um dia, o leitor tem a nítida visão da vida inteira destes personagens, pois ele acompanha suas ponderações mais íntimas, suas questões mais profundas. Com muito poucos diálogos e bastante uso do chamado fluxo de consciência, temos a impressão de que os personagens estão isolados, pois a interação se dá muito mais por lembranças e assim o mundo interior prevalece.

Clarissa Dalloway é uma mulher casada, de meia idade, que está organizando uma festa. Apesar de sua privilegiada situação financeira, ela tem a característica de procurar resolver seus próprios pequenos problemas. A frase inicial do romance, “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores” já dá uma pista tanto de sua preocupação em tomar para si os problemas, como também da busca por viver a vida de forma direta: ela quer ter o poder de ser responsável pela beleza de sua festa.

O início do livro descreve a vida nas ruas, a alegria de um dia que começa, os barulhos e os cheiros da cidade, as pessoas apressadas que passam, o fluxo da vida moderna do começo do século XX. Como um poema de Álvaro de Campos, podemos escutar o barulho dos carros e o roçar de pessoas se movimentando entre si. Os cortes sutis – ou a falta deles –, lembram os planos-sequência do cinema: a narrativa sai do mundo interior de um personagem e passa a de outro quase sem o leitor perceber, dando a impressão de que tudo parece conectado, um personagem afetando o outro, mesmo que alguns nem se conheçam. Temos então tanto esse ruído das ruas, com pessoas anônimas envoltas em suas questões, quanto o ruído interno dos pensamentos de Clarissa e dos demais personagens.

“Elas amam a vida. Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a vida; Londres; esse momento de junho.”

O passeio de Clarissa pelas ruas de Londres apresenta todos os personagens principais e tudo que representam pra ela: seu marido Richard, sua filha Elizabeth, a professora de Elizabeth, Doris Kilman, seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton, e finalmente Septimus e Lucrezia, que não a conhecem mas compartilham com ela uma cena na rua. As flores e a bela manhã em Londres a fazem lembrar de sua juventude e não apenas suas lembranças como propriamente duas figuras da época surgem, e que aparecem sem serem necessariamente convidadas para a festa, levando-a ao passado: seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton.

Esse retorno, os preparativos para a festa, o confronto com a idade em que a vida já se resolveu e não há mais novos projetos, a aparente futilidade da vida privilegiada, tudo deixa Clarissa ansiosa pois ela não consegue justificar seu cotidiano. No entanto ela se revela apenas alguém que quer celebrar a vida e acima de tudo fugir da morte e da solidão, e não ver a velha vizinha na janela como um espelho de seu futuro.

“‘É por isso que dou essas festas’, disse, em voz alta, à vida.”

Do outro lado da moeda temos Septimus, que é um homem que lutou na Primeira Guerra e sofre com ataques de pânico, manifestando também algum tipo de problema mental. Essa dualidade entre Clarissa, que ama e procura celebrar a vida, e Septimus, que perdeu a perspectiva de sentido e não vê mais graça na existência, trespassa toda a narrativa, mas eles encontram pontos em comum, pois acreditam que a vida tem uma medida e é com ela que se conclui quem é que cabe ou não nela. A vida vale a pena? Segundo eles, a vida por si só não basta, ela só vale a pena em certos termos.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

O jogo da amarelinha – Julio Cortázar

39_amarelinhaSerá possível ler um livro como O jogo da amarelinha sem se deixar contaminar pelo peso de um clássico que revolucionou o gênero do romance? Depois de mais de 50 anos de sua publicação talvez seja possível, pelo menos, tentar fazer uma leitura mais distante e menos preocupada, mas me pergunto se é possível apreciar profundamente o livro sem ter o mínimo de interesse pelo estudo dos aspectos formais da Literatura. Pois aqui não basta a história que é contada: importa ainda mais como ela é disposta e como o leitor preenche suas lacunas. E essa é a dificuldade do romance – ou do antirromance, como pode ser considerado – pois o leitor é praticamente chamado para ser escritor também. O leitor aqui é “um cúmplice, um companheiro de viagem”. Como em um sonho, onde há histórias embaçadas e símbolos que devem ser interpretados, o livro é um jogo a ser explorado:

“Uma narrativa que atue como coagulante de vivências, como catalisadora de noções confusas e mal-entendidas, e que incida em primeiro lugar sobre aquele que está escrevendo, para o que é preciso escrevê-la como antirromance.”

