Howards End – E.M. Forster

20_howardsend_bookHowards End é a história de duas irmãs, Margaret e Helen Schlegel, inglesas de origem alemã, e sua relação com a família Wilcox, típica família inglesa abastada, no ínicio do século XX.

As irmãs têm uma vida intelectual rica, facilitada pela renda de sua herança. Durante os chás e jantares com amigos, as mais variadas discussões ocorrem, desde a questão do feminismo até o tema do dinheiro – Margaret defende o dinheiro como um grande educador, indispensável para se ter o conforto que proporciona o pensamento livre. Tomando como exemplo Leonard Bast, um jovem e pobre escriturário que elas conhecem por acaso, Margaret acredita que ajudá-lo, ajudar uma única pessoa ou poucos, no capitalismo, seria a única forma possível de fazer algum bem:

“Fazer bem à humanidade era inútil: os multicoloridos esforços para isso esparramavam-se pela vasta área como névoa e resultavam num cinzento universal. Fazer o bem para um só, ou, neste caso, para uns poucos, era o máximo a que podia ousar aspirar.”

Já os Wilcox são uma família prática, voltada para os negócios, que jamais se preocuparia com pessoas como Leonard e que ainda assim atraem a curiosidade das irmãs. Helen chega a ter um breve relacionamento com Paul, o filho mais novo, mas a relação entre os dois grupos se inicia realmente através da amizade de Margaret e a Sra. Ruth Wilcox. O grande amor da vida de Ruth é sua casa em Howards End, uma propriedade rural, e Margaret fica intrigada com as descrições apaixonadas que ela faz do lugar.

Margaret e Helen se dividem então nessa preocupação em ajudar Leonard Bast e na intenção de captar o espírito prático dos Wilcox. Mas elas possuem atitudes e abordagens diferentes, e suas personalidades lembram um pouco as das irmãs Elinor e Marianne, de Razão e Sensibilidade: uma mais contida, diplomática e racional, outra mais selvagem, impulsiva.

É um romance em que os personagens servem muito mais como representantes de ideias contrárias num grande debate sobre a vida do que pessoas com uma vida interessante, pelo menos externamente. Curioso notar também que os lugares – as cidades, as casas, os prédios – são quase personagens também, com personalidades que moldam o humor de seus habitantes. Não à toa o título do livro é o nome de uma casa e muitas interpretações sobre ele falam de Howards End simbolizar a própria Inglaterra e de como as classes sociais ali representadas deverão compartilhar o país.

Forster cria ambientes aconchegantes e conversas agradáveis, no entanto essas conversas nunca se elevam o suficiente, e o clima, mesmo quando desconfortável, não parece incomodar de verdade. A personagem Helen é a que exala mais vida, mas ela pouco está presente, já que a narrativa é focada mais em Margaret. É somente no final do livro que as emoções finalmente afloram, que dramas mais profundos acontecem e que todo o enredo se justifica, o que faz com que a leitura de boa parte do livro seja um pouco enfadonha.

A adaptação cinematográfica de 1992, dirigida por James Ivory, revela muito bem o espírito do livro e lhe é extremamente fiel. Como o enredo construído por Forster é simples e muito entremeado com passagens em que tanto o narrador quanto os personagens refletem sobre o que está acontecendo – o que faz com que muito material não constitua história propriamente dita –, a obra é muito convidativa a adaptações e assim deve ser com todos os seus livros, já que vários foram adaptados para o cinema, como Maurice (1987), Uma janela para o amor (1985), ambos também dirigidos por James Ivory, e Passagem para a Índia (1984), de David Lean.

Autor de Aspectos do Romance, Forster era muito consciente da estrutura narrativa do gênero e talvez por isso mesmo o livro traga um tom artificial em alguns momentos. Isso pode ser um defeito ou uma qualidade, dependendo do nível de consciência da construção da obra que o leitor deseja ter durante a leitura. Mas ainda assim o autor foi capaz de me prender em sua bem estruturada teia, mesmo que por um tempo eu não conseguisse prever que desenhos ele iria formar no fim.

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A fazenda africana – Karen Blixen

14_fazendaApesar de muitos leitores encararem descrições como um defeito nos livros, para mim são elas que definem um bom escritor, pois são elas que nos fazem recriar a imaginação de outra pessoa e de pintar um quadro próprio, sugerido por quem escreveu. São elas que nos transportam longe de nossa confortável poltrona e nos levam a lugares que jamais poderíamos conhecer de perto. E foram através das belas descrições de Karen Blixen que eu estive na África, sentindo o grave calor do dia, as noites frias, os cheiros da selva, os sorrisos das crianças e os olhares únicos dos quicuios, dos massais, dos somalis.

Romance de não-ficção ou relato autobiográfico, A fazenda africana narra os anos em que Blixen cuidou de sua fazenda de café no Quênia, no início do século XX, mas sobretudo conta a história das pessoas que fizeram parte de sua vida nessa aventura africana. O livro não segue uma linha exata no tempo, justamente porque seus capítulos são divididos por situações e pessoas que foram importantes e inesquecíveis para a autora, como a história de Kamante, um menino quicuio que ela salva e que acaba depois se tornando seu cozinheiro, ou mesmo sobre sua amizade/amor por Denys Finch-Hatton: Blixen parecia muito feliz sobrevoando a África ao seu lado.

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O mais incrível é ver como a autora apresenta as pessoas pelo que elas têm de mais bonito e o quanto isso diz sobre ela mesma, já que pouco conta de sua vida mais pessoal, seu marido ou sua família. Mas ela também conta sobre suas caçadas, seus animais preferidos, como ela acabava interferindo nas questões locais e como a cultura africana marcava a cada dia sua existência. Sua paixão pela terra africana é tamanha que ela quer fazer parte dela de alguma forma:

“Se é que estou, como creio, familiarizada com uma melodia da África, da girafa e suas listras iluminadas pela lua nova, dos arados nos campos, dos rostos suados dos colhedores de café, será que a África também conhece uma melodia minha? Será que o ar sobre a planície estremecia com uma cor que eu estivesse vestindo, ou as crianças inventariam um jogo no qual surgia meu nome, ou, ainda, a lua cheia lançaria uma sombra parecida comigo sobre o cascalho diante da casa, e as águias de Ngong me buscariam com seus olhos?”

Com uma escrita delicada, simples e cheia de comparações e metáforas, Blixen constrói imagens da fazenda, dos seus funcionários, das tribos nativas e dos seus amigos de uma forma tão límpida e amorosa que o leitor se sente abandonado e com saudade quando o livro acaba. Não sei dizer que episódios foram os meus preferidos nesse belo rol de histórias, mas sei que quero voltar a essa fazenda um dia, sentar mais uma vez na varanda do casarão e observar Lulu aparecendo entre as árvores ao entardecer.

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Essa leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e será debatida no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.