Léxico Familiar – Natalia Ginzburg

interlunio61-lexicoExistem livros que são capazes de atingir uma camada mais profunda do leitor: histórias que falam com nossas histórias, pessoas ou personagens que revelam o que não conseguimos expressar. Léxico Familiar é um destes livros que nos tomam pela mão e nos levam a rever fragmentos de nossas vidas, como se fossem um dos espectros que surgem para Scrooge no Natal.

Com uma linguagem direta mas ao mesmo tempo afetuosa, a autora italiana Natalia Ginzburg tece um bordado de memórias – para usar uma metáfora do posfácio da edição – relativas à sua vida familiar, da infância à vida adulta. O foco está longe de ser ela mesma: não há quase menção sobre suas descobertas de menina, sobre o seu casamento com Leone Ginzburg ou sobre ser mãe de três filhos. A família aqui é a família que temos enquanto filhos, a que convivemos com as pessoas que não escolhemos: os pais, os irmãos, os parentes e amigos dos pais. E ela constrói esse bordado tomando como fio as frases, anedotas, expressões usadas pela família que vão se repetindo ao longo da narrativa, como não poderia ser diferente em qualquer convivência familiar.

As frases familiares e as piadas internas nos causam uma sensação de conforto, como se fizéssemos parte dessa família ou comparássemos com a nossa. Expressões como “surge um novo astro”, “as sobras de Virginia” e “não reconheço mais a minha Alemanha” causam-nos gargalhadas, pois nos sentimos incluídos nessa história e nos lembramos do que um avô ou uma tia costumava repetir em nossa infância e que virou um bordão em várias situações.

Ainda que ela mostre o pai como um homem duro e intransigente, acabamos por rir muito com esta figura, com sua falta de paciência e seus despertares durante a noite, preocupado com que rumo os filhos iam tomar. Sua mãe é retratada como uma figura um tanto passiva mas de um espírito livre, feliz e tranquilo, com uma sabedoria poética diante da vida. A família Levi, que conta ainda com os irmãos Gino, Mario, Alberto e Paola, vive com muito bom humor, mas ao mesmo tempo com a grande sombra do fascismo na Itália e da Segunda Guerra, que levam muitos amigos e familiares ao exílio e à morte.

Cada família constrói o seu próprio léxico familiar, mas não há dúvida de que o léxico da família de Natalia Ginzburg é especial e cheio de referências artísticas interessantes, nos envolvendo naquele afeto misterioso que as famílias têm, que se apresentam até mesmo nas brigas e discussões acaloradas. Uma leitura deliciosa, com todos os elementos que uma vida guarda: sonhos, perdas, melancolia, alegria, sonhos e desilusão, com humor e beleza, e um final que nos leva a querer voltar ao começo.

O Circo do Dr. Lao – Charles G. Finney

interlunio53-circoEm pleno período da Grande Depressão americana, os habitantes da cidadezinha de Abalone, no Arizona, são despertados do tédio ao lerem, em sua tribuna matutina, o anúncio da chegada de um bizarro circo. O circo promete atrações incríveis, entre elas animais fantásticos, criaturas mitológicas, shows de erotismo, um adivinho e uma grande encenação apoteótica no final.

De início o autor vai apresentando os habitantes da cidade à medida que cada um vai reagindo ao anúncio e à parada de apresentação do circo. Um chinês, seguido de um unicórnio, um fauno, um cachorro verde, um homem muito velho, uma gaiola com um urso (ou seria um russo?), uma cobra gigantesca e outras criaturas fazem seu desfile curioso, mas nada animador: as pessoas estão procurando os truques por trás das atrações. Mesmo assim, a maioria está curiosa com o show e logo mais todos estarão seguindo para o terreno onde o circo está armado.

