Dom Quixote – Miguel de Cervantes

03_quixote_interlúnioUma surpresa que tive ao iniciar a leitura de Dom Quixote foi que se trata na verdade de 2 livros, de uma série não planejada pelo espanhol Miguel de Cervantes. O primeiro foi publicado em 1605, com o título de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha e o segundo, apenas em 1615, chamando-se Segunda parte do engenhoso cavaleiro Dom Quixote de la Mancha. São livros um pouco diferentes no estilo, mas ambos com um caráter  de experimentação de um novo gênero, um embrião do que ia ser chamado mais tarde de romance.

No primeiro o autor agiu com mais liberdade. É possível encontrar erros de continuidade (não se sabe se propositais), a escrita é solta e cheia de humor, os personagens e as situações referenciam as novelas de cavalaria o tempo todo e histórias paralelas são contadas ou presenciadas ao longo de todo o livro, dando um clima de histórias dentro de histórias. Neste os personagens vivem praticamente na estrada, buscando as aventuras conforme vão cavalgando, e as pessoas que vão encontrando no meio do caminho tomam mais tempo de narrativa que os próprios protagonistas.

Já no segundo Cervantes parece ter se preocupado mais com a forma, a estrutura narrativa é mais bem amarrada e o humor continua, talvez um pouco menos sutil. Aqui os heróis têm mais destaque, especialmente Sancho Pança, e ficam em grande parte sob o teto de alguém hospitaleiro, longe dos perigos das estradas, mas mais perto de troças maldosas. As aventuras, em vez de surgirem do acaso, geralmente aparecem como farsa.

02_quixote_interlúnioIsso acontece porque o segundo livro é uma espécie de Dom Quixote do primeiro, isto é, assim como o primeiro livro faz referência às novelas de cavalaria, o segundo livro faz referência ao primeiro livro de Dom Quixote. Numa intrincada rede metaficcional, os personagens do segundo são leitores do primeiro e quando se deparam com as figuras de Dom Quixote e Sancho Pança, muitos querem se aproveitar deles para que vivam as mais disparatadas situações, o que deixa grande parte do livro como um palco onde os heróis são meras marionetes.

Além disso, o narrador dos livros é um caso à parte, pois ele conta a história através de uma tradução da obra de um certo autor chamado Benengeli, e em alguns momentos têm-se até a opinião do tradutor adentrando a narrativa, causando a sensação de que se trata de uma história que poderia ter várias versões, mas que esta foi a que calhou de estar ali. Por toda a obra temos referência ao próprio ato de narrar a história, nos lembrando sempre seu caráter ficcional.

Dom Quixote é uma pessoa dos livros. Mais do que isso, ele quer, como aquela imagem que temos dos desenhos animados infantis, entrar no livros e se tornar personagem deles. Para isso ele decide viver o que deseja. Como uma criança que vê o que quer ver e brinca com a imaginação que possui, o fidalgo torna-se cavaleiro andante. Com a melhor das boas intenções Quixote quer retomar valores perdidos, grandes significados que não existem mais, e obviamente é tido como louco. Ainda assim dá para vê-lo também como aquele que inventa a si mesmo, que busca ser o que quer ser, mesmo que tudo não passe de ficção.

Sancho Pança, por outro lado, tem os pés bem calcados no chão e sua pobreza lhe suscita a busca por comida, conforto e dinheiro. Ora interesseiro, ora amigo, Sancho é sempre um alívio à melancolia de Quixote, com seus inúmeros provérbios e sabedoria popular que garantem os risos do leitor.

Dom Quixote é uma obra sobre inventar histórias, sobre encenação da realidade, sobre um leitor que quer viver o que seus personagens queridos viveram e com isso tornar-se autor de si mesmo enquanto personagem. Quixote é como se fosse um escritor que, em vez de escrever um livro, vive-o constantemente e que nos faz pensar no que nossa realidade tem de autêntico e de farsa, já que grande parte da vida pode ser vivida seguindo ilusões que tomamos como verdade.

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Léxico Familiar – Natalia Ginzburg

interlunio61-lexicoExistem livros que são capazes de atingir uma camada mais profunda do leitor: histórias que falam com nossas histórias, pessoas ou personagens que revelam o que não conseguimos expressar. Léxico Familiar é um destes livros que nos tomam pela mão e nos levam a rever fragmentos de nossas vidas, como se fossem um dos espectros que surgem para Scrooge no Natal.

Com uma linguagem direta mas ao mesmo tempo afetuosa, a autora italiana Natalia Ginzburg tece um bordado de memórias – para usar uma metáfora do posfácio da edição – relativas à sua vida familiar, da infância à vida adulta. O foco está longe de ser ela mesma: não há quase menção sobre suas descobertas de menina, sobre o seu casamento com Leone Ginzburg ou sobre ser mãe de três filhos. A família aqui é a família que temos enquanto filhos, a que convivemos com as pessoas que não escolhemos: os pais, os irmãos, os parentes e amigos dos pais. E ela constrói esse bordado tomando como fio as frases, anedotas, expressões usadas pela família que vão se repetindo ao longo da narrativa, como não poderia ser diferente em qualquer convivência familiar.