Um livro que pode ser lido segundo várias direções e que, portanto, quebra com a ideia de enredo, realmente pode ser considerado um antirromance, no entanto, Cortázar propõe dois caminhos e em ambos podemos ver uma trama formada, encerrada nos 56 primeiros capítulos, os únicos lidos na ordem. A história de Horacio Oliveira, um homem em seus quarenta anos, argentino vivendo em Paris, tentando encontrar ou tentando fugir de algum sentido para a vida através de suas reflexões e interações com os amigos e amantes. Ele faz parte do Clube da Serpente, um grupo formado por artistas e intelectuais que se reúnem para as mais variadas discussões ao som de jazz. Entre eles está Maga, sua namorada, uma mulher sábia e misteriosa, mas vista como tola pelo grupo.

Como seu protagonista, o livro não oferece muita ação. Principalmente na primeira parte, “Do lado de lá”, os personagens geralmente estão dormindo, sonhando, estão deitados ou fazendo sexo, ouvindo música, fumando ou bebendo, andando a esmo; são pessoas em seus momentos mais mentais que físicos. Já na segunda parte, “Do lado de cá”, temos um pouco mais de ação através de tudo que envolve os personagens Traveler e Talita, mas no geral a narrativa é mais interna. Os capítulos restantes, do 57 ao 155, que compõem a terceira parte, “De outros lados”, e que segundo o próprio autor são prescindíveis, são completamente diferentes entre si, como se fossem páginas e notas excedentes que poderiam ter ido para a gaveta, mas que foram anexadas ao romance. Isso não quer dizer que estes capítulos sejam realmente uma espécie de apêndice, pois sem eles o livro não seria o que é. Afinal é através destes capítulos que Cortázar faz suas experimentações.

É nessa parte do livro que o leitor vai encontrar os mais variados textos: capítulos extras, que podem explicar ou desenvolver melhor histórias do livro principal, anúncios de jornais, citações de livros, experimentações de linguagem… mas sobretudo reflexões sobre a própria obra, através da figura de Morelli, um escritor admirado pelo Clube e que se propõe a escrever um antirromance. Durante a leitura vamos entrando em contato com suas teorias e como ele defende uma literatura que seja escrita para um leitor superior, aquele que seja capaz de fazer companhia ao autor na construção da obra mesma. Uma obra que seja figurativa e não descritiva, objetiva – não à toa há muitas discussões sobre Pintura versus Literatura –, uma obra que se aproxime mais da imagem e do som (da Música) e se afaste da descrição literária, algo que os beatniks americanos já haviam tentado de outra forma:

“Morelli parece muito mais radical e mais jovem nas suas experiências espirituais que os jovens californianos, embriagados por palavras em sânscrito e cervejas em lata”.

É também nessa parte que se desenvolvem questões metafísicas encontradas ao longo da história de Oliveira e que justificam a maneira particular escolhida pelo autor para escrever seu romance e desenhar seu protagonista. Se não sabemos o que é real e se não sabemos se a nossa percepção do real não é uma ilusão, a imaginação e o surrealismo então têm todo o direito de tomar conta da vida e da arte. Não adianta buscar um mundo perfeito porque o perfeito não dura, pois somos seres históricos. A verdade só pode residir na ficção, na cultura, na arte, na invenção:

“A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, todas as turas deste mundo.”

Toda essa problemática é legítima, válida e por vezes, instigante, contudo a vida que Oliveira leva a torna vazia e improdutiva. Como a própria Maga explicita, ele apenas observa a vida e não a vive, e uma vida apenas observada, não vivida, fala muito pouco ao outro.