Em cada tenda o encontro de uma pessoa de Abalone com uma criatura nada aleatória, pois cada um ficará diante de seus piores defeitos. Uns vão engolir a arrogância, outros encontrarão a desilusão; uns vão encarar seu lado mais negro, outros vão se calar diante do inexplicável. No circo do Dr. Lao haverá grandes embates, disputas entre razão e fé, criação e morte, sexo e mortalidade, Ciência e outras formas de conhecimento. Sobretudo haverá o questionamento do império da Ciência, que não permite que haja coisas que não se pode explicar, exterminando o mistério, tão caro ao ser humano.

Um tanto diferente de sua famosa versão cinematográfica (7 Faces do Dr. Lao, de 1964), O Circo do Dr. Lao oferece um tom mais sombrio e menos ingênuo, menos político e mais filosófico, ainda que com uma linguagem muito simples e uma narrativa mais preocupada com as ideias do que com a trama. O filme tem algumas boas vantagens: a ótima atuação de Tony Randall, que faz os papéis de Dr. Lao, Merlin, Homem das Neves, Apolônio, Pã, Serpente e Medusa, isto é, suas sete faces, bem como o desenvolvimento da história e de alguns personagens, fazendo-os perder o caráter generalizado que têm no livro. No entanto, a obra escrita vai mais a fundo nas questões que propõe e tem o papel mais de provocar discussões que trazer esperança. O circo de Finney dificilmente perdoa, com seu caráter de arena do Juízo Final, onde todos os seus personagens estão prestes a acertar alguma grande conta.

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A vida de Isak Dinesen – Judith Thurman

interlunio34-bioblixenEm 1982, a jornalista Judith Thurman, colunista da revista The New Yorker, publicaria a sua biografia de maior repercussão: A vida de Isak Dinesen (no original “Isak Dinesen: a vida de uma contadora de estórias”). Dividida em 4 livros, a biografia cobre desde a vida das duas famílias de onde Blixen se originou – os Dinesen e os Westenholz – até sua morte, em 1962.

Karen Blixen, o nome por que hoje é conhecida a autora de A Fazenda Africana, apesar de ter sido batizada como Karen Christentze, era chamada pela família de “Tanne”. Esse nome dá título ao Livro Um da biografia, o que conta sua infância e juventude na Dinamarca. Interessante o que faz Thurman ao dar bastante voz às pessoas que mais marcaram a vida de Blixen: as irmãs, o irmão, a mãe, a feminista tia Bess e sobretudo o pai, Wilhelm Dinesen, que cometeu suicídio quando ela tinha 10 anos.

A família da mãe tinha origem burguesa, eram pessoas práticas, religiosas, que vinham de cidades grandes e que acreditavam no fruto do próprio trabalho. Suas mulheres geralmente eram feministas. Já a família do pai vinha do campo, tinha vínculos com a aristocracia e eram mais espirituosos. Tanne se identificava mais com a família do pai e a ausência deste foi um dos grandes sofrimentos em sua vida, pois achava que apenas ele a entendia. Já com tia Bess, que morava com sua família, o relacionamento era contraditório. Tanne tinha carinho pela tia, admirava algumas de suas ideias, mas considerava-a uma tirana puritana. Sua mãe e seus irmãos eram amados, mas o que se sobressaía era que Blixen não se encontrava nessa família, sentia-se completamente deslocada.

As primeiras tentativas de distanciamento da família foram seus cursos de Belas Artes e suas primeiras histórias, que eram peças de teatro familiar. A Vingança da Verdade era sua peça mais significativa, que escreveu aos 19 anos. Em muitos momentos de sua vida Blixen iria resgatar e fazer pequenas apresentações dessa peça e ela acabou sendo encenada mais tarde, na década de 60, no Teatro Real de Copenhague e na televisão dinamarquesa. Era uma história que se passava numa estalagem, em que uma feiticeira roga uma praga em todos para que todas as mentiras ditas naquela noite fossem reveladas pela manhã.