As frases familiares e as piadas internas nos causam uma sensação de conforto, como se fizéssemos parte dessa família ou comparássemos com a nossa. Expressões como “surge um novo astro”, “as sobras de Virginia” e “não reconheço mais a minha Alemanha” causam-nos gargalhadas, pois nos sentimos incluídos nessa história e nos lembramos do que um avô ou uma tia costumava repetir em nossa infância e que virou um bordão em várias situações.

Ainda que ela mostre o pai como um homem duro e intransigente, acabamos por rir muito com esta figura, com sua falta de paciência e seus despertares durante a noite, preocupado com que rumo os filhos iam tomar. Sua mãe é retratada como uma figura um tanto passiva mas de um espírito livre, feliz e tranquilo, com uma sabedoria poética diante da vida. A família Levi, que conta ainda com os irmãos Gino, Mario, Alberto e Paola, vive com muito bom humor, mas ao mesmo tempo com a grande sombra do fascismo na Itália e da Segunda Guerra, que levam muitos amigos e familiares ao exílio e à morte.

Cada família constrói o seu próprio léxico familiar, mas não há dúvida de que o léxico da família de Natalia Ginzburg é especial e cheio de referências artísticas interessantes, nos envolvendo naquele afeto misterioso que as famílias têm, que se apresentam até mesmo nas brigas e discussões acaloradas. Uma leitura deliciosa, com todos os elementos que uma vida guarda: sonhos, perdas, melancolia, alegria, sonhos e desilusão, com humor e beleza, e um final que nos leva a querer voltar ao começo.

Frankenstein ou O Prometeu moderno – Mary Shelley

interlunio59-frankensteinPublicado em 1818, Frankenstein não apenas se tornou uma das maiores histórias de horror de todos os tempos, como também é considerado o primeiro romance de ficção-científica. Além disso, a história de sua concepção é tão famosa quanto sua narrativa, talvez até mais: Mary Shelley imaginou a história depois de um pesadelo que teve, fruto das discussões com seu marido Percy Shelley, o poeta Lord Byron e outros amigos, sobre a possibilidade do homem de criar vida. Havia entre eles um desafio de cada um escrever uma história de terror e o pesadelo foi então a chave para a jovem escritora, que tinha apenas 19 anos.

A estrutura de Frankenstein é inusitada, com uma narrativa dentro da outra e com várias mudanças de ponto de vista. A primeira camada, que inicia e termina o livro, é constituída por cartas de um cientista inglês chamado Robert Walton para sua irmã Margaret. Walton está viajando pelos mares gelados do norte do planeta em busca de descobertas científicas que o glorifiquem. Um dia ele avista, ao longe, um homem de grande estatura em um trenó puxado por cães. Logo em seguida ele salva outro homem, em outro trenó, que sofrera um acidente. É Victor Frankenstein, um suíço com enorme magnetismo, porém doente e devastado pela dor. Quando Victor percebe que Walton é uma versão do que ele foi, resolve contar-lhe sua história, com a esperança que ele perca a atitude arrogante que ele tinha de colocar a Ciência acima de todas as coisas.

Começa assim a narrativa principal, contada por Frankenstein. Ele inicia relatando como sua infância foi feliz, com pais amorosos e a companhia de seu grande amigo Henry e de sua amada Elizabeth, uma órfã adotada por sua família. Desde cedo, Victor se mostra um entusiasta exagerado da Ciência e seu principal objetivo é realizar grandes feitos à humanidade. E é o objetivo de gerar vida que será tanto sua grande obra quanto sua ruína. E ele consegue isso depois de alguns anos de estudo na Alemanha, longe da família.

A partir de um processo que não é mostrado em detalhes – fica subentendido que Frankenstein usa material humano, mas não explica de que forma –, ele cria um ser e lhe dá a vida. O problema é que apenas quando o ser se move ele percebe o quanto a criatura que ele mesmo fez é grotesca na aparência. Semelhante ao homem, mas de uma outra espécie, muito mais ágil e forte, o monstro é uma criatura gigantesca e de feições desagradáveis ao olho humano, com deformidades, longos cabelos negros e pele amarela. Sem conseguir suportar sua criação ele foge e a criatura some.

