Zero – Ignácio de Loyola Brandão

interlunio37-zeroPublicado em 1974, primeiramente na Itália e só depois no Brasil, Zero é um romance que oferece um retrato pungente de sua época, pois foi escrito pela necessidade de grito diante da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), um período marcado pela censura cultural e o controle dos indivíduos no que eles tinham de mais íntimo, assim como a prisão, tortura e assassinato de pessoas que se opusessem de qualquer forma ao regime.

Extremamente experimental, Zero é um dos romances mais incomuns com que um leitor pode ser deparar na Literatura, pois ele intenta retratar o caos tanto no conteúdo quanto na forma e isso fica evidente pelos vários tipos de textos que se apresentam ao longo da narrativa: a simulação de recortes de jornal, propagandas, cartazes, inscrições de banheiro, letras de músicas e inúmeros outros tipos de texto vão criando uma paisagem do país e seu contexto histórico-social. A diagramação é inusitada, semelhante a de um almanaque, com diversas tipografias, para cada gênero de texto e para cada tipo de efeito. O autor queria ter utilizado até quadrinhos no corpo do livro, o que não foi possível na época de publicação. Além disso, as notas de rodapé oferecem um ponto de vista à parte, com o próprio autor (ou um narrador onisciente, como queira) conversando com a história e ironizando o que está sendo feito ou dito pelos personagens.

O protagonista de Zero é José Gonçalves, um homem comum, que mata ratos num cinema vagabundo. Ele conhece Rosa, sua futura esposa, através de uma agência matrimonial e vive uma relação de amor e ódio com ela, com inúmeros momentos tanto de intensas atividades sexuais como de enormes brigas. Ao longo do livro, José vai se tornando cada vez mais inconformado com o mundo e sua situação neste, até que torna-se um criminoso, e a partir daí o livro vai ficando cada vez mais caótico e violento. O personagem é um símbolo exagerado do inconformismo e do caos:

“Eu fico puto da gente ir aceitando assim, por aceitar, porque está pronto, não precisa mexer. Na verdade, não é bem puto, eu fico confuso, me atrapalha. Às vezes, para mim, uma coisa é quatro e não sete, como eles estão dizendo, mas eles não podem ver como eu posso, que ela é quatro. Eu sinto dentro de mim a linguagem das coisas me dizendo: eu não sou isso, sou aquilo. E tenho que acreditar nas coisas, sejam pedras, paus, plásticos, ferros, papel, flores, o que for.”

Enquanto ocorre a saga de José, acompanhamos outras pequenas sagas, e a partir delas o autor aproveita para fazer várias críticas à situação dos brasileiros. Um exemplo disso é a história de Carlos Lopes, que enfrenta uma burocracia esdrúxula e massacrante para que o filho doente seja atendido por um médico. Em outro momento ele põe em foco a falta de identidade dos conjuntos habitacionais, com a personagem Rosa perdida quando volta para sua casa pela primeira vez e não sabe localizar onde mora. Ele ironiza a sufocante padronização de tudo, a proibição do pensamento, do sexo, do prazer, sobretudo das mulheres.

Na edição comemorativa de 35 anos da Global Editora há um depoimento do autor chamado “E se eu não tivesse tido coragem de publicar o Zero naquele ano de 1974?” em que ele comenta como o livro foi se formando, a partir de vários textos que eram censurados no jornal Última Hora, local em que trabalhava na década de 60. Brandão imaginou que tudo aquilo poderia ser aproveitado, uma história que contasse aquilo que não poderia ser dito. Tudo é narrado da forma mais enxuta possível, pois o leitor já conhece a realidade do que lê. Não há necessidade de muitas descrições, daí o grande número de sugestões, com a enorme variedade de textos que compõem o romance. Não é exatamente um livro para apreciar a leitura: é um livro para pensar e para constatar que o passado não faz a menor falta.

Esta leitura faz parte do Projeto Lendo a Ditadura.