Sua vida amorosa na juventude não teve grandes emoções até se apaixonar pelo primo Hans Blixen. No entanto, Hans não sentia o mesmo e por um bom tempo ela ficou alimentando esse amor não-correspondido, recusando os vários pedidos de casamento que recebia. Até que aceita se casar com o irmão gêmeo de Hans, o também barão Bror Blixen. Inicialmente eles cuidariam de uma fazenda de gado na Dinamarca depois do casamento, até que alguém lhes deu a ideia de ter uma fazenda na África, em Nairóbi. Nenhuma das famílias dos jovens era a favor, mas o espírito aventureiro de Bror e a vontade de Karen de viver uma vida diferente, independente da família, deixaram-nos determinados e foram enfim, patrocinados pelos familiares. Poucos anos depois Hans morreria em um acidente de avião.

Inicia-se uma nova fase da futura escritora, aquela em que foi mais feliz: sua vida na África. O Livro Dois chama-se “Tania”, que era como os africanos a chamavam. Para quem leu A Fazenda Africana essa parte da biografia traz o lado mais realista, mais documental da história contada por Karen Blixen. Seu relacionamento com Bror, as caçadas, a infidelidade do marido, a sífilis contraída dele, que será o grande tormento em sua vida, os péssimos resultados financeiros da fazenda, tudo aqui é mostrado de forma mais dura, afinal o grande livro de Blixen não é sobre mostrar os fatos exatamente como aconteceram, mas como ela queria se lembrar deles.

Destaca-se nesse livro ainda seu romance com Denys Finch Hatton, quase abençoado pelo marido Bror, de quem se separa em 1925. Essa parte da história serviu de base para o filme de 1985, Entre Dois Amores, de Sydney Pollack, estrelado por Meryl Streep e Robert Redford. O relacionamento sofria altos e baixos pois Hatton não queria ter uma esposa e Blixen esperava mais presença e compromisso. O que se sobressaía era, contudo, a grande amizade entre os dois, suas caçadas, suas conversas sobre arte e seus jantares ao som de música alta. Infelizmente, logo após a falência da fazenda, Hatton, que era aviador, sofre um desastre em 1931, deixando Blixen completamente desconsolada. Agora ela teria que enfrentar seu maior pesadelo: voltar para a Dinamarca definitivamente.

Karen Blixen

No entanto, é voltando para o seu país que Karen Blixen consegue o distanciamento para se tornar a escritora Isak Dinesen, nome que escolhe para publicar seu trabalho, que também dá título ao terceiro livro da biografia. Nessa fase de saudade da África e de sofrimento com a piora da doença, ela coleta as várias histórias que havia delineado por anos e publica Sete Narrativas Góticas, primeiramente por uma edição americana. Só depois do grande sucesso do livro ele seria publicado na Dinamarca.

Foi apenas depois de algum tempo que Blixen teve coragem de contar sua experiência como fazendeira no Quênia, e o resultado foi sua grande obra, A Fazenda Africana. Em seguida publicaria Histórias de Inverno, sob o peso da ocupação alemã na Dinamarca. Nessa época sua casa virou um ponto de fuga para os judeus dinamarqueses que procuravam refúgio na Suécia e ela então teve seu papel no movimento de resistência que salvou mais de 7000 pessoas.

Chegou ainda a escrever, sob pseudônimo, um fraco livro de suspense, apenas por questões financeiras e nunca admitiu formalmente sua autoria. Já nessa época contava com a ajuda de sua secretária Clara Svendsen, uma espécie de fã da autora que fez de tudo para trabalhar para ela. As duas tinham um relacionamento de amor e ódio e no final da vida de Blixen, quando já não conseguia escrever, Clara tornou-se sua copista. Outro relacionamento estranho, no final da década de 40 e começo dos 50, foi o que teve com o escritor Thorkild Bjørnvig. Ela era uma espécie de mestre místico para ele e para desenvolver o seu dom e ter paz para o trabalho, ele era mantido na enorme casa de Blixen, longe da esposa. Karen queria ter muito controle sobre Bjørnvig e eles acabaram rompendo.