Por um tempo Victor Frankenstein vive assombrado com o que fez, mal sabendo que o monstro será responsável por uma série de tragédias em sua vida, sendo a primeira a morte de seu irmãozinho William. Agora ele irá pagar por ser um pai que rejeitou o próprio filho e não soube lhe dar amparo, direcionamento ou compaixão. Quando eles finalmente se encontram, inicia-se uma nova narrativa, dessa vez sob o ponto de vista do monstro. É aqui que se dá um momento grandioso do livro, a conversa franca entre criatura e criador, a tragédia de um e de outro, especialmente do monstro, que à semelhança de Adão, quer entender porque recebeu o sopro de vida e depois foi abandonado. Mas ao contrário deste, e até mesmo de Lúcifer, como ele próprio exemplifica, não chegou a receber amor de seu criador, não pôde contar com a ajuda de ninguém e por ser único no mundo sua desgraça maior é a solidão.

“O anjo caído se transforma num demônio maligno. No entanto, até esse inimigo de Deus e dos homens teve amigos e cúmplices em sua desolação; eu estou sozinho.”

Por conta da clássica associação de que a feiúra é sinal de maldade, ele sabe que nunca vai poder se relacionar com a humanidade, pois todas suas tentativas foram um fracasso. E é aí que ele, desesperadamente, pede a Victor que lhe fabrique uma companhia da mesma espécie. Nesse momento não há como não sentir compaixão pelo monstro. Ele conta tudo por que passou, o descobrimento das primeiras coisas, do fogo, da linguagem, da consciência dos sentimentos e sensações. Inclusive aqui há mais uma narrativa interna sobre uma família francesa desgraçada pela pobreza e que serve como fonte de educação a ele, ainda que apenas como observador. Ele pede para ser amado, aceito. Ele argumenta que o desprezo de todos o fez revoltado e malvado. Mas Victor o perdoará por todos os crimes que já cometeu?

É aqui que se desenrola o grande dilema do romance pois Victor é responsável por tudo que sua criatura faz e não só pagará por rejeitar o “filho”, como também por ter ousado brincar com um ato que é divino. Esse Prometeu Moderno, que faz o homem do barro ou lhe dá o fogo, desafiando os deuses, será punido até o último momento com o fardo pesado da culpa por todas as mortes causadas pelo monstro. Essa responsabilidade de Victor não seria uma manifestação do seu próprio monstro interior?

O estilo de Shelley é dramático, nitidamente manifestado pelo desespero de Frankenstein, um homem que sente tudo de maneira muito profunda e que é marcado por uma tragédia atrás da outra. Há muitos elementos góticos, o medo e o suspense em que vive o protagonista, os belíssimos cenários naturais da Europa, castelos em ruínas e à beira de abismos, e as muitas contemplações dessas paisagens, geralmente nas viagens mostradas, que são sempre uma espécie de intermezzo entre as ações.

Ao contrário das adaptações cinematográficas, com suas descargas de eletricidade vinda de raios, não há uma explicação para o princípio da vida descoberto por Frankenstein. Mas todas as narrativas inspiradas nessa obra mostram o perigo da ciência sem ética, as consequências de fazer algo apenas pelo poder de fazê-lo. Roubar o fogo para dá-lo aos homens é tarefa fácil, difícil é perceber que o fogo que aquece também destrói e que manipular a natureza exige uma grande coragem e discernimento, qualidades que o jovem Victor Frankenstein estava longe de possuir.

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Essa foi uma leitura para o Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Os detetives selvagens – Roberto Bolaño

interlunio35-detetivesrbJuan García Madero é um adolescente mexicano de 17 anos que acaba de entrar para um grupo de poetas do movimento realismo visceral. Envolvido com a literatura de maneira bastante formal e caricata, decorando termos técnicos da poesia, García Madero agora entra em contato com um mundo mais próximo da vida real, iniciando-se no sexo, na amizade e na escrita de forma a encaixar-se melhor neste grupo. O diário de García Madero sobre suas experiências constitui a primeira parte de Os detetives selvagens, obra publicada em 1998 pelo chileno Roberto Bolaño. Com o título de “Mexicanos perdidos no México”, essa primeira parte se passa no final do ano de 1975, e é através dela que conhecemos os personagens que se denominam real-visceralistas.

Em um primeiro nível temos os protagonistas: Arturo Belano e Ulises Lima. Líderes do movimento, são os típicos poetas vagabundos, marginais e aparentemente indiferentes a tudo. Além deles destacam-se Rafael Barrios, Jacinto Requena, Xóchitl García, Felipe Müller, as irmãs María e Angélica Font, os irmãos Rodriguez, Pele Divina, Laura Jáuregui e César Arriaga. Publicam seus poemas numa revista própria, chamada Lee Harvey Oswald e estão sempre pelas ruas da Cidade do México, em cafés, bares e boates, escrevendo e conversando ao lado de xícaras e mais xícaras de café com leite.