Por essa e outras foi uma leitura que me deixou dividida. Por um lado consegui ver a genialidade e a proposta da obra, emocionei-me com belos capítulos e me empolguei em vários momentos, sobretudo na primeira metade da experiência. Porém por outro me revoltei com o elitismo, a arrogância do livro que é escrito para poucos escolhidos, algumas “brincadeiras” literárias que não acrescentam muito, o excesso de recursos aparentemente aleatórios. Talvez uma releitura fosse mais prazerosa, pois é daqueles livros em que seu estudo pode ser mais divertido que a própria leitura, mas ainda assim eu provavelmente continuaria a me incomodar com essa ideia de que para ser profundo um personagem tem que ser tão passivo e esvaziado. Uma grande experiência de leitura, sem dúvida, mas que deixou-me com um certo fastio desse longo e estridente improviso de clarinete tocado por Cortázar.

*Esta leitura participa da discussão do Leituras Compartilhadas, do blog O Espanador, bem como é o livro do mês de agosto do Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

A letra escarlate – Nathaniel Hawthorne

26_letraNa cidade de Salém, nos Estados Unidos do século XVII, Hester Prynne é uma mulher que comete adultério e é condenada a usar uma letra A escarlate bordada no peito, como uma marca perpétua de seu pecado perante a comunidade puritana. Quem seria seu marido, supostamente desaparecido, e quem seria seu amante ela não revela, mas cedo na história os conhecemos como Roger Chillingworth e Arthur Dimmesdale. Chillingworth é médico e se aproveita disso para se aproximar do pastor Dimmesdale, que sofre de alguma doença séria. Os dois iniciam uma amizade que vai se tornando, aos poucos, um meio de vingança.

Marginalizada pelo povo e com uma filha ilegítima para criar, Hester passa a morar em um chalé abandonado nos limites da cidade. Em um local no qual os cidadãos são rígidos em seus preceitos religiosos e a floresta é palco para rituais malignos, ela escolhe viver justamente nesta linha intermediária, como alguém que não encontra mais lugar no mundo. A filha Pearl lhe serve tanto de bênção como de maldição, já que ela não consegue compreender as atitudes selvagens de uma criança criada em isolamento e completa solidão.

A letra escarlate pode ser vista como uma história sem história, ou melhor, uma narrativa que constrói uma tensão principal e se concentra em desenvolver personagens, de forma que mesmo avançando na leitura podemos ter a sensação de que nada está acontecendo. Em alguns momentos podemos pensar que estamos lendo um romance histórico, em outros podemos ver elementos de um conto de fadas. O mundo particular de Hester e Pearl está tão à parte de tudo e todos, que filha e mãe acabam sendo vistas como entidades de outra dimensão: Hester vai assumindo ironicamente um posto quase de santa e Pearl é constantemente chamada de fada pelo narrador e vários elementos simbólicos perpassam a narrativa, dando a ela esse tom “encantado”.

Um exemplo disso é quando Hester veste Pearl com as mesmas cores da letra, escarlate e dourado, e constatamos que a menina é a verdadeira letra, o símbolo real do pecado de Hester, o que poderia até dispensar o bordado de sua roupa. Ela também pode ser vista como um reflexo da mãe. Os constantes questionamentos de Pearl – por que seu pai não as assume? – podem ser interpretados como questionamentos íntimos de Hester, que ela não tem coragem de fazer; podemos ver Pearl como uma faceta sua que ela não quer ter que lidar, chegando ao ponto de descrever sua filha como um ser assustador, talvez por achar que está a se olhar em um espelho. Mas no fundo ambas são representações da natureza, selvagens e ao mesmo tempo à frente do seu tempo.

O pecado é o tema que se sobressai e, curiosamente, Hester aceita sua punição mesmo sabendo que ela não faz sentido, talvez porque saiba que não há como fugir do momento histórico em que vive. Como é marginalizada, ela tem uma vantagem sobre as outras mulheres: ela pensa sobre a situação delas e percebe que há algo de injusto sobre isso:

“…com relação a todas as mulheres. Valia a pena aceitar a existência como era, mesmo para a mais feliz delas? (…) Como primeiro passo, teria de pôr abaixo todo o sistema social e reconstruí-lo do zero. Depois, a própria natureza do sexo oposto ou um longo hábito hereditário tornado como que sua natureza precisaria ser essencialmente mudada para que a mulher pudesse assumir o que parece ser uma posição mais justa e conveniente.”