O quarto e último livro é chamado de “Pellegrina”, uma referência a Pellegrina Leoni, a cantora de seu conto “Os Sonhadores”. Judith Thurman a toda hora faz referência a esse conto para comentar como Pellegrina é uma representação de Isak Dinesen, no sentido de que a personagem é alguém que está sempre se reinventando, sempre morrendo e renascendo como alguém novo. Aliás, durante todo o livro a autora analisa os contos de Blixen comparando-os com momentos de sua vida.

Nessa parte destaca-se sua ida aos Estados Unidos, onde foi tratada como uma rainha e conheceu inúmeros escritores e celebridades; a publicação de seus últimos livros – Últimas histórias Anedotas do destino – e sua morte, já com o corpo extremamente frágil por conta da doença.

A biografia revela um trabalho de pesquisa minucioso e Thurman não se limita a descrever os fatos da vida da escritora dinamarquesa. Além de analisar inúmeras de suas obras a fundo, ela também analisa a própria vida de Blixen, seja com categorias filosóficas, seja com categorias da Psicanálise, e traz para o leitor ótimas reflexões, ideais para quem busca uma biografia com um algo a mais.

Karen Blixen era uma contradição ambulante. Ora defendia o feminismo, ora o criticava; ora defendia o socialismo, ora era a favor da aristocracia, ostentando seu título de baronesa. Era generosa e egoísta ao mesmo tempo, tinha muito amor por seus empregados, mas podia ofendê-los gravemente. Era sobretudo uma mulher sofredora, solitária, que acreditava que a vida teria feito um pacto com ela: o amor em troca de boas histórias.

Obrigado, Jeeves – P. G. Wodehouse

interlunio51-jeevesObrigado, Jeeves faz parte de uma série de histórias do inglês P. G. Wodehouse com os personagens Bertram Wooster e seu mordomo Jeeves. Apesar dessa não ser a primeira história da dupla – há algumas histórias anteriores publicadas em revistas – é o primeiro romance com eles e foi publicado em 1934. Aqui Wooster se envolve com o possível casamento de seu amigo Chuffy e sua ex-noiva Pauline, atuando como um cupido extremamente atrapalhado.

A história começa com um impasse: Wooster gosta de praticar banjolele em seu apartamento em Londres, mas a vizinhança não está nem um pouco contente com isso e, para a surpresa dele, nem o pobre Jeeves aguenta mais o barulho. O mordomo pede demissão e, para poder tocar em paz o instrumento, Wooster vai morar por uns tempos num chalé da propriedade de seu amigo Chuffy. Essa propriedade será o cenário de todas as situações que se seguem pois Jeeves irá trabalhar para Chuffy, Pauline estará com o pai em um iate na costa do lugar e seu inimigo Glossop estará envolvido na venda da mansão de Chuffy, que precisa desesperadamente de dinheiro para pedir Pauline em casamento.

Mesmo não sendo mais seu criado, Jeeves continua seu amigo e o salva das mais estranhas situações, pois o pai de Pauline pensa que ela ainda gosta de Wooster e acredita que os dois andam se encontrando escondido. Na verdade Pauline e Chuffy é que estão apaixonados, mas uma série de mal-entendidos vão separar o casal e sobra para Bertie e Jeeves resolver o problema de todo mundo.

Trata-se, portanto, de uma típica comédia de costumes, cheia de mal-entendidos, amores impossíveis e disputas por dinheiro. É um retrato da decadência da aristocracia britânica, repleto de situações cômicas, inclusive situações físicas, que mostram que a dignidade cabe apenas ao bondoso e brilhante mordomo Jeeves, que está sempre resolvendo os problemas de seus senhores, esbanjando sabedoria e cultura.

O que é mais impressionante no livro – apesar de possuir uma história um tanto previsível – é como o autor, especialmente ao se aproximar do final, consegue costurar tudo e ligar todos os pontos da história, de forma que todos os elementos apresentados, personagens e situações, tenham um grande valor e sejam muito bem aproveitados. O leitor até sabe o que vai acontecer, mas o como acontece rende boas risadas.