Pintado este retrato, que poderia ser atribuído – com um ou outro detalhe modificado – a muitos movimentos literários ao longo da história, o autor pausa a narrativa de García Madero para construir a segunda parte do livro (“Os detetives selvagens”), que abarca os anos de 1976 a 1996, e onde encontramos, como uma espécie de narrativa policial ou um documentário cinematográfico, duas situações investigativas: a procura de Belano e Lima pela poeta Cesárea Tinajero, que pertencia ao primeiro realismo visceral, nos anos 1920, e a procura de alguém desconhecido pelo perfil dos próprios Belano e Lima, através de relatos de pessoas próximas aos dois, num movimento que ilustra bem a tendência de uma geração sempre procurar pela geração anterior. O leitor é ele mesmo um detetive, tentando descobrir o que é e o que não é confiável diante de tantas pistas embaralhadas.

Os relatos formam um grande tecido sobre quem eram Belano e Lima, mas sobretudo eles contam histórias de vida mais ricas e encantadoras que as desses poetas. O romance entre dois homens, uma moça que tira fotos nua, a loucura lúcida de um homem que perdeu suas referências, uma mulher que se esconde por vários dias em um banheiro para não ser presa… Muitos relatos que transportam o leitor para longe da narrativa principal mas que ao mesmo tempo contestam a validade do próprio relato, já que cada personagem tem visões muito distintas de quem são Arturo Belano e Ulises Lima. Isso é mais evidente ainda diante da voz única que Roberto Bolaño dá a maioria destes personagens, através de um discurso indireto livre, com marcas de oralidade na medida para que o leitor acredite nessas histórias. A terceira parte do livro, “Os desertos de Sonora”, volta ao começo e retoma o diário de García Madero, o qual acompanha Belano e Lima em sua busca por Cesárea Tinajero por vários povoados mexicanos.

Ao contrário de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, que propõe um quebra-cabeça hermético, Bolaño oferece um jogo mais simples de encaixar, abarcando leitores de vários tipos, desde o que está interessado em boas histórias até aquele que se empolga com referências obscuras ou com a diferente construção da narrativa. Através de alguns contrastes, o autor questiona o que é poesia, o que é ser poeta, o que é real e principalmente o que é real segundo o olhar de cada um. A poesia é algo que inicia com o ato de escrever ou é uma atitude perante a vida? Será que ser poeta tem mais a ver com roubar livros de sebos que propriamente publicar poemas? Bolaño sugere que a poesia é algo maior que a literatura e a juventude encontra nela um norte para a vida, afinal “não resta aos rapazes pobres outro remédio senão a vanguarda literária.”

Sete narrativas góticas – Karen Blixen

interlunio08-goticasDepois de algum tempo que retornou involuntariamente da África, a dinamarquesa Karen Blixen parece ter encontrado na escrita o ânimo que precisava para amenizar sua saudade. O Sete Narrativas Góticas foi seu primeiro livro publicado, em 1934, e consiste em contos ou novelas fantásticas, com histórias que já contava oralmente para seus amigos, naquele continente que considerava sua verdadeira casa.

As histórias têm uma estrutura semelhante aos contos de fadas, cheias de peripécias e com algumas narrativas menores internas, histórias dentro de histórias, que às vezes são mais importantes ou envolventes que a história principal. São como um labirinto circular, em que depois que se chega ao meio só resta ir desenrolando o caminho de volta até fechar a trama.

O termo gótico não poderia ser mais preciso: a autora traz o mundo medieval para personagens do século XIX e ambienta suas vidas em castelos, mosteiros, florestas sombrias. As paisagens são soturnas e os personagens são simbólicos, parecem não ser de carne e osso, mas apenas representações de ideias ou ideais. Os valores parecem ser contraditórios e muitas vezes o negativo é apresentado como positivo: a morte traz luz, a noite reserva esperança… Acima de tudo é criada uma atmosfera poderosa de sombras, em que desfila a loucura e o sobrenatural.

Um tema que está muito presente é o da manipulação. Um personagem com um certo poder ou talento irá tratar os outros como suas marionetes. Isso ocorre sobretudo em “O dilúvio em Nordeney”, “O macaco” e “O poeta”. Na primeira novela temos personagens com muita improbabilidade de se encontrar reunidos em um celeiro, contando suas vidas em volta do fogo de uma lamparina. Esperam a morte ou a possibilidade de salvação, caso sejam resgatados de uma enchente. Na segunda, que tem um mosteiro como cenário, uma prioresa possui um macaco por quem é muito devotada. O animal terá um curioso papel no destino do jovem sobrinho da prioresa e a moça com quem ele quer casar. Já na terceira história há um triângulo amoroso marcado pela tragédia: um velho irá manipular um jovem casal para que tudo ocorra conforme seus objetivos, separando-os por amor à Poesia e a Beleza.

As mulheres são geralmente retratadas como a Mulher enquanto ideia e muitas vezes apresentadas como inatingíveis. Em “O velho cavalheiro” o narrador nos conta duas histórias amorosas: de quando se apaixonou por uma mulher casada e a sua noite de amor com uma jovem que encontrou bêbada nas ruas de Paris. Aqui temos dois exemplos de mulheres no pedestal: a dama poderosa e superior, e a jovem misteriosa, que responde a todas as fantasias. “Os sonhadores” também traz essa mulher envolta em mistério, mas aqui ela é quase uma deusa imortal, encantadora de homens.