Hawthorne se sai bem ao demonstrar o caráter de cada personagem, seus objetivos e dramas pessoais. No entanto, como só temos acesso a eles de uma maneira externa, como se o narrador fosse uma câmera registrando o que se passa, é um pouco difícil nos relacionarmos com estes personagens. Some-se a isso o fato do enredo em si ser curto – daria um conto – e temos um livro enfadonho, repleto de cenas de desenvolvimento dos personagens, com muito poucos momentos mais emocionantes.

Apesar disso, é interessante perceber como o autor transforma os próprios símbolos que cria, como o meteoro que surge nos céus, interpretado de inúmeras maneiras, ou mesmo a letra escarlate, que passa a significar outra coisa com o tempo, com as virtudes de Hester voltadas à comunidade, confirmando que não é o símbolo em si que determina o significado, mas um novo significado pode passar a determinar o símbolo. Infelizmente o enredo não tem força suficiente para sustentar um leitor que gosta de se envolver com a leitura e o romance acaba atraindo mais por esses aspectos formais. Seu mérito, então, parece estar mais relacionado aos simbolismos, a uma breve discussão feminista e ao clima sombrio construído – aproximando-se de um conto de fadas moderno – do que mesmo por uma história cativante.

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Esta leitura participa da discussão do Fórum Entre Pontos e Vírgulas de maio de 2014.

O Amante – Marguerite Duras

25_amanteA primeira coisa que compreendi quando comecei a ler O Amante, da francesa Marguerite Duras, é que não era simplesmente um relato sobre sua iniciação sexual aos 15 anos, como muitas vezes as sinopses nos contam. A bem da verdade, o caráter erótico da narrativa me pareceu ficar em segundo plano, diante das tragédias familiares da narradora, e o sexo aparece não apenas como elemento de prazer, mas também como um mecanismo de libertação da dor e da pobreza.

É bastante simbólico que o encontro entre essa menina de 15 anos e aquele que irá tornar-se seu amante – um rico chinês de 27 anos – se dê na travessia de um rio, o rio Mekong, na então Saigon do começo do século XX. A balsa a levará a outra margem, sua existência de criança ficará para trás e através dessa relação, que envolve também dinheiro, ela irá conquistar poder perante a mãe e os dois irmãos. Tudo sempre se volta para a mãe e os irmãos, especialmente a mãe, de quem a narradora fala com revolta, raiva, frustração, ciúme: ela demonstra como é possível odiar as pessoas que mais amamos e como isso nos deixa confusos e culpados. Mas ela irá experimentar o poder também sobre esse homem, que a ama desde o primeiro momento, e sua relação com ele é sofrida e desesperada porque não há possibilidade de futuro: cada encontro é intenso porque é uma despedida.

A imagem da menina na balsa, com seu vestido aproveitado da mãe, seus sapatos de lamê e um chapéu masculino, encontrando um homem rico numa limusine preta, é a imagem a que a narradora volta sempre, de forma que nada nessa história é contado linearmente: é como se ela apontasse detalhes de uma fotografia a cada momento que a vê, e em cada um deles uma nova lembrança surgisse. É um jogo com o tempo das memórias, que dá a sensação de alguém muito velho indo e voltando em seu relato, onde as memórias aparecem como elas se desenvolvem no pensamento, e não cronologicamente, e no fundo elas não passam de um quebra-cabeças desmontado, em que cada peça vai surgindo para que o leitor sinta as emoções no devido tempo. Os verbos no presente, em boa parte do livro, lhe dão um tom onírico, sugestivo e vago, e em algumas passagens podemos nos perguntar se é possível confiar nessas lembranças, mas isso é o que menos importa, pois o mais importante passou pela peneira fina da escritora e as imagens que ela constrói são pequenos relicários que guardam o essencial.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Tom Jones – Henry Fielding

21_tomjonesEncerrando um pequeno projeto de ler os principais romances ingleses setecentistas tratados por Ian Watt em seu livro A Ascensão do Romance, finalmente terminei a leitura de Tom Jones, de Henry Fielding, publicado em 1749: a história de um rapaz abandonado pela mãe quando bebê e criado por um bondoso fidalgo.