Peanuts Completo: 1950-1952 – Charles M. Schulz

interlunio40-peanuts01Conhecendo a turma de Peanuts através das animações e das tirinhas mais clássicas, eu não imaginava que nos primeiros anos da obra os personagens e algumas situações eram um tanto diferentes. As tirinhas dos anos de 1950 a 1952 mostram momentos da turma do Charlie Brown mais voltados para a infância propriamente dita e o seu caráter universal ainda não estava completamente delineado. Alguns personagens ainda estão por desenvolver-se e outros vão ser descartados mais tarde.

A primeira tirinha
A primeira tirinha

É o caso de Shermy e sua namoradinha Patty Kieffer. Eles estão na primeira tirinha de Peanuts e tinham uma importância de protagonistas, junto com Charlie Brown, Snoopy e Violet, formando assim a primeira turminha.

Patty ou Lucy?
Patty, ou a primeira Lucy.
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Violet foi a primeira a segurar a bola

Aos poucos Shermy vai perdendo espaço e, como qualquer fã da série sabe, ele será eliminado das tirinhas no futuro, fazendo apenas um ou outra aparição. Por outro lado, três personagens importantes surgem como bebês. Primeiro é Schroeder e, logo em seguida, Lucy.

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Schroeder e seu piano
Lucy ainda pequenina
Lucy ainda pequenina

Os dois muito rapidamente ficam grandes o bastante para brincar com os outros mas ainda são crianças menores. Bem depois aparece o Linus, irmão da Lucy, e aqui ele ainda não fala, mal consegue ficar sentado.

Linus bebezinho
Linus bebezinho

Engraçado acompanhar o desenvolvimento da personalidade de cada um. Percebe-se que a Lucy irá se tornar um misto de Patty, que é um tanto violenta com os meninos, e Violet, criativa e vaidosa. Charlie Brown já possui todas suas características mas aqui ele também tem seus momentos de brincadeirinhas ofensivas com outras crianças. Shroeder já nasce fã de Beethoven e Snoopy já é completamente humanizado mas não parece necessariamente ter dono ainda.

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Apesar de Schulz retratar a década de 50 e seus valores, bem como os costumes americanos – esportes, datas comemorativas, brincadeiras – Peanuts é uma obra que já nasce acessível a todos, com seus cenários enxutos e diálogos inteligentes. Agora é continuar a leitura dos próximos anos e ir descobrindo como Charlie Brown e sua turma se tornaram o fenômeno que são.

Cristal – Wilson Bueno

interlunio50-cristalApesar de apresentado como romance, Cristal é um livro difícil de classificar como conto, novela, romance ou mesmo poema. A história curta, escrita de forma singular, com parágrafos grandes e repleta de substantivos, tem a força de um poema, é episódica como uma novela, tem a densidade de um romance e ao mesmo tempo tem um final típico dos contos, com um clímax impactante.

Mas esse caráter único não quer dizer que se trata de um texto árido, difícil de ler. Mesmo que a narrativa deixe algo aqui e ali suspenso, aberto a interpretações, Cristal tem um enredo simples e linear, com pouquíssimos personagens.

Temos, assim, antes de mais nada, a Velha, uma costureira aposentada que observa a vida através da vidraça da janela. A Velha é misteriosa porque é um personagem sem memória ou que não quer lembrar do passado. Há poucas lembranças, e a maioria delas está guardada no Baú, recipiente de fotos e outros souvenires. Nas paredes há retratos com molduras ovais, fotos em sépia, pintadas em estranhos tons de laranja e roxo. Do que se lembra da juventude, apenas de uma filha que não sabe ao certo se existiu, um namoro que talvez não tenha vingado, e uma sessão de cinema inesquecível, das primeiras que houveram no mundo.

Tudo começa então quando ela vê, de sua janela, que um homem morto está sendo levado para a frente da igreja. Tratava-se de um alemão, um homem rico que estava sempre bêbado e morava afastado da cidade, num pequeno sítio. Ao entrarem na casa do sujeito, que havia se enforcado, descobrem que lá havia um recém-nascido e este acaba ficando aos cuidados da Velha, ela que sempre quis ter um filho.

