Duas novelas chilenas

Uma das recentes modas literárias são os chamados romances curtos, mais precisamente novelas, pela sua estrutura. Tenho um certo embate com novelas (e com contos também) porque elas dificilmente alcançam a profundidade de um romance ou mesmo não dão tempo para que os personagens se arredondem, tomem corpo. Ainda assim podem ser ótimas leituras, como estes dois exemplos de autores chilenos contemporâneos.

61_contadoraA Contadora de Filmes – Hernán Rivera Letelier

“Como em casa o dinheiro andava a cavalo e a gente andava a pé, quando chegava um filme no acampamento da Mina e meu pai – só pelo nome do ator ou da atriz principal – achava que parecia ser bom, as moedas eram juntadas uma a uma, o preço exato da entrada, e me mandavam assistir.
Depois, ao voltar do cinema, eu tinha de contar o filme para a família inteira reunida na sala.”

Esse é o primeiro capítulo do livro e resume bem como começa a vida da menina Maria Margarita enquanto contadora de filmes num pequeno povoado no Chile, no final dos anos 50. Morando com seu pai inválido, abandonado pela mulher, e os 4 irmãos mais velhos, Maria tem em comum com a mãe a atitude de nunca se conformar com nada e o enorme amor pelo cinema. Ela leva tão a sério suas interpretações que acaba atraindo todas as pessoas do povoado na hora em que se apresenta e encontra a partir daí uma fonte de renda para a família, ganhando até um nome artístico: Fada Docine.

Se a primeira parte da história é até divertida, do meio pro fim ela vai ficando mais triste e interna. À medida que Maria vai amadurecendo e descobrindo o mundo, e o mundo vai apresentando novidades, como a televisão, a menina que tem medo dos dias nublados vai perdendo não só sua clientela como outras coisas mais importantes da vida. Apesar da personagem ser muito genuína, o caráter curto do livro nos deixa com a sensação de que poderia haver mais desenvolvimento, mas ainda assim o livro é tocante, com um final muito belo.

Existe um projeto do Walter Salles para que ele se torne filme e espero ansiosa por ver o deserto do Atacama nas telas.

62_bonsai2Bonsai – Alejandro Zambra
Esta pequeníssima novela começa, digamos assim, pelo fim, e se desenvolve como se fosse contada um pouco de trás para frente, da direita para a esquerda, deixando quaisquer ansiedades do leitor mais ou menos resolvidas:

“No final ela morre e ele fica sozinho.”

Ainda assim queremos saber os comos e os porquês e eles têm muita relação com a Literatura, que integra a vida do casal chileno Julio e Emilia, a ponto de interferir até em sua vida sexual. É um livro que fala de outros livros e fala de si mesmo: o personagem Julio inclusive escreve um romance chamado Bonsai. Não me envolvi muito com a história do casal, mas o livro traz muito boas considerações sobre relacionamentos. Para mim, o mais envolvente na obra foi mesmo a escrita de Zambra, que dá muito prazer em ser lida.

A adaptação para o cinema, pelo diretor Cristián Jiménez, é bem delicada e lenta, dá inclusive para se envolver bem mais com os personagens. No entanto, sendo baseado em um livro tão pequeno, dá a sensação de que o filme poderia ser mais curto, o que o torna um pouco monótono para quem já conhece a história. Ainda assim é um filme muito bonito, que eu recomendaria.

bonsai

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Medianeras (2011) – Gustavo Taretto

Falar que uma história é sobre duas pessoas, feitas uma para a outra, e que nunca se conhecem (mesmo morando em prédios vizinhos) poderia acabar soando como o mais básico dos clichês, se esta história não fosse Medianeras, filme argentino lançado no Brasil ano passado. Mostrando o cotidiano urbano de Mariana e Martín, o diretor oferece uma reflexão sobre as atuais formas de relacionamento proporcionadas pelas novas mídias, que nos aproximam e nos afastam uns dos outros, e ao mesmo tempo demonstra como a Arquitetura, assim como o clima ou a música, pode definir e condicionar os nossos estados de espírito. Mas ainda que traga todas essas questões, é um filme muito leve, engraçado e romântico, daqueles que conseguem nos fazer sorrir a todo momento.

Mostrando uma Buenos Aires que poderia ser qualquer grande cidade do mundo e personagens que poderiam ser eu ou você, é um filme de instantânea identificação, e embora em alguns momentos haja uma narração reflexiva – característica que acho dispensável na maioria dos filmes – ela serve bem ao propósito, exatamente porque os personagens são solitários e é através de seus pensamentos que os conhecemos e os acompanhamos. Mariana é uma arquiteta que trabalha como vitrinista e está frustrada por seu relacionamento de 4 anos ter acabado. Martín é um webdesigner que quase não sai de casa com medo de mais um ataque de pânico. Na busca de encontrar algo verdadeiro, vão se relacionar com alguém aqui, outro ali, revelando como a solidão pode nos levar a situações e pessoas das quais preferíamos fugir mas que acabamos abraçando, tudo porque é da nossa natureza não conseguirmos ficar sozinhos. Mas no fim eles irão, imitando as plantas que crescem no asfalto, abrir caminho em direção à luz com um belo buraco numa parede cega.

“Contra toda a opressão de viver em apartamentos minúsculos, existe uma saída, uma rota de fuga. Ilegal, como toda rota de fuga. Em clara desobediência às normas de planejamento urbano, abrem-se minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que alguns milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos.”