Jones é apaixonado pela bela e rica Sofia, mas devido a sua origem moralmente inaceitável, sofre por saber que não pode casar-se com ela, ainda que ela também o ame. Muito atraente às mulheres e agradável com todos, Jones desperta a inveja de Blifil, sobrinho do fidalgo Allworthy, que os cria como irmãos. E por uma série de artimanhas de Blifil, Jones acaba sendo expulso de casa e tendo que seguir seu caminho sozinho: em grande parte do livro temos então uma história de estrada, onde a cada paragem há uma aventura de Tom Jones com novos personagens.

Apesar de constituir uma espécie de herói perdido em busca de seu lugar na vida, de saber quem é seu pai e de encontrar uma maneira de ficar com Sofia, Jones traz muitas características de um malandro sedutor, envolvendo-se com outras mulheres e até se aproveitando de algumas situações com elas para sobreviver. Mas o seu lado proeminente é o de apaziguador, apagando incêndios, resolvendo desavenças, salvando mulheres de vilões, enfim, resolvendo questões alheias e deixando amizades por onde passa.

Considerado por alguns estudiosos como um dos primeiros romances, Tom Jones também pode ser visto como uma espécie de novela picaresca, em que vários episódios ocorrem com esse herói um tanto anti-herói, sem que haja grandes mudanças ou desenvolvimento dos personagens: o entretenimento, o humor satírico, a ação e seus propósitos moralizantes (não necessariamente moralistas) se sobressaem. O gênero do livro pode ser, portanto, difícil de definir, já que Fielding queria inaugurar novas regras de como contar uma história. Não à toa ele interrompe a narrativa o tempo inteiro para demarcar suas regras:

“Como sou, em realidade, o fundador de uma nova província do escrever, posso ditar-lhe livremente as leis que me aprouverem.”

Essa conversa constante com o leitor, não só para delimitar sua técnica, como para divagar acerca dos acontecimentos do livro, e também para discutir assuntos aleatórios, fazendo referências literárias e filosóficas adornadas com citações em latim, pode ser algo bem incômodo, especialmente em um calhamaço de mais de 800 páginas. Contudo, os capítulos são curtos, com títulos que antecipam o que vai acontecer, e o leitor é aquele a quem o autor dá sempre uma piscadela de olhos, um cúmplice a rir de vários personagens secundários, com suas conjecturas absurdas ou equivocadas. No geral é um clássico simples e divertido de ler, principalmente por conter muita ação e por abusar de ironia e sarcasmo com a sociedade de seu tempo.

Coração das Trevas – Joseph Conrad

32_trevasSe Coração das Trevas fosse um filme ou uma fotografia, ele provavelmente seria em preto e branco, com todas as suas imagens cheias de luzes e sombras. Curiosamente, no entanto, o livro inicia com uma descrição muito bonita de um final de tarde colorido no rio Tâmisa, narrado por alguém a bordo de um iole, embora quem realmente vá contar essa história seja o personagem Charlie Marlow, posto na popa da embarcação com uma simbólica posição de “ídolo”. Ao lembrar a todos que a Inglaterra já fora um lugar selvagem dominado pelos romanos, Marlow ironiza a colonização inglesa na África e resolve contar sobre sua experiência como capitão de um barco a vapor.

Com um fascínio antigo pelo continente, Marlow vai em busca de ser contratado por uma companhia que realizava comércio através do rio Congo. O que antes ele considerava como um espaço em branco no mapa já se tornara “um lugar escuro, tomado pelas trevas”, e esse sinistro resultado da colonização era algo que ele queria ver de perto. Sua missão era resgatar o notável Sr. Kurtz de um posto de troca localizado nas profundezas da selva africana, um homem que adiciona mais mistério ainda em sua aventura.