Talvez a história mais fraca seja ”Os caminhos em torno de Pisa”, que nos apresenta a um conde dinamarquês que está na Itália para fugir de sua esposa ciumenta. Ele vem a conhecer uma senhora que quer ver a neta antes de morrer e pede a ele que a ajude. Provavelmente esta seja a novela com menos elementos fantásticos. Por outro lado, “A ceia em Elsinore” tem um forte elemento sobrenatural. Trata de uma família vivendo em Elsinore, que conta com duas irmãs espirituosas e melancólicas e seu irmão Morten, jovem destemido e vaidoso que acaba se tornando corsário, apresando vários navios para o seu país durante as guerras napoleônicas. Quando o corso é proibido, ele some no mundo e torna-se pirata, mas volta depois como fantasma para se encontrar com suas irmãs.

Ninguém consegue criar imagens que funcionam como pinturas literárias como Karen Blixen. Embora essas narrativas góticas possam soar ingênuas e seus temas e reflexões possam ser vistos como ultrapassados, a autora constrói uma atmosfera onírica que pode marcar muito a imaginação do leitor. São histórias que remetem a um tempo em que as narrativas orais em volta do fogo eram o único entretenimento possível e tinham o poder de deixar quem as ouvia rememorando seus trechos mágicos antes de dormir.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Mrs. Dalloway – Virginia Woolf

interlunio03dallowayPublicado em 1925, Mrs. Dalloway é um curto romance que descreve um dia na vida de seus personagens, na cidade de Londres, em algum mês de junho após a Primeira Guerra. Apesar de se passar em apenas um dia, o leitor tem a nítida visão da vida inteira destes personagens, pois ele acompanha suas ponderações mais íntimas, suas questões mais profundas. Com muito poucos diálogos e bastante uso do chamado fluxo de consciência, temos a impressão de que os personagens estão isolados, pois a interação se dá muito mais por lembranças e assim o mundo interior prevalece.

Clarissa Dalloway é uma mulher casada, de meia idade, que está organizando uma festa. Apesar de sua privilegiada situação financeira, ela tem a característica de procurar resolver seus próprios pequenos problemas. A frase inicial do romance, “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores” já dá uma pista tanto de sua preocupação em tomar para si os problemas, como também da busca por viver a vida de forma direta: ela quer ter o poder de ser responsável pela beleza de sua festa.

O início do livro descreve a vida nas ruas, a alegria de um dia que começa, os barulhos e os cheiros da cidade, as pessoas apressadas que passam, o fluxo da vida moderna do começo do século XX. Como um poema de Álvaro de Campos, podemos escutar o barulho dos carros e o roçar de pessoas se movimentando entre si. Os cortes sutis – ou a falta deles –, lembram os planos-sequência do cinema: a narrativa sai do mundo interior de um personagem e passa a de outro quase sem o leitor perceber, dando a impressão de que tudo parece conectado, um personagem afetando o outro, mesmo que alguns nem se conheçam. Temos então tanto esse ruído das ruas, com pessoas anônimas envoltas em suas questões, quanto o ruído interno dos pensamentos de Clarissa e dos demais personagens.

“Elas amam a vida. Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a vida; Londres; esse momento de junho.”

O passeio de Clarissa pelas ruas de Londres apresenta todos os personagens principais e tudo que representam pra ela: seu marido Richard, sua filha Elizabeth, a professora de Elizabeth, Doris Kilman, seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton, e finalmente Septimus e Lucrezia, que não a conhecem mas compartilham com ela uma cena na rua. As flores e a bela manhã em Londres a fazem lembrar de sua juventude e não apenas suas lembranças como propriamente duas figuras da época surgem, e que aparecem sem serem necessariamente convidadas para a festa, levando-a ao passado: seu ex-noivo Peter Walsh e sua amiga Sally Seton.

Esse retorno, os preparativos para a festa, o confronto com a idade em que a vida já se resolveu e não há mais novos projetos, a aparente futilidade da vida privilegiada, tudo deixa Clarissa ansiosa pois ela não consegue justificar seu cotidiano. No entanto ela se revela apenas alguém que quer celebrar a vida e acima de tudo fugir da morte e da solidão, e não ver a velha vizinha na janela como um espelho de seu futuro.

“‘É por isso que dou essas festas’, disse, em voz alta, à vida.”

Do outro lado da moeda temos Septimus, que é um homem que lutou na Primeira Guerra e sofre com ataques de pânico, manifestando também algum tipo de problema mental. Essa dualidade entre Clarissa, que ama e procura celebrar a vida, e Septimus, que perdeu a perspectiva de sentido e não vê mais graça na existência, trespassa toda a narrativa, mas eles encontram pontos em comum, pois acreditam que a vida tem uma medida e é com ela que se conclui quem é que cabe ou não nela. A vida vale a pena? Segundo eles, a vida por si só não basta, ela só vale a pena em certos termos.