“Isso tudo a Velha começou a ver, rente à persiana da sala, detrás do cristal da vidraça, naquela tarde de agosto de mil novecentos e setenta e seis.”

O pequeno Ananias cresce então com a Velha, que o veste como se fosse uma menina, pinta-o como se fosse um anjo ou um santo, enfeita-o como quem borda sobre um vestido. Isso quando não há ninguém por perto, e quase não há ninguém por perto, apenas o padre Anselmo, com suas vestes de corvo, e a vizinha Sirigaita, objeto de ódio da Velha.

É um texto muito poético, em que cada palavra é pensada, cada frase é lapidada, e cada personagem tem um tom simbólico de morte, de vida, de loucura, de fé. E a presença do cristal está não apenas na janela que turva a visão, mas nas gotas de chuva, nos caminhos com cacos que cortam os pés e sobretudo na dureza, de quem já tomou forma e não sabe mais ser maleável, mostrando que sonhos caducos talvez não devessem se realizar.

Oscar e a Senhora Rosa [Trilogia do Invisível, parte 3] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio45-oscarOscar e a Senhora Rosa
Nessa última parte da Trilogia (o autor ainda tem mais 3 obras que tratam de religiões) encontramos mais uma vez a amizade de uma criança com uma pessoa mais velha que não é da família. Oscar tem 10 anos e acabou de passar por um transplante de medula óssea, mas a cirurgia não deu resultado. Como os pais não estão sabendo lidar com sua doença, ele conta com a ajuda de uma simpática senhora que é voluntária no hospital. Por causa da cor rosa usada pelos voluntários, ele a chama de Vovó-Rosa.

Vovó-Rosa é uma senhora muito bem-humorada e está sempre contando para Oscar suas estripulias da juventude, quando era lutadora de catch. É com essas histórias e com sua sinceridade que ela o ajuda na difícil situação de saber que ele vai morrer em breve: ao que parece Oscar tem cerca de 12 dias de vida. Então ela sugere duas maneiras de lidar com o inevitável: escrever cartas a Deus e viver cada dia como se fossem 10 anos.

A narrativa é constituída por essas cartas de Oscar a Deus e nelas ele conta sobre sua rotina no hospital, seus amigos – outras crianças doentes – e sua namoradinha, Peggy Blue. A cada dia, fingindo ser mais velho 10 anos, Oscar se despede da vida vivendo-a o mais intensamente que pode. Apesar do tom melodramático da história – afinal é sobre a possível morte de uma criança – o autor soube construir personagens marcantes e possibilitou momentos de muito humor. Dessa vez o autor não foi tão específico em relação à religião evocada mas o Cristianismo aqui parece ser o Católico, e as categorias trabalhadas são a fé e o desenvolvimento da espiritualidade.

“A vida é um presente estranho. No início, superestimamos esse presente: imaginamos ter ganhado a vida eterna. Depois subestimamos, achamos uma porcaria, curto demais, até seríamos capazes de jogá-lo fora. Enfim nos damos conta de que não era um presente, mas sim um empréstimo. Então procuramos merecê-lo.”

A Trilogia do Invisível tem um apelo bem popular com sua linguagem simples e narrativas curtíssimas, permeadas de frases tocantes. Ela tem um sentido mais completo ao ser lida como um todo, mas cada livro é independente, e apesar de tocarem muito superficialmente nas questões religiosas, os livros podem interessar a quem aprecia histórias que envolvem espiritualidade, independentemente de suas crenças pessoais.

