Sete narrativas góticas – Karen Blixen

interlunio08-goticasDepois de algum tempo que retornou involuntariamente da África, a dinamarquesa Karen Blixen parece ter encontrado na escrita o ânimo que precisava para amenizar sua saudade. O Sete Narrativas Góticas foi seu primeiro livro publicado, em 1934, e consiste em contos ou novelas fantásticas, com histórias que já contava oralmente para seus amigos, naquele continente que considerava sua verdadeira casa.

As histórias têm uma estrutura semelhante aos contos de fadas, cheias de peripécias e com algumas narrativas menores internas, histórias dentro de histórias, que às vezes são mais importantes ou envolventes que a história principal. São como um labirinto circular, em que depois que se chega ao meio só resta ir desenrolando o caminho de volta até fechar a trama.

O termo gótico não poderia ser mais preciso: a autora traz o mundo medieval para personagens do século XIX e ambienta suas vidas em castelos, mosteiros, florestas sombrias. As paisagens são soturnas e os personagens são simbólicos, parecem não ser de carne e osso, mas apenas representações de ideias ou ideais. Os valores parecem ser contraditórios e muitas vezes o negativo é apresentado como positivo: a morte traz luz, a noite reserva esperança… Acima de tudo é criada uma atmosfera poderosa de sombras, em que desfila a loucura e o sobrenatural.

Um tema que está muito presente é o da manipulação. Um personagem com um certo poder ou talento irá tratar os outros como suas marionetes. Isso ocorre sobretudo em “O dilúvio em Nordeney”, “O macaco” e “O poeta”. Na primeira novela temos personagens com muita improbabilidade de se encontrar reunidos em um celeiro, contando suas vidas em volta do fogo de uma lamparina. Esperam a morte ou a possibilidade de salvação, caso sejam resgatados de uma enchente. Na segunda, que tem um mosteiro como cenário, uma prioresa possui um macaco por quem é muito devotada. O animal terá um curioso papel no destino do jovem sobrinho da prioresa e a moça com quem ele quer casar. Já na terceira história há um triângulo amoroso marcado pela tragédia: um velho irá manipular um jovem casal para que tudo ocorra conforme seus objetivos, separando-os por amor à Poesia e a Beleza.

As mulheres são geralmente retratadas como a Mulher enquanto ideia e muitas vezes apresentadas como inatingíveis. Em “O velho cavalheiro” o narrador nos conta duas histórias amorosas: de quando se apaixonou por uma mulher casada e a sua noite de amor com uma jovem que encontrou bêbada nas ruas de Paris. Aqui temos dois exemplos de mulheres no pedestal: a dama poderosa e superior, e a jovem misteriosa, que responde a todas as fantasias. “Os sonhadores” também traz essa mulher envolta em mistério, mas aqui ela é quase uma deusa imortal, encantadora de homens.

Talvez a história mais fraca seja ”Os caminhos em torno de Pisa”, que nos apresenta a um conde dinamarquês que está na Itália para fugir de sua esposa ciumenta. Ele vem a conhecer uma senhora que quer ver a neta antes de morrer e pede a ele que a ajude. Provavelmente esta seja a novela com menos elementos fantásticos. Por outro lado, “A ceia em Elsinore” tem um forte elemento sobrenatural. Trata de uma família vivendo em Elsinore, que conta com duas irmãs espirituosas e melancólicas e seu irmão Morten, jovem destemido e vaidoso que acaba se tornando corsário, apresando vários navios para o seu país durante as guerras napoleônicas. Quando o corso é proibido, ele some no mundo e torna-se pirata, mas volta depois como fantasma para se encontrar com suas irmãs.

Ninguém consegue criar imagens que funcionam como pinturas literárias como Karen Blixen. Embora essas narrativas góticas possam soar ingênuas e seus temas e reflexões possam ser vistos como ultrapassados, a autora constrói uma atmosfera onírica que pode marcar muito a imaginação do leitor. São histórias que remetem a um tempo em que as narrativas orais em volta do fogo eram o único entretenimento possível e tinham o poder de deixar quem as ouvia rememorando seus trechos mágicos antes de dormir.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Minotauro – Benjamin Tammuz

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Um homem de 41 anos vê uma moça num ônibus e a reconhece como alguém por quem esperou a vida inteira. Ela passa a receber cartas anônimas dele e algum tempo depois tem oportunidades de respondê-lo. A correspondência dura vários anos, e ele não tem intenção de se identificar, ainda que esteja claro que os dois se amem. Que mistérios esse homem guarda que não podem ser revelados à mulher amada para que possam, enfim, se encontrar? Como um amor idealizado se sustenta diante da vida real que perpassa esses dois personagens?

A resposta é guardada por Alexander Abramov, o grande personagem do livro, filho de dois amantes da música que acabam escolhendo morar na Palestina. Nascido no início do século XX, ele atravessa seus anos sempre em volta de alguma guerra e é através da participação direta nestas guerras que foge do seu mundo pessoal, já que por inúmeros motivos não pode viver o que deseja, pois em um primeiro momento não encontra seu sentido para a vida. É uma figura grandiosa, mesmo quando ainda menino, e romantiza cada momento da existência. Por esperar apenas a perfeição daquilo com que se importa, prefere não viver de qualquer jeito. Para ele a felicidade não é possível porque a vida não permitiu que as coisas fossem perfeitas. A vida só tem sentido enquanto experiência estética absoluta, e portanto é necessário fugir do mundano, do perecível. Então, mesmo um dia encontrando Téa, o motivo pelo qual estava procurando, as circunstâncias que dificultam uma convivência com ela têm o enorme poder de distanciá-los.

Téa é uma jovem inglesa de cabelos acobreados e olhos castanhos e representa, como seu próprio nome revela, uma divindade para os homens de sua vida, a mulher idealizada e idolatrada, capaz de conferir sentido e conforto. Talvez o amor de Téa por um estranho que nunca viu soe inverossímil para alguns leitores, mas há que se considerar que aqui nesta história o mais importante são os símbolos que ela evoca, o amor pelo impossível, pela beleza, pelo ideal acima de qualquer coisa. Eles se conectam através desse mundo sonhado, perfeito, estabelecido pelas cartas. E embora ela se envolva com outros homens, e todos eles a vejam como uma deusa inatingível e sejam igualmente vítimas desse amor idealizado, Téa está presa a Alexander, a essa história cheia de possibilidades que não se concretizam, esse abismo da qual ela não consegue cair nem sair de sua beirada.

O escritor israelense Benjamin Tammuz constrói em Minotauro uma estrutura inusitada e bem montada, com uma escrita simples mas muito apurada nas passagens de reflexão do protagonista, sobretudo na última parte do livro, em que as descrições são mais cuidadosas e há um esmero maior com as imagens que vão sendo criadas. O livro passa por diversos gêneros, iniciando como romance epistolar e terminando como romance de espionagem. Tendo lido recentemente O espião que saiu do frio, de John Le Carré, não pude deixar de identificar a figura clássica do agente secreto amargurado, o tipo psicológico atormentado que escolhe essa profissão para fugir das dores da realidade insuportável.

É daqueles livros que quando termina você deseja voltar ao começo e retomar o fio. Uma leitura envolvente, que ata o leitor a um labirinto em que cada passagem pelo caminho faz com que ele descubra mais sobre a história e veja os mesmos muros diversas vezes até encontrar a saída.

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Escolhi e recebi este livro como cortesia da editora parceira Rádio Londres.