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Esta leitura faz parte do Projeto Mulheres Modernistas e de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Contos – Katherine Mansfield

02_mansfEsta coletânea de contos de Katherine Mansfield cobre textos de vários momentos de sua vida como escritora e nela é possível perceber uma certa diferença entre os primeiros e os últimos, já que a autora parece se preocupar mais e mais com a linguagem e com o mundo interior dos seus personagens.

Nos primeiros contos, existe uma tendência em retratar viagens, situações em cafés, hotéis e trens, ambientes com pessoas desconhecidas, estrangeiras. São momentos em que o personagem está muito atento ao seu redor, pois tudo é novo e estranho. As pessoas são inéditas e as circunstâncias, mesmo corriqueiras para quem é do local, são curiosas para quem é forasteiro. Em “Alemães comendo”, uma mulher inglesa, durante uma refeição num café ou pousada, se vê diante de uma atitude de superioridade de alguns alemães, pouco antes da Primeira Guerra. Já durante a guerra, temos “Uma viagem indiscreta”, um conto com atmosfera um tanto onírica, que inicia com uma viagem de trem e culmina em outro café: uma mulher se utiliza de alguns disfarces para encontrar-se com um jovem cabo.

“A pequena governanta” também se passa em grande parte durante uma viagem de trem, ainda que aqui essa viagem tenha uma importância maior, pois ela não serve apenas como um meio de chegar a um lugar, ela representa todas as mudanças que irão ocorrer na vida da personagem. É um conto cheio de símbolos e assinala bem o medo de uma mulher diante de um mundo governado pelos homens, mas também a esperança, a busca pela felicidade nas coisas simples. Com uma carga semelhante de ingenuidade à da pequena governanta, mas sem a desculpa da juventude, a “Srta. Brill” também busca ser feliz com as pequenas coisas, mas aqui ela se limita a observar a vida em vez de vivê-la. Uma triste história sobre solidão, assim como “Je ne parle pas français”, em que um jovem parisiense, supostamente escritor, conta sua história malfadada com um casal inglês.

“Prelúdio”, “Na Baía”, e “A Casa de Bonecas” compõem uma trilogia de contos ou noveletas baseadas na infância da autora na Nova Zelândia. Basicamente apresentam pequenos momentos familiares dos Fairfields: o casal Linda e Stanley Burnell, seus filhos, a mãe de Linda, a Sra. Fairfield, a irmã Beryl e os funcionários da casa. No primeiro acompanhamos a mudança deles da cidade para o campo. No segundo, um dos mais belos contos do livro, vemos o dia nascer e morrer na praia, quando a família está em alguma casa de veraneio. A narrativa guarda um tema que se repete: a vida das mulheres (e crianças) sem os homens, a liberdade feminina. E no último, o foco é nas crianças, o mundo infantil como espelho do mundo adulto: a revolução que causa a chegada de uma linda casa de bonecas para as meninas. Estes contos são marcados pelos problemas femininos da época que retrata, que não são tão diferentes dos de hoje: mulheres que têm filhos mas que não apreciam ser mães, mulheres que vivem a serviço de um “chefe de família”, mulheres que acreditam que só terão valor quando casarem.

O casamento, inclusive, também é tema em “Marriage à la mode” e “Conto de homem casado”. Ambos falam sobre máscaras na vida conjugal, e enquanto em um não sabemos o que é máscara e o que é verdadeiro, pois há uma personagem que acha mais importante alimentar sua vaidade que dar atenção ao marido que ama, em outro a máscara está bem clara, pois trata-se de um relato de alguém que vê muito claramente que seu casamento é apenas uma farsa. Infelizmente este conto é incompleto e assim como “A Mosca”, que conta da angústia de um pai que perdeu seu filho para a guerra, o leitor não tem como saber a que fim as histórias iriam chegar.

Por fim, um conto que já comentei aqui, “As filhas do falecido coronel”, que conta as reações de duas irmãs ao se depararem com a morte do pai, já que elas não sabem o que fazer com a liberdade conquistada. Assim como em vários outros contos da coletânea, o que mais percebemos é que aquilo que é mais importante nunca é dito, é sempre sugerido, subentendido. O essencial está sempre escondido nos pequenos gestos e Mansfield se mostra uma sábia ilusionista que mostra com uma mão enquanto esconde com a outra.