A primeira metade do livro tem uma atmosfera que julguei muito semelhante à de A Ilha do Dr. Moreau: o mistério, a antecipação que envolve a figura de Kurtz deixa o personagem Marlow tão curioso e assombrado quanto o narrador do livro de Wells com o que vê na ilha. A diferença é que Marlow parece querer adentrar o mistério porque se identifica com Kurtz; quer entendê-lo, pois tem consciência de que qualquer ser humano pode se perder no coração das trevas, afinal todos os civilizados têm uma porção selvagem adormecida. Olhar o homem primitivo como algo diferente de si é negar sua própria constituição humana:

“Você, se for homem bastante, reconhece intimamente no fundo de si […] uma suspeita vaga de que haja ali um significado que você – você, tão distante da noite das primeiras eras – talvez seja capaz de compreender. E por que não? O espírito do homem tudo pode – porque tudo está contido nele, tanto a totalidade do passado como o futuro inteiro.”

Essa atmosfera de segredos, sombras na selva, dominação e violência a favor do progresso que o livro de Wells também traz, é mostrada por Conrad, poucos anos depois, sob uma forma mais realista, segundo Braulio Tavares em seu prefácio para A Ilha do Dr. Moreau. Ele aponta essa semelhança com Coração das Trevas, demonstrando que a selvageria dos colonizadores europeus, em vez de demonstrar sua suposta superioridade, coloca todos no mesmo patamar:

“O coração das trevas é uma versão realista da alegoria mostrada em A Ilha do Dr. Moreau. O choque entre civilizados e primitivos, em vez de civilizar estes últimos (em vez de transformar ‘animais’ em ‘homens’), gera um atrito espantosamente cruel que acaba por animalizar a todos. É da natureza do colonialismo usar por um lado um discurso missionário e civilizatório (‘estamos aqui para transformá-los em criaturas superiores, iguais a nós’) e por outro uma prática que acaba por desumanizar os próprios civilizados.”

Ao questionar o processo de colonização, portanto, Conrad faz perguntas cada vez mais profundas sobre a própria natureza humana, ou seja, sobre o que nos faz humanos. Será que a domesticação do homem civilizado apagaria seus instintos mais primitivos? O que acontece a um homem que retorna à selva, que penetra num mundo longe da moralidade e a ele é permitido ser selvagem novamente?

“Vocês não conseguem entender? E como poderiam – com um calçamento de pedra debaixo de seus pés, cercados por vizinhos prontos a acudi-los ou lhes pedir algum favor […] – como podem vocês imaginar a qual região particular das eras primevas os pés desimpedidos de um homem podem levá-lo quando ele se depara com a solidão.”

As belas descrições de Conrad e seus efeitos de luz e escuridão, tanto na paisagem como em todas as oposições feitas no livro, garantem uma leitura muito rica, mesmo em um livro tão curto, pois o autor deixa vários elementos da narrativa implícitos. É como se o autor pintasse um quadro cheio de detalhes sugestivos e deixasse ao leitor a tarefa de observá-los com cuidado, imaginando o que haveria por trás da floresta fechada e do coração dos homens.

Laranja Mecânica – Anthony Burgess [Fórum Entre Pontos e Vírgulas Fev/2013]

09_laranja01Este texto participa do Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas, que tem como leitura do mês o livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. Como é voltado para pessoas que leram o livro, contém revelações sobre o enredo.

Todos nós somos seres orgânicos que agem através de escolhas morais, mas nos tornamos máquinas quando somos condicionados, nos tornamos algo como uma laranja mecânica. Essa é a grande proposição do livro de Burgess, que defende o livre-arbítrio como uma condição essencial do ser humano.

E ele faz isso nos contando a história de Alex, um adolescente viciado em violência e música clássica, odioso e carismático ao mesmo tempo, que com sua gangue de druguis sai à noite para praticar todos os tipos de violência extrema, mas não sem antes tomar seu leite batizado com drogas. O grupo tem uma linguagem própria, o nadsat, e durante a leitura vamos nos familiarizando com esse vocabulário – muito embora às vezes o glossário no final do livro ajude em alguns termos.