Selo_lendoaditadura.blogspot.com

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Os detetives selvagens – Roberto Bolaño

interlunio35-detetivesrbJuan García Madero é um adolescente mexicano de 17 anos que acaba de entrar para um grupo de poetas do movimento realismo visceral. Envolvido com a literatura de maneira bastante formal e caricata, decorando termos técnicos da poesia, García Madero agora entra em contato com um mundo mais próximo da vida real, iniciando-se no sexo, na amizade e na escrita de forma a encaixar-se melhor neste grupo. O diário de García Madero sobre suas experiências constitui a primeira parte de Os detetives selvagens, obra publicada em 1998 pelo chileno Roberto Bolaño. Com o título de “Mexicanos perdidos no México”, essa primeira parte se passa no final do ano de 1975, e é através dela que conhecemos os personagens que se denominam real-visceralistas.

Em um primeiro nível temos os protagonistas: Arturo Belano e Ulises Lima. Líderes do movimento, são os típicos poetas vagabundos, marginais e aparentemente indiferentes a tudo. Além deles destacam-se Rafael Barrios, Jacinto Requena, Xóchitl García, Felipe Müller, as irmãs María e Angélica Font, os irmãos Rodriguez, Pele Divina, Laura Jáuregui e César Arriaga. Publicam seus poemas numa revista própria, chamada Lee Harvey Oswald e estão sempre pelas ruas da Cidade do México, em cafés, bares e boates, escrevendo e conversando ao lado de xícaras e mais xícaras de café com leite.

Pintado este retrato, que poderia ser atribuído – com um ou outro detalhe modificado – a muitos movimentos literários ao longo da história, o autor pausa a narrativa de García Madero para construir a segunda parte do livro (“Os detetives selvagens”), que abarca os anos de 1976 a 1996, e onde encontramos, como uma espécie de narrativa policial ou um documentário cinematográfico, duas situações investigativas: a procura de Belano e Lima pela poeta Cesárea Tinajero, que pertencia ao primeiro realismo visceral, nos anos 1920, e a procura de alguém desconhecido pelo perfil dos próprios Belano e Lima, através de relatos de pessoas próximas aos dois, num movimento que ilustra bem a tendência de uma geração sempre procurar pela geração anterior. O leitor é ele mesmo um detetive, tentando descobrir o que é e o que não é confiável diante de tantas pistas embaralhadas.

Os relatos formam um grande tecido sobre quem eram Belano e Lima, mas sobretudo eles contam histórias de vida mais ricas e encantadoras que as desses poetas. O romance entre dois homens, uma moça que tira fotos nua, a loucura lúcida de um homem que perdeu suas referências, uma mulher que se esconde por vários dias em um banheiro para não ser presa… Muitos relatos que transportam o leitor para longe da narrativa principal mas que ao mesmo tempo contestam a validade do próprio relato, já que cada personagem tem visões muito distintas de quem são Arturo Belano e Ulises Lima. Isso é mais evidente ainda diante da voz única que Roberto Bolaño dá a maioria destes personagens, através de um discurso indireto livre, com marcas de oralidade na medida para que o leitor acredite nessas histórias. A terceira parte do livro, “Os desertos de Sonora”, volta ao começo e retoma o diário de García Madero, o qual acompanha Belano e Lima em sua busca por Cesárea Tinajero por vários povoados mexicanos.

Ao contrário de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, que propõe um quebra-cabeça hermético, Bolaño oferece um jogo mais simples de encaixar, abarcando leitores de vários tipos, desde o que está interessado em boas histórias até aquele que se empolga com referências obscuras ou com a diferente construção da narrativa. Através de alguns contrastes, o autor questiona o que é poesia, o que é ser poeta, o que é real e principalmente o que é real segundo o olhar de cada um. A poesia é algo que inicia com o ato de escrever ou é uma atitude perante a vida? Será que ser poeta tem mais a ver com roubar livros de sebos que propriamente publicar poemas? Bolaño sugere que a poesia é algo maior que a literatura e a juventude encontra nela um norte para a vida, afinal “não resta aos rapazes pobres outro remédio senão a vanguarda literária.”