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Esta leitura faz parte do Projeto Para ler como um escritor e o Projeto Mulheres Modernistas. Também faz parte de uma discussão no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

Duna – Frank Herbert

48_dunaSempre que imaginamos um futuro distante, a sensação é de que a humanidade estará cada vez mais conectada ao mundo digital e as máquinas tomarão conta do nosso cotidiano. No entanto também podemos considerar que esta realidade poderá não nos agradar muito quando ela ultrapassar um certo limite: o limite que tira o ser humano do centro e o torna dispensável. Existem muitas histórias de ficção-científica que retratam o perigo da inteligência artificial tomando o controle das coisas, mas curiosamente em Duna temos um futuro possível mais distante ainda, um momento em que se tomou tanta consciência desse perigo, que as “máquinas pensantes” se tornaram proibidas e há muito banidas do universo. Esse passo para trás na História, ou sob outro ponto de vista, esse movimento histórico circular que traz de volta um sistema semelhante ao feudalismo medieval, dá ao livro uma atmosfera de retorno a um mundo mais analógico, ainda que haja novas e diferentes tecnologias, que nos lembram que essa história se passa cerca de 20.000 anos depois de nossa época.

Publicado em 1965, Duna se apresenta diferente dos demais clássicos da ficção-científica que eu já tive oportunidade de ler, aproximando-se mais da fantasia, tanto pelos temas como por uma preocupação maior com aspectos literários, geralmente deixados um pouco de lado pelos visionários do futuro da humanidade. Apesar de ser um livro longo, cada capítulo parece ter sido minuciosamente pensado, cada personagem tem sua missão bem definida na história e cada passo deles nos deixa ansiosos pelo próximo. Frequentemente comparado com O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, por ter construído um universo bem definido, com povos, línguas, religiões etc., Duna ainda abarca questões ecológicas e sociais e oferece um alto nível de entretenimento, com muito espaço para ação, sem esquecer de desenvolver muito bem os personagens, para que nos importemos com eles. Aliás, os dramas familiares, as batalhas políticas e o uso de poderes mentais – em um mundo sem computadores os homens de destaque têm que ser geniais – não deixam qualquer possibilidade para personagens vazios.

O protagonista dessa saga é o jovem Paul Atreides, filho do duque Leto e de sua concubina Lady Jéssica, nobres do planeta Caladan que, a pedido do imperador padixá, vão se instalar no planeta Arrakis para tomar conta da produção e distribuição do mélange, uma espécie de droga/especiaria valiosa. Essa posição era ocupada anteriormente pelos Harkonnen, e essa tomada de poder vai causar uma guerra entre as duas famílias. De um lado os Harkonnen vão agir segundo os interesses do próprio imperador e de outro os Atreides querem ter o apoio do povo nativo, os fremen.

Por ser um planeta desértico, a água em Arrakis é extremamente escassa e os fremen sobrevivem reciclando a água do próprio corpo. Incrivelmente organizados, aos poucos vamos descobrindo o poder desse povo, seus segredos e sua importância para o futuro do planeta. O contato de Paul com a especiaria e com os fremen, associado ao seu treinamento marcial e poder presciente vão indicá-lo a uma posição de salvador, um suposto ser superior que vem sendo aguardado pela humanidade. Aliás, um dos temas de maior força do livro é essa volta do homem para ele mesmo e a natureza. Embora desejemos a facilidade que as máquinas proporcionam, o ser humano corre o risco de perder o contato com seus próprios recursos físicos e mentais e Paul acaba sendo um símbolo do que um homem pode se tornar com muito esforço e muitas variáveis a seu favor.

Apesar de ser o início de uma série, Duna é um livro que pode ser lido sem a preocupação com as continuações e que causou um grande impacto na literatura e no cinema de entretenimento, influenciando diversas obras posteriores. Quem conhece a saga cinematográfica de Star Wars vai encontrar diversas semelhanças, entre elas a paisagem desértica, a construção de um herói que tem uma origem perturbadora, os poderes mentais, um império ambicioso e inúmeros detalhes percebidos pelos fãs das duas séries. Outro exemplo são As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, que talvez tenha encontrado nos livros de Frank Herbert uma grande inspiração para suas intrigas políticas e religiosas, e até mesmo para um estilo narrativo que consegue dosar grandes momentos de ação com personagens bem construídos e diálogos afiados.

O jogo da amarelinha – Julio Cortázar

39_amarelinhaSerá possível ler um livro como O jogo da amarelinha sem se deixar contaminar pelo peso de um clássico que revolucionou o gênero do romance? Depois de mais de 50 anos de sua publicação talvez seja possível, pelo menos, tentar fazer uma leitura mais distante e menos preocupada, mas me pergunto se é possível apreciar profundamente o livro sem ter o mínimo de interesse pelo estudo dos aspectos formais da Literatura. Pois aqui não basta a história que é contada: importa ainda mais como ela é disposta e como o leitor preenche suas lacunas. E essa é a dificuldade do romance – ou do antirromance, como pode ser considerado – pois o leitor é praticamente chamado para ser escritor também. O leitor aqui é “um cúmplice, um companheiro de viagem”. Como em um sonho, onde há histórias embaçadas e símbolos que devem ser interpretados, o livro é um jogo a ser explorado:

“Uma narrativa que atue como coagulante de vivências, como catalisadora de noções confusas e mal-entendidas, e que incida em primeiro lugar sobre aquele que está escrevendo, para o que é preciso escrevê-la como antirromance.”