Na primeira parte da obra somos testemunhas de alguns terríveis atos do grupo, até o ponto em que Alex é preso por assassinar uma senhora. É só então na segunda parte que começa a primeira fase de punição: sua vida na prisão. Sua amizade com o capelão do local traz valiosas discussões sobre o livre-arbítrio ao conversarem sobre a possibilidade de Alex ser usado numa técnica de reabilitação, a técnica Ludovico, que o impediria de praticar o mal novamente e garantiria sua liberdade. O capelão argumenta que o processo o impediria de tomar decisões morais e que, portanto o deixaria sem alma:

“A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade vem de dentro, 6655321. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.”

“Pode não ser bom ser bom, pequeno 6655321. Ser bom pode ser horrível. E quando digo isso a você, percebo o quão auto-contraditório isso soa. Eu sei que perderei muitas noites de sono por causa disso. O que Deus quer? Será que Deus quer bondade ou a escolha da bondade? Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor do que um homem que teve o bem imposto a si?”

Segundo ele, e é essa a defesa do autor, o mal existe em todos nós. O que nos define como uma pessoa boa ou má é a escolha ética que fazemos: escolhemos não praticar o mal, mas isso não quer dizer que somos bons. Ser impedido de fazer o mal também impede Alex de fazer o bem, pois anula o livre-arbítrio. O bem tem que ser uma escolha, e não um condicionamento que deixa o indivíduo programado para não cometer crimes:

“Ele será seu verdadeiro cristão – krikava o Dr. Brodsky –, pronto para dar a outra face, pronto para ser crucificado ao invés de crucificar, doente até a alma só de pensar em sequer matar uma mosca.”

A técnica usada em Alex, portanto, não teria a intenção primeira de torná-lo um sujeito bom, mas tão somente um sujeito controlado. Seria apenas uma manobra política, uma punição mais barata e eficiente que sustentá-lo na prisão, garantindo segurança à sociedade. Alex aceita participar da experiência porque no fundo ele não acredita que vai deixar de ser quem é e também porque está mais interessado em sua liberdade, mas no momento em que percebe que todas as coisas que lhe davam prazer não podem mais se realizar, descobre que se tornou um mecanismo, que perdeu sua humanidade:

“Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

A última parte do livro tem quase um tom de fábula porque Alex se reencontra com todo o seu passado e sofre sua segunda fase de punição, vinda de várias pessoas a quem fez mal, sem poder se defender. Nesse ponto fica claro que o autor defende que nenhuma maldade que Alex tenha feito pode ser pior do que a que ele sofre, já que ele teria sido castrado naquilo que o faz humano, que é a sua escolha, seu livre-arbítrio.

No final, também por motivos políticos, Alex volta a ser o que era e é claro que volta a praticar crimes, mas em determinado momento se vê cansado da vida que leva e passa a desejar uma vida mais adulta. Nesse ponto percebemos que Burgess acredita que a falta de maturidade de Alex (ou dos jovens, em geral) é que o levaria a cometer todos aqueles atos violentos e que chegando a determinado ponto de sua vida, esses atos passariam a não fazer mais sentido.

A única coisa que me incomodou nesse final foi que em nenhum momento anterior na história do personagem ele faz qualquer reflexão que ponha em questão seus atos: para ele a violência dá prazer e ele a pratica porque deseja. Talvez por isso o último capítulo tenha um tom muito diferente do resto do livro: a redenção de Alex através da música seria, apesar de mais óbvia, mais convincente para mim, afinal não são apenas adolescentes que praticam crimes. No entanto, comparando com a versão americana do livro e com o filme de Kubrick, que ignoram o último capítulo, é melhor que haja algum tipo de redenção que nenhuma, do contrário a proposta do autor de demonstrar que não somos bons nem maus, que nossas escolhas flutuam, não se aplicaria a Alex, e ele se tornaria a própria encarnação da maldade.

Isso não tira o mérito da adaptação cinematográfica que, com exceção do final, foi extremamente fiel ao livro e encontrou soluções geniais para deixar a história ainda mais simbólica e angustiante. Apesar de ter vida própria enquanto filme, não deveria dispensar este incrível livro em que foi baseado.
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