Seu Ibrahim e as Flores do Corão [Trilogia do Invisível, parte 2] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio44-coraoSeu Ibrahim e as Flores do Corão
Nesta segunda narrativa o autor consegue dar bem mais corpo à história, que aqui nesse caso irá sintetizar o Islamismo, mais especificamente o Sufismo. Moisés, ou Momô, é um jovem judeu parisiense de 12 anos que, abandonado pela mãe e completamente desprezado e ignorado pelo pai, tem que se virar para encontrar algum carinho com as prostitutas da rua Paraíso e com as conversas com o árabe da rua Azul, Seu Ibrahim.

E é nessa amizade com Seu Ibrahim, que na verdade não é árabe, mas muçulmano, que Momô vai encontrar seu verdadeiro lar. Uma amizade que começa com a visita de Brigitte Bardot à mercearia de Ibrahim e desemboca em uma viagem de carro rumo à sua cidade natal. O livro é quase uma coleção de pérolas de sabedoria soltas por Ibrahim, baseadas na filosofia sufi, que acredita que a relação do homem com Deus deve ser direta e íntima e que a verdade é adquirida por êxtase mediante certas práticas.

Mesmo com pouquíssimas páginas, o autor consegue dar aos personagens Moisés e Ibrahim um desenho muito satisfatório, causando empatia no leitor que entende a simplicidade do livro. Muita coisa acontece, mas são as conversas entre os dois que dão um tom de beleza e humor à história, de tal maneira que a amizade, ou o amor, se sobressai de tal maneira que a religião aparece apenas nas entrelinhas.

“Seu amor por ela é seu. Pertence a você. Mesmo que o recuse, ela não pode modificar isso. Ela não o aproveitará, é só. O que você dá, Momô, é seu para sempre; o que você guarda, está perdido para sempre!”

Milarepa [Trilogia do Invisível, parte 1] – Éric-Emmanuel Schmitt

O escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt publicou alguns livros cujo tema principal são as grandes religiões do mundo e eles constituem uma série chamada Ciclo do Invisível, dos quais os três primeiros são conhecidos como a Trilogia do Invisível. Através de narrativas curtas, que remetem a fábulas ou mesmo a textos religiosos, o autor apresenta as religiões mediante histórias bem simples: Milarepa fala sobre o budismo tibetano; Seu Ibrahim e as Flores do Corão trata do islamismo místico e Oscar e a Senhora Rosa, do Cristianismo.

interlunio43-milarepaMilarepa
Simon é um parisiense que sofre de um pesadelo recorrente: em um local montanhoso, estranho e lúgubre ele procura por um homem que odeia, a fim de matá-lo. Um dia ele encontra uma mulher misteriosa que afirma que ele é a encarnação de Svastika e o homem que odeia é Jetsün Milarepa, o grande iogue tibetano, que fora discípulo de Marpa Lotsawa. A única maneira de Simon se libertar é contar sua história com Milarepa centenas e centenas de vezes. Interessante perceber que, ao narrar tantas vezes a mesma história, Svastika ora conta tudo sob seu ponto de vista, ora toma o lugar de Milarepa, fazendo com que os dois se tornem um só, de certa forma.

Svastika era tio de Milarepa e quando o pai deste morre ele resolve ficar com toda a herança e tornar seu sobrinho um criado. Quando adulto, Milarepa resolve se vingar e, mais tarde, arrependido de ter praticado tantos atos ruins, procura o mestre Marpa para se tornar um discípulo e assim irá passar por muitas provas até se tornar um mestre também.

“Tinha percebido também que meu corpo é uma embarcação frágil: se o abarroto de crimes, ele naufraga; se alivio seu peso praticando o desapego, a generosidade, o altruísmo, ela me leva a um bom porto.”

As narrativas da trilogia parecem ter uma intenção de simplificar as ideias gerais de cada religião, e no caso de Milarepa se sobressaem o valor da meditação e a busca pela libertação dos desejos, que são a causa do sofrimento humano, segundo o budismo. É uma história que funciona como uma introdução ao credo e tem um apelo bem popular, o que é compreensível pela temática. Mas talvez por ser tão breve e tão simbólico Milarepa não dê conta de algo tão amplo, funcionando mais como parte do todo que é a trilogia do que como um livro com força própria.