Um livro que pode ser lido segundo várias direções e que, portanto, quebra com a ideia de enredo, realmente pode ser considerado um antirromance, no entanto, Cortázar propõe dois caminhos e em ambos podemos ver uma trama formada, encerrada nos 56 primeiros capítulos, os únicos lidos na ordem. A história de Horacio Oliveira, um homem em seus quarenta anos, argentino vivendo em Paris, tentando encontrar ou tentando fugir de algum sentido para a vida através de suas reflexões e interações com os amigos e amantes. Ele faz parte do Clube da Serpente, um grupo formado por artistas e intelectuais que se reúnem para as mais variadas discussões ao som de jazz. Entre eles está Maga, sua namorada, uma mulher sábia e misteriosa, mas vista como tola pelo grupo.

Como seu protagonista, o livro não oferece muita ação. Principalmente na primeira parte, “Do lado de lá”, os personagens geralmente estão dormindo, sonhando, estão deitados ou fazendo sexo, ouvindo música, fumando ou bebendo, andando a esmo; são pessoas em seus momentos mais mentais que físicos. Já na segunda parte, “Do lado de cá”, temos um pouco mais de ação através de tudo que envolve os personagens Traveler e Talita, mas no geral a narrativa é mais interna. Os capítulos restantes, do 57 ao 155, que compõem a terceira parte, “De outros lados”, e que segundo o próprio autor são prescindíveis, são completamente diferentes entre si, como se fossem páginas e notas excedentes que poderiam ter ido para a gaveta, mas que foram anexadas ao romance. Isso não quer dizer que estes capítulos sejam realmente uma espécie de apêndice, pois sem eles o livro não seria o que é. Afinal é através destes capítulos que Cortázar faz suas experimentações.

É nessa parte do livro que o leitor vai encontrar os mais variados textos: capítulos extras, que podem explicar ou desenvolver melhor histórias do livro principal, anúncios de jornais, citações de livros, experimentações de linguagem… mas sobretudo reflexões sobre a própria obra, através da figura de Morelli, um escritor admirado pelo Clube e que se propõe a escrever um antirromance. Durante a leitura vamos entrando em contato com suas teorias e como ele defende uma literatura que seja escrita para um leitor superior, aquele que seja capaz de fazer companhia ao autor na construção da obra mesma. Uma obra que seja figurativa e não descritiva, objetiva – não à toa há muitas discussões sobre Pintura versus Literatura –, uma obra que se aproxime mais da imagem e do som (da Música) e se afaste da descrição literária, algo que os beatniks americanos já haviam tentado de outra forma:

“Morelli parece muito mais radical e mais jovem nas suas experiências espirituais que os jovens californianos, embriagados por palavras em sânscrito e cervejas em lata”.

É também nessa parte que se desenvolvem questões metafísicas encontradas ao longo da história de Oliveira e que justificam a maneira particular escolhida pelo autor para escrever seu romance e desenhar seu protagonista. Se não sabemos o que é real e se não sabemos se a nossa percepção do real não é uma ilusão, a imaginação e o surrealismo então têm todo o direito de tomar conta da vida e da arte. Não adianta buscar um mundo perfeito porque o perfeito não dura, pois somos seres históricos. A verdade só pode residir na ficção, na cultura, na arte, na invenção:

“A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja literatura, pintura, escultura, agricultura, piscicultura, todas as turas deste mundo.”

Toda essa problemática é legítima, válida e por vezes, instigante, contudo a vida que Oliveira leva a torna vazia e improdutiva. Como a própria Maga explicita, ele apenas observa a vida e não a vive, e uma vida apenas observada, não vivida, fala muito pouco ao outro.

Por essa e outras foi uma leitura que me deixou dividida. Por um lado consegui ver a genialidade e a proposta da obra, emocionei-me com belos capítulos e me empolguei em vários momentos, sobretudo na primeira metade da experiência. Porém por outro me revoltei com o elitismo, a arrogância do livro que é escrito para poucos escolhidos, algumas “brincadeiras” literárias que não acrescentam muito, o excesso de recursos aparentemente aleatórios. Talvez uma releitura fosse mais prazerosa, pois é daqueles livros em que seu estudo pode ser mais divertido que a própria leitura, mas ainda assim eu provavelmente continuaria a me incomodar com essa ideia de que para ser profundo um personagem tem que ser tão passivo e esvaziado. Uma grande experiência de leitura, sem dúvida, mas que deixou-me com um certo fastio desse longo e estridente improviso de clarinete tocado por Cortázar.

*Esta leitura participa da discussão do Leituras Compartilhadas, do blog O Espanador, bem como é o livro do mês de agosto do Fórum Entre Pontos e Vírgulas.